Edição 253 | 07 Abril 2008

Jesus inclui de algum modo e se “associa” a outras figuras religiosas em seu trabalho de salvação?

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Cleusa Andreatta e Graziela Wolfart

Para o teólogo Peter Phan, a explanação cristã de Jesus como o único e universal salvador necessita ser reexaminada e reinterpretada

Peter Phan, renomado teólogo vietnamita radicado nos Estados Unidos, padre e professor no departamento de teologia da Georgetown University, concedeu a entrevista que segue, por e-mail, para a IHU On-Line, na qual discute a questão do pluralismo religioso. Phan é doutor em Teologia Sacra pela Universitas Pontificia Salesiana, de Roma, e doutor em Filosofia e em Divindade pela University of London. É autor de, entre outros, Christianity with an asian face (Maryknoll: Orbis, 2003). Phan é o quarto teólogo submetido a um processo depois da publicação da Dominus Iesu. Antes dele e pelos mesmos motivos a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano havia emitido notificações contra os três jesuítas Jacques Dupuis, em 2001, Roger Haight, em 2004, e Jon Sobrino, em 2006. O Vaticano e os Bispos dos Estados Unidos estão investigando o livro de Peter Phan, Being religious interreligiously: asian perspectives on intterreligious dialogue (Sendo inter-religiosamente religioso: perspectivas asiáticas sobre o diálogo inter-religioso), que é objeto das duas inquirições. O Vaticano e a hierarquia da Igreja nos Estados Unidos avaliaram que o livro de Phan contém “sérias ambigüidades” em relação a pontos essenciais da doutrina católica. Entre os pontos problemáticos, estão reflexões de Phan que enfraqueceriam o papel de Cristo como “Salvador único e universal” e o da Igreja como instrumento para essa salvação. O livro foi censurado. Confira mais detalhes na cobertura feita pelo sítio do IHU. Acesse www.unisinos.br/ihu

IHU On-Line - Como o senhor avalia a situação do cristianismo no cenário mundial?
Peter Phan
- Em minha opinião, uma das características mais significativas do cristianismo contemporâneo é o deslocamento demográfico da população cristã do Norte (Europa e América do Norte) para o Sul (África, Ásia, e América Latina). Projeta-se que até o ano de 2050 somente um de cada cinco cristãos viverá no Norte.

IHU On-Line - Quais são as implicações desta situação para o diálogo intercultural e inter-religioso? 

Peter Phan - Este deslocamento demográfico terá vastas implicações para o diálogo intercultural e inter-religioso no Sul, especialmente na Ásia, na qual os cristãos serão uma minoria, e estarão lado a lado com os crentes de outras religiões.

IHU On-Line - Quais são, a seu ver, as principais dificuldades e possibilidades para o diálogo inter-religioso neste momento?
Peter Phan
- A principal dificuldade para o diálogo intercultural e inter-religioso é o contexto sociopolítico e econômico mundial. As religiões se misturam com a política em muitos países do Sul, onde as guerras e a violência são justificadas no campo religioso. Isto é visto particularmente no Islã. O diálogo entre o cristianismo e o islamismo será crucial na África, visto que o diálogo entre o cristianismo e o budismo, o hinduísmo e o confucionismo é central na Ásia, particularmente na Índia e na China, duas superpotências em crescimento. Em relação à economia, a maioria dos países do Sul continuará pobre. Podemos acreditar que o diálogo intercultural e inter-religioso será alcançado sem engajamento no esforço pela justiça?
 
IHU On-Line - Do ponto de vista da teologia das religiões e do diálogo inter-religioso, como podemos compreender o pluralismo religioso na história da salvação?
Peter Phan
- O pluralismo religioso, do ponto de vista teológico, trata da questão da diversidade religiosa. A questão é: o fato de haver muitas religiões diferentes na história é simplesmente um acidente ou fruto de erros humanos, ou pode ser considerado como algo querido por Deus, como parte da providência divina?

IHU On-Line - O que isto implica para a afirmação cristã da unicidade e universalidade de Jesus Cristo? 
Peter Phan
- Se o pluralismo religioso pode ser visto como algo querido por Deus e, conseqüentemente, não abolido por Ele, então a afirmação cristã de Jesus como o único e universal salvador necessita ser reexaminada e reinterpretada. O fato de os cristãos crerem em Jesus como o Salvador exclui esse papel para outras religiões, fundadores de outras religiões? Jesus inclui de algum modo e se “associa” a outras figuras religiosas em seu trabalho de salvação?

IHU On-Line - Que conseqüências isto traz para a autocompreensão da Igreja e sua presença e atuação no mundo de hoje?
Peter Phan
- A questão cristológica tem, naturalmente, implicações profundas para a eclesiologia. Como “sacramento da salvação”, a Igreja cristã exclui outras organizações religiosas, como detentora de um papel positivo no bem-estar espiritual de seus seguidores? Qual é a “missão” da Igreja para estas religiões? Consiste principalmente em “converter” estes outros crentes religiosos e batizá-los? A igreja deve focalizar suas ações na promoção do reino da justiça, da paz e do perdão?

IHU On-Line - O senhor fala que a “situação contemporânea de pluralismo religioso exige não só que se pratique o diálogo inter-religioso em um nível teológico, mas também que se seja religioso inter-religiosamente”. O que isto significa? Como isto é possível?
Peter Phan
- “Ser religioso inter-religiosamente” significa ter uma identidade religiosa hifenizada. Uma pessoa se torna cristã sem deixar de ser muçulmana, budista, judia e assim por diante. Houve pessoas, num passado recente, que tentaram sinceramente ser, ao mesmo tempo, cristãs e hindus, cristãs e budistas, e cristãs e muçulmanas. Há os cristãos que lêem as escrituras sagradas de outras religiões e adotam novas práticas e orações sem reduzir seu compromisso cristão. Será que isso se tornará mais comum?

IHU On-Line - O que mais o senhor gostaria de dizer sobre o pluralismo cultural e religioso?
Peter Phan
- A introdução do pluralismo religioso será mais urgente num futuro próximo. Talvez seja a questão mais desafiadora para o cristianismo. Nós devemos promover uma atmosfera intelectual e religiosa, na qual esta questão possa ser abertamente discutida e estudada, melhor do que em um ambiente repressivo, de medo e condenação.

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