Edição 237 | 24 Setembro 2007

Matéria e memória, uma obra-prima

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IHU Online

“Matéria e memória, publicado em 1896, corresponde, a meu ver, a uma obra-prima, não apenas por conta da potência dos conceitos criados, mas igualmente pelo vigor, inteligência e generosidade de um pensamento verdadeiramente em movimento, capaz de manter-se vivo e produtivo a cada nova leitura, mesmo passado mais de um século”. A opinião é de Maria Cristina Franco Ferraz, em entrevista concedida por e-mail, com exclusividade à IHU On-Line. Diretamente de Berlim, Alemanha, onde estava quando conversou com a equipe de nossa revista, Ferraz mencionou que “uma das grandes contribuições de Matéria e memória para o pensamento contemporâneo diz respeito ao estatuto atribuído à virtualidade”. Ela é docente na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Franco Ferraz é graduada em Letras Português Literatura e em Didática Especial de Língua Inglesa pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Letras, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), e em Filosofia, pela Sorbonne, França, com a dissertação Ecce Homo, de Nietzsche: Autobiographie, le propre et les masques. Nessa mesma instituição, cursou doutorado em Filosofia com a tese  Ecce Homo (L'autobiographie de F. Nietzsche): tragédie, parodie et sacrifice dionysiaque. É pós-doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pelo Instituto Max-Planck de História da Ciência e pelo Zentrum für Literatur und Kulturforschung Berlin, Alemanha. De sua produção bibliográfica, citamos Nietzsche: o bufão dos deuses (Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará, 1994); Nove variações sobre temas nietzschianos (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002); e A psiquiatria no divã: entre as ciências da vida e a medicalização da existência, de Adriano Amaral de Aguiar (Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 2004).

IHU On-Line - Quais foram as maiores descobertas e inovações que Bergson propõe em Matéria e Memória?
Maria Cristina Franco Ferraz –
Matéria e memória, publicado em 1896, corresponde, a meu ver, a uma obra-prima, não apenas por conta da potência dos conceitos criados, mas igualmente pelo vigor, inteligência e generosidade de um pensamento verdadeiramente em movimento, capaz de manter-se vivo e produtivo a cada nova leitura, mesmo passado mais de um século. Na brevidade de uma entrevista, a resposta à pergunta proposta pode ser no máximo alusiva. Nesse sentido, gostaria de chamar a atenção, inicialmente, não apenas para a construção de conceitos radicalmente novos (como o de imagem e de memória), em um duplo gesto que envolve também a discussão precisa e aprofundada das perspectivas das quais Bergson se afasta. Em primeiro lugar, investigando as premissas comuns presentes nas duas correntes aparentemente antagônicas então predominantes, no que diz respeito à percepção – idealismo subjetivista e realismo materialista -, Bergson perspicazmente mostra de que modo as duas de fato se aproximam e, passando “por trás” de ambas, constitui um novo solo a partir do qual não mais serão respondidas as mesmas questões, mas o próprio problema da relação interioridade/exterioridade será recolocado (e ultrapassado). De fato, ambas as correntes supõem certas visadas comuns: por exemplo, o vínculo entre percepção, representação e especulação, bem como a cisão (tornada irremediável) entre “eu” e “mundo”. Como Bergson demonstra, nas duas visões concorrentes, tudo o que vemos não passaria de “alucinações verdadeiras”. Ao postular uma relação de grau, e não de natureza, entre percepção e matéria, Bergson já coloca nossa percepção nas coisas, que nada mais seriam do que imagens de nossa ação (e não contemplação) possível. Entre matéria, entendida como um conjunto de imagens interligadas e interdependentes, e percepção (certas imagens que se “revelam” em função de nossa “atenção à vida”, promessas e ameacas que nos cercam), haveria assim uma diferença de grau, isto é: perceberíamos de fato a matéria, mas não em sua totalidade. Perceberíamos uma parte da matéria, o que permite afirmar que nossa percepção está nas coisas. Como se pode observar, na contramão de uma longa tradição filosófica, imagem passa a se confundir com o que é, com a matéria, o que também configura uma nova noção de matéria, afinada com certas visadas da física de sua época. Como Bergson enfatiza, a ciência seria capaz, tal como o pensamento apto a se afastar das (bem-vindas e necessárias) ilusões que nos permitem agir no mundo, de alcançar uma intuição imediata do real, para além da curva em que ele se inflete para constituir uma experiência humana. Portanto, não são apenas os conceitos de percepção, matéria e memória que emprestam grandeza à obra (que pensa o movimento e efetua um pensamento movente), mas a alteração do próprio movimento do pensamento, para além do humano (demasiado humano), curiosamente aproximável de novas perspectivas científicas sobre a matéria bem como do trabalho artístico sobre a percepção e a memória que marca a o final do século XIX e o limiar do século XX (de Cézanne  a Proust ).

