Edição 242 | 05 Novembro 2007

Izabela Leal

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IHU Online

Editoria de Poesia

A poeta Izabela Leal nasceu no Rio de Janeiro, em 1969. É graduada em Psicologia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Literatura Portuguesa, pela PUC-Rio, e atualmente doutoranda em Literatura Portuguesa, pela UFRJ. Tem ensaios sobre poesia publicados em revistas especializadas e poemas publicados na antologia Caos portátil. Poesía comtemporánea del Brasil (Ediciones El billar de Lucrecia e tradução de Cecilia Pavón), nos sites Germina (www.germinaliteratura.com.br) e Zunái - Revista de poesia & debates (www.revistazunai.com.br) e na revista Inimigo Rumor nº 17 (Rio de Janeiro: 7Letras).

A poesia de Izabela possui imagens de impacto, sustentadas no cotidiano. Também é adepta do verso mais longo e de uma sintaxe cuidadosa, cuja engenharia chama a atenção pelo conjunto de imagens que seleciona, mesclando uma visão singular a objetos comuns. No poema “Setembro”, por exemplo, ela escreve: “segundo o calendário, já é primavera. / longe o sol, caía chumbo sobre os tetos / e nenhum líquido vinha emergir nas / rugosidades da pele. / o inverno havia deixado vestígios de sal / por entre os poros”. Seus poemas trazem imagens próprias do Rio de Janeiro, mas sob um viés mais melancólico, como em “Ipanema em ressaca”, que dialoga com o “Perspectiva” publicado nesta revista: “há um clamor marinho /no movimento das ondas / despedaçadas / contra as pedras do arpoador / resíduos de uma cólera branca / furiosamente em direção / ao céu”. Os poemas de Izabela também trazem uma observação detalhista, como se percebe em “O flamingo andino”: “na lagoa colorada os pequenos pontos nus / juncam a superfície / do líquido branco e vermelho. / movem-se em delicada dança e num átimo / a cabeça mergulha / os olhos subaquáticos. / de tanto em tanto alguns levantam do chão / em vôos solitários e às vezes em grupo / numa tensão / entre a forma e o conteúdo”. Izabela enviou, especialmente à IHU On-Line, três poemas de sua produção, que merece ser conhecida e que pertencem a um livro ainda inédito, cujo título, ainda provisório, é Fisiologia da voz.

Válvulas

Ao meio-dia quando o calor
estala pipocas sobre o asfalto
e os camelôs ruminam
golfinhos de plástico em tigelas
d'água
as mãos se tocam um pouco
sem jeito
no avesso da hora.
Depois os dedos são nós
num tic-tac de aurículas
e ventrículos bomba-relógio
prestes a mandar pelos
ares
pilotis e portas
giratórias.


Domingo

Telefone mudo
no corredor em miragens
paredes sem prumo
só espera só rumo
e o olho não fecha
nas horas esferográficas
desse poema
em que o valium não vale
um mero dilema.

Descalça na bruma
do nosso terraço
talvez a memória
inimiga da pele
corroa como um ácido
o espectro que ronda
na corda bamba
até se espatifar
de vez
no meio fio.

 

Perspectiva

Do alto das ladeiras implacáveis
sulcadas na carne pela passagem dos trilhos
– cicatrizes de ferro ou de um vil material qualquer –
vejo uma arquitetura de cortes,
marcas insolúveis do ímpeto
que oscila
entre a vida e a morte.

você me mostrava as luzes da baía,
nosso olhar perfurava a distância inerte
que tomba da noite
sobre a cidade,
multiplicando os pontos coloridos,
e estendíamos as mãos
como se fosse possível
tocar as pequenas casas lá embaixo,
como se fosse possível
(com as mãos)
atravessar o concreto e o silêncio.

e como num lance de dados,
tentávamos prever
o momento em que o corpo,
uma vez erguido,
no ponto mais alto de sua relativa
trajetória  
  (a mudança das marés e os ventos
boreais que atingem os montes)
principia a metamorfose
da queda.

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