Edição 240 | 22 Outubro 2007

Mudanças no pensamento do CEPAL

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

“Não há nenhum obstáculo macroeconômico ou estrutural para a retomada do crescimento” brasileiro, disse Ricardo Bielschowsky, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Para o economista da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) no Brasil, o problema está no Banco Central, que tem “sido excessivamente ortodoxo em sua política monetária”. Sobre a inserção da América Latina no mercado internacional, Bielschowsky diz que é necessário diversificar a pauta produtiva e exportadora. Ao adotar essa medida, a região aumentaria mais rapidamente a produtividade e a competitividade. Assim, explica, os países latino-americanos poderiam defender-se das oscilações na economia mundial. Em seguida, dispara: “apesar de todos os progressos nos últimos 60 anos, não avançamos em forma suficiente para alterar substantivamente nossa inserção internacional, e continuamos muito vulneráveis”.



Bielschowsky é autor de Pensamento econômico brasileiro - O ciclo ideológico do desenvolvimentismo: 1930-1964, publicado em 2000 pela Editora Contraponto e organizador da coletânea Cinqüenta anos de pensamento na Cepal, publicada em 2000 pela Editora Record.
Ele concedeu a entrevista A Cepal e a análise do Brasil e da América Latina à IHU On-Line na edição 201, de 23 de outubro de 2006, intitulada O Brasil que a gente quer. O material está disponível no sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu).

IHU On-Line - A Cepal nasceu sob a influência dos economistas Prebisch  e Furtado  que valorizavam o planejamento e a tentativa de colocar as empresas transnacionais a serviço dos projetos nacionais de desenvolvimento. Com o tempo, esse quadro se inverteu e as transnacionais passaram a ser vistas como principal agente dentro do processo de desenvolvimento. Assim, como o senhor avalia essas transformações no pensamento econômico da Cepal?
Ricardo Bielschowsky -
A questão das empresas transnacionais só entrou na discussão da Cepal, como de resto de toda a intelectualidade da América Latina, lá pelo final dos anos 1950, ou seja, dez anos depois que Prebisch havia formulado a teoria cepalina do desenvolvimento na periferia latino-americana, e que Furtado o havia secundado nisso.

Naqueles primórdios da industrialização pesada, pensava-se que as multinacionais dos setores industriais não se interessariam em produzir na América Latina. A referência teórica conservadora ainda era o velho esquema das vantagens comparativas na divisão internacional do trabalho, e a prática confirmava a idéia do desinteresse das empresas dos países desenvolvidos. A menos que fizessem um grande esforço autônomo, estaríamos condenados a exportar produtos primários e importar bens industriais. Prebisch e Furtado levantaram a bandeira da industrialização, mas inicialmente não davam ênfase à questão das multinacionais, porque a questão não se colocava para eles.

Com a chegada das multinacionais na década de 1950 é que se iniciou uma discussão sobre elas. Especialmente nos anos 1960 o debate foi intenso. Passou-se a desconfiar que o tipo de estrutura produtiva que elas traziam era pouco adequada às condições locais – era intensiva em capital - e reproduzia condições de demanda que só funcionavam a contento se houvesse concentração de renda. Nascia a “teoria da dependência”.

IHU On-Line - Essas mudanças trouxeram algum benefício para os países da América Latina, já que as empresas transnacionais tornaram-se líderes no panorama industrial, ganhando enorme peso nas negociações com os governos, não havendo políticas que tocassem em seus interesses?
Ricardo Bielschowsky -
Vamos dividir a pergunta em duas partes. A primeira é econômica, e a resposta é positiva, ou seja, sim, trouxeram benefícios, especialmente nos países de maior tamanho relativo – e mais ainda no Brasil -, porque com elas foi possível avançar muito no processo de industrialização. Teria sido melhor fazê-lo de forma autônoma, como fizeram a Coréia e Taiwan, ou pelo menos coordenar as decisões dessas empresas com objetivos nacionais nobres, como é o caso de desenvolvimento e produção local de produtos intensivos em tecnologia, e a realização local de P&D. Mas as sociedades e os Estados latino-americanos não estavam vocacionados para a tarefa.

