Edição 230 | 06 Agosto 2007

“Os papéis de pai e mãe são muito relevantes”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

As estruturas familiares estão em constante mudança, afirma o psicólogo Marcelo Spalding Verdi, em entrevista à IHU On-Line. De acordo com o psicólogo, as transformações sociais contribuíram para que as famílias do mundo ocidental se tornassem “agrupamentos mais complexos no que se refere aos vínculos e às relações econômicas entre seus membros”. 

Verdi destaca que a mudança do termo paternidade para parentalidade sugere a valorização “da efetiva participação dos pais no crescimento dos filhos”.  

Marcelo Spalding Verdi é graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com a tese Nível de conflito em diferentes áreas do relacionamento conjugal e qualidade do ajustamento conjugal. É, também, especialista em Psicologia Jurídica e em Psicologia Escolar Educacional , bem como terapeuta de casal e família. Atua na Clínica Interdisciplinar Maud Mannoni (CMM), em Porto Alegre , e na Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul. É um dos organizadores de Cenas da infância atual: a família, a escola e a clínica (Ijuí: Unijuí, 2006).
Confira a entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line:

IHU On-Line – Na sociedade contemporânea, o que caracteriza e constitui uma família? Ainda é possível se falar em modelos familiares? Por quê?
Marcelo Spalding Verdi -
O modelo predominante, hoje, ainda é o da família nuclear. Podemos dizer que esse modelo substituiu, no decorrer do processo de consolidação da sociedade industrial, o modelo das grandes famílias extensas de estrutura patriarcal. No momento em que a sociedade foi tornando-se mais tecnológica e globalizada, também as famílias, no mundo ocidental, tornaram-se agrupamentos mais complexos no que se refere aos vínculos e às relações econômicas entre seus membros. Estamos, atualmente, construindo novas possibilidades de experiência familiar: simultaneamente às famílias nucleares, que são as entidades constituídas por pelo menos um adulto e seus filhos, economicamente independentes de suas famílias de origem, existem famílias com configurações diversas - binucleares, homoafetivas, transgeracionais –, além de um número de pessoas que optam por viver sozinhas. Nesse sentido, falar em configurações familiares mostra-se mais apropriado para caracterizar as famílias contemporâneas do que em modelos familiares. Mas é importante salientar que a família também pode ser definida a partir de seu aspecto subjetivo, ou seja, de um senso pessoal de pertencimento ou identidade com relação a outras pessoas que ocupam um lugar especial de referência tanto para a constituição psíquica quanto social. A família continua sendo a célula básica da sociedade, mas essa afirmação não tem qualquer conotação moral. Ela é a célula básica porque tem uma função, ainda sem substituto à altura, de operar a transição do bebê humano da natureza para a sociedade, por meio da intermediação da cultura.

IHU On-Line - Os papéis de pai e mãe ainda são relevantes dentro das novas estruturas familiares?
Marcelo Spalding Verdi -
É devido justamente a esse aspecto subjetivo especial que os papéis de pai e mãe são fundamentais: estamos falando da própria fundação da subjetividade da criança. Podemos dizer que a família caracteriza-se, também, por uma diferença de posição de alguns membros em relação aos outros. Alguns chamam a atenção para uma diferença de hierarquia, mas não é só isso – é, acima de tudo, uma condição para o cumprimento de uma função em relação aos outros. Essa função é a de dar uma existência além da biológica aos filhos, uma existência psicológica, um lugar no mundo simbólico. Cabe dizer, até, que os papéis de pai e mãe são muito relevantes, enquanto as estruturas familiares nem tanto.

IHU On-Line - Que importância as figuras de parentalidade exercem junto à criança e sua formação psicossocial?
Marcelo Spalding Verdi -
Pai e mãe exercem duas funções fundamentais do ponto de vista da constituição psíquica da criança: acolhimento e interdição. A apropriação, pela criança, dos recursos que lhe permitirão interagir com a sociedade depende dessas funções. Seus pais devem lhe proporcionar, por um lado, acolhimento, cuidados, apego, contato, nutrição, carinho, dedicação, conforto e totalidade e, por outro, interdição, corte, limite, restrição, castração, ruptura, impedimento e falta. Da experiência de acolhimento resulta uma confiança básica para estar no mundo, da interdição, o reconhecimento do outro e a condição para a autonomia. O que deve ser destacado é que, se essas funções são fundamentais, seus agentes não precisam, necessariamente, ser os pais da criança, porque essas tarefas se efetivam num plano simbólico. Seus efeitos resultam da inclusão da criança numa rede simbólica de significações. Dessa forma, são pais das crianças aqueles que assumem essas funções e, por meio delas, efetuam uma transmissão de ordem pessoal, singular e única.

