Edição 253 | 07 Abril 2008

Filme da semana: Jogo de cena

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André Dick

O filme comentado nessa edição foi visto por algum/a colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre, como o Arteplex, do Shopping Bourbon.

Nome: Jogo de cena
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil
Ano produção: 2007
Gênero: Documentário
Duração: 106 min
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pêra

A encenação do real

Cineasta que procura colocar interrogações diante da dita realidade, Eduardo Coutinho nos apresenta em seu mais recente filme, Jogo de cena, um olhar metalingüístico sobre o mundo feminino. Trata-se de uma nova etapa, embora o seu olhar humanista continue o mesmo, na carreira de quem já produziu sobretudo documentários sociais e de sentido político, como Cabra marcado para morrer e Peões.
Jogo de cena é metalingüístico por se constituir num documentário intercalado pela ficção, em que a arte de representar é discutida indiretamente, por meio dos depoimentos de mulheres. Isso porque alguns desses depoimentos também são interpretados por atrizes, algumas conhecidas, outras não. Mas do que Coutinho quer (ou não) nos convencer com seu filme? O cenário estático – a câmera posicionada em frente às mulheres, no palco no Teatro Glaucer Rocha, do Rio de Janeiro, apresentando as cadeiras ao fundo –, com a voz do diretor em off, como se o espectador estivesse assistindo a uma seção psicanalítica, é a primeira questão. O diretor talvez queira convencer de que a pessoa real ou a atriz que interpreta sua história fazem parte de um mesmo “jogo de cena”? Que a pessoa, quando deseja contar sua história, aplica a ela uma emoção que pode ser tanto calculada – a partir de que pode ser encenada - quanto livre? Quando Andréa Beltrão, por exemplo, explica por que se emociona, o que não ocorreu com a mulher que ela está interpretando, cria-se um elo interessante entre cinema realizado e cinema sendo feito. Ou seja, o diretor traz à cena, com muita competência, um clima de making off e da realidade da atriz, que diz não acreditar em Deus, ao contrário da mulher que interpreta, consciente de que existe algo além da morte.

De modo geral, há, em Jogo de cena, um elo que liga todos os depoimentos: a relação entre mãe e filhos, uma relação da qual o pai está quase sempre ausente (ele surge mais visivelmente no depoimento de uma menina que não conversou durante anos com o seu). Coutinho deseja revelar, em parte, a solidão da mulher. Esta pode decorrer do fato de que a maioria das mães, em seu filme, foi abandonada por um filho, ou ele acabou morrendo. Mas, vendo-se mais a fundo, ele parece mostrar a solidão da mulher num mundo em que o homem é apenas um ser anódino e descompromissado. Mas isso não torna o seu documentário com viés feminino, e sim masculino – pois parece mostrar, basicamente, como a tristeza da mulher está ligada ao fato de que não há, diante de tantos problemas de relacionamento e compreensão, a presença do homem.
É de suma importância, nesse contexto, a primeira história, contada por Andréa Beltrão, em que há o abandono do marido depois da morte de seu bebê. O espectador se questiona onde está o homem no momento em que a mulher está sofrendo? Ou seja, no documentário, Coutinho parece, por vezes, ter o desejo de mostrar, por meio desses depoimentos, que a mulher, acompanhada ou não, está sempre sozinha e se ela tem algum elo de ligação é com seus filhos, também presentes ou não. É claro que o pai está presente nos filhos – mas Coutinho quer estabelecer que ele, na verdade, é incapaz de dar sustentação à mulher. No entanto, isso cria, em contrapartida, um fortalecimento da imagem do homem: de que a vida feminina só pode ser organizada – inclusive a partir dos filhos – a partir de sua imagem e presença, mesmo que ela resulte numa ausência posterior. É claro que isso parece mais ligado a Freud, citado pela senhora de origem turca – responsável por um depoimento “trágico”, como ela diz, mas, ao mesmo tempo, bem-humorado, que inicia com ela contando sobre sua admiração a respeito do filme Procurando Nemo, igualmente significativa para entender a relação entre pais e filhos, e pela canção final, que toca o espectador –, do que ao cinema, mas não é irrelevante. Coutinho mostra que a mulher se emociona mais com a realidade do que o homem, mas este, na verdade, é quem sempre conduz a situação (como ele, por trás das câmeras). Ou poderíamos lembrar de Lacan: o filme é justamente aquilo que ele pensa não ser.

