Edição 230 | 06 Agosto 2007

Transformações na paternidade: quem é o pai na família do século XXI?

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IHU Online

Na cultura ocidental, a função paterna sempre esteve atribuída ao pai. No entanto, Jacques Lacan, em seus estudos, sinaliza que “a figura do pai está desgastada, em declínio”, explicam as psicólogas Marilene Marodin e Tânia Vanoni Polanczick, na entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line.

Compartilhando das mesmas situações sociais de trabalho, igualdade, direitos e deveres, “pais e mães estão imersos e perdidos no turbilhão do consumo, desnorteados com as exigências de igualdade com os filhos, ameaçados de virarem nada, caso sejam rejeitados pelo mercado”, advertem as psicólogas.

Psicóloga, psicoterapeuta de casal e família, mediadora, fundadora e diretora da Clínica de Psicoterapia e Instituto de Mediação (CLIP) de Porto Alegre, Marilene Marodin é membro do Conselho Diretor na Diretoria Estadual do Instituto Brasileiro de Direito de Família IBDFAM/RS, presidente do INAMA-RS (Instituto Nacional de Mediação e Arbitragem) e co-autora com John Haynes do livro Fundamentos da medição familiar (Porto Alegre: Artes Médicas, 1997).

Tânia Vanoni Polanczick
é psicóloga, terapeuta de casal e família e pós-graduada em serviço social da família. Entre 1974 e 1999, foi orientadora judiciária do Juizado da Infância e da Juventude de Porto Alegre (RS). Tânia também atuou como co-autora do projeto NAS (Núcleo de Atendimento Familiar Judiciário). Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as heranças de Freud e Lacan para a construção e conceito de paternidade que se tem hoje?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Freud  e Lacan  reconhecem o pai como figura que impõe a lei, instaura a ordem e, assim o fazendo, introduz o sujeito em um universo simbólico, fundamental para sua estruturação psíquica.

Lacan estabeleceu a diferença entre o significante pai, sua representação e sua figura física, e destacou a importância da função paterna, que pode ser exercida na ausência da figura, ou seja, a função transcende a imagem. Mesmo apontando a fragilidade da figura paterna – disse que não há pai à altura de sua função e, também, que o maior predicado do pai é a sua falta –, afirmou que a função paterna, primordial, é romper o vínculo narcisista com a mãe. E, deste modo, operar a castração, interditar o sexo, o gozo, ordenando a constituição subjetiva do sujeito.

Freud e Lacan ressaltaram o sentido simbólico da função paterna, que pode ser exercida pelo pai, pela mãe, ou por outra pessoa (ou instituição), sempre sem excessos nem faltas.
Na nossa cultura, sempre coube ao pai, pelo menos formalmente, a função paterna. Mas, adverte Lacan, a figura do pai está desgastada – em declínio, diz ele. Quem, então, é o agente que, na atualidade, sustenta a importantíssima função de castração, já que, sem ela, sem a interdição do gozo absoluto, ficamos diante da ilusão de tudo poder, do narcisismo absoluto, da barbárie?

O social, no declínio da função paterna que vemos hoje, vem suprindo a falta do pai. Os pais, e também as mães, estão imersos e perdidos no turbilhão do consumo, desnorteados com as exigências de igualdade com os filhos, ameaçados de virarem nada, caso sejam rejeitados pelo mercado, com suas subjetividades tomadas pelo temor do fracasso, conformados em evitar o desprazer e obter pequenos momentos de prazer.

Que modelos identificatórios produzem esta realidade? Indivíduos centrados em si mesmos, narcisistas, submetendo-se não aos pais, mas aos amigos e às suas pulsões (instintos).
 