IHU On-Line - Ao longo dos anos, o conceito de paternidade passou a ser repensado e substituído por parentalidade? O que isso afeta, de modo prático, na criação dos filhos?
Marcelo Spalding Verdi -
O uso mais recente do conceito de parentalidade não afeta diretamente a criação dos filhos, antes ele sinaliza uma ampliação na concepção da paternidade. O termo paternidade estaria mais associado à condição de ser pai, ao fato em si, e à parentalidade, ao exercício, ao papel dos pais, tanto do pai como da mãe. O uso da expressão parentalidade busca contemplar o crescente deslocamento para um segundo plano da importância dada ao vínculo biológico entre pais e filhos em favor da valorização da efetiva participação dos pais no crescimento dos filhos.

IHU On-Line - É correto afirmar que pai e mãe têm responsabilidades características, ou isso cai por terra em função das novas configurações familiares?
Marcelo Spalding Verdi -
Isso faz sentido enquanto a sociedade ainda se mostra pautada pela diferença sexual. Na medida em que ainda são atribuídas características psicológicas distintas ao homem e à mulher, que se espera que meninos se comportem de um modo típico e meninas de outro, também será cobrado que, na família, a mãe cumpra o suposto papel de mulher (cuidados, compreensão...) e o pai, o de homem (exigência, limites...). Confia-se numa sintonia entre a família e esse discurso da diferença sexual para que fique garantida, para a criança, sua adaptação na sociedade. Claro que isso se faz, hoje, de uma maneira mais flexível do que anteriormente, mas ainda é uma referência para a subjetividade. Essa flexibilidade, todavia, não deixa de ser um sinal de novidades, cujo alcance ainda não temos condições de dimensionar.

IHU On-Line - Vivemos em uma sociedade onde o pai vem perdendo espaço na construção da família? Por quê?
Marcelo Spalding Verdi -
O que tem acontecido é um enfraquecimento do discurso paterno de um modo geral, uma espécie de crise do masculino, um esgotamento da sociedade patriarcal. Também na família isso ocorre, pois a família, embora fundamental na constituição psíquica do sujeito, não é autônoma em relação à sociedade. E as mudanças ocorrem porque a humanidade segue em busca de amenizar a angústia que decorre de sua condição de civilizada. Depois da hegemonia do discurso paterno na sociedade e da prevalência do modelo patriarcal na família, o homem ocidental viu nessa condição um impedimento à sua satisfação. Certamente, foram o sofrimento e a insatisfação que impulsionaram a sociedade em direção à mudança. Dificilmente esse movimento vai cessar algum dia.

IHU On-Line - Como as novas configurações familiares se refletem nos valores que se desenvolvem entre jovens e crianças?
Marcelo Spalding Verdi -
Por um lado, as novas configurações promovem uma aceitação das diferenças e da diversidade. Por outro, refletem as tendências individualistas da sociedade contemporânea, o que tem colocado em risco o tecido social. Esse é o ponto negativo, especialmente num país como o Brasil, onde as desigualdades e a injustiça acabam autorizando a busca de alternativas anti-sociais. Mas a responsabilidade pela reversão dessas tendências não pode ser delegada apenas às famílias. Creio que às instituições no Brasil caberia o papel de desencadear um processo de valorização simultânea da diversidade e da ética.

IHU On-Line - A família contemporânea continuara em permanente transformação? O que significará a paternidade daqui alguns anos?
Marcelo Spalding Verdi -
As mudanças são inevitáveis. Mas a paternidade deverá seguir associada a sua função de transmitir os códigos de acesso à cultura aos filhos, entretanto cada vez mais desvinculada dos laços biológicos e dos valores masculinos como hoje os entendemos.

IHU On-Line - Alguns especialistas supervalorizam a presença do pai na vida dos filhos. Está surgindo uma nova concepção de paternidade? Quem é o pai contemporâneo?
Marcelo Spalding Verdi -
Existe um novo discurso em relação à paternidade: o ideal passou a ser um pai participativo, afetivo e com autoridade. Essa autoridade não decorre de direitos superiores, mas de sabedoria, senso de justiça e preocupação com os filhos. Claro que todo mundo gostaria de ter um pai assim, para si e para os outros. Na vida real, todavia, existem diversos tipos de pais contemporâneos, o que continua a nos fazer sonhar com o ideal.

IHU On-Line - Como o homem contemporâneo tem lidado com a questão da paternidade? Ele está preparado para ser pai?
Marcelo Spalding Verdi -
 Ele segue idealizando a paternidade. Alguns tomam o ideal como modelo, outros recusam o papel devido à impossibilidade de atingir o modelo. Muitos têm tratado de usufruir da experiência da paternidade, de tomá-la como uma oportunidade de enriquecimento afetivo de um modo como as gerações de pais anteriores não souberam fazer. Mas a influência do individualismo também é grande: muitos não querem ser pais, muitos não conseguem renunciar à busca de sua satisfação pessoal em favor de um filho. Em geral, há a insegurança quanto a ser capaz de garantir que os filhos cumpram a expectativa contemporânea de sucesso e felicidade num mundo pleno de incertezas.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição