Edição 238 | 01 Outubro 2007

Diário de um novo mundo

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IHU Online

Formação sócio-político-econômica cultural do Rio Grande do Sul: olhares da produção audiovisual sobre o Rio Grande do Sul

“A literatura é o modo privilegiado de pensamento rio-grandense.” As palavras são do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil. Em entrevista à IHU On-Line, realizada por e-mail, ele afirma que a literatura gaúcha é a “melhor que se faz no Brasil”, já que existem escritores para todo o tipo de público.

Na entrevista a seguir, ele comenta a produção cinematográfica Diário de um novo mundo, de Paulo Nascimento, que foi baseada em seu livro Um quarto de légua em quadro . Embora nunca tenha esperado fidelidade na produção cinematográfica, Assis Brasil afirma que o filme correspondeu aos escritos de sua obra.

Doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Assis Brasil é professor da mesma universidade e conselheiro do Conselho Editorial do Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul. De sua vasta obra bibliográfica, destacamos Cães da província (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987); Videiras de cristal (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990); O pintor de retratos (Porto Alegre: L&PM, 2001); e A margem imóvel do rio  (Porto Alegre: L&PM, 2003).

O filme Diário de um novo mundo, parte da programação do evento Formação Sócio-político-econômica cultural do Rio Grande do Sul Olhares da produção audiovisual sobre o Rio Grande do Sul, promovido pelo Instituto Humanitas – IHU, será tema de debate no próximo sábado, 6-10-2007. A discussão será comandada pela Prof.ª Dr.ª Miriam Rossini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A exibição do filme ocorrerá às 8h30min, na sala 1G119, na Unisinos.

 

A literatura é o modo privilegiado de pensamento rio-grandense

Entrevista com Luiz Antonio de Assis Brasil

IHU On-Line - Diário de um novo mundo foi baseado na sua obra Um quarto de légua em quadro. Como o senhor avalia a produção cinematográfica? Ela foi fiel aos seus escritos?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
É uma excelente realização, tanto em termos de conteúdo quanto de linguagem visual. Quanto à fidelidade, creio que este é um pseudo-problema, pois nunca esperei nem desejei essa fidelidade. O cinema deve ser fiel a si mesmo, e não ao livro. Contudo, se isso fosse algo que me preocupasse eu diria: sim, foi fiel ao espírito do meu livro.

IHU On-Line - Nas suas obras, é possível visualizar cada passagem, já que a narrativa é bastante visual. É possível traçar um paralelo entre literatura e cinema? Como ambas as artes influenciam na construção da identidade nacional? E como elas nos ajudam a entender a história?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
São quatro questões muito diferentes entre si. Quanto à visualidade, é algo que eu procuro nos meus livros, até porque gosto muito de cinema. Não consigo escrever uma cena sem antes “vê-la”. O paralelo entre literatura e cinema pode ser expresso assim: no início do cinema, este copiava os métodos narrativos da literatura; hoje é o inverso (por exemplo: o flashback do cinema passou ao romance). Já quanto à identidade nacional (ou regional), ela é sempre construída pelos meios simbólicos, e entre estes estão a literatura e o cinema, entre outras artes. A história, tal como a identidade, passa também pelos meios simbólicos. Não apenas pelos livros de História.

IHU On-Line - Um quarto de légua em quadro surgiu como um romance histórico e desestruturou alguns conceitos referentes ao que se conhecia até então sobre este gênero. Quais são as inovações que a obra apresentou na época em que foi lançada?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
É que este livro já antecipava (sem eu o saber) tudo aquilo que veio a ser chamado de metaficção historiográfica, com o recurso, por exemplo, ao romance dentro do romance, que é uma das marcas da pós-modernidade.

IHU On-Line - Qual é a importância da literatura na construção sócio-político-econômica-cultural do Rio Grande do Sul?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
Eis uma pergunta amplíssima. Tão ampla que me limito a dizer que a literatura é o modo privilegiado de pensamento rio-grandense. Os franceses têm a filosofia; os ingleses, a economia; nós, do Sul, a literatura. O Rio Grande não seria o que é, por exemplo, sem O tempo e o vento.

IHU On-Line - Como o senhor percebe a participação dos açorianos na construção do Estado gaúcho?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
Os açorianos nos legaram a língua, que é um dos principais agentes identitários, mas também costumes, festas religiosas e um modo de ser muito apegado à família.

IHU On-Line - Em entrevista à nossa revista, José Hildebrando Dacanal  disse que sua obra foi fundamental para inserir a tradição ficcional no Estado. E reiterou que atualmente não existem escritores como o senhor. Como o senhor avalia a produção literária no Rio Grande do Sul? Estamos carentes de boas histórias ficcionais?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
A nossa literatura é a melhor que se faz no Brasil. Uma prova: dos 10 finalistas do maior prêmio literário nacional, o Jabuti 2007 , cinco são gaúchos. Isso significa algo, e significa muito. Não há nenhum Estado da Federação que tenha um contingente tão expressivo de escritores. Não estamos carentes de nada, rigorosamente nada. Ademais, temos escritores para todo o tipo de público.

IHU On-Line - Quais são seus próximos projetos literários?
Luiz Antonio de Assis Brasil -
Ainda nada muito avançado. Algumas idéias, que vêm e voltam como nuvens. Mas ando numa pista: viajei à França para ir atrás de alguns elementos que me faltavam para desencadear a idéia de meu próximo romance.

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