Edição 237 | 24 Setembro 2007

Recortar o real em função das nossas necessidades: condição para a vida

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“Em A evolução criadora, Bergson defende que a função do intelecto é adaptativa e assim naturaliza a inteligência. A nossa ação somente se exerce sobre pontos fixos, agir é dominar a matéria procurando, na pura mobilidade que é o estofo da realidade, estabilidades cômodas. Para viver, é preciso recortar o real em função das nossas necessidades”, acentua a filósofa Débora Morato, em entrevista dada com exclusividade à IHU On-Line. A pesquisadora, que leciona na Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), em São Carlos, São Paulo, afirma que A evolução criadora há “respostas a alguns desafios próprios ao pensamento contemporâneo, como é o caso do problema do dualismo mente/corpo, das relações entre instinto e inteligência, do papel do tempo na descrição dos fenômenos vitais, do sentido da evolução, entre outros. Destacam-se a crítica aos sistemas da tradição e a necessidade de compreender a dimensão histórica do real e do homem”.

Morato é graduada, mestre e doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Sua dissertação intitulou-se Espaço, percepção e inteligência - Bergson e a formação da consciência empírica humana e sua tese, Consciência e corpo como memória: subjetividade, atenção e vida à luz da filosofia da duração, ambas orientadas por Franklin Leopoldo e Silva. É uma das organizadoras das obras Subjetividade e linguagem (São Carlos; Curitiba: Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal de São Carlos, 2006); Questões de Filosofia contemporânea ( São Paulo; Curitiba: Discurso Editorial; UFPr, 2006) e A fenomenologia da experiência - Horizontes filosóficos da obra de Merleau-Ponty (Goiânia: Ed. da UFG, 2006). Confira a íntegra da entrevista, concedida por e-mail.

IHU On-Line - Cem anos após sua publicação, qual é a atualidade da obra A evolução criadora?
Débora Morato -
Podemos apontar a atualidade de A evolução criadora em duas vertentes: uma referida à história da filosofia, e outra a um campo que podemos delimitar como epistemológico. Tratando de problemas comuns ao horizonte do início do século XX, o livro apresenta respostas a alguns desafios próprios ao pensamento contemporâneo, como é o caso do problema do dualismo mente/corpo, das relações entre instinto e inteligência, do papel do tempo na descrição dos fenômenos vitais, do sentido da evolução, entre outros. Destacam-se a crítica aos sistemas da tradição e a necessidade de compreender a dimensão histórica do real e do homem. É importante ressaltar o papel do último capítulo da obra, em que Bergson expõe o “mecanismo cinematográfico” da inteligência e mostra como a racionalidade ocidental é vítima da obsessão pela imobilidade e pela repetição – ela perde de vista a mudança e o movimento que respondem pela essência da realidade. Temos ali o desenvolvimento da crítica endereçada à história da metafísica racional, que Bergson considera sustentada por uma ilusão natural ao entendimento: a imagem ou a idéia do Nada. Em relação a essa famosa crítica do negativo, a obra de Bento Prado Junior  Presença e campo transcendental (publicada pela Edusp em 1989 e traduzida para o francês em 2002, editora OLMS) tem uma importância capital. Ela nos apresenta uma interpretação original e instigante sobre a filosofia de Bergson, mostrando como a discussão da ilusão do Nada explicita as direções mais fundamentais de todas as análises críticas do filósofo e ressaltando a pertinência da denúncia do papel dessa ilusão na história da filosofia. O livro tem hoje reconhecimento mundial, e um de seus méritos foi ter percebido a importância da discussão do pressuposto do Nada para a filosofia do século XX.

