Edição 229 | 30 Julho 2007

Beatriz Marocco

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IHU Online

As manhãs, tardes e noites da professora Beatriz Marocco, mais conhecida como Bia, são preenchidas com as atividades do jornalismo. Antes, dedicava-se integralmente às redações jornalísticas dos principais veículos de comunicação do Brasil. Atualmente, ministra as disciplinas de Memória e Arquivamento, Redação em Relações Públicas II e Redação Jornalística. Confira, a seguir, os principais relatos de vida dessa professora de Comunicação Social, contados exclusivamente à revista IHU On-Line.

Origens – Quando a gente passa por várias coisas, e essas coisas vão ficando para trás, nós lembramos dessas coisas, da nossa origem, da cidade onde nascemos, de um jeito muito próprio e fragmentado. Então, eu lembro que nasci numa cidade, Porto Alegre, que tinha muitas coisas que ainda tem atualmente, mas também outras que hoje são completamente diferentes. Por exemplo, me criei numa rua que hoje é uma Perimetral, com trânsito muito intenso de carros. Era a Rua Dom Pedro. Eu morava numa casa com quintal. Nela, existiam goiabeira, papagaio, pessegueiro, criação de coelho... Era um verdadeiro sítio numa rua em que hoje é uma rua de trânsito movimentado. Então, eu vivia numa cidade relativamente grande, mas acredito que minha infância tenha sido parecida com aquelas crianças que hoje vivem no interior. A gente fazia fogueira na frente de casa, por exemplo, em época de São João.

Infância e relação com o trabalho - Eu brincava de ser professora desde muito pequena, com as minhas amizades de primeiros anos na escola. Nos reuníamos nas casas, arrumávamos os “equipamentos” para brincar, e eu era sempre a professora. Além disso, minha família, desde sempre, foi ligada a jornal, a rádio, e eu me relacionei com essa área de forma natural. Desse modo, eu pensava em ser jornalista desde muito cedo. Ao pensar em trabalho, ao pensar em coisas que eu faria “quando crescesse”, me imaginava como professora e jornalista. Ser jornalista foi uma coisa muito natural na minha vida, uma escolha natural que eu fui construindo, elaborando. E foi a profissão que segui.

Pais – Nossa relação foi normal. E o normal significa que eles me deixaram ser uma pessoa independente. Talvez a melhor lembrança que eu tenha é que eles que me fizeram crescer sozinha, sem precisar ter alguém ao lado para me ajudar, abrir caminhos.

Filhas – Tenho duas filhas. Uma mora em Barcelona e a outra está se encaminhando para morar em São Paulo. Uma é atriz e a outra está terminando o mestrado em psicologia. Nós temos uma relação que eu acho muito legal; somos parceiras. Quando elas precisam de mim, elas recorrem, e eu me sinto muito bem em poder ajudar. Ela também têm um sentido de independência muito forte. O mais interessante é ver que eu as criei e que hoje cada uma tem um pensamento muito individualizado, muito próprio.

Formação - Eu fiz vestibular na PUCRS e UFRGS e optei pela federal porque eu não queria mais depender de pai e de mãe, apesar de, na época, se comentar que a PUC tinha um curso melhor. Na época, o curso de jornalismo durava três anos e não quatro, como hoje. Eu entrei em 1968 e me formei em 1970. Era época da ditadura e nós vivíamos num ambiente de silenciamento. Nós ficávamos sabendo, não muito estrondosamente, que alguns professores tinham sido cassados, que alguns colegas trabalhavam como elementos do Dops. Havia uma atmosfera de rumores. Eu não era militante; não fiz nenhum tipo de militância. Desde o inicio, eu era dada à área prática do jornalismo. Eu queria fazer jornalismo porque eu achava que poderia ser muito ativa por meio dele, usando-o como um meio de me colocar no mundo.

Trabalho – Ainda durante a faculdade, eu trabalhei numa agência de publicidade e, depois, vendendo enciclopédia. Eu e outros colegas, porque nós queríamos porque queríamos ganhar dinheiro para ter um tipo de independência. Eu queria me livrar das coisas que me tinham no domínio. Mas eu quase não vendia nada... Também trabalhei com censo, fazendo pesquisas nas vilas de Porto Alegre. Eu queria ter um outro tipo de experiência com a vida.

