Edição 255 | 22 Abril 2008

Vida e linguagem: uma reflexão sobre o poeta e prosador português Carlos de Oliveira

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

André Dick

O poeta carioca Leonardo Gandolfi apresenta, a partir do escritor Carlos de Oliveira, uma reflexão sobre a simbiose entre a vida e a (re)criação de textos

Por André Dick

O carioca Leonardo Gandolfi apresentou a dissertação de mestrado em Literatura Portuguesa  “Mundo comum e povoamento da paisagem: ler com O aprendiz de feiticeiro de Carlos de Oliveira”, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em que trata sobre a relação muito próxima entre escritor e leitor. Mas ele não chega a empregar o conceito de Barthes, de que é preciso haver a morte do autor (no sentido acadêmico, sobretudo) para acontecer o nascimento do leitor. Gandolfi avalia, por meio de seu estudo, a partir da figura de Carlos de Oliveira, que o escritor é, antes de tudo, um leitor, alguém que convive diretamente com a literatura não como uma referência independente da realidade, mas como elemento intrínseco à linguagem. 
Segundo ele, “as experiências literárias fazem parte das nossas experiências cotidianas. Afinal, o homem que lê Fernando Pessoa, por exemplo, é o mesmo homem, apesar da heteronímia, que mais tarde irá trabalhar, depois voltará para casa e jantará com sua mulher. São todos acontecimentos do seu dia-a-dia. Ele poderá privilegiar um ou outro. Por exemplo, Borges adorava falar de livros. É claro, boa parte do seu dia era tomado por eles”. Nesse sentido, passa a ser muito interessante, afirma Gandolfi, ler o que há, por exemplo, de Octavio Paz em seus textos críticos sobre outros autores.
A importância que Gandolfi dá às leituras o levam a um interesse por reavaliar a mímese de Aristóteles a Paul Ricoeur, passando pela reinterpretação feita dela pelo professor e teórico de literatura Luiz Costa Lima. Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Gandolfi trata ainda da análise que faz do poema “Estalactite”, de Carlos de Oliveira, e sobre a tese que prepara, traçando uma relação entre esse poeta português e o brasileiro João Cabral.
Gandolfi trabalhou como professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre 2006 e 2007, e atualmente realiza o doutorado em Literatura Comparada na UFF com o projeto Carlos de Oliveira e João Cabral de Melo Neto: paisagens por escrito. Além disso, é poeta, autor do livro No entanto d’água (Rio de Janeiro: 7Letras, 2006).

IHU On-Line – Sua dissertação trata do livro O aprendiz de feiticeiro, de Carlos de Oliveira. De que modo esse autor constrói os textos que compõem esse livro, a fim de que haja uma possibilidade de aproximação com seu poema “Estalactite”, analisado no trabalho?
Leonardo Gandolfi
– Esse livro do Carlos de Oliveira  é muito curioso. Ele me parece de toda uma vida. Não porque tenha sido programado para isso, mas porque foi sendo escrito, mesmo sem o autor se dar conta, ao longo de toda sua vida. O mais interessante é que esse percurso, que tinha tudo para ser cronológico, não é. Isso porque o livro é uma “reunião” de textos publicados e não publicados pelo autor no período que vai de 1945 até 1970. Textos que não estiveram em nenhum dos seus livros (quatro narrativas e onze coletâneas de versos): resenhas em jornais e revistas, entrevista, crônicas, diário, ensaios, contos, projetos inacabados que foram reescritos e rearranjados para se tornarem um livro em que a dispersão talvez seja apenas aparente. Nesse caminho, o limite entre o biográfico e o não-biográfico vai se tornando descontínuo, como a própria cronologia. Estamos e não estamos diante de uma poética, porque o que eu tento desenvolver no trabalho é que um dos núcleos temáticos desse livro é a Leitura, o modo como Carlos de Oliveira, autor e narrador, lê nos ensaios e resenhas outros autores. Acho isso estimulante, porque se pode dar ao Carlos de Oliveira aquilo que ele dá aos outros. É um jogo válido ler, por exemplo, a poesia de Octavio Paz  a partir dos seus textos críticos sobre outros autores, ou a de Sebastião Uchoa Leite,  a partir dos seus ensaios sobre cinema noir ou sobre quadrinhos.

