Edição 245 | 26 Novembro 2007

As ficções religiosas existirão enquanto houver humanos

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IHU Online

Para Michel Onfray, autor do Tratado de ateologia: física da metafísica (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007), que na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, classifica sua filosofia como uma filosofia das Luzes para a atualidade, a fonte do sentimento religioso é a negação da condição de mortal. Em sua opinião, “é fácil crer: tem-se resposta para tudo, a religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado”. E continua: “o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários”.

O filósofo que assegurou ter “menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar” escreveu cerca de 30 obras, nas quais formula um projeto hedonista ético, político, erótico, pedagógico, epistemológico e estético. Fundou a Université Populaire de Caen, onde leciona contra-história da filosofia. Para maiores informações, consulte o site pessoal do filósofo: http://pagesperso-orange.fr/michel.onfray/.

IHU On-Line - Você identifica na origem dos três monoteísmos uma mesma “pulsão de morte genealógica”, uma matriz niilista. Para você, então, a premissa básica da religião é o “nada endeusado”?
Michel Onfray –
Não. Em primeiro lugar é menos a pulsão de morte do que o medo da morte, a vontade de não morrer, o temor desesperado de dever desaparecer um dia, a impossibilidade de enfrentar o nada face a face, olhando-o diretamente em seus olhos, se posso expressar-me assim. A negação da condição de mortal, eis a fonte do sentimento religioso.

IHU On-Line - Violência, intolerância e religião andam, necessariamente, lado a lado? Por quê?
Michel Onfray -
Não exatamente. Eu não sou tão caricatural a ponto de ter essa idéia, e eu nunca pensei que, se as religiões não tivessem conduzido o mundo, jamais teria havido nem guerras, nem violência, nem intolerância! Mas eu constato que as três religiões monoteístas que se dizem de paz, de tolerância e de amor, paradoxalmente geraram muitas guerras, muita intolerância e ódio, em nome de sua pretendida mensagem de paz, de tolerância e de amor.

IHU On-Line - Dawkins, Dennet e Harris são acusados de combater o fundamentalismo religioso com um fundamentalismo ateísta. Qual é o seu ponto de vista a respeito?
Michel Onfray -
Eu constatei que aqueles que censuram o fundamentalismo de tal ou tal orientação são com freqüência... fundamentalistas! É uma velha lei da psicologia que quer que se censure no outro o que não se quer nem se pode censurar em si próprio. A mesma lei quer que se seja muito lúcido quanto à palha que se encontra no olho de seu vizinho, mas absolutamente incapaz de ver que há uma trave no nosso. Que se deixe de insultar (pois “fundamentalista” nesta configuração é um insulto) e que se discuta realmente, verdadeiramente, os argumentos em torno de uma mesa. E que os religiosos, tão ciosos de paz, de tolerância e de amor, comecem dando o exemplo!

IHU On-Line - Nessa mesma linha de raciocínio, como você classificaria a sua filosofia?
Michel Onfray –
Como uma filosofia das Luzes para a atualidade. Eu me inscrevo na radicalidade do pensamento de, por exemplo, Meslier, La Mettrie ou D’Holbach, que são os filósofos do século XVIII. Eles fazem uso da razão sem nenhuma concessão e se propõem a acabar com todo pensamento mitológico.

IHU On-Line - Você afirma que o ateísmo reconcilia com a terra, o outro nome da vida. O que nos garante que o ateísmo promova essa união se, como dizia Ivan Karamazov, “se Deus não existe, tudo é permitido”?
Michel Onfray -
É precisamente porque Deus existe que tudo é permitido! Lembrai-vos do convite de Simon de Monfort por ocasião do massacre dos albigenses: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os seus”. Se Deus existe, ele sabe e vê tudo, e ele restaurará no Céu a ordem que não se soube instaurar na Terra, desde que se tenha querido instaurá-la em seu nome, como dizem e pensam os crentes. Opostamente, o ateísmo afirma que, já que Deus não existe, tudo não é permitido e que, por conseguinte, é preciso estabelecer um código, regras, uma moral, uma ética contratual para viver juntos.

IHU On-Line - Por que a “fé tranqüiliza” e a “razão preocupa”? O cristão é um ser infantil, alguém que se furta da verdade?
Michel Onfray -
Porque é fácil crer: tem-se resposta para tudo. A religião oferece uma metafísica, uma ontologia, uma filosofia, chaves na mão. Todas as respostas já foram dadas a todas as questões possíveis. Basta para isso ser instruído na ordem cristã. Ao passo que o ateu que reflete deve construir sozinho sua visão do mundo e isso é mais complicado.