Uma articulação entre dados da ciência e construção metafísica

A segunda vertente que atesta a atualidade da reflexão de A evolução criadora é o modo pelo qual ela articula dados da ciência e construção metafísica. Bergson leva até o limite a capacidade de meditar sobre as descobertas e inovações da biologia evolutiva, oferecendo hipóteses especulativas guiadas pelos fatos ou por sua leitura sem pressupostos. As discussões pontuais com os cientistas da evolução explicitam um dos aspectos mais interessantes da filosofia bergsoniana, precisamente a denúncia de que existem conceitos previamente inseridos no trabalho da ciência, isto é, pressupostos latentes que dirigem a observação e a interpretação dos dados do trabalho experimental. Todas as obras de Bergson reforçam essa dificuldade: os dados da ciência são observados e descritos por um trabalho que é, na verdade, pura interpretação, cujos princípios os cientistas ignoram – em outros termos, usam teses e conceitos sem que o percebam. No caso das ciências biológicas, as conseqüências dessa reflexão crítica têm especial importância hoje, momento em que elas ocupam papel de protagonistas do progresso científico e dos dilemas que esse progresso impõe à humanidade.

IHU On-Line - Qual é a contribuição de Bergson para compreender a formação da consciência empírica humana?
Débora Morato -
Ao procurar compreender os fenômenos vitais, Bergson considera a temporalidade ou duração. E logo percebeu que a temporalidade está essencialmente ligada à consciência. Nesse sentido, sua filosofia desenvolve-se como um estudo progressivo e profundo da consciência em geral, dos processos em que ela se manifesta. Ele procura superar a noção de consciência herdada das filosofias anteriores, que a limitam à sua dimensão de consciência reflexiva e intelectual, ou seja, “constituinte”, se quisermos usar o termo próprio às filosofias transcendentais. Bergson recupera o papel do estudo da consciência psicológica numa tentativa de desenvolver um empirismo verdadeiro. A consciência é originariamente uma inserção prática no mundo, surge na própria relação que se estabelece entre os corpos vivos e os seus ambientes. A reflexão sobre a consciência necessita do estudo das ações do corpo; é pelo critério da ação, aliás, que Bergson determina as diferenças entre as coisas e os organismos, entre a matéria e a consciência, entre o em si e o para si, os primeiros marcados pela ação necessária e automática, os segundos termos da oposição apresentando a capacidade de elaborar ações indeterminadas. Se a consciência é originariamente ação no mundo, essencialmente ele é progressão contínua do passado no presente invadindo o futuro – ela é duração. Encontramos no segundo livro de Bergson, Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito (São Paulo: Martins Fontes, 1990), uma hipótese detalhada e complexa sobre a origem da consciência humana na percepção, a dimensão originária da consciência. Essa obra liga o estudo sobre a interioridade e seus estados psicológicos, o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (Montevideo: Cláudio Garcia, 1944), que dá conta da dimensão profunda e essencial da consciência enquanto progressão qualitativa, ao estudo da consciência em geral, uma espécie de “supra-consciência” criadora que é o centro da metafísica da vida de A evolução criadora. O trajeto que vai da primeira à terceira obra, integrando teoria do conhecimento e teoria da vida, funda-se então sobre um estudo que circula entre psicologia, biologia e metafísica e cujo centro é a noção de consciência – a duração, idéia central de filosofia de Bergson, é metafisicamente compreendida através da análise dos fenômenos conscientes em sua temporalidade concreta.

