Edição 237 | 24 Setembro 2007

Maura Corcini Lopes

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IHU Online

Honestidade e solidariedade são valores definitivos para a professora Maura Corcini Lopes, 35 anos. Ao se deparar no final do magistério com uma aluna com deficiência auditiva incluída na escola comum e não saber se comunicar e nem trabalhar pedagogicamente com ela, a professora buscou olhar para a surdez de outras formas. Desse modo, Maura passou a olhar a diferença cultural e a inclusão social como alguns dos temas para a sua profissão. Confira, a seguir, a entrevista concedida por ela à revista IHU On-Line:

 

Origens e infância – A família do meu pai é de São Leopoldo; e a da minha mãe, de Santiago. Até os 12 anos, morei no Morro do Espelho, em São Leopoldo. Lá, eu tinha um grupo de amigos com os quais convivia inventando brincadeiras e histórias. Brincávamos do final da aula até o início da noite. Era um grupo de meninos e meninas muito grande, e tínhamos a mesma idade. Nós saíamos do colégio e íamos para casa correndo, para assistir ao Sítio do Pica-pau Amarelo e brincar com os amigos.

Pais – Minha mãe se aposentou como costureira. Meu pai trabalhava em uma empresa de borracha e se aposentou muito cedo. Sempre fui muito próxima da minha mãe, que comprava todas as brigas e nos ensinava que tínhamos que assumir responsabilidades por tudo o que fazíamos. Embora tivesse uma relação de afeto com ambos, tinha e tenho uma amizade muito grande com ela.

Valores - Os valores mais pontuais que os meus pais me ensinaram foram solidariedade e honestidade. Por pior que fosse o que eu tivesse para contar, se eu falasse a verdade, eu tinha um encaminhamento; se eu mentisse, e alguém descobrisse, era muito ruim. Não se admitia mentira.

Relação com a irmã – Em algumas fases da vida nas quais o irmão mais velho deve assumir a responsabilidade de sair com o irmão mais novo, fica difícil assumir a posição de ser mais velha.  Eu tenho 35 anos, minha irmã é quatro anos mais nova do que eu. Quando éramos pequenas, havia horas maravilhosas, nas quais existia uma cumplicidade muito grande entre nós. Porém, a diferença de idade, por mais que hoje não faça diferença, naquela época fazia. Hoje, temos uma relação de amizade e de cumplicidade muito forte: sabemos que podemos contar uma com a outra.

Estudos – Aprendi a ler e a escrever com uma vizinha, que era um pouco mais velha. Quando brincávamos, eu sempre era a aluna; ela, a professora. Já entrei na escola alfabetizada, e, com isso, tive problemas de aprendizagem, porque eu era impaciente e desatenta. Sempre alcançava a média, mas nunca fui uma aluna estudiosa, durante os anos iniciais. Quando entrei para o Ensino Médio, onde cursei Magistério, e na graduação, mudei, neste sentido. Passei a gostar mais do que eu fazia e descobri um mundo de leituras, o que devo a um tio, que sempre me estimulou a ler.

Separação – Quando os meus pais se separaram, eu tinha 11 anos. Minha mãe decidiu ir morar próximo à família dela, e nós fomos embora para Santiago. Olhando para a minha experiência, posso dizer que foi muito bom ter sido criada por pais separados, e não por pais que mantivessem uma família, mas sem a devida estrutura e harmonia. Eu e minha irmã fomos morar com a nossa mãe. Meu pai continuou morando em São Leopoldo, e nós íamos passar férias com ele, assim como ele ia nos visitar. Não ficou nenhum trauma da separação.

Santiago - Em muitas coisas, eu tenho uma identificação maior com Santiago, porque passei toda a adolescência lá. Tenho muitos amigos que conquistei. No início, mudar de cidade não foi fácil, pois deixei em São Leopoldo muitas pessoas queridas e companheiras. Mas, como a minha família é grande e minha mãe conseguiu encaminhar bem a nossa mudança, consegui superar a fase inicial da mudança. Fiquei lá até os 17 anos, quando entrei para a universidade.

Mudança para Santa Maria – Durante a graduação, morei com duas amigas que também eram de Santiago. Aos 17 anos, eu estava longe de casa, com pouco dinheiro, e me achava muito importante por causa disso. Foi quando descobri que eu muito mais disciplinada do que eu imaginava. Eu era ré e juíza de mim mesma. Com isso, percebi que a educação que eu recebi estava fazendo efeito. Descobri que a liberdade não significa sair de casa, mas sim ter condições de fazer escolhas.