No caso do Brasil, a industrialização brasileira foi um êxito, e as multinacionais concorreram para o êxito. Sem a industrialização, seríamos possivelmente uma nação com problemas sociais muito maiores do que hoje temos – e olhe que não temos poucos. Mas faltou, por certo, introduzir algumas condicionantes para maximizar os ganhos para o país.

Vamos à segunda parte. As multinacionais e as empresas locais modernas em geral trabalharam na América Latina com base a um núcleo de demanda de altas rendas, em meio a países com muita pobreza e subdesenvolvimento. Reproduzia-se aqui em escala muito pequena as pautas produtivas e de consumo existentes nos países desenvolvidos, sem o progresso técnico e os ganhos de escala que lá ocorriam, e sem a transmissão da produtividade a salários. As empresas ganhavam muito dinheiro, as elites consumiam em padrões europeus ou norte-americanos, e a pobreza se ampliava. Isso tem, é claro, uma contrapartida nas relações de poder e dominação.

Mas não é possível estabelecer uma regra geral para identificar as relações entre as multinacionais e as estruturas de poder e de dominação na história dos países da América Latina. Cada país tem sua própria história, com diferentes graus de autonomia entre poder econômico e poder político, e com diferentes formas de participação de agentes estrangeiros na evolução dos acontecimentos políticos.

IHU On-Line - Quais são as atuais propostas da Cepal para superar o subdesenvolvimento dos países latino-americanos?
Ricardo Bielschowsky -
Para a região, a Cepal tem propostas em várias áreas. As três principais são: a macroeconomia, o setor real da economia, e a área social.

1) A macroeconomia
Na macroeconomia, a proposta da Cepal é de preservação dos equilíbrios macroeconômicos, consciente, porém, de dois fenômenos. Primeiro, os ciclos. E propõe gerar capacidade de executar políticas anticíclicas, vale dizer, ganhar musculatura fiscal para enfrentar as oscilações e os humores da economia internacional. Segundo, entende que as nossas economias são vulneráveis pelo lado externo, e por isto considera importantes duas coisas, no plano macroeconômico: uma nova arquitetura financeira internacional - por exemplo, maior participação dos países de desenvolvimento nas decisões das agências multilaterais, eventualmente o surgimento de mecanismos para enfrentar emergências financeiras, mecanismos mundiais ou regionais (Fundos regionais), e atenção aos excessos do fluxo de capitais voláteis, eventualmente por meio de monitoração da taxa de câmbio, e de usos de mecanismos como “quarentena” sobre entrada de capitais de curto prazo.

2) O setor real da economia
Historicamente, a grande contribuição da Cepal tem sido na questão do chamado desenvolvimento das forças produtivas. Preocupa-se com infra-estrutura de qualidade, com sistemas de inovação que acelerem a acumulação de capacidades tecnológicas, e com o fomento à transformação produtivas em suas várias dimensões: diversificação da estrutura produtiva e das exportações, encadeamentos produtivos das exportações e do investimento estrangeiro direto com outras atividades econômicas internas, formação de “clusters produtivos”, fomento às pequenas e médias empresas e às microempresas, reestruturação de setores não competitivos, e um novo papel para os mercados internos e  regionais.

3) Área social
Na área social, o que se destaca é a idéia de solidariedade, da busca de arranjos que conduzam à coesão social. Insiste-se nas políticas publicas que combatam a pobreza e que contenham esquemas universais de atendimento e valorização da população, nas áreas de saúde, saneamento básico, educação, capacitação etc. A previdência deve ser montada a partir de esquemas de solidariedade e universalidade, ou seja, que os mais pobres não sejam abandonados por falta de capacidade de pagamento de sistemas de pensão e aposentadoria.
 