IHU On-Line - No contexto da filosofia contemporânea, qual é a importância dessa obra?
Maria Cristina Franco Ferraz –
Uma das grandes contribuições de Matéria e memória para o pensamento contemporâneo me parece dizer respeito ao estatuto atribuído à virtualidade. A ênfase no virtual – tratado como “real sem ser atual”-, de grandes implicações filosóficas, existenciais e políticas, desfaz a crença em meros estados de coisas fixados, ressalta a movência e abertura de tudo o que há. O real deixa de se confundir com o “visível” e passa a ser pensado como contendo uma grande parcela de virtualidade. Em meu trabalho com a obra, tenho enfatizado, em geral, dois desdobramentos do tema da virtualidade. Por um lado, a partir das reflexões do filósofo português José Gil sobre dança e corpo, retomando o tema bergsoniano do “movimento total” do corpo, buscado e reativado, como mostra Gil, em certas experiências coreográficas contemporâneas. O movimento imparável do corpo, suas tensões mesmo para manter-se aparentemente “parado”, requerem o conceito de virtualidade para revelar-se como tal. Ao mesmo tempo, a ênfase na realidade do virtual altera a própria reflexão sobre a comunicabilidade, uma vez que um corpo em movimento se desdobra em espectros virtuais que nunca “mentem”. Afinal, conforme afirma genialmente Bergson, ao trabalhar o exemplo da aprendizagem por repetição de um movimento, o corpo não comporta “subentendidos”.

Por outro lado, e em um sentido talvez mais evidente na obra, a ênfase bergsoniana na virtualidade permite não apenas construir um novo sentido para “memória” (ligada à temporalidade, à “duração”) como também para redimensionar seu vínculo (hoje tão enfatizado pelas neurociências) com o cérebro, órgão não de armazenamento de lembrancas, mas sobretudo de sua “suspensão” na virtualidade, ou seja, seu “esquecimento”. Em uma época em que se disseminam, nos diversos meios de comunicação de massa, novas “descobertas” sobre o cérebro e se tende a reduzir cada vez mais amplamente o fenômeno da memória à esfera bioquímica do corpo (neurônios, sinapses, hormônios), a reflexão bergsoniana sobre a memória não apenas estabelece uma plataforma crítica para se pensar as implicações da consolidação dessas novas “verdades” científicas, mas permite igualmente tematizar tanto seu papel crítico em sua época quanto o sentido da atual “desespiritualização” do curioso e rico fenômeno humano da memória. 

IHU On-Line - Que pontos de proximidade e distanciamento esse filósofo faz entre matéria e memória?
Maria Cristina Franco Ferraz –
Trata-se, nesse caso, de uma distinção forte, de natureza, estabelecida por Bergson entre matéria, de um lado, e memória/espírito de outro. Só a partir dessa distinção de natureza é que Bergson pôde ultrapassar as falaciosas e falsas questões identificadas nas perspectivas presentes tanto na tradição filosófica quanto implicadas nas concepções científicas de sua época. Creio que essa questão pode ser mais bem esclarecida se articulada à que se segue.

IHU On-Line - Até que ponto essas proposições da filosofia bergsoniana aprofundam o dualismo corpo e mente?
Maria Cristina Franco Ferraz –
Trata-se sim de dualismo, mas Bergson nos leva a pensar que talvez nem todo dualismo se equivalha. Curiosamente, creio que essa questão mesma – em toda a sua legitimidade e inflexão contemporânea – não deixa de também sinalizar uma suspeita cara à contemporaneidade e por vezes caricaturalmente expressa no horror “pós-moderno” a toda e qualquer forma de dicotomização. Nesse sentido, aproximar-se de Bergson requer uma delicadeza e sutileza maior do pensamento, aptas a nos tornar, também nós leitores contemporâneos, de algum modo aproximados da “extemporaneidade” da obra. Como se trata de um dualismo erigido em um novo solo, os pólos da oposição corpo/mente não me parecem poder ser facilmente “superponíveis”, redutíveis ao dualismo matéria/memória introduzido por Bergson, que, de modo explícito, procurou repensar exatamente o vínculo entre matéria e algo que, sendo de uma natureza diversa, ele chamou de memória. Ora, o vínculo só poderia ser pensado mantendo-se a distinção de natureza entre os dois elementos. Mas esta seria apenas uma explicação “lógica”, dizendo respeito à mera (e impressionante) coerência do pensamento de Bergson. Quando matéria passa a ser entendida como um  conjunto de imagens interligadas, a percepção como estando “nas coisas”, o corpo como funcionando na tensão entre esquecimento e memória – pensadas através do mecanismo da virtualização/atualização -, memória e matéria pensadas em termos de temporalidade, parece-me que o novo dualismo introduzido, além de não se reduzir a uma nova roupagem para velhos  dualismos, introduz vigorosas novas abordagens. Mas, evidentemente (e isso está expresso desde o subtítulo da obra), Bergson está dialogando com uma longa tradição, que renova, por assim dizer, “por dentro” – o que está longe de ser pouco. A meu ver, deixar-se levar pela aversão contemporânea às dicotomias seria não um “erro”, mas, pior do que isso, uma grande desvantagem, na medida em que nos faria passar ao largo da riqueza da obra, levando a que se deixe de integrar (gesto tão bergsoniano) o que Matéria e memória nos permite pensar e discutir hoje.

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