Edição 238 | 01 Outubro 2007

Uma economia de serviço

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IHU Online

O historiador italiano Giovanni Merlo, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, acredita que o Francisco que hoje faz tanto sucesso “é um produto ideológico, é um ente abstrato, quase uma idéia platônica que cada um constrói para si e utiliza para variadas finalidades”. E completa: “Frade Francisco é um santo descontextualizado, desvirilizado e projetado no universo do imaginário individual e coletivo”.

Giovanni Merlo trabalha na Università degli Studi di Milano, onde desde 1990 é professor de História da Igreja Medieval, vinculado à faculdade de Letras e Filosofia. Desde 1998, é diretor do Departamento de Ciência da História e da Documentação Histórica da Università degli Studi di Milano.

E desde 1994 é presidente da Sociedade Internacional de Estudos Franciscanos, com sede em Assis. Também é autor de diversos livros, entre os quais foi publicado em português Em nome de São Francisco - História dos Frades Menores e do franciscanismo até inícios do século XVI (Petrópolis: Vozes, 2005).

Confira, a seguir, a entrevista:

IHU On-Line - Qual é a importância de São Francisco para a história religiosa e social da Idade média?
Grado Giovanni Merlo -
A importância de São Francisco pode ser relevada através dos modos e formas com que os seus contemporâneos perceberam, interpretaram e utilizaram sua experiência religiosa. A este propósito, convém, no entanto, distinguir pelo menos dois momentos: o primeiro, quando o frade Francisco de Assis ainda estava vivo, ou seja, até outubro de 1226; o segundo, após a canonização ocorrida por obra do papa Gregório IX , no verão de 1228. A história do santo não coincide com aquela do homem. Do ponto de vista estritamente histórico, a importância de São Francisco é muito mais ampla, incomensurável em relação àquela do frade Francisco: para que isso ocorra, é fundamental a decisão do papado de canonizar o homem de Assis. Tratava-se, sem dúvida, de um santo de tipo novo, seja pela origem social, seja pelos traços de sua santidade. De outro lado, a Ordem dos Frades Menores utilizará de modo ativo e o impulso posto em ato pelo papado.
 
IHU On-Line – Quais são os valores presentes na pessoa de São Francisco e quais os que permaneceram como base para a Ordem dos Frades Menores?
Grado Giovanni Merlo -
Em síntese, poder-se-ia dizer: escolha de pobreza evangélica e oração. O despojamento total implica a renúncia, tanto a bens materiais, como à própria afirmação pessoal. Na renúncia aos bens, está incluso o irrenunciável empenho de dedicar-se ao trabalho manual, para o qual não se pede uma recompensa social, limitando-se a receber quanto seja necessário e indispensável para a sobrevivência e recorrendo à esmola de porta em porta somente quando não se receba a recompensa devida pelo próprio trabalho. No testemunho cristão de Francisco e dos seus primeiros irmãos, há um caráter profundamente desarmado, que se exprime desde a saudação “O Senhor te dê paz”. Há uma reversão dos valores, ou melhor, dos desvalores do mundo, aos quais se conecta, todavia, a plena aceitação da vida. Francisco e seus “fratelli” se separam da cidade sem sair da sociedade, compartilham as condições de vida dos marginais, dos deserdados, dos últimos e dos penúltimos. Praticam uma economia de serviço. Não permitem ao dinheiro entrar em sua existência. Honram a humanidade dos doentes e dos leprosos. Fazem-se servos “inúteis”, anunciando uma mensagem que incentive os outros à penitência e à conversão. Deixam-se guiar pelo Espírito, restituindo a Deus toda coisa boa. Seguem um Jesus pobre, humilde e refutado. A fraternidade do frade Francisco é caracterizada por uma dinâmica de fluidez e de uma acentuada capacidade de adequar à chegada da realidade o “viver segundo o modelo do santo Evangelho”, sem perder seu profundo sentido.

IHU On-Line - Quais sãos os nós e as passagens mais relevantes na vida de São Francisco e de Santa Clara? 
Grado Giovanni Merlo -
No mérito da pergunta, deve-se realizar uma síntese que certamente reduz a complexa riqueza da vida do frade Francisco e da senhora Clara. Para Francisco, filho de Petro di Bernardone, há sobretudo o encontro com os leprosos, em 1205-1206, que é a ocasião que lhe é oferecida por Deus para iniciar o seu caminho de conversão, para descobrir o valor absoluto da encarnação divina, para aceitar de cheio a condição humana. Alguns anos depois, há a viagem a Roma com os seus primeiros “Fratelli”, para obter do papa Inocêncio III a confirmação da vontade de “viver segundo o modelo do santo Evangelho”. Em 1219-1220, frade Francisco se transfere ao Ultramar e nascem as primeiras evidentes tensões no interior de sua fraternidade: para superá-las, o frade Francisco decide ligar-se mais diretamente ao papa através da figura do cardeal protetor, o cardeal Ugolino di Conti, futuro papa Gregório IX . Em 1224, frade Francisco “recebe” os estigmas no Monte Alverne, em cumprimento de uma experiência religiosa feita também de duros contrastes com uma parte consistente dos seus frades: os estigmas são a prova de que Francisco renunciou à sua vontade para abandonar-se totalmente à vontade do Pai “que está nos céus”. Entrementes, sua fraternidade recebeu, em 29 de novembro de 1223, a definitiva aprovação pontifícia com a carta Solet annuere  de Honório III . Para Clara, filha de Favarone di Offerduccio, é fundamental o dia 18 de março de 1218, quando recebeu a tonsura do frade Francisco, renunciando “ao mundo e a todas as coisas terrenas” para poder “servir a Deus”. Algum tempo depois, uniram-se a ela outras senhoras da aristocracia assisiense e o início da experiência comum junto à igrejinha de São Damião. Na década de 1220-1230, Clara age com firmeza, mesmo em confronto com o cardeal Ugolino, depois Papa Gregório IX, na defesa da rigorosa pobreza e manutenção dos elos com os frades Menores e a memória operante de Francisco e das origens franciscanas, conquistando, entre outras coisas, em 17 de setembro de 1228, o assim chamado “privilégio da pobreza”, ou seja, o direito de não “receber posses” para poder realizar plenamente o “propósito de altíssima pobreza”. Nas duas décadas subseqüentes, os entendimentos de Clara e de suas “irmãs” são todos direcionados a reivindicar de pleno direito a própria pertença, como componente feminino, à fraternidade dos Menores, segundo a escolha originária de “viver segundo a perfeição do santo Evangelho”, na obediência a Francisco, e a reforçar a centralidade da escolha de pobreza como condição e expressão da “seqüela do Cristo” nas formas particulares praticadas pela comunidade de São Damião. Tudo isto parece encontrar o seu ápice na carta Solet annuere de 9 de agosto de 1253, com a qual Inocêncio IV  aprova aquela que nós definimos como Regra, o texto da “forma de vida” das irmãs de São Damião, composto pela mesma Clara, a qual morrerá aos 11 de agosto de 1253, dois dias depois de ter obtido o quanto, no plano humano, havia desejado acima de tudo no decurso dos últimos anos de sua vida.
 