Jornalismo – Eu me formei em 1970 e logo fui para a redação da Zero Hora. Meu primeiro chefe de redação era também editor do jornal do Partido Comunista. Era um cara que estava brigando na frente política, só que, assimilado pela Zero Hora, tinha todo um procedimento burocrático do jornalismo. Assim, ele nos fazia trabalhar como o dono da empresa queria. Deu para ver como a própria redação tem sua “organicidade”, e isso vai sendo incorporado no modo da gente ser jornalista. A época em que eu trabalhei como jornalista era uma época que talvez volte agora, quando você pode escolher a empresa em que irá trabalhar. Era um mercado muito ativo. Na Zero Hora, ganhei dois prêmios de reportagem. Um deles me proporcionou estudar, durante um tempo, na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Quando voltei, fui novamente para a Zero Hora. Em 1977, quando eu tive minha primeira filha, trabalhava no jornal e na Rádio Gaúcha. Por isso, o pessoal do jornal me chamou e disse que eu ficaria só na rádio, pois iria ficar com um trabalho muito disperso, tendo dois empregos e uma filha para criar. Eu fiquei tão furiosa que me demiti dos dois. Por dois anos, fiquei só cuidando da minha filha. Quando ela estava com um ano e 11 meses, eu engravidei da segunda, mas aí eu já não agüentava mais ficar em casa. Foi aí que fiz um teste para trabalhar na Caldas Junior e, mesmo grávida, fui aprovada. Trabalhei lá até um ano antes da empresa fechar. Com isso, me mudei para São Paulo, onde trabalhei na Folha de S. Paulo e na editora Abril. Em 1986, a Zero Hora me chamou para cuidar do projeto que fundou o Diário Catarinense, que teve a primeira redação informatizada do Brasil. Depois que terminei o projeto, trabalhei, ainda, no Correio do Povo e no Diário do Sul. Aí termina a minha vida jornalística 40 horas por semana. Foi então que fiz o mestrado e depois passei a lecionar aqui na Unisinos. Hoje, faço pesquisa e leciono, ou seja, voltei a trabalhar à manhã, à tarde e à noite.

Brasil – Eu acho que essa coisa de o País ter que ser o berço esplêndido para mim não funciona muito. No Brasil, as coisas são muito difíceis para muita gente, e isso me incomoda bastante. Eu morei fora do Brasil e eu acho que lá fora as pessoas são mais felizes, pois têm condições de ter uma vida mais digna do que aqui. O que me incomoda é a situação de pessoas que não têm condição de fazer a vida por si próprias, que dependem do governo, de uma ação da sociedade. Essa desigualdade me incomoda, mas isso poderia mudar...

Relação com alunos – Essa é uma relação que não se pode generalizar. Eu tenho uma relação muito boa com alguns e uma não tão boa com outros. O que o tempo me ensinou é que os alunos que mais precisam de mim são aqueles que têm mais dificuldade de se aproximar, de se relacionar comigo. São esses que precisam que eu trabalhe mais por eles, o que não funciona naturalmente. É uma relação mais trabalhosa, mas, de repente, se um deles terminar tão bem quanto um aluno talentoso e se aproxima de mim com mais facilidade, fico com uma sensação de ter sido um professor mais interessante. Às vezes, consigo isso, outras, não.

Sonhos – Eu acho que cada dia, para mim, tem uma meta. Então, a coisa de ter um sonho lá longe é uma coisa que eu não tenho. Eu me proponho a ter coisas boas durante o dia. Essa coisa do Carpe Diem (“Aproveite o dia”) funciona de uma forma interessante. Eu acho isso legal. Cada dia tem uma coisa nova. No momento em que eu começo a fazer descobertas, elas começam a me energizar.

Unisinos – A universidade, para mim, é um espaço interessante, onde eu posso fazer o que eu quero, no sentido de pesquisa e relação com o aluno. Aqui, eu trabalho com o periódico científico, que é diferente do jornalístico, com edição e editoração. Isso me proporciona uma vivência de jornalismo bastante interessante. De uma certa forma, eu ampliei a idéia do que era o jornalismo de quando comecei a trabalhar. Hoje, por exemplo, ainda trabalho com reportagem, mas de um modo mais elaborado, tanto no sentido teórico quanto no sentido prático.

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