IHU On-Line – O autor Carlos de Oliveira se apresenta como autor, narrador e personagem, além de se revelar um leitor. Como acontece essa progressão do leitor-escritor, que encena a leitura a partir de suas próprias experiências e histórias? As experiências literárias são, antes de mais nada, existenciais e vice-versa?
Leonardo Gandolfi
– Penso que sim. As experiências literárias fazem parte das nossas experiências cotidianas. Afinal, o homem que lê Fernando Pessoa,  por exemplo, é o mesmo homem, apesar da heteronímia, que mais tarde irá trabalhar, depois voltará para casa e jantará com sua mulher. São todos acontecimentos do seu dia-a-dia. Ele poderá privilegiar um ou outro. Por exemplo, Borges  adorava falar de livros. É claro, boa parte do seu dia era tomado por eles. Há um poema do Elogio da sombra que começa assim: “Os outros que se jactem das páginas que escreveram; / a mim me orgulham as que li”. No caso de Carlos de Oliveira, em O aprendiz de feiticeiro, dependendo do texto, vemos a primeira pessoa textual se comportar mais como narrador, personagem ou mesmo biograficamente como autor. Isso vai depender do protocolo de leitura que o texto exigir. Pois eu preciso saber que não é possível ler da mesma forma um ensaio e um conto, mesmo os dois estando um do lado do outro num mesmo livro escrito por um mesmo autor. O ensaio exige um posicionamento de leitura, enquanto o conto exige outro. O livro nos expõe a esses limites. Aliás, seu título talvez fale um pouco disso: aprender a lidar com o constante deslocamento dos textos. “Aprendiz de feiticeiro” dá nome também a um poema de Goethe,  em que o jovem do título aproveita a ausência de seu mestre para tentar realizar mágicas de verdade. No fundo, é essa também a nossa condição de leitores. Todos somos aprendizes de feiticeiro, livres para tentar realizar, atrapalhada e inutilmente, as mágicas dos nossos mestres. Sempre erraremos, porque sempre ainda teremos muito a aprender. Deve ser disso o que fala Carlos de Oliveira: “Mas então, que alegria triste assumir como última conseqüência de ser livre a responsabilidade do falhanço”. O mais interessante, parece, é saber que essa “alegria triste” não diz respeito apenas a O aprendiz de feiticeiro ou a Carlos de Oliveira, mas sim à literatura, ao seu trabalho tão desencantado quanto limítrofe.

IHU On-Line – Pode nos falar um pouco da importância de Carlos de Oliveira na literatura portuguesa, tanto para a área da prosa quanto para a área da poesia? E falar da diferença entre seus primeiros livros, mais estruturados no neo-realismo, que defendia a literatura engajada, de denúncia, e os que passou a escrever na década de 1960, em que há uma análise mais voltada para o texto? A sua análise sobre O aprendiz de feiticeiro seria a união entre esses dois elementos?
Leonardo Gandolfi
– Carlos de Oliveira seria aquilo que em língua inglesa chamam de poet’s poet. Sua trajetória no panorama da literatura portuguesa é singular. Primeiro porque foi poeta e narrador com a mesma excelência. Depois porque, ao longo do tempo, como você mesmo diz, soube se transformar, aprender com os mais novos e ser exemplo também. Seu primeiro livro é uma coletânea de poemas chamada Turismo, publicado em 1942 na coleção do Novo Cancioneiro, primeira grande manifestação do neo-realismo português. Nesse livro e nos livros de autores também dessa coleção, como Mario Dionísio e Manuel da Fonseca, o que se vê é uma poesia que realmente abre mão de uma série de características para tentar ser mais social e participativa. É nesse período que Carlos de Oliveira escreve um verso como “Hei-de cantar-vos a beleza um dia”, mostrando como o poema é consciente de que está momentaneamente afastado do seu trabalho. Essa consciência não o abandona. Finalmente, em 1960, publica Cantata e se distancia daquela linguagem adjetiva e engajada, transformando o poema em um nomeador da realidade, talvez uma outra forma de engajamento. Então, abandona a imagem do “canto”, que estava vinculada a uma estética neo-realista, e adota a imagem muito particular e meticulosa da “caligrafia”. Com isso, transforma sua poesia numa pequena coleção de objetos preciosos de linguagem como o poema chamado “Vento”: “As palavras / cintilam / na floresta do sono / e o seu rumor / de corças perseguidas / ágil e esquivo / como o vento / fala de amor / e solidão: / quem vos ferir / não fere em vão, / palavras”. É a partir dos anos 1960 em diante que Carlos de Oliveira – já afastado do partido comunista, mas não de uma ética do texto – se aproxima dos poetas mais novos, que haviam participado da publicação Poesia 61, sobretudo Fiama Hasse Pais Brandão  e Gastão Cruz.  Autores que tinham como principal característica justamente uma espécie de realismo de linguagem que parecia dialogar com o poeta de Cantata. A partir daí, Carlos de Oliveira retorna aos seus livros antigos e os reescreve, tanto os de poesia quanto os de narrativa. Realiza, por assim dizer, uma decantação. Depois, aparecem livros importantes como Micropaisagem, de 1968, e Entre duas memórias, de 1971. Finalmente, em 1978, ele publica Finisterra, paisagem e povoamento, livro no qual as linhas de força tanto da sua poesia quanto da sua prosa, parece, se encontram. Aliás, a narrativa de Finisterra pode ser considerada, sob muitos aspectos, um retorno ao seu primeiro romance, publicado em 1943, Casa na duna. Mas isso já é outra história. Se a minha análise sobre O aprendiz de feiticeiro seria a união entre esses dois momentos? Não. Isso foi visto por muitos leitores portugueses. Cito os principais: Rosa Maria Martelo e Manuel Gusmão. Aqui no Rio de Janeiro, a professora da UFF Ida Alves (a propósito, minha orientadora e quem me apresentou à obra do Carlos de Oliveira) comenta isso em sua tese, intitulada “Carlos de Oliveira e Nuno Júdice, Poetas: Personagens da Linguagem” (na UFRJ).