IHU On-Line - Por que São Francisco desperta o interesse e a admiração de tantas gerações?
Grado Giovanni Merlo -
A resposta a esta pergunta é muito difícil e complicada: porque ela parece pressupor que exista um “modelo São Francisco” à disposição de todos em sua perfeita e imutável definição e identidade. No entanto, o melhor, felizmente não é assim. O São Francisco que tem hoje tanto sucesso é um produto ideológico, é um ente abstrato, quase uma idéia platônica que cada um constrói para si e utiliza para variadas finalidades. Frade Francisco é um santo descontextualizado, desvirilizado e projetado no universo do imaginário individual e coletivo. Tais operações são possibilitadas, entre outros aspectos, por aquela mina hagiográfica constituída pelas assim chamadas Fontes franciscanas, com as conexas e não menos importantes, se não decisivas, configurações iconográficas. Nestas, pode-se encontrar de tudo e o contrário de tudo: e São Francisco se colore com as mais variadas tintas. Há o São Francisco vermelho, anticapitalista e anti-imperialista que teria prefigurado a “libertação” das populações oprimidas; há o São Francisco verde, ecologista e amigo dos animais, que teria indicado o caminho para a defesa do ambiente; há o São Francisco rosa e feminista, que teria anunciado a “libertação” das mulheres. Na Itália, houve até mesmo o São Francisco negro, nacionalista e fascista, que alguns definem como “o mais santo dos italianos e o mais italiano dos santos!”. O discurso poderia continuar, não sem tristeza e desconforto. A experiência religiosa de Francisco é estudada e respeitada, bem além de toda instrumentalização de boa ou má fé. Respeitar e estudar requer fadiga inteligente, além de assunção consciente e dolorosa das próprias responsabilidades aqui e agora.
 
IHU On-Line - Em que sentido os “escritos” de São Francisco de Assis contribuem para reconstruir sua experiência humana e entender os seus horizontes de vida?
Grado Giovanni Merlo -
A pergunta é oportuna, porque Francisco é um dos pouquíssimos “santos”, de quem provieram os “escritos”, alguns realmente autógrafos. Partir dos “escritos” para entender sua experiência humana é hoje indispensável, não obstante as dificuldades filológicas que lhes estão conexas. Entre estes escritos, é de absoluta importância o Testamento  que frei Francisco, na idade aproximada de quarenta e cinco anos, ditou no início do outono de 1226. Quase cego e debilitado pelas doenças, ele quis deixar uma mensagem de imediata compreensão, forte e inesquecível, ditando e fazendo escrever um texto que os frades Menores deveriam manter e ler junto à própria Regra . Ele o endereça aos seus frades, como “recordação, admoestação e exortação”, a fim de que sejam mais conscientes do significado evangélico, e universal, da escolha religiosa por eles feita no momento em que entraram (ou entrarão) na Ordem dos Menores. O Testamento permite compreender melhor o sentido profundo das intenções originárias e originais do frade Francisco: senso profundo de que nenhuma contingência do presente e do futuro, nem qualquer decisão de quem quer que seja deverão danificar. O Testamento constitui também o texto base que permite aproximar os outros “escritos” e reconduzi-los à necessária contextualização, sem cair no erro metodológico e filológico de “fragmentá-los” e de espaçá-los numa série de citações, num “discurso” que, de modo fatal, desnatura e ideologiza quanto os próprios “escritos” queriam propriamente significar e transmitir.



Do Testamento de Francisco de Assis:

“E depois que o Senhor me deu irmãos ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou o que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples e o Senhor Papa mo confirmou. E os que vinham para abraçar este gênero de vida distribuíam aos pobres o que acaso possuíam. E eles se contentavam com uma só túnica remendada por dentro e por fora, com um cíngulo e as calças. E mais não queríamos ter. Nós clérigos recitávamos o ofício divino como os demais clérigos; os leigos diziam os pais-nossos. E gostávamos muito de estar nas igrejas. Éramos iletrados e nos sujeitávamos a todos”.

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