IHU On-Line - Quais são as rupturas ocorridas na mudança da família tradicional (pai, mãe e filhos) para a família do século XXI, que não exige a presença de pai e mãe?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Partimos do pressuposto de que não existe uma família genérica. A família genérica é uma abstração, passível apenas de descrições. Para a compreensão da família, faz-se necessária uma visão ecossistêmica, que considera fatores como gênero, classe social, geração e multiplicidade étnico-cultural, que constituem a sociedade, especialmente a brasileira. Este pressuposto permite que respeitemos as diferenças que existem nas famílias e que, frente à determinada família, nos questionemos sobre “que família é esta?”; “em que momento do seu ciclo de vida encontra-se ela?”; “que tipo de vínculos une seus membros?”.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou recentemente que, nas últimas décadas do século XX, a família brasileira apresentou algumas mudanças, entre as quais a queda substancial do seu tamanho, o aumento do número de famílias constituídas de mulheres sem cônjuge e seus filhos, além do aumento do número de famílias, cujas pessoas de referência são mulheres.
Sabemos que as exigências da vida moderna criaram grandes dificuldades para os pais proverem as necessidades materiais da família. A mulher, que antes cuidava da casa e dos filhos, foi obrigada a sair e enfrentar o mercado de trabalho. A substituição do convívio na família extensa pelo convívio na família nuclear, composta de pai, mãe e filhos, aliada às conquistas obtidas pelos movimentos feministas, às transformações sócio-culturais, à dificuldade em delimitar fronteiras entre o que é público e o que é privado, entre o que é pessoal e o que é familiar, acarretaram variados efeitos sobre a família.

Nenhuma destas circunstâncias, porém, levam os filhos a prescindir de seus pais. A presença dos pais, do pai e da mãe, é estruturante do elemento irredutível, que é transmitido por eles aos filhos: colocar a lei onde há desejo. Isto só é possível quando a mãe nomeia o pai e este se coloca como agente da castração, que é a própria lei.

A família se reorganiza evolutivamente para adaptar-se às mudanças vinculadas a progressos científicos, econômicos, culturais e sociais, numa complexidade que cria novas formas de configurações familiares.

Esta plasticidade, observada nas diferentes estruturas encontradas nos dias de hoje, nos leva a interrogações como: “Que conseqüências implicam estas novas estruturas familiares para o bem estar dos seus integrantes?”,  “Como  é sua interação com outros segmentos da sociedade?”, “Como nós, profissionais, podemos entender e trabalhar com estas diversidades e com as variações encontradas no interior das novas famílias?”.

Por variações entende-se as diversas configurações familiares: nuclear, monoparental, extensa, reorganizada ou reconstituída, aglomerada, em comunidade, em abrigagem, poligâmica, homoafetiva.
 
IHU On-Line - Que fatores contribuíram para que acontecessem mudanças na formação da estrutura familiar?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
A vida moderna empurrou mulheres e homens para a mesma luta. As leis deram igualdade de direitos e deveres a mulheres e a homens, diminuiu o poder patriarcal, crescendo o poder da mulher e dos filhos. Assim como as mulheres têm obtido cada vez mais espaços fora da família, em todas as esferas da vida social, os homens têm conquistado mais e legítimos espaços dentro da família e na educação dos filhos. Por outro lado, extinguiu-se o papel da família como unidade econômica de produção; as separações e os divórcios ocasionaram uma diversificação das estruturas familiares, antes basicamente nucleares; a desvinculação sexo-procriação, as relações mais simétricas e eqüitativas entre o par conjugal, bem como a maior longevidade das pessoas, contribuíram para mudanças significativas na formação da estrutura familiar. No Novo Código Civil, a expressão “pátrio poder” foi substituída por “poder familiar”, que pode ser exercido pelo pai ou pela mãe.

Embora existam dificuldades, observa-se em muitos pais uma maior consciência da importância da sua função na formação da personalidade dos filhos, meninos ou meninas. Hoje não se pensa mais, como há alguns anos pensava-se, que o principal fator constituinte da personalidade do sujeito é sua relação com a mãe e que a função do pai restringe-se a prover e proteger a família. Os profissionais da Psicologia têm produzido estudos cujo resultado, acessível a todas as pessoas e amplamente divulgado, aponta as graves repercussões – limitações no desenvolvimento e, mesmo, patologias – ocasionadas pela ausência do pai e da mãe no cotidiano dos filhos.

