Edição 237 | 24 Setembro 2007

Uma teoria do conhecimento é inseparável de uma teoria da vida: o antikantismo de Bergson

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Para a filósofa italiana Paola Marrati, “ainda mais importante para nossos debates é a idéia-mestre de Bergson de que não há vão, deixadas de lado quaisquer oposições, entre vida e conceitos, entre processos biológicos e processos congnitivos”. A declaração pode ser conferida na íntegra na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Desde janeiro de 2003, Marrati é professora no Centro de Humanidades do Departamento de Filosofia na Universidade John Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos. Imediatamente antes desse período, lecionava Filosofia da Arte e Cultura no Departamento de Filosofia da Universidade de Amsterdã. Na John Hopkins dirige o programa para o estudo da mulher, gênero e sexualidade, e é membro do Advisory Board of the Film and Media Studies Program. É, também, diretora do programa de pesquisa do Colégio Internacional de Filosofia, de Paris.

É mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea, pela Università degli Studi di Pisa, Itália. Recebeu seu diploma d'Etudes Approfrondies na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), Paris, e seu PhD em Filosofia na Universidade Marc Bloch, em Estrassburgo, França. Escreveu, entre outras obras, Gilles Deleuze. Cinéma et philosophie (Presses Universitaires de France, 2003) e Genesis and trace. Derrida reader of Husserl and Heidegger (Stanford: Stanford University Press, 2005). Está prestes a ser publicado o livro The event and the ordinary: on the philosophy of Gilles Deleuze and Stanley Cavell.

IHU On-Line - Qual é a atualidade da obra A evolução criadora, 100 anos após seu lançamento?
Paola Marrati –
Em A evolução criadora, como em seus outros trabalhos, Henri Bergson (1859-1941) engaja-se em uma séria e bem informada discussão sobre teorias científicas e descobertas de seu tempo e, particularmente, seu conhecimento de diferentes desenvolvimentos na teoria evolucionista depois de Darwin . Não é necessário dizer que, um século mais tarde, as idéias de Darwin sobre evolução foram desenvolvidas e refinadas; particularmente, a descoberta do DNA e mecanismos genéticos de evolução modificaram profundamente nosso entendimento dos processos evolutivos. Apesar disso, os principais insights de Darwin não foram desafiados e em consideração a isso muita da análise filosófica de Bergson é pertinente ainda hoje. Ainda mais importante para nossos debates, na minha opinião, é a idéia-mestre de Bergson de que não há vazio, deixadas de lado quaisquer oposições, entre vida e conceitos, entre processos biológicos e processos cognitivos. Contrário a uma longa tradição que opõe os misteriosos e irracionais poderes da “vida” à razão e conceitualidade, Bergson lembra-nos que todas as nossas práticas cognitivas, não importa o quão abstratas, originam-se na “vida”, e essa “vida”, o que quer que seja ou signifique, é, em primeiro lugar e em todas as suas instâncias, e não apenas em sua forma humana, uma capacidade para ajustes e resolução de problemas.

IHU On-Line - Como o conceito de “elã vital” pode nos ajudar a compreender a crescente complexidade do mundo contemporâneo?
Paola Marrati –
O conceito de “elã vital” [impulso vital] é definido por Bergson como uma tendência para a mudança e diferenciação. As formas vitais, para Bergson, estão constantemente envolvidas de novos e imprevisíveis jeitos, conseqüentemente não podendo ser compreendidas em termos de conjuntos de propriedades estáveis e fixas. Devemos, pelo contrário, compreender a tendência específica que define uma forma de vida em seu processo inacabado de transformação e diferenciá-la de outras formas de vida.

Bergson não nos dá chaves prontas para interpretar as complexidades de nosso mundo atual, mas sua convicção de que a vida não tem essência fixa e que, pelo contrário, é uma tendência em andamento para a mudança pode ajudar-nos na tarefa difícil de analisar os desenvolvimentos contemporâneos na biociência e na biotecnologia, e avaliar as promessas, e perigos que elas nos guardam.

IHU On-Line - Em que aspectos Bergson conserva e supera traços da teoria evolutiva de Darwin?
Paola Marrati –
Bergson está totalmente de acordo com o principal insight da teoria de Darwin, de que a vida é um processo evolutivo que produz novas e imprevisíveis formas. Acredito que essa fundamental concordância é mais significativa que a crítica de Bergson a Darwin e ao neo-darwinismo em A evolução criadora. E deve-se observar que essas críticas objetivam destacar a essência temporal e mutante das formas de vida.

IHU On-Line - Partindo do pressuposto de que aquilo que nossos sentidos nos fornecem não são a realidade, mas cópias seletivas desta, podemos perceber aí uma influência platônica, como aquelas imagens refletidas no fundo da caverna?
Paola Marrati –
De acordo com Bergson, nossa percepção consciente, assim como nossas ferramentas cognitivas e linguagem, são pragmaticamente orientadas para as necessidades de sustentar a vida e não para o conhecimento puramente desinteressado e vazio. Exatamente por essa razão, selecionamos e percebemos do campo todo da realidade o que é útil para nós. Apesar disso, isso não é dizer que nos agarramos a cópias da realidade melhor que à própria realidade, sendo isso no sentido platônico ou não. É o oposto: para Bergson, estamos em contato com a realidade como tal, mesmo se percebemos e conceitualizamos apenas seleções dela, e isso é sempre possível. Essa é a tarefa da filosofia e da ciência: dar um passo atrás das necessidades presentes no sentido de aumentar nossa experiência para além dos limites do que normalmente sabemos e percebemos dela.