IHU On-Line - Sobre as estratégias de desenvolvimento do Brasil, o senhor disse em outra entrevista à IHU On-Line, que seria necessário identificar as diferenças entre os países da América Latina. Como essas diferenças podem auxiliar no crescimento dos países latino-americanos?
Ricardo Bielschowsky -
Cada país deve seguir o caminho no qual seu potencial de crescimento seja maior, e os países são muito distintos entre si. Penso, por exemplo, num esquema em que o Brasil avance na combinação virtuosa entre, por um lado, indústria intensiva em conhecimento e, por outro, aproveitamento de recursos naturais com uso intensivo de em conhecimento. O Chile pode avançar muito nos recursos naturais com intensificação de uso de tecnologia, mas pouco na indústria. A Argentina é um país intermediário entre o Chile e o Brasil. O México tem lá suas características, e a saída deles dificilmente pode desconsiderar os profundos vínculos com os Estados Unidos. Os países de menor tamanho relativo têm outras prioridades, e isto tudo tem que ser estudado, país por país.

IHU On-Line - Para onde apontam as pesquisas da Cepal referente às economias latino-americanas?
Ricardo Bielschowsky -
Espera uma expansão do PIB de cerca de 5% em 2007, e um pouco menos para 2008. Na área social, é difícil ter “projeções” anuais; a questão social é de longo prazo. A Cepal, além de monitorar pobreza e desigualdade, tem acompanhado os países frente aos objetivos do milênio da ONU, os ODMs . Nesse sentido, alerta para aqueles que estejam mais longe dos objetivos. O Brasil tem tido um desempenho satisfatório no que diz respeito a melhorias dos ODMs, salvo em saneamento básico, em que está longe de chegar aos níveis estabelecidos pelas ODMs.

IHU On-Line - Qual é a sua percepção, em particular, sobre a inserção internacional da América Latina no mercado?
Ricardo Bielschowsky -
Acho que continuamos excessivamente dependentes de recursos naturais em forma convencional. Há que diversificar a pauta produtiva e a pauta exportadora na direção de bens com maior intensidade de conhecimento, sejam agrícolas, minerais ou industriais. Isso permitiria à região aumentar mais rapidamente a produtividade e a competitividade, defender-se melhor das oscilações na economia mundial e evitar a deterioração de termos de intercâmbio. Os objetivos que moviam a Cepal em sua inauguração, permanecem válidos, infelizmente. Isso significa que, apesar de todos os progressos nos últimos 60 anos, não avançamos em forma suficiente para alterar substantivamente nossa inserção internacional, e continuamos muito vulneráveis.    

IHU On-Line - O senhor disse que o será possível o Brasil recuperar o crescimento econômico nos próximos anos. Como se dará esse crescimento? Quais são as estratégias para retomar o desenvolvimento em apenas dois anos?
Ricardo Bielschowsky -
Não há nenhum obstáculo macroeconômico ou estrutural para a retomada do crescimento. O banco central é que está atrapalhando, porque tem sido em todos esses anos excessivamente ortodoxo em sua política monetária, e com isto excessivamente permissivo com a valorização da taxa cambial.

IHU On-Line - O Banco do Sul reforçará as relações econômicas entre os países do Mercosul? Qual é a sua avaliação da proposta de Hugo Chávez?
Ricardo Bielschowsky -
Ainda não se sabe bem o que é. Pode ser um banco de reservas, para gerenciar reservas contra volatilidade, isto é, banco de socorro a países em dificuldades, complementar ou substituto ao FMI. Outra possibilidade é que venha a ser um banco de fomento, do tipo BID ou Banco Mundial, que exige retorno econômico. Um terceiro é que seja um banco de correção de assimetrias econômicas e sociais, ou seja, um banco sem o objetivo de retorno, visando a enfrentar desequilíbrios regionais e ajudar os países e regiões mais pobres, como alguns fundos regionais europeus.

IHU On-Line - E o Brasil terá alguma vantagem com isso?
Ricardo Bielschowsky -
O Brasil é muito grande para poder aproveitar qualquer uma das três linhas. Mas ganha em solidariedade regional. O Brasil precisa ser mais generoso com os vizinhos, a médio e longo prazo ganhará muito com a atitude, e os vizinhos também. O Brasil não precisa ser líder de ninguém, mas pode liderar o incentivo à harmonia entre as nações da América do Sul. Para isto, precisa ter uma agenda correspondente. Quem sabe, o Banco do Sul pode ser parte dessa agenda.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição