Edição 233 | 27 Agosto 2007

III Ciclo de Estudos Desafios da Física para o Século XXI: o admirável e desafiador mundo das nanotecnologias

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Os cada vez mais imperceptíveis limites entre o humano e o não-humano

“Levante o dedo quem tem zero de ciborgue”, desafia o químico Attico Chassot, na entrevista exclusiva publicada a seguir, e concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo Chassot, não há dúvidas: “pelo acoplamento que temos, por exemplo, à memória de nosso computador pessoal, que é um apêndice de nossa memória orgânica, somos todos ciborgues. Quantos há que hoje não podem viver no mundo sem depender de memórias eletrônicas?”. A reflexão aberta pela palestra Os cada vez mais imperceptíveis limites entre o humano e o não-humano dá continuidade ao III Ciclo de Estudos Desafios da Física para o Século XXI: o admirável e o desafiador mundo das nanotecnologias. A atividade acontece nesta quarta, 29-08-2007. Vale lembrar que o III Ciclo de Estudos Desafios da Física para o Século XXI tem o caráter preparatório para o Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias, a ser realizado nosso dias 26 a 29 de maio de 2008, na Unisinos. Para maiores detalhes, acesse nosso site, www.unisinos.br/ihu e confira.

Chassot é licenciado em Química, mestre em Educação pela UFRGS, doutor em Educação pela UFRGS. E pós-doutor pela Universidade Complutense de Madri e escreveu diversos livros, entre os quais citamos: Para que(m) é útil o ensino de Química? (Canoas: ULBRA, 1995); Alfabetização científica: questões e desafios para a educação (Ijuí: Editora Unijuí: 2001); e A Ciência é masculina? É, sim senhora! (3. ed. revisada. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2007). Este último foi tema do IHU Idéias do dia 20-08-2003, antes mesmo de sua publicação. A IHU On-Line entrevistou Chassot sobre os livros apresentados no Sala de Leitura na 87ª edição, de 9-12-2003. Na edição número 6 dos Cadernos IHU Em Formação, intitulada Física, evolução, auto-organização, sistema e caos, escreveu o comentário Mirada ao passado para fazer uma Terra Habitável. Suas contribuições mais recentes à IHU On-Line se deram com as entrevistas “A universidade parece que vive um momento de alienação para com a crise política do País”, na edição 154, de 05-09-2005, e “O antropocentrismo se esboroa cada vez mais”, publicada na edição 231, de 13-08-2007 .


“Levante o dedo quem tem zero de ciborgue”

ENTREVISTA COM ATTICO CHASSOT

IHU On-Line - Os possíveis “andróides” do futuro, ágeis e inteligentes, serão capazes de desenvolver sentimentos humanos? Até que ponto a ciência e a tecnologia poderão avançar?
Attico Chassot
– Muito provavelmente, esse seja um campo de conhecimento no qual é temerário fazer qualquer previsão. Quando Júlio Verne  escreveu muito de seus livros, não imaginaria que seria superado tão rapidamente. Aqui, as ilustrações se ampliam com discussões sobre ciborgues  entendidos como qualquer forma de acoplamento entre ser humano e máquina – e alguns exemplos da robótica, partindo de uma discussão quase bizantina sobre batizar ou não robôs. Muito provavelmente, entre os leitores desta entrevista, há aqueles que têm mais ou menos de ciborgues. Esse termo é da década de 1960, do século XX, e foi criado pela junção das palavras cybernetic organism, usado para designar uma criatura na qual há uma mistura de partes orgânicas e mecânicas . Desde então, esse termo tem sido usado com muita flexibilidade. Timothy Lenoir , uma das presenças anunciadas para o Simpósio Internacional Uma sociedade pós-humana? Possibilidades e limites das nanotecnologias , na Unisinos, no ano que vem, diz que ciborgue é “qualquer forma de acoplamento entre ser humano e máquina”. Há os que classificam como ciborgues pessoas com implantes como marca-passos, próteses e até imunizações por vacinas, juntamente com organismos transgênicos, produzidos pela bioengenharia. Assim, pelo acoplamento que temos, por exemplo, à memória de nosso computador pessoal, que é um apêndice de nossa memória orgânica, somos todos ciborgues. Quantos existem hoje que não podem viver no mundo sem depender de memórias eletrônicas. Levante o dedo quem tem zero de ciborgue! Não esqueçam o quanto o telefone celular é para alguns um acoplamento que influi na qualidade de vida. Pensem como muitos de nós (e eu me incluo nestes), usando o computador, temos nosso humor diferente quando não estamos conectados à rede. Hoje, também se fala no inverso: a introdução de partes de seres vivos (não necessariamente humano) em máquinas. Assim, um robô (= a máquina) pode ter pele, cabelos... de animais.

IHU On-Line - O senhor acha que os limites entre humano e não-humano são quase imperceptíveis, atualmente?
Attico Chassot
– Acredito que sim. Talvez melhor seja dizer que nós, em muitas ações de nosso cotidiano, não percebemos a presença de robôs em nossas vidas. Nós não nos damos conta o quanto eles nos servem e também nos atrapalham a cada momento. Claro que aqueles que se servem da tecnologia são mais dependentes do que os que não a usam. Esta semana, em função de uma atividade acadêmica aqui na Unisinos, visitei, numa mesma tarde, um acampamento e um assentamento do Movimento Sem Terra (MST). No primeiro, não havia energia elétrica nem água encanada... no segundo, havia internet e outros recursos da tecnologia. Nas duas situações, os robôs podem ser alienígenas. Numa são completamente ausentes, e por isso talvez nem cheguem povoar o imaginário dos que vivem em situação que lembra o medievo. No entanto, na outra situação se usufrui dos benefícios dos robôs quando se usa, por exemplo, um buscador (Google, Yahoo) para fazer uma pesquisa na internet. Assim, para preparar a fala que vou fazer no III Ciclo de Estudos Desafios da Física para o Século XXI: o admirável e o desafiador mundo das nanotecnologias, muitos robôs me ajudaram – buscando-me, com velocidades espantosas em bibliotecas de todo o mundo (aqui todo o mundo não está em sentido metafórico), textos, figuras, referências; outros me atrapalharam, quando me enviaram vírus ou mensagens me oferecendo uma miríade de artefatos que não me interessam. Alguém de mais idade há se recordar como se iniciava antes uma pesquisa. Ia-se à biblioteca e se manuseava revistas para ver como estava o estado da arte do objeto de nossa investigação. Os mais afortunados cometiam esse fazer aos bolsistas de pesquisa. Hoje, quem faz isso com muito mais eficiência são robôs, que vão a milhares de bibliotecas e em segundos nos dizem ter manuseado milhares de documentos e localizado centenas de referências. Aqui, há o desafio do humano frente ao não-humano: sofisticarmos, ou melhor, refinarmos, aquilo que solicitamos aos robôs. Vale lembrar o que significa em termos de resultados usar o Google Scholar. Sobre a nossa não percepção de quem faz o quê, refiro que um dia comentei com um colega, que, como respondedor de questões de sala de aula em um sítio ligado à PUC-Rio e ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU , nunca recebi qualquer agradecimento a mais de uma centena de respostas oferecidas. Meu colega perguntou-me: “Já agradeceste as buscas que o Google te faz? Teus respondentes podem achar que são robôs que respondem as questões que te enviam”.

IHU On-Line - Hans Moravec, cientista Diretor do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, fala da possível criação de “seres” com cérebros humanos em corpos robóticos. Será possível, através das nanotecnologias, criar seres híbridos, um misto de máquina e homens?
Attico Chassot
– Devo confessar que não conhecia o Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon, muito menos seu diretor. Mas os robôs do Google me levaram até lá com fantástica eficiência. Amealharam-me 65 boas referências em 0,29 segundo. Encontrei muitos assuntos à questão que trazes. A maior parte dos experimentos ali descritos parecem ficção-científica, e há uma situação prosaica como esta: um livro de um aluno do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon está destinado a ficar famoso fora dos laboratórios da escola de robótica. E não se trata de um olhar investigativo sobre os laços do instituto com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos: é um guia bem-humorado para combater e sobreviver a uma rebelião de robôs. “Desde uma torradeira até o Exterminador, qualquer máquina poderia se rebelar, por isso é tão crucial aprender sobre a força e as fraquezas de cada robô inimigo”, avisa o autor, Daniel H. Wilson, em How to survive a robot uprising: tips on defending yourself against the coming rebellion (New York: Bloomsbury, 2005), ou, numa tradução livre, Como sobreviver à revolta dos robôs: dicas de proteção contra a rebelião que virá. Quem quiser acreditar... acredite. Nos últimos dias, por exemplo, um dos sítios mais visitado foi www.afraudedoseculo.com.br, que “prova” que o feito estadunidense da chegada do homem à Lua, em 1969, foi uma fraude. Assim, todos temos, ainda, dificuldades para conviver com estas realidades...

IHU On-Line - As nanotecnologias propiciarão a criação de seres totalmente diferentes do que hoje somos? Que implicações teremos, no futuro, entre o humano e o não-humano?
Attico Chassot
– Muito provavelmente, sim. As implicações: vou colocar duas bem extremadas. Um robô mata um humano (algo muito provável) com a administração de um medicamento em dose equivocada ou pela indução a um choque elétrico, por exemplo. Ele irá a julgamento. A ficção da escritora britânica Mary Shelley, com seu Frankstein ou “O moderno Prometeu”, escrito há quase 200 anos, é quase realidade. Teremos em breve uma ética e um corpo jurídico para robôs? Meu outro exemplo de nossas dificuldades de convivência é bem mais banal: muito brevemente, os jogadores de futebol portarão nas canelas chips que se comunicarão a computadores, onde robôs analisarão e decidirão a arbitragem dos lances. Provavelmente, continuaremos a excomungar (e literalmente isso só valeria se os robôs fossem batizados) a mãe do juiz, digo, o criador dos robôs, pois claro que, no gol que foi anulado, se o atacante for do nosso time, ele não estava impedido. Mas se foi do time adversário, o robô está coberto de razões.

IHU On-Line - Quais são os principais limites que o ser humano enfrenta, atualmente com as nanotecnologias?
Attico Chassot – Acredito que os limites são de duas ordens. Um deles é o científico-tecnológico: as possibilidades limitadas de miniaturização. Esse assunto eu abordei na primeira fala deste Ciclo . O outro é mais complexo: ele está fundamentado em aspectos éticos. Esse é um tema que merece ser cada vê mais trazido aos fóruns de discussão e nisso temos em nossa Unisinos autoridades renomadas. Talvez esse segundo limite seja mais complexo e de mais difícil aprendizado que o primeiro. Estima-se que em 2014 o mercado de produtos comerciais que incorporarão a nanotecnologia terá 15% do valor total da indústria manufatureira. O que esses dados representam e significam para o futuro? Eu não tenho nenhuma condição de responder a essa pergunta. Qualquer coisa que eu dissesse seria mera especulação.

IHU On-Line - Como se dá a relação entre ciência e fé, quando falamos em nanotecnologias?

Attico Chassot – Não sei se aqui cabe compartir e achar algo particular para as nanotecnologias. O assunto é relevante. Vou repetir o que tenho dito quando trabalho com o ensino de ciência em sala de aula aqui na Universidade e que está mais extensamente apresentado em meu livro A Ciência é masculina? É sim, senhora! (3. ed. Revisada. São Leopoldo: Unisinos, 2007). Há diferentes perspectivas para olharmos o mundo natural: podemos fazê-lo com os óculos das religiões, dos mitos, da ciência, do senso comum, do pensamento mágico, dos saberes populares. Não afirmamos qual é o melhor e mesmo que haja a necessidade de exclusividade, isto é, de nos valermos apenas de um destes óculos. Consideremos duas dessas perspectivas que trazes na tua pergunta: religião e ciência. Estas, mesmo que tenham uma ambição comum de oferecer uma leitura coerente do mundo sensível, ocupam o mesmo espaço: o espaço do pensamento humano.

As religiões afirmam a existência de uma verdade global, imanente, eterna, completa, que trata tanto da natureza como do homem. Esta verdade só tem uma exigência para crê-la: a fé. A fé é o necessário e suficiente para a aceitação da verdade inquestionável. Os dogmas, arcabouços de uma determinada religião, devem ser aceitos mesmo com o pressuposto de paradigmas inexplicáveis; e mais, indiscutíveis. A ciência não tem a verdade, mas aceita algumas verdades transitórias, provisórias em um cenário parcial onde os humanos não são o centro da natureza, mas elementos da mesma. O entendimento destas verdades, e portanto a não crença nas mesmas, tem uma exigência: a razão. É o raciocínio, isto é, o uso da razão, a exigência fulcral para o conhecimento. Os paradigmas de qualquer conhecimento científico são constantemente postos à prova e substituídos quando deixam de oferecer explicações convincentes.

E aqui parece que se podia pensar em uma não dicotomia. Não seria aqui o espaço privilegiado das religiões para o chamamento à concórdia e à recordação de princípios éticos? Assim, não se prognostica um choque entre o racionalismo científico e a autoridade da fé. Ao contrário: à ciência estaria reservado o papel de explicar e transformar o mundo, e às religiões, entre outras práticas que lhes são funções históricas, como a re-ligação dos humanos ao divino, estaria destinada, juntamente com outros grupos organizados de movimentos sociais, à garantia de que essas transformações sejam para melhor. Parece pouco? Ao contrário, é muito. São utopias, mas...

 

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