Carreira – Me formei em Educação Especial – Habilitação Em Deficientes da Audiocomunicação, na Universidade Federal de Santa Maria. Optei por esta área quando tive uma aluna deficiente auditiva, enquanto fazia o Magistério. Eu não sabia lidar com a minha aluna. Com isso, eu escolhi a educação de surdos. Consegui olhar diferente para esta área, o que me despertou interesse em fazer mestrado. Mas, em Santa Maria, não havia professor nesta área dentro do Pós-Graduação. Durante mais um ano, morei lá e fiz a especialização em Educação Especial, além de trabalhar com aquisição de linguagem. Quando concluí a especialização, aos 21 anos, fiz seleção para o mestrado na UFRGS, passei e me mudei para Porto Alegre. No ano em que terminei o mestrado, entrei no doutorado, também na linha de Educação Especial. Fiz o doutorado em quatro anos, e já trabalhava na Unisinos.

Trabalho – Aos 18 anos, eu comecei a trabalhar em uma escola de educação infantil, na qual eu ajudava a cuidar das crianças. Além disso, eu e um grupo de amigas da universidade trabalhávamos para uma empresa de festas infantis. Aos finais de semana, éramos recreacionistas e ganhávamos dinheiro suficiente para as necessidades que tínhamos na época.

Unisinos – No primeiro ano de doutorado, fiz seleção na Unisinos, onde ingressei em fevereiro de 1998, no curso de Pedagogia. A Unisinos me forneceu uma bolsa de 20 horas para que eu concluísse o doutorado. Eu tive que aprender a ser diferente, porque tinha um compromisso com a universidade que era concluir o meu curso em dois anos. Acompanhei a universidade em momentos distintos. Fiz parte do Núcleo de Apoio Pedagógico (NAP), como assessora pedagógica no Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas. Em alguns momentos, participei do Planejamento Estratégico da Universidade. Era um compromisso de fazer mudanças na universidade. Nós pensávamos, ouvíamos as pessoas para poder discutir o encaminhamento dessas mudanças. Esse é um processo lento, e ainda está em andamento.

Sala de aula - Ministro disciplinas na graduação da pedagogia, nas licenciaturas e na pós-graduação em Educação. Na graduação, faço parte do Programa de Aprendizagem Cultura, Diferença e Educação. Neste semestre, tenho uma turma muito boa. São 60 alunos que lêem outras coisas, além das minhas indicações. Isso não acontece com a totalidade do grupo, mas estou sempre brigando para conquistar mais um. A minha outra turma é composta por 17 alunos. Eles estão discutindo as questões das representações sobre a inclusão e a deficiência. É uma disciplina que trata de deficiência mental e inclusão, além de anormalização e inclusão, instigando a pensar de outra forma. Inclusive, esse é um nome provocativo, porque aborda o sentido do anormal.

Casamento e filhos – Sou casada oficialmente há alguns dias, embora já morasse junto com meu marido há mais tempo. Sobre filhos, penso que esse é um projeto que tem que ser muito pensado. Ter filhos, no mundo de hoje, não é uma coisa muito fácil e é algo para ser discutido a dois. Para mim, o matrimônio é uma relação de companheirismo e de cumplicidade.

Livros – A obra Vidas desperdiçadas, de Zygmunt Bauman para mim, fez muito sentido, talvez porque eu tenho interesse pelo tema da inclusão. O livro me faz pensar a inclusão de uma outra forma, no viés de inclusão e exclusão como uma sendo produtora da outra.

Filmes – Um dos últimos filmes que assisti e tenho levado para os meus alunos é A vila, dirigido por M. Night Shyamalan. Através deste filme, é possível discutir a normalidade e o fundamentalismo, o sonho de pureza, do isolamento, para tentar salvar a comunidade. Para mim, este filme é bastante significativo.

Política nacional – Há uma desmoralização do quadro político, e nisso a educação está articulada. Sempre fui muito militante e aprendi a acreditar em um mundo diferente, na revolução. Hoje, não acredito mais nisso, mas, sim, que pequenas revoltas podem ser o caminho para manter a luta.

Instituto Humanitas – O Humanitas é um espaço de reflexão e de discussão crítica, que é o papel da universidade. Além disso, é um lugar de tensão acadêmica, um campo de luta de idéias, o que eu penso ser muito produtivo.

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