Edição 253 | 07 Abril 2008

Rosalina Garcia

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Patricia Fachin

Do interior de Sobradinho, onde nasceu e viveu até os 32 anos, ela trouxe o sentimento de liberdade, a vontade de trabalhar na lavoura e o apego pelos animais de estimação. Cordial e objetiva na conversa, a moradora do bairro Progresso, de São Leopoldo, recebeu a IHU On-Line na sua casa, onde contou-nos um pouco da sua história.

O sorriso fácil esconde histórias de um passado que Rosalina Garcia prefere deixar adormecido. Depois de viver uma infância difícil, uma adolescência confusa e cuidar de cinco filhos, aos 57 anos, ela se divide entre uma atividade e outra para ajudar na rentabilidade da família. As placas na frente de casa, ainda inacabada, indicam a vontade de realizar um sonho: “Quero montar meu próprio negocinho e ganhar mais um trocado. Estou me virando. Um dia, vendo papelão, no outro faço faxina, cuido de crianças, vendo sacolé, sorvete, lingerie”. As atividades diárias não seguem uma rotina fixa, mas nem por isso a jovem senhora perde a vontade de trabalhar.

 

“Pedra que tanto rola, não cria limo.” O ditado popular proferido por Rosalina Garcia parece resumir partes de sua própria história. Sem saber ao certo a identidade do seu pai, ela conta ter morado com várias pessoas, até casar e construir sua família. “Me criei trabalhando um pouco na roça e fazendo faxina. Minha vida foi muito sofrida, tanto que nem estudo eu não tenho. Eu só fiz a primeira série, e a pau e corda. Estudei até aprender a escrever meu nome”, recorda. Entre uma história e outra, a identidade do pai levou anos para ser revelada. “Minha mãe disse que se perdeu com um homem casado, quando tinha 21 anos. Ela sempre mentiu pra mim. Dizia que eu era filha de um cara lá de Lagoa Soledade. Só mais tarde, uma tia me contou a verdade, e descobri que meu pai era um fazendeiro que pensei ser meu padrinho. Mas aí já era tarde. Quase não convivi com ele.”

Criada pelos avós maternos, Rosalina morou com eles até completar 12 anos, quando ambos faleceram com uma diferença de seis dias. “Com a morte deles, eu fiquei numa amargura só”. Sem destino, ela teve que se mudar para a casa da mãe, onde ficou por alguns meses. “Eu não pude viver com minha mãe, porque o marido dela era muito miserável. Eu era uma escrava dele.” Depois de horas incansáveis na lavoura, ela conta que chegava em casa e era repreendida pelo padrasto. “Eu pedia: - ‘Mãe me dá um prato de pão?’. E ele me metia a boca. Parece que eu ainda vejo a voz dele no meu ouvido, dizendo: - ‘Tu tem que trabalhar para sustentar teus irmãos’. Rancorosa, eu virava as costas e saia. Ia para a casa de um casal e dizia: ‘- Madrinha, eu tô com fome. Deixa eu fazer alguma coisa aqui pra ganhar um prato de comida?’”.
Dos 12 aos 17 anos, sem criar vínculos afetivos, ela morou de favor na casa de amigos, parentes e conhecidos. “Assim foi a minha vida, até que eu me juntei com o primeiro homem que apareceu. Vivi com ele dos 18 aos 31 anos.” Do primeiro relacionamento, que durou quase 16 anos, ela não guarda boas lembranças. “Meu ex-marido bebia, aloprava, não queria trabalhar. Deixava os filhos passar fome. Ele ficava em casa dormindo e mandava as gurias sair na rua pedir dinheiro. Eu achava isso um desaforo, porque ele tinha saúde, era um homem gordo. Cansei, até que um dia, larguei ele.” Mãe de cinco filhos, quatro moças e um rapaz, todos do primeiro relacionamento, ela conta que eles passaram bastante dificuldades. “Meus filhos se criaram trabalhando para poder sobreviver. Mas hoje estão todos casados, me deram 11 netos. Não tenho o que reclamar, graças ao meu bom Deus.”

Nova fase

Com 32 anos, Rosalina mudou-se para o município de Portão, depois foi para Estância Velha, Porto Alegre, até decidir fixar residência em São Leopoldo. Na cidade, ela já morou no Bairro Paim, na Vila Elza e há dois anos reside no bairro Progresso. Depois de oito anos solteira, encontrou Jorge Luis Matos da Silva, atual companheiro. “Nós trabalhávamos na mesma firma. Ele de guarda e eu de faxineira. Se conhecemos e já vai fazer 18 anos que estamos juntos.” Logo no início do relacionamento, ela e o marido pagaram aluguel, até comprarem a primeira casa. “Nós vendemos bicicleta, televisão, som, para aumentar a primeira casa, na divisa de Novo Hamburgo e São Leopoldo. Mais tarde, trocamos aquela por outra, na vila Brás. Com a mesma pessoa, trocamos a segunda casa, por essa.” Sobre o relacionamento, ela se demonstra satisfeita: “Graças a Deus a gente se interessa os dois parelho. Ele trabalha, eu me viro. A gente poupa. Se vai comer o que os olhos vêem e a boca quer, não sobra.”

Na porta da casa, placas dizendo “vendo sacolé e sorvete”, e uma carrocinha de papelão revelam duas das atividades que ajudam a garantir o sustento da família. “Eu queria trabalhar direto ali na reciclagem da Cooperativa Progresso, que integra o programa de Tecnologias Sociais para Empreendimentos Solidários, do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, mas nunca tem dinheiro. Quando eles têm dinheiro para pagar os catadores, não tem balança. Então, eu não vou deixar de cortar a grama, varrer o pátio, pra sair por aí catando papelão e não receber, não é?”. Sem um emprego de carteira assinada, ela diz que se ocupa com o que aparece. Assim, passa os dias fazendo “biscates” e cuidando dos animais de estimação. “Tenho dois cabritos, cinco cachorros, um casal de gatos e umas 20 galinhas.” As mãos calejadas demonstram o cotidiano de uma mulher que não consegue ficar sem atividades. “Eu odeio ficar em casa. Durante a semana, gosto de plantar, cortar grama, varrer o terreno. Duas vezes por dia, eu pego a bicicleta e me vou por aí afora buscar pasto para tratar meus dois cabritos. Eu me divirto um monte. Se eu tivesse uma lavoura, ia plantar.”
Todas as dificuldades e a falta de uma família sólida na infância explicam o apego que Rosalina tem pelos filhos. “Eu amo meus filhos, noras, genros e netos. Visito eles nos finais de semana e não saio de perto deles por nada.”

Quando as dificuldades aparecem, ela diz que “roga a Deus” e pede para a situação melhorar. “Sabe aquele ditado que diz: Só lembra de Deus quando troveja? Agora mesmo fazia mais de mês que eu não ia na Igreja. Estou fazendo uma campanha de três dias para ver se o ordenado do meu marido aumenta.” Batizada na Igreja Católica, ela comenta que hoje freqüenta qualquer religião. “Quando não dá pra ir numa igreja eu vou na outra. Deus é o mesmo, não é verdade? A gente tem que buscar Deus. Se com Ele a gente já passa apertado, imagina sem.”

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