IHU On-Line - Como o espaço, a percepção e a inteligência se relacionam em sua obra e pensamento?
Débora Morato -
A teoria da inteligência de Bergson foi o primeiro aspecto de sua filosofia que chamou minha atenção e dediquei a esse tema grande parte do meu mestrado. Em linhas gerais, Bergson atribui à inteligência uma forma, o espaço, e uma origem, a percepção. A inteligência tem um funcionamento que pode ser esclarecido pela metáfora do “mecanismo cinematográfico”: ela recorta momentos ou partes fixas dos fenômenos, como que “congelando” a dinamicidade do real, e tenta recompor a realidade através da justaposição desses instantes recortados de um todo no qual ela está inserida. Em outros termos, tudo o que a inteligência pode conhecer se dá por refração num meio homogêneo e vazio, no qual são desdobradas partes ou unidades nitidamente separadas, e isso se deve justamente ao fato de que ela é uma faculdade de ação e desenvolve-se na mesma medida do progresso da linguagem. Em A evolução criadora, Bergson defende que a função do intelecto é adaptativa e assim naturaliza a inteligência. A nossa ação somente se exerce sobre pontos fixos: agir é dominar a matéria procurando, na pura mobilidade que é o estofo da realidade, estabilidades cômodas. Para viver, é preciso recortar o real em função das nossas necessidades. Ao desenvolver-se modelada por sua função vital, a inteligência progressivamente leva ao extremo a forma pela qual é capaz de fixar e recortar o real – o espaço, um meio vazio e homogêneo. O espaço é o meio de conservação das partes atualmente dadas por justaposição, fundamento das figuras geométricas e condição da percepção e da concepção de objetos distintos e determinados. Se o real é pura dinamicidade ou diferenciação (“atributos” da duração), é evidente que a visão intelectual dos fenômenos será necessariamente fragmentada e estática, ou seja, distorcida e equivocada, útil para a vida, mas completamente inadequada à compreensão da verdadeira essência dos fenômenos, o que para Bergson é ainda e sempre a tarefa da filosofia.

IHU On-Line - Como a construção da metafísica enquanto experiência integral - conhecimento interior e imediato como atributos da intuição em Bergson - pode ser explicada?
Débora Morato -
A defesa e proposta de refundação da metafísica em novas bases é um aspecto do pensamento bergsoniano que provoca muito interesse e também muita rejeição no ambiente filosófico atual. Afinal, falar de metafísica em plena aurora do século XXI pode parecer provocação. Mas o fato é que Bergson tem o mérito de assumir aquilo que muitos pensadores preferem ignorar: as diversas áreas e os vários temas filosóficos, ao se aprofundarem, encontram por seu próprio desenvolvimento questões de ordem metafísica. Desde logo, ele percebeu que a filosofia evolucionista implica uma hipótese de fundo sobre a criação e o tempo, passando, então, a reformular o equacionamento de temas filosóficos pela crítica dos pressupostos metafísicos herdados da tradição. O desafio que Bergson procura enfrentar é justamente o de refazer a metafísica, agora pautada pela noção de experiência e, portanto, com apoio nos fatos. A título de exemplo, podemos citar o tratamento que ele confere ao problema do dualismo, estudado em Matéria e memória: a discussão e reposição do problema consiste ali em trazê-lo para o terreno dos fatos da memória, mais especificamente aos fatos da psicopatologia (os casos de afasia que estavam na ordem do dia da pesquisa científica na passagem do século XIX ao XX). As doenças da memória mostram uma conservação de lembranças que não se atualizam adequadamente, mas não são destruídas no córtex porque se apresentam em situações inesperadas, reforçando a tese bergsoniana de que lesões cerebrais impedem processos globais de organização, mas não suprimem as “cenas” ou as representações passadas. O que impressiona nessas análises é a capacidade que Bergson tem de extrair conseqüências filosóficas cruciais de fenômenos simples e corriqueiros, tais como o a aprendizado de uma lição decorada ou de um exercício físico, descrevendo a formação de uma memória do corpo em que reside uma das mais belas passagens do livro.

Metafísica como “experiência integral”