IHU On-Line - Em Tratado de ateologia, você diz não recriminar os homens “que consomem experiências metafísicas para viver”, mas deplora os “vigários dos Deuses monoteístas”. Poderia explicar quais são os elementos pelos quais você apóia essa argumentação?
Michel Onfray -
Eu de fato digo que tenho menos animosidade contra os ajoelhados do que contra os que fazem ajoelhar. Em outras palavras: eu tenho compaixão por aqueles que foram postos de joelhos, mas não por aqueles fazem pôr-se de joelhos. Pode-se crer no que se quiser, mas fazer crer me causa mal-estar. Trata-se do princípio do colonialismo estendido à alma. É o que distingue o crente do padre. O padre almeja o império sobre a alma dos outros, e eu me sinto mal com esta perspectiva.

IHU On-Line - Moisés, Paulo de Tarso, Constantino e Maomé seriam “ficções úteis”. Quais são suas referências teóricas para tal afirmativa?
Michel Onfray -
Em duas palavras e no quadro de uma breve entrevista isso não será possível. Foi-me necessário um livro para começar a fazer um pouco a demonstração disso! Digamos que estas figuras são menos históricas do que mitológicas, que elas relevam menos história verificável nos fatos do que gestos e lendas com os quais se constrói cosmovisões úteis para constituir comunidades e civilizações.

IHU On-Line - No Tratado de ateologia, fica clara sua posição racionalista ocidental. Por que só a disjunção fé-razão é capaz de promover a Aufklärung? Religião e fé são sempre, necessariamente, incompatíveis?
Michel Onfray -
Os cristãos pensam que não, certos muçulmanos igualmente, e um grande número de judeus também, o Papa atual, Bento XVI, crê que não. Todos os crentes dizem que eles usam a razão. De minha parte, eu direi que eles a utilizam, sem dúvida, mas demasiado tarde, após a força imperiosa da Fé. Ele crêem primeiro, absolutamente não se servem de sua razão naquele momento de seu pensamento, um momento psicológico, mas utilizam-na depois, num segundo tempo, para procurar dar sentido e coerência às suas crenças que procedem do fundo psicológico, do qual falamos bem no início de nossa entrevista. Uma razão utilizada a priori, e não a posteriori, como ocorre com os crentes.

IHU On-Line - Quais são as evidências que o levam a afirmar exatamente o contrário de Kant: a inexistência de Deus e do livre-arbítrio e a mortalidade da alma?
Michel Onfray -
Não evidências, mas o bom senso: cabe àqueles que afirmam a existência de uma coisa apresentar a prova. Deus existe? Provai-o. Senão eu vos digo que os íncubos e os súcubos existem e que, se não podeis fazer-me a demonstração que isso é falso, então isso será verdadeiro.

Para o livre arbítrio, isso me parece claro: quando se é, por pouco que seja, informado de ciência, história, psicologia, sociologia, psicanálise, economia, política, constata-se como os determinismos são fortes, poderosos e todo-poderosos junto ao maior número. Vocês crêem que o violador de crianças é livre e que ele escolheu, entre outras possibilidades sexuais, esta antes que outra? Ou, então, ao contrário, que ele foi determinado por mil causalidades que seria preciso explicitar tornar-se um delinqüente sexual?

Enfim, a morte de todo mamífero faz a demonstração que o destino do cadáver de um cão, por exemplo, é o mesmo que o de meu próprio cadáver que, no dia determinado, será um cadáver de mamífero. O que vocês chamam de “alma” e da qual dizem que ela é eterna, imortal e imaterial, eu também concordo com sua existência: eu creio na existência da alma, sem dúvida, mas ela é material, mortal e perecível. O que a constitui é o agenciamento específico de minha materialidade: com minha morte, ela morre igualmente. Mas o exercício de uma entrevista que vocês me propõem torna difícil uma verdadeira argumentação que é dada no livro. Somos constrangidos a roçar os temas por alto.

IHU On-Line - Para você, Deus não morreu porque “uma ficção não morre”. A religião e o divino continuam, então, a ocupar lugar importante na sociedade?
Michel Onfray -
Sim, seguramente. A maioria das pessoas têm e terão medo da morte. O mecanismo psicológico de negação funcionará até o fim dos tempos. E o recurso às ficções religiosas também terá lugar enquanto houver humanos. Somente alguns espíritos fortes viverão sem Deus, mas estes serão sempre minoritários.

IHU On-Line - Por que só o ateísmo possibilita sair do niilismo?
Michel Onfray -
Não somente, mas filosoficamente, sim; somente a filosofia atéia evita que se substitua uma ficção por outra ficção, um mito por outro mito, uma religião (aquela dos romanos pagãos) por outra (aquela dos ocidentais cristãos). A filosofia permite uma mudança de era: ela permite passar de uma era mitológica e religiosa a uma era que será racional e filosófica. Eu me bato por isto, mas em desespero, sem muito crer nisso, sabendo que os humanos sempre preferirão as ficções que lhes dão segurança às verdades que os inquietam.

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