Edição 239 | 08 Outubro 2007

O impacto do cadáver de Che Guevara. Um depoimento

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IHU Online

Reginaldo Ustariz Arze é médico e jornalista boliviano, que atualmente vive no Brasil. Viu e fotografou o tratamento dado ao corpo de Che e diz que essa prática “violou todos os sentimentos de cristianismo e, quando não, de humanidade. Foi tratado como se fosse tralha, quinquilharia. Evidentemente, suas vestes eram similares às de um mendigo, mas não era um mendigo. Reitero: era um homem, era o Che”. Arze não esteve na linha de combate, mas nos seus bastidores, como correspondente de guerra.



Escreveu a obra Vida, morte e ressurreição de Che (São Paulo: Brasbol, 2004), resultado de quase uma centena de depoimentos prestados ao autor por testemunhas vivas da história: os chefes militares das emboscadas, os guerrilheiros sobreviventes de Ñancahuazú , residentes tanto em Cuba como na Bolívia, além de camponeses e moradores da zona de guerra. A obra inclui dois grupos de fotografias, que somam mais de 200 imagens absolutamente inéditas. Metade delas foi tirada pelo autor durante a Guerrilha do Che na Bolívia. Algumas delas, cedidas pelo autor, você confere na entrevista a seguir, concedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line.

IHU On-Line - O que lembra do momento em que viu o corpo de Che Guevara? O que sentiu?
Reginaldo Ustariz Arze -
O impacto foi muito forte, minhas pernas fraquejaram e quase desmoronei. Certamente empalideci, suei, tremi, ao ver aquela figura patética na minha frente, um homem pelo qual eu tinha idolatria. Ele estava, na segunda-feira, 9 de outubro, às 17 horas, em Vallegrande, quando chegou aos pés do helicóptero, com os olhos fechados. Mas, no dia seguinte, quando cheguei à lavanderia do Hospital “Nuestro Señor de Malta”, reanimei-me, pois o vi com os olhos abertos. Seu “olhar” parecia desafiante, digno. Não era um cadáver qualquer que eu via em minha frente. Era um HOMEM.

IHU On-Line - Como descreve o tratamento dado ao corpo de Che?
Reginaldo Ustariz Arze -
O tratamento dado ao seu corpo violou todos os sentimentos de cristianismo, quando não de humanidade. Foi tratado como se fosse tralha, quinquilharia. Evidentemente, suas vestes eram similares às de um mendigo, mas não era um mendigo. Reitero: era um HOMEM, era o CHE. Tenho várias fotografias onde se vê o desapreço e o desrespeito a um cadáver, tudo realizado não somente pelos soldados bolivianos, alguns tirando-o dos cabelos, outros rindo na frente dele, puxando com violência sua roupa para lhe tirar as impressões digitais e formolizá-lo, algo inacreditável, o agente da CIA , Eduardo Gonzáles, lhe dando um pontapé. Descobri a identidade dele somente depois de quase 20 anos, quando li um livro dos escritores cubanos Addys Cupull e Froylan Gonzales, no qual citavam que o mencionado senhor vangloriava-se, contava orgulhoso que tinha lhe dado um “valente e corajoso pontapé”.

IHU On-Line - Quais são os fatos concretos, do ponto de vista jornalístico, mais importantes na vida e na morte de Che Guevara?
Reginaldo Ustariz Arze -
Che, Fidel, Raúl e Camilo Cien Fuegos  constituíam o que de mais importante Cuba tinha e estavam todos no poder. É claro que o comandante máximo era Fidel Castro, mas todos tinham o poder na mão. No meu livro, no capítulo intitulado “O Ser humano mais completo de nossa era” (frase de Jean-Paul Sartre ), achei perto de 30 profissões e/ou virtudes de Che Guevara: pedreiro, maquinista, agricultor, esportista, jornalista, escritor, diplomata, médico, cientista, fotógrafo (com isso viveu muito tempo no México), piloto de avião, enxadrista, político, guerrilheiro insuperável, estrategista excepcional e muito mais. Da morte dele, o fato mais importante foi a mentira divulgada a todo o mundo de que “Che morreu em combate no dia 8 de outubro de 1967”. Quando observei na lavanderia que o despiram com facilidade, que seus membros não estavam rígidos, ou seja, que não tinham “rigor mortis”, algo obrigatório para quem tivesse falecido 24 horas antes, cheguei à conclusão, na mesma segunda-feira, 9 de outubro, às 18 horas, de que Che não tinha sido morto em combate. Inclusive, perante esta suspeita, aproximei-me com grande dificuldade. Nessa mesma hora, coloquei a mão sobre seu cadáver e, pela segunda vez, quase desmoronei. Não estava gelado, ainda estava morno; prova inquestionável de que tinha sido morto umas quatro a cinco horas antes. Denunciei isso no dia seguinte, a todo o mundo, dizendo na frente de 40 jornalistas e fotógrafos: “Che não morreu em combate, foi assassinado, foi executado à queima-roupa”.