A definição de metafísica como “experiência integral” tem relação direta com o método da intuição. A experiência concreta dos seres humanos é sempre uma mistura entre a dimensão temporal e a espacial. O domínio da vida por excelência é misto e, por não se darem conta desse fato, os diversos filósofos da experiência não souberam compreender e descrever a experiência concreta. O método da intuição trabalha em primeiro lugar de modo analítico, procurando dissociar os fenômenos em suas partes puras, seus limites. Há uma definição célebre do trabalho da intuição que explicita o seu funcionamento: ele exige buscar a experiência “em sua fonte”, aquém de sua inflexão no sentido da utilidade que a define propriamente como experiência humana. O trabalho de purificar o misto conduz ao momento originário e, uma vez que Bergson define a realidade como tendência, e a tendência é uma mudança de direção em estado nascente, encontrar o momento nascente é então compreender o real. A intuição é a revelação do real como tendência através de um processo de separação analítica das tendências puras que são vividas por nós, na experiência concreta, como mistura. Além de recuperar o caráter dinâmico que subjaz a toda aparência estável dos fenômenos, a intuição da duração permite superar a própria condição humana, pensando a sua origem numa totalidade que lhe é anterior. A experiência agora não se limita ao misto e não se contenta com a exteriorização prática que institui objetos: pela intuição metafísica, a consciência se volta ao puro, às tendências que originam o domínio misto e é nesse sentido que ela pode ser compreendida como experiência integral – expressão que fecha o texto Introdução à metafísica, traduzido por Franklin Leopoldo e Silva  para a coleção Os Pensadores.

IHU On-Line - Em que aspectos o conceito de "elã vital" nos auxilia a compreender a complexidade das sociedades pós-modernas?
Débora Morato -
Não sou a melhor pessoa para responder a essa questão, mas me parece que é na definição do “elã vital” como impulso a partir do qual uma multiplicidade de tendências começa a se efetivar (em direções divergentes) que temos um bom exemplo dessa possibilidade. Bergson nos apresenta a um modo de compreender a evolução e as organizações diversas como movimento de diferenciação que guardam uma origem comum e, assim, uma memória. A unidade na diversidade apóia-se nessa memória da origem, nessa indistinção originária, na virtualidade de direções amalgamadas que define a duração. A noção de virtualidade e criação, assim como a de diferença interna, são trabalhadas pela filosofia de Gilles Deleuze, sobre a qual o pensamento de Bergson teve grande influência.

IHU On-Line - Partindo da afirmação bergsoniana de que aquilo que nossos sentidos nos fornecem não são a realidade, mas cópias seletivas desta, podemos perceber aí uma influência platônica, como aquelas imagens refletidas no fundo da caverna? Por quê?
Débora Morato -
Parece-me que a aproximação mais adequada entre Bergson e Platão  reside na descrição da intuição como método das divisões que procura discernir no real suas articulações naturais. Quem trabalha essa aproximação é Deleuze, em seu livro Bergsonismo (São Paulo: Editora 34, 1999). Em relação ao conhecimento sensível, podemos dizer que a posição de Bergson é inversa a de Platão, que postula uma superação dos dados da sensibilidade pela abstração que se encaminha às idéias. Na verdade, em sua leitura crítica da tradição, Bergson denuncia a relação interna entre desprezo pelo movente, pela diferença e pela transformação e desvalorização da sensibilidade, vendo no platonismo um dos ápices dessa direção do pensamento racional. Bergson reiteradamente afirma que a metafísica nasceu dos argumentos de Zenão de Eléia  relativos à transformação e ao movimento. Ao chamar a atenção para o absurdo do movimento, o eleata levou os filósofos a procurar a realidade coerente e verdadeira naquilo que não muda. Ocorre que esse “absurdo” tem sua imagem fornecida pela sensibilidade, e a experiência sensível passa a significar aquilo que deve ser superado. Constrói-se, assim, uma posição teórica ou conceituação que literalmente “põe” um mundo, um mundo pensado ou ideal, revelado pelo conceito. Bergson, ao contrário, quer voltar à percepção sensível, ampliando o seu domínio e nela recuperado os índices do real por um contato com sua dimensão originária. É certo dizer que, para Bergson, os sentidos filtram o real e selecionam aquilo que interessa ao organismo, mas ele nunca abre mão da idéia de que tal seleção se efetiva sobre um ato de penetração na própria realidade. O corpo está no mundo e os sentidos retiram algo do mundo, não apenas nos fornecem uma cópia. As sombras de Platão seriam, para Bergson, os recortes estáveis sobre os quais agimos, e a filosofia liberta o homem dessa ilusão, a da imutabilidade, justamente aquilo que, para Platão, seria a essência do real. Nesse ponto, a filosofia de Bergson é essencialmente anti-platônica.

