Edição 229 | 30 Julho 2007

Perfil Popular - Odete Maria Faustino Spies

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Ela representa a mulher brasileira que batalha por um mundo melhor: líder sindical, ativista de movimentos sociais, liderança católica e recicladora. Essa é Odete Maria Faustino Spies, que, desde criança, luta contra a barreira do preconceito contra a mulher. Ao lado do marido Roque Spies, entrevistado na matéria de capa desta edição, ela mostra que Economia Solidária é muito mais do que teoria e belas palavras. É “botar a mão na massa”, é “abrir sacola” junto com os recicladores da Associação que ajudou a fundar em Dois Irmãos, município onde reside com o marido e as duas filhas. Confira, a seguir, a história de vida de Odete Maria:

Odete Maria Faustino Spies nasceu em Rolante, na região onde hoje fica o município de Riozinho. É a segunda filha de uma família de agricultores formada pelo pai, pela mãe e por mais 12 irmãos. Aos seis anos de idade, a jovem Odete já pegava na enxada para ajudar. No entanto, o trabalho precoce não foi o problema de sua infância. Odete teve uma experiência muito negativa em sua família, relativa à questão de gênero, que até hoje a afeta muito. “Cresci numa família onde o pai mandava, a mãe trabalhava até mais que ele e o pai, naquela postura machista, decidia as coisas, não pedia opinião pra mãe. A gente trabalhava e produzia em conjunto, mas o dinheiro sempre ia pro bolso do pai. Isso marcou negativamente minha vida”, conta Odete. O pai dela também era alcoólatra. “Ele bebia, botava dinheiro fora em jogo, batia na minha mãe”, lembra. Quando a família foi crescendo, viu-se que a terra que tinham era pouca para todos viverem da agricultura. “Então, fomos forçados a vir para a cidade, o que meu pai não queria. Mas não tivemos opção, e em 1975 viemos para Novo Hamburgo. Foi quando comecei a trabalhar em fábrica de calçados”, conta Odete.

A jovem recorda que “achou o máximo” quando começou a trabalhar em fábrica. E explica o motivo: “Na colônia, a gente trabalhava de sol a sol e não sobrava dinheiro pra gente às vezes comprar um vestidinho para ir numa festa da comunidade. E na fábrica eu podia trabalhar dentro de um prédio, não tinha preocupação com o sol, e no fim do mês conseguia um dinheiro. Isso era o máximo!”. Por alguns anos, Odete trabalhou com essa visão. Fazia serão e trabalhava a noite toda quando o patrão pedia. Mais tarde, começou a participar de grupos de novena na sua comunidade. Eram as novenas de Natal e Páscoa oferecidas pela comunidade católica. “Comecei, então, a fazer uma reflexão mais aprofundada dos direitos do trabalhador. E passei a participar dos sindicatos. A partir do meu engajamento na comunidade e na luta sindical, comecei a ‘não prestar’ mais para os patrões, em função dos questionamentos que eu fazia e do fato de eu organizar os colegas da fábrica, mostrando a eles as injustiças dentro da produção. Isso me revoltou e me jogou para a luta sindical”, relata Odete.

Nesse meio tempo, ela conheceu Roque Spies, que era seminarista e hoje é o seu marido. Eles acompanhavam o mesmo trabalho através de uma Comunidade Eclesial de Base (CEB). “Nós organizamos um grupo de jovens, fomos nos aprofundando juntos nesse debate, participando de greves. Eu era bem ativa no movimento sindical. Só que isso fazia com que eu não ficasse mais nas fábricas. Nossa vida, até antes de casar, sempre foi interada na luta comunitária também.” O casal participava da Associação de Moradores do bairro Canudos, em Novo Hamburgo, onde moraram durante muitos anos. Lá, ajudaram nos primeiros passos da organização da Associação de moradores e dos grupos de novena, que foram crescendo até chegar num ponto em que havia seis grupos em uma mesma comunidade.