IHU On-Line - Quais são as conseqüências da sua declaração de que “Che foi executado à queima roupa”? O que aconteceu depois disso?
Reginaldo Ustariz Arze -
A denúncia foi feita perto do meio-dia, na própria lavanderia onde me coloquei de ex-professo para denunciar o crime naquele círculo conspiratório, onde seria mostrado um CHE derrotado, Corpus Delicti. Por volta das quinze horas, acompanhei os quarenta jornalistas num avião a Cochabamba, dirigi-me junto com o Senhor Bejar à redação do jornal, onde redigi, entre outras, uma matéria intitulada “La autopsia del Che”, na qual se confirmava, com meus magros conhecimentos de medicina legal, pois sou médico, com luxo de detalhes, a execução de Che. Bejar recusou-se a publicar. Argumentei, implorei e nada. Finalmente, lhe disse: “Eu assino e assumo a responsabilidade”. Ele me respondeu: “A lei de imprensa me coloca como responsável. Se seu artigo for publicado amanhã, acontecerão duas coisas: você será morto e meu jornal fechado”. Sem me dar tempo de responder, me deu as costas. Indignado, voltei a Vallegrande no dia 12, disposto a investigar mais profundamente. Para tanto, embarquei como médico a La Higuera. Foi graças a estas credenciais, indo sem câmera fotográfica, em nenhuma hipótese como jornalista, que entrei na zona de guerra, no dia 12, “montado num caminhão pau-de-arara”, junto com porcos e galinhas. Fiquei em La Higuera e proximidades por dez dias. Descobri muitas coisas, entre elas, que realmente Che tinha chegado vivo a Vallegrande. Retornei a Cochabamba, disposto a seguir viagem a La Paz, pensando em publicar em outro jornal menos vulnerável que Prensa Libre, o qual já tinha sido fechado uma vez por publicar um comunicado do E.L.N . Mas, quando cheguei em minha casa, felizmente de noite, no meio da escuridão e chuva, minha mãe, ao me ver entrar, ajoelhou-se e me disse: “Filho, foge, o exército e a policia estão atrás de você”. Esta é a origem de como e por que moro no Brasil há 40 anos. Coloquei um esparadrapo na minha boca e obedeci a minha mãe. Aconteceu que todos esses dias minha família viu pessoas suspeitas esperando na entrada na minha casa, pois já tinham ido me procurar pessoalmente, e, felizmente, como cheguei de noite e com chuva, eles tinham ido embora.

IHU On-Line - O que o senhor entende pelo processo de “ressurreição” de Che?
Reginaldo Ustariz Arze -
Tome-se a palavra não no sentido teológico e sim no sentido histórico dos fatos, pois quando digo que Che ressuscitou é porque, embora a palavra pudesse estar mal empregada, ele jamais morreu. Suas idéias estão vigentes hoje em dia, tão vigentes que na Bolívia, 39 anos depois, quando Evo Morales tomou o poder, disse publicamente, dezenas de vezes, que seu ídolo é o Che, e que seu partido segue, entre outras coisas, os alinhamentos do Che. Quando tomou posse da presidência, em janeiro de 2005 (estive presente), no Congresso Nacional, ele rendeu homenagem póstuma ao Che, na frente dos militares que 40 anos atrás o tinham assassinado.

IHU On-Line - Como a maneira com que Che enfrentou a morte contribui para a compreensão de sua luta, de sua causa e da herança cultural deixada por ele?
Reginaldo Ustariz Arze -
O fato de ele abandonar o poder para voltar à guerra, um asmático, procurando um fator desencadeante de suas crises (a umidade da selva), o engrandeceu demais, inclusive, paradoxalmente o brutal assassinato o tornou um mártir. Com o correr dos anos, isso também aumentou, ao se descobrir toda a vida de Che, e, principalmente ao se fazer público seu “Diário de Guerra”. Por outro lado, a serenidade com que enfrentou seu verdugo, o suboficial Mario Teran, quando lhe disse: “Dispare. Você vai matar um HOMEM” mostra com clareza que tinha plena consciência do que fez e o que viria depois de sua morte. Ele foi sabendo que poderia morrer, como disse mais de uma vez nas suas cartas.