IHU On-Line - As mudanças nos padrões de relacionamento entre os indivíduos na relação familiar são reflexos de uma crise da sociedade contemporânea ou uma superação da visão de homem e de mundo tradicionais, já ultrapassados?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Podemos dizer que crise é um período de tensão e conflito que aparece periodicamente na vida de todos os indivíduos e de todos os grupos sociais. Toda crise provoca uma ruptura temporária do equilíbrio do indivíduo ou grupo e a conseqüente necessidade de reorganização, o que demanda a busca de novas regras de funcionamento.

A crise pode ser bem negativa, patológica até, quando é crônica, quando desorganiza e imobiliza. Porém, a crise é positiva quando provoca reorganização. Neste caso, ela é o oposto do estado patológico (de desorganização), constituindo-se em um tempo especial, de novas definições, de novos planos de vida.

Estamos vivendo o que se tem chamado de pós-modernidade, um período histórico, de reflexão, produto do desencanto das pessoas com a perda dos sonhos e das certezas criados pela modernidade. Estamos refletindo – e esta entrevista é uma reflexão – e nos perguntando qual será o futuro da sociedade e da cultura (cultura aqui entendida como os saberes que, entre outras coisas, tornam o homem capaz de satisfazer suas necessidades e regular suas relações). A pós-modernidade está impondo o culto à imagem, o imediatismo, o individualismo, o consumo, o gozo.

A família pós-moderna, não somente nas classes mais abastadas, tem uma nova lógica, que tende ao individualismo, à fragmentação, à realização pessoal, ao desprendimento dos vínculos estáveis. Isto tudo produz egos inseguros, que leva os indivíduos a estabelecer padrões de relacionamento superficiais, baseados em aparências. No entanto, nossa visão otimista do ser humano e a constatação do seu sofrimento nos fazem acreditar que esta é uma crise que pode ser positiva. O modelo de vida pós-moderno provoca insatisfação, recompensas fugazes, solidão, dores que os indivíduos não podem tolerar indefinidamente.

IHU On-Line - Com a reorganização da família contemporânea, como passa a ser visto e pensado o exercício da função paterna atualmente?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
A realidade tem mostrado o crescente número de separações e divórcios. Nos consultórios, identificamos que as visitas quinzenais dos pais separados aos filhos acarretam angústias e sofrimentos para ambos e podem resultar em efeitos devastadores para os filhos. Todos os estudos indicam que a preservação do vínculo pai-filhos possibilita o saudável desenvolvimento das crianças.

Os dados estatísticos têm comprovado que, cada vez mais, os pais assumem papéis que, em outros tempos, eram limitados às mães e estão dando conta de questões complexas, relacionadas ao cuidado dos filhos, para as quais não estavam preparados. Esta mudança tem auxiliado não somente as crianças, mas também as mães, que se liberam para buscar outros objetivos de vida.
Sabe-se, hoje, que a figura do pai é importante também para a inserção social dos filhos. Estudos indicam riscos maiores de uma inserção social não exitosa para os jovens que cresceram sem pai do que para os que usufruíram a convivência paterna.

IHU On-Line - A tendência para os próximos anos é aumentar o número de famílias uniparentais sem pai e chefiadas por mulheres? A presença do pai está deixando de ser essencial? Por quê?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Por famílias uniparentais ou monoparentais, entende-se aquelas onde há um só genitor. Podemos encontrar estas construções chefiadas por mulheres, muitas vezes incluindo avós, mas sem o pai, e chefiadas pelo pai com os filhos, sem a mãe. Tais grupos, em geral, constituem-se após separações/divórcios, morte de um dos cônjuges, gestações do tipo “produção independente”, ou em decorrência de gravidez no período da adolescência.

Nas famílias uniparentais chefiadas por mulheres, observa-se o que chamamos de feminilização da pobreza, decorrente das diferenças encontradas na cultura de acesso ao trabalho qualificado, remuneração e promoção social da mulher. Com mais freqüência, são encontradas em populações com maior vulnerabilidade social. 

A questão de como esse fenômeno é visto difere entre os autores: alguns o interpretam como fenômeno transitório. Outros, nos quais me incluo, o vêem como uma estrutura mais consolidada dentro do processo de mudança da sociedade, isto é, como uma estrutura familiar especial, que necessita ser entendida em suas especificidades.

Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou análise dos dados do último censo, confirmando estas mudanças. Entre os dados obtidos, destacamos o de que 47% dos domicílios organizam-se com, no mínimo, um dos pais ausente. Segundo o IBGE, na década de 1990, houve um aumento no número de famílias chefiadas por mulheres, com filhos e sem cônjuge e do número de famílias cujas pessoas de referência são mulheres. Os dados também apontam pessoas morando sozinhas, avós/tios criando netos/sobrinhos, casais sem filhos, mães com suas “produções independentes” e outras configurações familiares. Algumas delas são tipicamente modernas, como as formadas por grupos de amigos que decidem morar juntos para dividir um apartamento.

IHU On-Line - A falta da presença paterna pode ocasionar dificuldades futuras para os filhos?
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Na família tradicional, os pais eram reconhecidos por seu prestígio e autoridade. Pertencer à família, no contexto de estruturas estáveis da família tradicional, dava ao sujeito um sentido de segurança, reforçado pela sociedade que valorizava a tradição da família e referendava os encontros familiares com a presença dos idosos, vistos como conselheiros.

Na atualidade, observa-se uma acentuada desvalorização da hierarquia da figura do pai e a tendência a diminuir sempre mais a necessária distância entre as gerações. As famílias contemporâneas são estruturas com extrema mobilidade, com pais sem prestígio e sem autoridade. Os idosos são vistos como sobrecarga. As mudanças constantes e a valorização do novo, aliadas à importância da TV/Computador/Internet como centro da vida, acarretam uma família fragmentada.

Observamos modificações nos papéis e funções dos integrantes da família. Todavia, parecem preservadas na sua importância as funções nucleares materna e paterna. Assim, a falta estrutural da figura paterna pode acarretar nos filhos a perda dos valores e ideais, a valorização das políticas de prazer, a falta de limites, o desafio à lei. Os jovens carecem da ordem pacificadora da lei. A falta de limites causa um severo desequilíbrio instintivo, que pode resultar em condutas transgressoras ou aditivas. E, ainda, a ausência da função paterna provoca nos jovens uma tendência a estabelecer vínculos superficiais, caracterizados por sedução histérica com escasso respeito pelo outro – considerado descartável e usado a serviço de interesses narcisistas.

É possível afirmar que o amor é imprescindível para o desenvolvimento dos filhos, mas não é suficiente em si mesmo. A adequada constituição subjetiva da criança necessita do exercício de ambas as funções parentais – materna e paterna.

IHU On-Line - Como as senhoras têm percebido as mudanças na construção da família? Os filhos têm reagido de maneira positiva sem a presença de um pai (masculino) na criação? A falta da imagem paterna pode gerar uma crise de identidade e de papéis sociais na família? 
Marilene Marodin e Tania Vanoni Polanczick -
Trabalhamos com os membros do núcleo familiar, com o casal conjugal, com os filhos e, ainda, na terapia individual, quando um representante do grupo familiar vem em busca de auxílio. A família está presente em todas essas ocasiões, seja física ou simbolicamente, nas referências aos relacionamentos. 

Dentre o que observamos neste trabalho, destacamos a busca mais voltada às questões da individualidade das pessoas, como carreira e aspirações profissionais, decorrendo daí uma maior dificuldade na construção dos espaços relacionais, de trocas, solidariedade, conjugalidade. Principalmente os jovens da nova geração pensam em relações amorosas fugazes, com pouca durabilidade e menor estabilidade, como a cantada nos versos do poeta: “que seja eterno [o amor] enquanto dure”. Os rompimentos são pensados como previstos e é evidente a menor resistência à frustração.

Pensamos que são inúmeras as questões que estão resultando neste modo de pensar, de viver e de construir novas famílias, mas certamente uma delas decorre da ausência do pai. Na medida em que o pai não está presente, fisicamente ou na função, cabe à mãe, que também está preocupada em buscar seu espaço no mercado de trabalho, a incumbência de sustentar a família. É natural que existam inseguranças, incertezas e escassos momentos de convívio familiar, que repercutem negativamente na criação dos filhos e podem desencadear, conforme demonstram estudos bem fundamentados, comportamentos violentos entre os jovens, incapazes de postergar o gozo, carentes da socialização que, espera-se, lhes seja introduzida pela família.

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