Casamento
O casamento de Odete e Roque, em 1982, foi comunitário. “Abrimos nossa festa para toda a comunidade. Meu pai queria fazer uma festa para a família, pagando churrasco e bebida, mas nós queríamos abrir para a comunidade, porque a gente sempre teve muita amizade. A festa foi comunitária e aberta, convidamos os parentes e os amigos, cada um levou um prato e foi uma festa linda. Cada grupo de famílias levou um bolo, deu uma mesa enorme de bolos”, lembra Odete

Pobreza por falta de oportunidade de vida
Depois de ficar desempregada durante quatro meses, Odete começou a fazer trabalho voluntário na Cáritas Diocesana de Novo Hamburgo. Na época, a cidade sofria muito com enchentes e ela se ofereceu à Cáritas para fazer, voluntariamente, visitas, ajudar as famílias, pesquisar o que faltava a elas. Ao fazer essa pesquisa, Odete já visava a uma organização de grupo com essas famílias. A Cáritas a contratou, com carteira assinada, para continuar fazendo esse trabalho no bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo. No entanto, Odete ajudou a enfrentar uma situação de conflito. Com a construção de um dique para bloquear as enchentes, os terrenos no bairro começaram a valorizar. Não demorou para os donos e seus herdeiros aparecerem. “Eles começaram a expulsar as pessoas dos barracos. Foi terrível. O pessoal chamava eles de capangas, porque eles vinham com aquelas ‘pistolas’ de dois canos, davam tiros pra fazer o pessoal sair das casas. Nós, da Cáritas, acompanhamos tudo isso, envolvemos o juiz, o bispo na época, que era Dom Sinésio, e o Jornal NH. Mobilizamos toda a cidade de Novo Hamburgo.” Essa experiência reforçou uma crença que Odete sempre teve: a de que os pobres, em sua grande maioria, são pobres porque não têm oportunidade na vida. “As pessoas que moravam lá diziam que não queriam morar de graça. Queriam pagar, mas de acordo com as suas condições.” Odete e a equipe da Cáritas ajudaram na construção e no fortalecimento da Cooperativa Habitacional Coobasa, no bairro Santo Afonso. Nesse loteamento mais de 600 famílias foram assentadas. Dentro dessa estrutura, foram criados grupos de famílias e de mulheres, o que, segundo Odete, “só vinha a reforçar a luta”.
A essa altura, o marido de Odete também tinha sido convidado a trabalhar na Cáritas. Por essa razão, o casal também acabou morando no bairro por cinco anos, para ficar mais perto dessas famílias, já que a primeira filha deles era pequena, e Odete estava grávida da segunda filha. “Ficava ruim morar longe, no bairro Canudos. Como a Diocese pagava só um salário mínimo, pagaram o nosso aluguel também no bairro Santo Afonso. Depois de cinco anos morando lá, deixamos o grupo andar com as próprias pernas e nos mudamos para Dois Irmãos, onde vivemos até hoje. Nossas duas filhas hoje já estão grandes. A Isabel tem 21 anos e a Mariana de 20 anos”. 


Jogo de poder e hierarquia
Odete
trabalhou na Cáritas por dez anos. Quando trocou o bispo e assumiu Dom Boaventura Kloppenburg  tudo mudou. “Sabemos que Dom Sinésio foi transferido porque ele apoiava o trabalho popular. O novo bispo cortou todas as nossas iniciativas. Éramos controlados, não conseguíamos trabalhar.” Chegou um momento em que Odete pediu para sair da Cáritas Diocesana, não porque não acreditava na organização do povo, mas, “por ser submissa a um poder hierárquico em que um padre machista e autoritário, desmontava todo um trabalho só pelo poder que tinha”, desabafa. Odete se decepcionou. “Toda a estrutura de exploração que eu vivenciei nas fábricas de calçados estava presente lá na diocese também, por intermédio do padre-patrão, que não aceitava argumentos. Eu vi dentro da estrutura da Igreja um jogo de poder pior do que o existente na fábrica. Isso também foi me revoltando, porque eu lutava pelos operários, mas dentro do meu setor de trabalho eu era explorada pelos padres e pelo bispo.”   
   
Estudos
A saída da Cáritas, no entanto, permitiu que Odete voltasse a estudar. “Eu tinha parado no primeiro grau porque meu pai não aceitava que uma filha estudasse, sendo que ele era analfabeto. Consegui concluir o segundo grau, em um supletivo de um ano e meio. Infelizmente não tive recurso para fazer uma faculdade. Se eu tivesse, gostaria de estudar a área da nutrição e da saúde.”

Mudança
Uma mudança de vida levou Odete, o marido e as filhas para o município de Dois Irmãos. “Quando chegamos lá, me senti meio perdida. Não tinha organização de bairros, de comunidade. Começamos a freqüentar as celebrações, as missas, e nos oferecemos para participar da associação de moradores, mas nunca deu certo, porque a comunidade não participava. Nos grupos de novena, só liam o que tinha no livrinho, ninguém podia opinar muito, rezavam o terço e ia todo mundo pra casa olhar a novela. Não se abria a discussão, que era realmente o mais interessante. Daí desistimos da novena também, pois nossa vontade era de aprofundar a reflexão, como fazíamos em Novo Hamburgo”, lembra.

