Edição 374 | 26 Setembro 2011

Um sistema em resposta ao niilismo ético

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Márcia Junges



IHU On-Line – Quais são as maiores influências filosóficas de Lima Vaz?

Rubens Godoy Sampaio – Lima Vaz foi um leitor e um intérprete de toda a tradição filosófica. Ele leu os grandes autores sempre no original em grego, latim, alemão ou em qualquer língua que fosse. Tal como eu já disse, Lima Vaz foi um homem de profunda e inigualável erudição. Então, em primeiro lugar é necessário saber que este homem leu e estudou o que de melhor podia ser lido e estudado a respeito da tradição filosófica do Ocidente. Ele foi um profundo conhecedor da nossa tradição filosófica e tal fato permitiu que ele dialogasse com mais de dois mil anos de produção filosófica. Mas é claro que alguns autores o marcaram de forma indelével. São eles, Platão, Aristóteles, Agostinho, São Tomás e Hegel. E a presença desses autores é explícita em toda a sua obra, seja pelo conteúdo propriamente dito, seja pelo método assimilado e utilizado, sobretudo por Platão e Hegel.

IHU On-Line – Dentro desse contexto, como podemos compreender o impacto de Hegel no pensamento vaziano? Em que aspectos Lima Vaz conserva e supera o hegelianismo?

Rubens Godoy Sampaio – O pensamento vaziano desdobra-se em sistema por meio do método dialético de matriz platônico-hegeliana. Lima Vaz entende a dialética platônica como ontologia e método, por meio da qual Platão busca realizar a reductio ad unum mostrando que existe uma unidade do logos epistêmico quando ele descreve seu movimento de unificação dos conceitos supremos e dos primeiros princípios da Razão. Segundo o próprio Lima Vaz, o projeto hegeliano consistiu em “repensar a antiga metafísica como Lógica” e teve como lugar o terreno da subjetividade moderna ou da forma moderna de uma metafísica da imanência. Contudo este projeto não logrou restaurar o movimento ascendente em direção a uma transcendência real do ser, próprio e constitutivo do noûs ou do intellectus da tradição grega. Pois bem, quando Lima Vaz trata do tema da transcendência, ele o faz, apropriando-se do método dialético e apontando em direção a um Absoluto real, ao Ser Infinito que é ato puro de existir, ao Ipsum esse subsistens, tratado na Antropologia filosófica como categoria de Transcendência e como Pessoa Infinita, tratado na Ética como Bem e Fim, e na Metafísica como Ser e Existência, fundamento da metafísica do existir de São Tomás de Aquino. Isto é possível porque o procedimento dialético não é um simples procedimento formal no qual uma lógica qualquer é aplicada a um conteúdo que lhe é exterior. O procedimento dialético traduz a lógica intrínseca do conteúdo, o dinamismo da sua própria inteligibilidade. “Eis por que o método dialético parte do conteúdo mais elementar, ou seja, a afirmação ‘alguma coisa é’ e tem início com a suprassunção, por meio do argumento de retorsão da mais primitiva oposição, a que opõe o ser e o nada, suprassunção expressa logicamente pelo princípio de não contradição” (Raízes da Modernidade, p. 158).

IHU On-Line – Lima Vaz constatava o avanço prodigioso da razão técnica e a indigência da razão ética em nossa civilização. A partir dessa ideia, em que aspectos sua filosofia promove uma reflexão e uma crítica ao paradoxo da racionalidade ao qual estamos submetidos?