IHU On-Line – Como você utiliza o conceito de mímese, partindo de Aristóteles para análises mais recentes, de autores como Luiz Costa Lima e Paul Ricoeur? Você acredita que a mímese, por exemplo, era anulada pelo estruturalismo e pelo formalismo, ou vista apenas sob outro ângulo?
Leonardo Gandolfi
– É verdade, talvez essas correntes críticas tenham privilegiado mais a relação do texto com ele mesmo do que com a “realidade”, embora isso dito assim, rapidamente, possa soar um tanto suspeito e, é claro, apressado demais. Quanto mais uma lâmpada ilumina a si mesma, mais ela ilumina o que está ao seu redor. Esta me parece uma boa defesa do estruturalismo. Essa história da lâmpada poderia ter sido contada por algum simpatizante do estruturalismo, mas não: é um texto do Herberto Helder  sobre poesia. Eu gosto da imagem, do seu otimismo iluminista. Em relação à mímese aristotélica, há uma série de releituras mais recentes. Para mim, é muito importante o que Costa Lima  faz em Mímese e modernidade. A partir de Baudelaire,  Eliot  e outros, ele nos fala de uma “mímese de produção” que alarga o real. Paul Ricoeur,  em Tempo e narrativa, a certa altura, relaciona esse alargamento da atividade mimética de que falava Costa Lima a uma relação entre obra e espectador. Em outras palavras, a Poética de Aristóteles  reserva um lugar especial para a recepção, e Ricoeur nos lembra que a catarse tem a ver com isso. A mímese, como se sabe, não é imitação. E também não é representação, apresentação, mas sim, nos próprios termos de Aristóteles, uma atualização. O texto de Poética é naturalmente elíptico. São notas para aula e não um livro preparado pelo filósofo. Para entender o conceito de mímese, talvez seja preciso relacioná-lo aos conceitos de Ato e Potência: assim como cada ação humana é uma forma de atualização da realidade, o texto também o é. E como esse texto constitui um todo, sua relação com a realidade é análoga à relação existente entre ele, texto, e o leitor. Então, o texto está para realidade assim como a leitura está para o texto. Da mesma forma que o texto atualiza a potencialidade do real, o leitor atualizará a potencialidade que para ele é o texto. Não sei se ficou claro, mas é mais ou menos nesses termos que a coisa funciona. Sendo assim, Beckett  é tão mimético quanto Balzac,  Chesterton   ou Ray Bradbury.  A relação da arte com o real é muito abrangente. O que separa o realismo soviético do expressionismo abstrato certamente não é o fato de o primeiro ser “mimético” e o segundo não. Até porque isso não é verdade.