Trabalho com reciclagem
Na época em que a família se mudou para Dois Irmãos, o lixo da cidade era um problema. Odete conta que primeiro era enterrado em locais inadequados, como a beira de um arroio. Depois que isso foi proibido, o lixo passou a ser queimado dentro de um prédio construído para esse fim, o que também foi proibido. A alternativa foi colocar o lixo num aterro irregular. Isso também não pôde mais acontecer. “Nós sabíamos dessas histórias antes mesmo de morar no município e isso nos apavorava. Eu e o Roque sempre fomos defensores do meio ambiente.” Como o prefeito foi punido pelas irregularidades envolvendo o lixo, ele foi forçado pela justiça a pensar numa alternativa. Roque  teve uma experiência dentro da Cáritas em Novo Hamburgo, assessorando por quatro anos uma cooperativa de reciclagem de lixo. Por essa razão, o casal foi convidado para pensar num tratamento adequado para o lixo, com a implantação da coleta seletiva. Isso foi em 1994. “Fizemos uma proposta para a prefeitura que depois das negociações aceitou e começamos a trabalhar. Fizemos com que a prefeitura investisse na coleta seletiva e começamos a separar o material para reciclagem utilizando o prédio em que o lixo era queimado e que estava desativado. Foi um trabalho importante, mas difícil. Nos propomos a fazer o trabalho de conscientização para o pessoal separar o lixo. Sempre achamos importante o reciclador ter contato com a comunidade.” O trabalho árduo rendeu frutos. A Associação dos Recicladores de Dois Irmãos já funciona há 13 anos e hoje no município 90% da população separa o seu lixo em casa.  

Decepção e sofrimento
Quando a Associação completou 12 anos, no ano passado, Odete decidiu sair, com muito sofrimento, pois se decepcionou por ainda ver reinar o preconceito com a questão de gênero e com algumas pessoas que perderam o espírito comunitário e não souberem lidar com o poder e a liderança. “Constituir a Associação foi uma das melhores experiências da minha vida, pois tivemos que romper um monte de preconceitos envolvendo essa questão do lixo. E conseguimos. Esse é um trabalho muito digno, acredito nisso e quero continuar sendo recicladora enquanto tiver trabalho nesse ramo”, afirma. Hoje, o Roque ainda está na Associação uma vez por semana e o casal presta assessoria a vários grupos de reciclagem em diversos municípios do Estado.  

Economia Solidária
Odete continua acreditando na organização de grupos e aposta nisso. “A saída para os trabalhadores é o trabalho coletivo e organizado. Mas, quando se fala em economia popular solidária eu fico com o pé atrás, e faço uma reflexão. Escrever e ler livros sobre Economia Solidária é muito bonito. Mas colocar essa teoria na prática do dia-a-dia, vivenciando num grupo e tirar o teu pão daquela atividade, é muito difícil. É preciso muita transparência, honestidade e humanidade.”


Oriunda de uma família católica e praticante, Odete foi catequista de primeira eucaristia por muitos anos. Mesmo depois das decepções que teve com a Igreja, continuou sempre acreditando em Deus. “Hoje, para mim Deus é a natureza. Eu vejo muito Deus na natureza, é uma energia boa, uma força que nós temos que fazer acontecer”. Quando pode, ela ainda freqüenta os encontros da doutrina espírita e tem lido para se aprofundar nas questões de reencarnação.

Momento feliz
Um momento feliz na vida de Odete foi sua união com o marido Roque. “Começamos a constituir uma família diferente do que aquela que eu tive. É a estrutura de família que eu sempre desejei.”

Momento triste
Odete classifica como um momento triste e marcante o dia em que teve que abrir mão do trabalho da Associação de Recicladores: “Saí chorando, com muita dor”.

Brasil e política nacional
Para Odete, o governo brasileiro obteve avanços. Mesmo assim, ela diz estar bem decepcionada com a política brasileira. “Já fui filiada e militante ativa do Partido dos Trabalhadores (PT), pois via no Lula e nas propostas do Partido uma luz no fim do túnel. Hoje, não estou mais envolvida nisso. Parece que está tudo adormecido: estamos numa fase em que o trabalhador não tem mais aquela garra que tinha uma vez.”

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