Rubens Godoy Sampaio – A reflexão sobre a técnica está presente em vários lugares da obra vaziana. Mas alcança seu ponto de elaboração sistemática na categoria de objetividade. Esta é a primeira categoria de relação. Na sequência vem a categoria de intersubjetividade e depois a categoria de transcendência. Todas trabalhadas no segundo volume da Antropologia filosófica.
A categoria de Objetividade inaugura o segundo livro da Antropologia, e nela Lima Vaz elabora de forma discursiva, submetendo ao mesmo método do volume I, o problema da relação do ser humano com o mundo, com as coisas que estão ao seu redor, com a técnica e com a ciência. Os termos do desenvolvimento desta categoria situam-se entre os dois extremos da tecnocracia e da tecnoclastia. Para Lima Vaz o homem é um ser no mundo, mas o discurso do homem sobre si mesmo não se esgota na sua relação com a natureza, pois, pelo princípio da ilimitação tética, o discurso é lançado para níveis superiores de relação, a saber, a relação com os outros e a relação com o Absoluto. Contudo, o lugar da técnica no mundo atual tem feito com que exista uma certa predominância desta forma de compreender o mundo, explicá-lo e transformá-lo. O predomínio da razão técnica e do discurso científico não se mantém nos limites do mundo objetivo. Ao contrário, o êxito da racionalidade científica fez com a mesma modalidade de produção de conhecimento transbordasse o campo do seu objeto específico para que, por meio dela, se pretendesse compreender todas as outras dimensões da vida humana. Assim, os termos dessa pergunta, o predomínio da razão técnica e a indigência da razão ética, podem ser tratados como um desdobramento da tensão existente entre metafísica e Modernidade. Em decorrência da hipertrofia do discurso tecnocientífico, tudo aquilo que extrapolasse os lindes do hipotético-dedutivo foi tido como irracional e, portanto, incapaz de ser submetido aos cânones do discurso da racionalidade técnica. É justamente isso que Lima Vaz tenta reinventar, tornando possível um discurso racional sobre o Absoluto, sobre o Bem, sobre o Fim, sobre o Ser, partindo da metafísica do existir de Santo Tomás e utilizando-se do método dialético para a elaboração desse discurso filosófico.

IHU On-Line – Como podemos compreender os conceitos de vida vivida e vida pensada, apontados por Vaz na transição da primeira para a segunda Modernidade? E o que seriam essa primeira e segunda Modernidade a que se refere?

Rubens Godoy Sampaio – Os conceitos de vida vivida, pensada e refletida têm sua correspondência com as etapas de elaboração de cada uma das categorias antropológicas, éticas e metafísicas. Ao construir cada uma de suas categorias, Lima Vaz apresenta a pré-compreensão (a expressão natural, não elaborada conceitualmente) de cada uma delas, a compreensão explicativa (dada pela ciência) e a compreensão filosófica ou dialética, por meio da qual se dá efetivamente a construção do discurso filosófico a respeito de cada uma das categorias.
Agora, para encerrar e apresentar o que Lima Vaz entende por Modernidade, prefiro transcrever uma página de seu livro Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade, seja como forma de homenageá-lo, seja como forma de apresentar, para quem nunca o leu, o brilhantismo e a profundidade filosófica deste autor, que, como eu já disse e torno a repetir, é um dos maiores filósofos do século XX:
“A aspiração talvez mais genuína do projeto filosófico da Modernidade, cuja primeira realização histórica foi, sem dúvida, a razão cartesiana, reencontra de alguma maneira, após o declínio do pensamento medieval e da tradição renascentista, os desafios teóricos que estão na origem da filosofia antiga. Em correspondência com a crítica do mito, a filosofia moderna é, principalmente, uma crítica da tradição teológica cristã. É igualmente, a descoberta de uma nova forma de razão, capaz, por um lado, de submeter o destino aos desígnios humanos e, por outro, de interpretar a natureza para melhor dominá-la e transformá-la. Esse grandioso projeto, não obstante sua pretensão de ser a instauração radical de um novo mundo humano, tem suas raízes históricas. Pensamos identificá-las justamente na transformação medieval da razão antiga como pensamento das essências pela afirmação primeira da inteligibilidade do esse. Em virtude dessa transformação, e dela dependendo, a razão filosófica moderna se vê em face da interrogação primeira, que atinge o ser da realidade no seu núcleo mais profundo: que forma de inteligibilidade se deve pressupor ou pré-compreender no existir como tal, no simples ato de ser? Para a razão moderna, essa interrogação não pode ser evitada, tendo ela herdado das suas raízes medievais a injunção teórica incontornável de pensar a existência na sua singularidade irredutível à universalidade da essência: o esse só é pensável protologicamente, ou seja, segundo a identidade do primum ontologicum e do primum logicum: como esse absoluto.

