Edição 229 | 30 Julho 2007

Saneamento básico – O filme, de Jorge Furtado

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A seguir reproduzimos crítica publicada pelo O Estado de São Paulo, em 20-07-2007. O texto é de Luiz Zanin Oricchio. Para ele, este é um “filme inteligente, porém de baixo impacto pelas limitações auto-impostas de repertório cinematográfico”.

 

Ficha Técnica

Gênero: Comédia
Tempo de duração: 112 minutos
Ano de lançamento (Brasil): 2007
Direção: Jorge Furtado
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Janaína Kremer, Tonico Pereira, Paulo José e grande elenco.

Sinopse: Os moradores de Linha Cristal, uma pequena vila de descendentes de colonos italianos localizada na serra gaúcha, reúnem-se para tomar providências a respeito da construção de uma fossa para o tratamento do esgoto. Eles elegem uma comissão, que é responsável por fazer o pedido junto à sub-prefeitura. A secretária da prefeitura reconhece a necessidade da obra, mas informa que não terá verba para realizá-la até o final do ano. Entretanto, a prefeitura dispõe de quase R$ 10 mil para a produção de um vídeo. Este dinheiro foi dado pelo governo federal e, se não for usado, será devolvido em breve. Surge, então, a idéia de usar a quantia para realizar a obra e rodar um vídeo sobre a própria obra, que teria o apoio da prefeitura. Porém, a retirada da quantia depende da apresentação de um roteiro e de um projeto do vídeo, além de haver a exigência que ele seja de ficção. Desta forma, os moradores se reúnem para elaborar um filme, que seria estrelado por um monstro que vive nas obras de construção de uma fossa.

 

Inteligência diluída em linguagem de baixo impacto

Saneamento básico, se for preciso defini-lo, ajusta-se a uma comédia romântica e satírica, gênero bastante testado na televisão. O pressuposto é que a proximidade a uma linguagem com a qual o grande público está habituado (para não falar no elenco familiar em novelas e programas) irá atraí-lo para o cinema. A testar.

Essa equação mercadológica determina a linguagem do filme. A ordem é não introduzir elementos perturbadores da comunicação, tais como movimentos de câmera inusitados, descontinuidade no texto narrativo, saltos de montagem, complexidade dos personagens etc. Mesmo o recurso metalingüístico é usado com parcimônia, em registro já aceito pelo gosto médio brasileiro.

Por outro lado, Saneamento básico é exemplo acabado do “pragmatismo” detectado pelo crítico Ismail Xavier em determinadas produções. Ele as associa ao pragmatismo do próprio governo Lula, o “fazer o que for possível”, expurgando a intervenção no real de qualquer dimensão utópica. Assim, em Saneamento temos, ao mesmo tempo, a denúncia da estrutura comprometida de financiamento ao cinema, e a aceitação, com êxito, dessas mesmas regras do jogo. Não cabe aos jogadores contestar regras e sim atuar dentro do campo que lhes é proposto. Se para conseguir o que seria de direito (condições sanitárias mínimas) for preciso trapacear com leis de incentivo, tudo bem e vamos em frente.

Também é preciso dizer que existe aí uma sutileza, que procura desmontar o eterno dilema: como se justifica o dinheiro público aplicado em cultura em um país como o Brasil? Sabemos a resposta. O País, se quiser crescer mesmo, tem de investir tanto na construção de moradias populares como no incentivo à leitura e à feitura de filmes. Nessa visão estratégica, o feijão é tão imprescindível quanto o sonho. Essa é uma discussão que se precisa levar e, de preferência, sem preconceitos. Ela está nas entrelinhas deste filme inteligente, porém de baixo impacto pelas limitações auto-impostas de repertório cinematográfico.

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