IHU On-Line – De que modo você une à sua análise sobre o poema “Estalactite” as poesias de Eliot, Yeats,  Pessoa? As camadas referenciais desses autores existem na elaboração de tal poema?
Leonardo Gandolfi
– A primeira referência a ser feita, acredito, é dizer que gosto muito dos quatro poetas em questão. Essa relação entre eles é a relação mais importante para mim. Esses autores e alguns outros (às vezes uns mais que outros) estão sempre por perto quando estou interessado em poesia. Fazem parte do meu acervo de leitor e, por isso, de algum jeito foram transformados em meus operadores de leitura. É natural, então, que eu consiga levantar pontos em comum, criar relações entre eles, pois afinal, para mim, o que eles mais têm em comum é o fato de eu lê-los com alguma freqüência e muito prazer. Isso não quer dizer, porém, que “minha” leitura violente os textos, forçando relações inexistentes que não estão na elaboração do poema lido. Pelo contrário, depois de um corpo a corpo com essa turma, sou eu quem saio modificado, é a minha leitura escrita que se transforma. E se pensarmos ainda naquela noção de tradição levantada pelo Eliot, em que todos os textos dialogam entre si e que o passado é constantemente alterado pelo presente, esse cotejamento pode ficar interessante e até ser útil, à medida que os textos, no confronto, vão se deslocando, tornando-se movediços. O que, afinal de contas, pode ser um modo de estar da literatura: nada de resistir ou lutar, impassível, contra o tempo, mas sim ser testemunha e cúmplice da própria mudança. Do seu próprio fim, diria Blanchot.  Talvez eu goste tanto desses poetas exatamente por causa disso.

IHU On-Line – A partir de que idéia se elabora a sua tese, em atual andamento, apresentando uma aproximação entre João Cabral de Melo Neto e Carlos de Oliveira. Quais são os pontos que fizeram com que aproximasse esses autores?
Leonardo Gandolfi
– Ainda estou no início. Mas gostaria de unir esses dois poetas justamente pela mesma razão da resposta à pergunta anterior. Dois poetas podem dialogar mesmo que um nunca um tenha lido o outro. Tentarei aproximá-los e afastá-los, sobretudo, a partir do tema da paisagem. A paisagem à brasileira, quem sabe, na trilha de José de Alencar  e Euclides da Cunha.  E a paisagem à portuguesa, de Camões  passando por Almeida Garret.  De alguma forma, é uma continuação da dissertação, já que quero valorizar na construção da referência à paisagem o papel e a função da leitura. É que nesses poetas essa referência me parece estrutural e não descritiva. Com isso, o leitor acaba não recebendo a imagem pronta, mas sim uma sugestão de imagem. No mais, a comparação, como disse antes, é sempre bem-vinda para deslocar um pouco o lugar crítico da poesia de um e de outro. Ler João Cabral   via Carlos de Oliveira, assim como ler Carlos de Oliveira via João Cabral. Contaminar a leitura de um com a leitura de outro, tentando criar não só uma leitura de ambos, mas também leituras conflitantes e em diálogo.

IHU On-Line – Há um aproveitamento das leituras em seu próprio trabalho poético, que ganha visibilidade a partir de No entanto d’água, lançado em 2006? De que modo se constrói a sua “mímese da linguagem”, para utilizar uma expressão de Barthes?
Leonardo Gandolfi
– Sim, posso aproveitar essas leituras habituais e outras coisas minhas também habituais: dar aulas ou ir ao cinema com minha namorada, por exemplo. Digo isso para não parecer exclusiva a relação entre essas leituras e os poemas que sem muito êxito tentei escrever. Mas falar dos nossos próprios versos é sempre suspeito, fico um pouco atrapalhado. Quanto à expressão “mímese da linguagem”, não me lembro exatamente o contexto em que Barthes  a empregou, mas é muito provável que tenha a ver também com aquela história da lâmpada que, quanto mais chama atenção para si – aumentando a intensidade da sua luz –, mais ilumina o que está em volta com seu brilho pernicioso. Acho ótimo e um tanto difícil de ser feito. Certamente, meu livro está muito distante disso. Mas quando encontro por aí um poema ou um romance com esse dom, fico muito feliz, ainda que seja uma felicidade irmã daquela “alegria triste” que todos nós já sentimos um dia, com a literatura ou sem a literatura.

Últimas edições

  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição
  • Edição 543

    Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

    Ver edição