Edição 240 | 22 Outubro 2007

Hans Küng – Biografia

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Teólogo católico nascido na Suíça em 1928, Hans Küng vive desde 1967 na cidade alemã de Tübingen, em cuja Universidade trilhou brilhante carreira acadêmica . Por suas posições firmes diante de Roma, sofreu duras represálias, que em 1979 culminaram na cassação de sua autorização canônica para lecionar Teologia em instituição superior católica. Küng tinha tamanho prestígio intelectual na época que a Universidade, para que o professor e sua equipe de pesquisadores pudessem continuar atuando, criou o Instituto de Pesquisas Ecumênicas, como unidade autônoma em relação à Faculdade de Teologia Católica.

Em 1990, ao encerrar sua carreira na Universidade, Hans Küng lançou o Projeto de Ética Mundial. A proposta pretendeu fundamentar, a partir da pesquisa científica sobre o teor ético de cada uma das religiões mundiais, um ethos mundial capaz de responder aos desafios do mundo globalizado – não sob a égide da dominação ou hegemonização econômica e cultural, mas a partir do diálogo intenso entre culturas e nações diferentes. O debate alcançou grande repercussão. Em 1995, graças à doação de alguns recursos financeiros pelo Conde K. K. von der Groeben, tornou-se possível a criação da Fundação de Ética Mundial, sediada em Tübingen, na qual atua uma equipe executiva e de pesquisa científica . Por exemplo, a Fundação vem levando a Tübingen desde 2000, para conferências sobre Ética Mundial, intelectuais e líderes prominentes como Tony Blair  (antes das guerras), Kofi Annan , Mary Robinson , Horst Köhler , Shirin Ebadi  e Jacques Rogge . Entre outras atividades educacionais e na mídia, a Fundação produziu exposição composta de 12 grandes painéis explicativos sobre as religiões mundiais, já exibida em versão inglesa no hall de entrada do edifício da ONU em Nova York; produziu também, em cooperação com a grande emissora de tevê alemã SWR, uma série de sete filmes documentários sobre o tema, acompanhada de livro ilustrado. Essa obra impressa foi recentemente traduzida no Brasil , mas os episódios televisivos permanecem inéditos.

Recentemente, em setembro de 2005, inclusive o papa Bento XVI surpreendeu a opinião pública mundial ao receber Hans Küng para uma longa conversa amigável, na residência de Castel Gandolfo. Nada das divergências doutrinárias do passado: o encontro de ambos foi marcado pelo reconhecimento que Joseph Ratzinger dedica à contribuição de Hans Küng ao diálogo entre as religiões e ao diálogo entre ciência e fé . Os dois antigos colegas (supostos antagonistas, até então) ocuparam juntos o noticiário alemão e mundial tão logo o Vaticano divulgou nota à imprensa sobre o encontro. Prevaleceram, sobre divergências doutrinárias e desencontros institucionais de décadas, a clarividência teológica e a urgência de contribuir para a solução de questões da ordem do dia, em nível internacional.

Também no Brasil a obra de Küng Projeto de Ética Mundial (1990) foi marco fundador de uma discussão que, pela premência dos fatos, frutificou rapidamente e continua a angariar apoio. Seguiu-lhe a publicação de Uma Ética Global para a política e a economia mundiais (1999). Nessa obra, a partir da análise criteriosa do pensamento de figuras chave para a economia e política internacionais recentes (Henry Kissinger , por exemplo), Küng discorre sobre assuntos como o livre mercado e o equilíbrio social, a ecologia e a consciência ética, a globalização e o estado de bem-estar social em crise. A obra seguinte publicada no Brasil, em co-autoria com Helmut Schmidt , ex-chanceler da República Federal da Alemanha, intitula-se Ética Mundial e responsabilidades globais: duas declarações (2001). A publicação encerra versão comentada de dois documentos expedidos respectivamente pelo Parlamento Mundial das Religiões (a “Declaração de ética mundial”, de 1993) e pelo InterAction Council (a “Declaração dos deveres da humanidade”, de 1997, assinada por dirigentes mundiais como Helmut Schmidt, Jimmy Carter , Giscard d’Estaing , Mikhail Gorbatchov , Shimon Peres , além de especialistas como Hans Küng, Hassan Hanafi e Richard Rorty). A “Declaração de Ética Mundial”, a propósito, teve pronto acolhimento, e em 1995, por exemplo, publicou-se um volume intitulado Ja zum Weltethos (Sim à ética mundial). No livro, sem tradução para o português, um dos capítulos tem autoria de D. Paulo Evaristo Arns  (“O ethos da paz”, p. 204-217), que integra a coletânea ao lado de outras celebridades como Desmond Tutu , o rei Hassan da Jordânia, os escritores Lev Kopelev e Elie Wiesel .

Do empreendimento iniciado por Küng participam outros pesquisadores alemães, entre os quais se pode destacar Karl-Josef Kuschel , titular da cátedra de Teologia da Cultura e do Diálogo Inter-Religioso na Universidade de Tübingen e doutor honoris causa da Universidade de Lund, na Suécia. No âmbito do Projeto de Ética Mundial, já em 1996 Kuschel assumiu a vice-presidência da Fundação de Ética Mundial e, entre outras, a tarefa de refletir teologicamente sobre possibilidades de diálogo entre islamismo, judaísmo e cristianismo . Autor de livros voltados ao estudo interdisciplinar de Teologia e Literatura , o pensador esteve em visita ao Brasil, Argentina e Chile em 1999, para diversas conferências. Com a proposição de uma teologia abraâmica, Kuschel põe-se à procura de um caminho de fraternidade entre as três grandes religiões monoteístas – marcadas em nosso tempo muito mais pela discórdia do que pelo parentesco de uma origem comum que as deveria aproximar.

Construtores de uma anti-Babel global, sólida, horizontal e tão inclusiva quanto possível, Hans Küng e parceiros como Karl-Josef Kuschel crêem, como outros, que a multiplicidade de línguas, culturas e religiões presta-se a preservar  e respeitar diferenças, bem como construir respeito e paz.

Fonte: IHU Fórum On-Line, www.unisinos.br/ihu

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