Edição 255 | 22 Abril 2008

“A melhor fonte de cultivo para a violência é a diferenciação, a assimetria, a desigualdade e a dominação”

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Graziela Wolfart

Para Lupicínio Iñiguez, as sociedades contemporâneas são patriarcais e machistas em sua maioria

No sentido de contextualizar e tentar entender as origens da violência contra as mulheres, a IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o professor Lupicínio Iñiguez, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), sobre as relações de gênero, de forma mais geral. Em suas respostas, ele declara: “Não participo desse otimismo tão presente hoje em dia que acredita que a dominação e a exclusão relacionada ao gênero já desapareceram ou quase como tampouco compartilho a idéia de que as políticas de igualdade de gênero têm sido sempre bem-sucedidas”. Para ele, “os meios de comunicação e a mídia em geral contribuem para a legitimação e consolidação das relações de dominação”. Lupicinio Íñiguez Rueda é doutor em Filosofia e Letras (Psicologia), pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB). É catedrático de Psicologia Social na faculdade de Psicologiado Departamento de Psicologia da Saúde e de Psicologia Social da UAB. Coordenador do Programa de Doutorado em Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona, é também editor da revista ATENEA Digital. Revista de pensamiento e investigación social. Nesta semana, Lupicínio Iñiguez estará participando do 2º Seminário Internacional Rotas críticas – Mulheres enfrentando as violências, no dia 24 de abril, com a palestra “A importância da perspectiva discursiva para os estudos de gênero”. Também participou do evento “Conversando com Lupicínio”, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, realizado no dia 22 de abril de 2008.

IHU On-Line - Como se constrói o discurso sobre as relações de gênero atualmente?
Lupicínio Iñiguez
- Não tenho um conhecimento adequado e suficiente do cenário latino-americano, mas tenho a impressão de que muitos processos sociais têm algumas características bastante similares em diferentes lugares do mundo. É provavelmente o caso das relações de gênero. Estas se caracterizam pela assimetria, pela desigualdade e, com muita freqüência, pela dominação dos homens frente às mulheres. Os discursos sobre as relações de gênero se constroem, efetivamente, a partir das práticas específicas que, por sua vez, estão influenciadas pelo discurso que se gera coletivamente.

IHU On-Line - Como o senhor descreve o pensamento da sociedade atual sobre as relações de gênero? Ainda vivemos em uma sociedade patriarcal e machista?
Lupicínio Iñiguez
– “Sociedade atual” é um termo bastante amplo, pois existem, sem dúvida, muitas “atualidades” diferentes e muitas sociedades distintas que convivem em um mesmo momento. Não se pode dizer, então, qual é o “pensamento atual” da sociedade, senão como um tópico comum em nossa fala cotidiana. Se fizermos abstração desta dificuldade, eu diria que as sociedades contemporâneas, de maneira muito geral, e, apesar de algumas importantes transformações que se tem operado nas últimas décadas, são patriarcais e machistas em sua maioria. Não participo desse otimismo tão presente hoje em dia que acredita que a dominação e a exclusão relacionada ao gênero já desapareceram ou quase, como tampouco compartilho a idéia de que as políticas de igualdade de gênero têm sido sempre bem-sucedidas.

IHU On-Line - Como a psicologia social ajuda a compreender as relações de gênero contemporâneas?
Lupicínio Iñiguez
- Não existe uma única “Psicologia Social”, pois são múltiplas as orientações teórico-metodológicas que convivem em seu interior. Creio, no entanto, que não é errado afirmar que as diferentes psicologias sociais contribuem para a explicação e compreensão de distintos processos intimamente ligados ou implicados nas relações de gênero, como a identidade pessoal e social, a dinâmica dos grupos, os estereótipos e preconceitos, as relações interpessoais, as formas de pensamento social, e, inclusive, as representações sociais e os imaginários coletivos, as relações de poder etc. Em todos esses âmbitos, a investigação ou as práticas de investigação/ação oferecem elementos que permitem uma melhor compreensão das relações de gênero. Creio, no entanto, que a contribuição atual mais notável das ciências sociais em geral, e da psicologia social em particular, tem a ver com a problematização da própria idéia de gênero e com as possibilidades de desconstrução de categorias preestabelecidas de gênero (homem-mulher).

IHU On-Line - Como a imprensa e a mídia em geral mostram e constroem as relações de gênero e o papel de homens e mulheres na sociedade?
Lupicínio Iñiguez
– A mídia é o espelho do que acontece e, ao mesmo tempo, oferece elementos cruciais na constituição das práticas sociais. Trata-se, na minha opinião, de uma relação de influência mútua, na qual a mídia se manifesta por meio de interlocutores privilegiados na arena social e a sociedade se converte na matéria-prima mais importante. Neste sentido, creio que a mídia mostra e constrói, ao mesmo tempo, as relações de gênero. Como não sou especialista em comunicação social, não tenho uma opinião formada sobre isso, mas tendo a pensar que os meios de comunicação e a mídia em geral contribuem para a legitimação e consolidação das relações de dominação.

IHU On-Line – E, nos ambientes de trabalho, como o senhor caracteriza as relações de gênero?
Lupicínio Iñiguez
- Desconheço a situação no Brasil, mas intuo que não seja muito diferente da espanhola. As relações de gênero no trabalho se caracterizam por ser, junto com as que poderíamos chamar domésticas, claramente discriminatórias. Tanto as condições de carreira profissional quanto as condições laborais e salariais são manifestamente piores no caso das mulheres e, aqui, os dados sobre trajetórias profissionais, sobre a conciliação da vida pessoal e laboral ou sobre os salários são uma prova evidente disso.

IHU On-Line - As diferenças sociais e culturais entre homens e mulheres podem contribuir para a violência em todos seus aspectos (violência física e psicológica)?
Lupicínio Iñiguez
– Sem dúvida. A melhor fonte de cultivo para a violência é a diferenciação, a assimetria, a desigualdade e a dominação. Todas são características que podemos encontrar nas relações de gênero.

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