IHU On-Line - Ainda nessa linha de raciocínio, qual é a influência de Kant no pensamento bergsoniano, tendo em vista que o filósofo de Könnigsberg afirmava que a coisa em si é incognoscível?
Paola Marrati –
O projeto filosófico de Bergson é fortemente antikantiano. Como eu disse antes, Bergson vê a razão, como qualquer outra faculdade humana, como tendo suas raízes nos processos evolutivos da vida. Como animais viventes, estamos em contato com a realidade e até mesmo com o absoluto. Como ele escreve na introdução de A evolução criadora: “A ação não pode mover-se no irreal. Uma mente nasce para especular ou para sonhar, admito, deve permanecer fora da realidade, deve deformar ou transformar o real, talvez até criá-lo – como criamos figuras de homens e animais que nossa imaginação recorta das nuvens que passam. Mas um intelecto que dobra o ato a ser atuado e a reação que se segue, sentindo seu objeto enquanto capta sua impressão de movimento a cada instante, é um intelecto que toca algo do absoluto” (p. 11). Melhor que a busca pelo estabelecimento de condições a priori e limites do conhecimento e razão, assumindo que “a coisa como tal” é eternamente não cognoscível por nós, Bergson chama a uma tarefa diferente. Ele acredita que uma teoria do conhecimento é inseparável de uma teoria da vida: precisamos substituir nossas ferramentas cognitivas no contexto evolutivo da vida no sentido de compreendermos como nossos esquemas conceituais foram formados, como eles evoluíram, e como eles eventualmente podem ser aumentados, abertos para além de seus limites atuais. Tal tarefa é, ao mesmo tempo, mais modesta e mais ambiciosa que a filosofia transcendental de Kant: mais modesta porque a par de que nenhuma resposta definitiva pode ser dada à questão das condições de possibilidade de conhecimento; mais ambiciosa porque sustenta que, em princípio, não há limites ao domínio daquilo que pode ser conhecido, que não estamos condenados a uma forma de conhecimento que paga suas certezas com o preço de ser um conhecimento do fenômeno diferente do conhecimento das coisas.

IHU On-Line - Como essa seleção natural de informações nos ajuda a compreender a singularidade e irrepetibilidade das concepções do sujeito moderno?
Paola Marrati –
Bergson não pertence à tradição da filosofia dos sujeitos no modo cartesiano, kantiano ou husserliano. O sujeito não é o exemplo original e organizado para o qual tudo aparece, o espectador para quem o mundo é dado como um objeto de contemplação. Subjetividade, ou consciência [de algo], se você prefere, é constituída em um largo campo de experiência por um processo de seleção. Como Bergson reconhecidamente escreveu em Matéria e memória (1896), a percepção se torna consciência pela seleção de todos os campos de [da] experiência que são relevantes em um dado tempo para um dado propósito. William James, em seu Ensaios sobre o empirismo radical (1912), experimenta um projeto parecido de descrição da formação da subjetividade em um largo campo de experiência não-subjetiva. A subjetividade é constituída em um campo de experiência que a excede: a subjetividade não é nem o ponto de partida para a filosofia e nem sua meta.

IHU On-Line - De que forma as filosofias de Bergson e Deleuze se cruzam? O que têm em comum e no que diferem, principalmente?
Paola Marrati –
Na minha opinião, Deleuze deve a Bergson mais que a qualquer outro filósofo. A idéia de que a filosofia necessita de precisão e deve criar conceitos singulares para objetos singulares, ao contrário de construir sistemas gerais que possam acomodar todo e qualquer mundo, como Bergson escreve no início de sua Introdução à metafísica, estabelece um padrão para o que Deleuze considera como tarefa da filosofia. Ele repetidamente reivindica, em Diferença e repetição (1969) e em algum outro lugar, que a filosofia visa a agarrar as condições de possibilidade do real e não da experiência possível, sendo uma elaboração direta de uma demanda de Bergson. Mas a importância de Bergson para Deleuze não é apenas metodológica: todo o projeto de elaboração de uma filosofia das diferenças internas como alternativa à dialética e à fenomenologia é profundamente enraizada na interpretação deleuziana de Bergson. O mesmo segue verdadeiro para a crítica da negatividade e da ilusão retrospectiva da categoria do possível, assim como para a concepção do tempo como virtualidade. De forma mais geral, gostaria de dizer que Deleuze leva extremamente a sério a idéia de Bergson de que a filosofia deve dirigir a si a questão da novidade, do novo no fazer, ao contrário de se voltar para o eterno. Para Deleuze, tal idéia traz aproximadamente toda transformação da filosofia e seu próprio trabalho é dedicado largamente a desdobrar as conseqüências dessa transformação. Apesar disso, como todos os grandes filósofos, Deleuze introduziu um novo conjunto de problemas e conceitos que não podem ser remetidos outra vez a Bergson somente. Deleuze tem sua própria e singular voz.

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