IHU On-Line - Russell criticava Bergson afirmando que sua filosofia não tinha muitos argumentos racionais, mas analogias e metáforas poéticas. Até que ponto essa crítica é procedente e até que ponto está impregnada de um pressuposto que filosofia boa é filosofia hermética, escrita em jargão ininteligível?
Débora Morato -
Talvez haja algo nessa questão um pouco injusto com Russell, mas é certo que ele foi um grande crítico de Bergson. Penso que o verdadeiro problema aqui é a excessiva formalização da linguagem, sua extrapolação em técnica. Bergson é um crítico da capacidade da linguagem no terreno da especulação, já que sua destinação natural não é o conhecimento metafísico ou mesmo teórico. A linguagem é instrumento de adaptação e socialização. Nesse sentido, sua função é possibilitar e desenvolver o trabalho de fixação do real que será a tarefa fundamental da inteligência. A relação entre a filosofia e a linguagem é de extrema complexidade, pois enquanto conhecimento a filosofia é discurso, mas tem que efetivar um trabalho contra as tendências naturais do discurso que não são nada filosóficas. O discurso é fruto da prática, nela se origina e segue assim as direções da ação, enquanto que a filosofia, de algum modo, interrompe a prática, deve inverter os sentido das representações por ela produzidas. Daí o recurso às analogias e às metáforas poéticas, com a intenção de dissolver um pouco a solidificação de significados.

IHU On-Line - Alguns afirmam que na filosofia de Bergson há um encontro com a literatura. Você concorda? Por quê?
Débora Morato -
A duração criadora é o centro da filosofia de Bergson, o que acarreta inevitavelmente um problema: uma vez que a linguagem é uma ferramenta do homem para fixar o real que dura e assim fixar-se a si mesmo na realidade (ou seja, é o instrumento mais importante para a adaptação), ela é, de uma forma geral, inadequada para o conhecimento metafísico. A linguagem é um instrumento de ação e ao se constituir e se aperfeiçoar acaba ocultando gradualmente, com eficácia, os verdadeiros índices do real, a mudança, a transformação, a dinamicidade, a criação do novo. O grande problema que Bergson então enfrentou foi o de propor uma filosofia cujo objeto é inapreensível pela linguagem sem poder escapar de usar o discurso. A questão transforma-se assim na da possibilidade de um discurso filosófico e o caminho para resolver o problema está na aproximação entre filosofia e literatura. A metáfora no lugar do conceito, o discurso que fala às capacidades humanas extra-intelectuais, eis a direção que o filósofo deve tomar: Bergson não só propôs esta via como a seguiu em seu itinerário, produzindo obras filosóficas de notável valor literário e vindo a ganhar o prêmio Nobel de Literatura. Nós temos no Brasil um dos melhores estudos sobre a relação entre o método intuitivo e a discursividade: trata-se do livro de Franklin Leopoldo e Silva, Bergson: intuição e discurso filosófico (São Paulo: Loyola, 1994), publicado em 1994 pela editora Loyola. Ali podemos acompanhar em detalhe como Bergson expõe a função e a estrutura da linguagem, que é para ele a materialização em som e em signos de um sentido, de um pensamento, de uma realidade espiritual. A linguagem congela o sentido, como nos explica Franklin em seu estudo, materializando o pensamento para atender às urgências da ação, da adaptação. Nesse sentido, seu aperfeiçoamento caminha na direção da fixação de significados e da formalização técnica. Se parte do trabalho reflexivo que procura reabilitar a dimensão temporal dos fenômenos consiste em desfazer o que a inteligência e a linguagem fizeram no seu funcionamento natural, compreende-se a função da poesia e da metáfora: recuperar a mobilidade original dos significados, inverter a direção do trabalho da linguagem, usar a linguagem contra si mesma! Esse é um dos temas de maior dificuldade de compreensão, mas também uma das mais ricas contribuições de Bergson ao entrecruzamento da filosofia com a literatura.

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