O verdadeiro coração teórico da Modernidade é o projeto de extrema audácia, cuja execução vem transformando radicalmente a vida humana nos últimos quatro séculos, que tem em vista a plena reinscrição teórica e operacionalmente, nos códigos da razão científica, do universo, da vida, do ser humano e das suas condutas. Interpretado como projeto histórico que se justifica a si mesmo, ou seja, que encontra sua razão de ser no próprio devir imanente da história, esse projeto deixa muito longe, em radicalidade, os paradigmas da “vida na razão” (bíos theorétikós) como ideal da filosofia antiga. Mas, paradoxalmente ou mesmo contraditoriamente, trata-se de um projeto que tem por objeto a construção de um absoluto no interior do próprio devir histórico. É permitido afirmar, por conseguinte, que o desafio especulativo de pensar um absoluto que se exterioriza no movimento mesmo que o constitui é verdadeiramente, o problema matricial, o problema-fonte de todos os grandes problemas da filosofia moderna.
Nesse ponto convém lembrar que as origens longínguas do propósito de pensar o ser como absoluto, constituindo o primeiro passo da razão teórica, remontam a Parmênides . O pensador eleata é, pois, o iniciador da ontologia como ciência do ser. No entanto, a ontologia parmenidiana se exaure na tautologia do princípio de identidade: o ser é. Como introduzir a diferença na identidade sem relativizar o ser uno e absoluto na pluralidade do múltiplo? (...) Essa situação metafísica na qual tem lugar o primeiro passo do itinerário do discurso do esse encontrou um primeiro modelo de explicação na teoria neoplatônica da processão da primeira Inteligência a partir do Uno, e, na filosofia cristã, um segundo modelo na teoria agostiniana da iluminação. Ora, tal situação reaparece, em analogia eloquente, no problema filosófico moderno da relação entre Razão e Existência. É possível reconduzir a existência, desde o simples ato de existir, aos cânones explicativos da Razão humana, entendida como geratriz de toda inteligibilidade? Em outras palavras, a Razão humana pode reivindicar os atributos do Esse subsistente? Essa interrogação é inevitável como consequência do postulado imanentista radical da filosofia moderna. Tal postulado anima o projeto de construção da “cidade do homem”, onde os problemas metafísicos terão sua solução natural ou declaradamente pós-metafísica. A carta magna da “cidade do homem” é promulgada em nome da Razão na sua modalidade de razão científica e no seu uso operacional, medido pela sua eficácia na produção de objetos. Ora, a razão científico-operacional é uma razão intrinsecamente ligada ao agir e ao fazer humanos. Ela observa, estabelece normas, formula hipóteses, mede e calcula, rege a produção de objetos. Pressupõe, portanto, o estar-no-mundo do sujeito racional, o seu simples existir enquanto dado a si mesmo, em meio às coisas que igualmente lhe são dadas. Mas essa situação, que pode ser denominada situação ôntico-primária, permanece impensada pela razão científico-operacional. Como recuperar para o universo luminoso da razão o fundo obscuro do simples existir? É a essa interrogação, vinda dos começos do caminho grego do logos, que a metafísica de Tomás de Aquino respondeu com a intuição da inteligibilidade do Esse absoluto como ato de infinita perfeição. Tal intuição assume então a forma de uma pré-compreensão fundante de toda a atividade da razão. No entanto, como antes já observamos, ela contempla o Esse absoluto como fonte de toda inteligibilidade na sua objetividade transcendente. Em outras palavras, a intuição do Esse é ato de uma razão que se mostra assim capaz de elevar-se à theoria desinteressada do Ser (capax entis)” (H. C. de Lima Vaz. Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade., 1ª edição, São Paulo, Loyola, 2002. p. 100)

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