IHU On-Line - Qual é a contribuição da divulgação da foto de Che morto para a criação do mito em torno dele?
Reginaldo Ustariz Arze -
O Che com os olhos abertos que bati um rosto lindo, como os artistas nos mostram Jesus, com os olhos abertos, brilhantes, tranqüilos, serenos, fez com que, desde o primeiro momento, ele fosse comparado com Jesus Cristo, talvez não só por este fato, mas também porque o povo de Vallegrande pôde compreender que morreu por uma causa justa, como morreu Jesus. Vou contar esta história: uma senhora, na manhã de terça-feira, quando foi permitido a todo o povo de Vallegrande se despedir de Che, vinha gritando e gesticulando “Onde está esse tal Che, aquele que matou os nossos soldadinhos?”. Na medida em que ia avançando, sua voz se fazia mais mansa, trêmula e começou a tartamudear: “ooonnddeee esstaaa essse taaall... Óóhh Meu Deus ele parece Jesus Cristo”, e persignou-se.

IHU On-Line - Como foi o processo de elaboração do livro Vida, morte e ressurreição de Che? Teve alguma surpresa? O que mais o marcou? Que imagem o senhor tem de Che Guevara após a pesquisa para a elaboração do livro? Mudou a forma como o via antes?
Reginaldo Ustariz Arze -
Esta é uma história na qual está involucrado o ego da pessoa. Não serei nem um pouco modesto. Justifico: serei “um índio verdadeiro”, fazendo um eco inverso a Chanfort, que disse: “a falsa modéstia é a mais decente de todas as mentiras”. Meu livro Vida, morte e ressurreição do Che é fruto de um trabalho de jornalismo investigativo que me levou quase quatro décadas, quatro viagens à Argentina e a Cuba, mais de vinte idas a Bolívia. Para quê? Para colher depoimentos e mais depoimentos, procurar documentos, provas, imagens, fotos etc. Quando concluí meu trabalho, em 2000, descobri que tinha escrito mais de 2000 páginas. Então, pensei: “Publicarei em três tomos: Tomo I, sua vida; tomo II, sua morte; e tomo III, sua ressurreição”. Procurei mais de uma dezena de editoras do Brasil, Argentina, Chile e Espanha para publicarem meu trabalho. Todas se recusaram, justificando ser longo e muito caro. Como não iria jogar no lixo tanto trabalho, resolvi criar minha própria editora. Assim, de autor, me converti também em editor. Publiquei pela primeira vez meu livro na Bolívia em 2000. Esgotou-se a primeira edição em seis meses. No Brasil, fiz o mesmo e publiquei em 2004. Não teve a divulgação e nem o êxito que eu esperava. Publiquei um segundo livro, tanto na Bolívia, quanto no Brasil, intitulado O Combate do Churo e o assassinato do Che. Aluguei um estande na 19ª Bienal Internacional do Livro em São Paulo, no ano passado. Surtiu o efeito que eu esperava. Visitaram meu estande três editores, um da Argentina e dois da Espanha. O mais importante, sem dúvida, era o dono da Editora espanhola Nowtilus, que me encontrou no momento exato em que um repórter da Folha de S. Paulo fazia uma entrevista comigo, cujo artigo ocupou meia página do dito jornal no dia seguinte. Retornou, nesse dia, o dono da citada editora e deixou-me seu cartão. Comprou todos meus livros: dois em espanhol, três em português (o terceiro foi “Evo Morales um indígena Presidente”) e foi embora. Uns meses depois, quando adoeceu Fidel Castro, me fez dois pedidos: que publicasse meu livro na sua editora e que escrevesse sobre Fidel Castro. Aceitei. Assim, no mês de novembro, será publicado pela dita editora: Che Guevara: Vida, muerte y resurrección de un mito. Reescrito meu primeiro livro, renovado em 80%, com novas investigações, incluindo mais artigos confidenciais do exército boliviano que tenho em meu poder (são quase 300 documentos confidenciais). O livro tem um “Lead”, um subtítulo precioso, que diz: “Basado en testimonios y documentos confidenciales”. Embaixo, aponta em vermelho bem sobressalente: “El libro definitivo del Che”. Primeiro, será publicado somente nos paises de língua espanhola e logo traduzido a outros (já está sendo traduzido ao francês e italiano). Fará parte da série “História Incógnita”, que publica somente obras de grandes biógrafos e historiadores. Seu site é: www.historiaincognita.com.

Prosseguindo com a parte final de sua pergunta, manifesto que a imagem do Che a cada dia que passa para mim cresce mais e mais. Seu “in-crescendo” parece uma espiral ascendente ilimitada e infinita. Em efeito, eu nunca parei de pesquisar e investigar sobre Che. Tomei os últimos depoimentos no ano passado, na Bolívia, Argentina e Cuba, publicadas agora pela Editora Nowtilus. Cada vez descubro coisas mais maravilhosas sobre ele.

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