Outra reflexão que traz Jogo de cena é sobre a relação entre imagens como a de Deus e a do anjo. No depoimento de Beltrão, esta se confessa, como se viu, atéia; em outro, a mãe sonha com o filho morto que vem lhe dizer que se transformou em anjo. A senhora turca, por sua vez, se diz desacreditada de Deus, pois Freud indicaria o rumo. Todas, sem exceção, são figuras ligadas ao masculino. Esse atrito entre fé e psicologia acaba dando o contorno e um elo de ligação, assim como a reflexão das mães em relação aos filhos, a Jogo de cena, e Coutinho,  embora o explore nas entrelinhas, discretamente, como bom documentarista, faz dele uma peça-chave para entender seu filme.

Jogo de cena foi bastante aplaudido em festivais. Diante do que se vê, no entanto, é um exagero. Apesar da montagem ágil, utilizando muitos cortes rápidos, diante da câmera estática e entediada, a metragem é muito longa (mais de 100 minutos). Ele se sustenta na idéia de mistura entre ficção e realidade, que funciona às vezes e outras não. O espectador se sente, às vezes, surpreso, quando não sabe, afinal, qual é o depoimento verdadeiro, ou melhor, o depoimento não encenado, sobretudo quando as atrizes fazem o depoimento não são conhecidas. As atrizes estão excelentes, sobretudo Andréa Beltrão e Marília Pêra, mas é Fernanda Torres que parece mostrar uma faceta menos segura de atriz, quando afirma que não está conseguindo ser fiel à pessoa que representa e que teria visto todo o depoimento da mulher para não prejudicá-la, como se ela quisesse registrar a memória alheia, mesmo que dispersa. Beltrão, de algum modo, parece ser mais contundente do que a própria mulher que representa, e Pêra, quando mostra ao diretor como faria se ele quisesse que ela chorasse – representando, aqui, o estereótipo da mulher, de que deve chorar diante de qualquer situação comovente - acaba colocando, nesse jogo metalingüístico, um fio muito tênue entre ficção e realidade. Entre os depoimentos, soa, no entanto, como politicamente correta a visão dada a algumas personagens: lá estão a menina que teve a vida salva pelo teatro, a rapper que canta versos rimados com certa timidez, a moça que teve uma rápida relação e engravidou na parada de ônibus. De certo modo, há uma tendência de muitos cineastas brasileiros de agirem como Claude Lévi-Strauss em primeira visita ao Brasil. O politicamente correto dá sempre a sensação de se dar espaço a pessoas que não têm voz, o que estaria longe de ser um problema, se não fossem visualizadas sempre por um viés superficial. Tudo parece humano, mas é extremamente calculado e mecânico, independente das intenções de Coutinho. Há, com isso, uma sensação constante de déjà vu – e a mulher da periferia não é retratada de forma diferente do que vemos em novelas e reportagens televisivas, o que é uma pena.

Isso porque alguns depoimentos incomodam não pela objetividade, o que é uma qualidade, mas pelos lugares-comuns. Certamente, o diretor quer, através disso, mostrar como as histórias das pessoas, no caso dessas mulheres, são parecidas, independente da classe social. De que a humanidade, em si mesma, cria um elo narrativo, às vezes implícito. No entanto, quando transportada para o cinema essa idéia pode se transformar em algo cansativo e de pouco impacto.

Na verdade, é como se o espectador estivesse assistindo, com mais elaboração e sentimento – também de Coutinho em relação às suas figuras -, depoimentos de um desses programas vespertinos que transformam a realidade, em sua busca pelo ibope, numa grande encenação patética. Mas tudo, também, não seria um “jogo de cena”? O patético, afinal, não se alimenta apenas da realidade; pelo contrário, tentamos ficcionalizar o que vivemos com uma pitada de humor aqui e outra ali. No entanto, basta cairmos na realidade para ver o quanto é trágica a própria encenação a que estamos sendo expostos. Jogo de cena, nesse sentido, é um filme importante para compreender a faceta do ser humano disposta a fazer de sua história pessoal uma ponte para a arte. Mesmo que não tenha, a meu ver, a característica do grande cinema e do melhor documentário: mexer com o espectador de tal maneira que ele saia transformado da experiência de assisti-lo. Ao oferecer uma certa emoção – a passagem final, por exemplo, é comovente -, traz alguns questionamentos, mas parece não se realizar completamente. Como a vida real, ele parece sempre encenado pela metade, e, no seu caso, isso é um problema, pois, quando cai o pano, o que fica é uma sensação de déjà vu. Assim, uma canção como “Se essa rua fosse minha” fica mais elegante do que qualquer rap, mas não expressa toda a contundência da solidão que Coutinho pretendia revelar com seu semi-documentário, apesar da emoção que provoca. Esta solidão não está apenas dentro de casa: está nas ruas, em meio à multidão, forte e desalentadora.

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