Edição 229 | 30 Julho 2007

Bobby, de Emilio Estevez

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Nesta semana apresentamos dois filmes: Bobby de Emilio Estevez, e Saneamento Básico, o filme, de Jorge Furtado.



Nome: Bobby
Nome original: Bobby
Cor filmagem: Colorida
Origem: EUA
Ano produção: 2006
Gênero: Drama
Duração: 120 min
Diretor e roteirista: Emilio Estevez
Atores: Anthony Hopkins, Harry Belafonte, Freddy Rodriguez, Laurence Fishburne, Christian Slater, Sharon Stone, Demi Moore, Lindsay Lohan, Elijah Wood, William H. Macy e Martin Sheen  (pai de Emilio Estevez).

Sinopse: 5 de junho de 1968. O senador Bob Kennedy prepara-se para ser o candidato democrata às eleições presidenciais. Mas, na festa que se prepara no Hotel Ambassador, em Los Angeles, um assassino vai mudar todo o futuro. A história é contada por 22 pessoas que estavam nesse hotel naquele dia.

 

A dimensão mítica de Bobby Kennedy

“Até hoje, o fato de termos reunido este imenso elenco é um mistério e um milagre: Sharon Stone, William H. Macy, Lindsay Lohan, Ashton Kutcher, Laurence Fishburbe, Heather Graham, Shia LaBoeuf, Joy Bryant, Harry Belafonte, Freddy Rodriguez, Elijah Wood, Christian Slater e meu pai, Martin Sheen”, escreve Emilio Estevez em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 27-07-2007.

Segundo ele, “a produção de Bobby acabou se transformando numa campanha. Elenco e equipe técnica cobraram cachês abaixo do padrão - e houve até quem trabalhasse de graça. Todos queriam fazer parte de um projeto que parecia ser algo maior do que um filme. Serei eternamente grato pela contribuição que deram. E agora aqui estou, filme terminado. Talvez Bobby Kennedy e a mensagem que ele transmitiu sejam tão importantes hoje quanto foram há 35 anos. Meu filme é uma homenagem a essa mensagem. Bobby emocionou, inspirou e estimulou uma geração de americanos a ser pessoas melhores, a fazer coisas melhores. Espero que o filme incentive uma redescoberta da nossa humanidade e que tomemos a decisão de ser pessoas melhores”.

Bobby, o longa de estréia atrás das câmeras do ator Emilio Estevez (Tocaia), não é um documentário, embora se nutra de clipes verdadeiros e termine como tal. Alimenta-se do real em busca de uma reconstituição ficcional dos bastidores do último dia de vida de Robert F. Kennedy (1925-1968), o braço direito de JFK que, como o irmão, morreu assassinado em plena cena pública. Jack foi morto em 1963 na Presidência; Bobby, em 1968, quando lutava, com boas chances, para ser o candidato democrata à Casa Branca.

Tudo se passa no histórico (e recentemente destruído) Ambassador Hotel de Los Angeles, naquele fatídico 5 de junho de 1968, quando após um discurso de campanha Bobby foi morto a tiros na cozinha por Sirhan Sirhan. Um mosaico com cerca de 20 personagens fictícios, interpretados por uma raríssima constelação de estrelas, busca recuperar o espírito daquele tempo.

Bobby Kennedy aparece apenas em cenas de época e, de costas, em reconstituições. Estevez foi criticado por não se deter sobre as complexidades do personagem, “a dicotomia do bom Bobby/mau Bobby” radiografada por seu mais recente e definitivo biógrafo, Evan Thomas.

Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, em artigo publicado no jornal Valor, 27-07-2007, pergunta:

Qual é o verdadeiro Robert Francis Kennedy? O colaborador de juventude do hidrófobo Joseph McCarthy ou o cruzado pelos direitos civis e pela igualdade racial? O buldogue de JFK, obcecado com Fidel, ou o pacifista que foi decisivo para levar a bom termo a crise dos mísseis de 1962 e flertava com a retirada das tropas do Vietnã?

Bobby foi todos eles, mas Estevez não se propõe a examinar sua completa figura histórica. Bobby, o filme, resgata a dimensão mítica de Bobby Kennedy, a última grande chama de esperança de uma liderança progressista nos EUA dos anos 60, depois dos assassinatos de seu irmão e de Martin Luther King. É este o Bobby de Estevez, aquele que ele vislumbrou pessoalmente quando criança e a tragédia congelou como outro príncipe da verdadeira família real americana representada pelo clã Kennedy.

Assim, o que Bobby nos está dizendo é que os EUA destituídos de um horizonte utópico progressista, que uma América embrenhada em agressividade, paranóia e reacionarismo, são uma traição a si mesmos, uma tortura a seus cidadãos e um pesadelo para o mundo. Bobby fala da antevéspera do primeiro período Nixon, com mais Vietnã, mais repressão civil e mais arrogância presidencial, assim como deste penúltimo capítulo da era Bush, com mais Iraque, mais truculência e ainda maior arrogância na Casa Branca.

Bobby mostra ainda como esses grandes quadros da História estão, sim, intrinsecamente articulados com nossos pequenos dramas individuais. Qual filme de Hollywood nos trouxe algo parecido neste ou nos últimos anos?

Amir Labaki confidencia: “há tempos um filme americano não me emocionava tanto quanto Bobby”. Por sua vez, Martin Sheen testemunha: “Para mim, o filme diz claramente: ‘Veja o que nós tivemos um dia, liderança, visionários! Esqueçam os políticos, busquem por lideranças’. Não sei se a Casa Branca entendeu o recado – continua - mas o povo americano está acordando, mandou um recado para eles nas últimas eleições para o Senado (que deram maioria aos democratas na casa). O povo está farto de mentiras, de abusos. A invasão do Iraque foi baseado no ego. Bush queria entregar a cabeça de Saddam ao pai”.

Bobby não é um documentário sobre o assassinato de Robert Francis Kennedy. É um filme sobre as expectativas dos liberais dos anos 60, depositadas em Bobby Kennedy, e obviamente frustradas por sua morte. Mas para Luiz Zanin Oricchio, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 27-07-2007, “Bobby é mais ainda do que isso. Realizado nos Estados Unidos da era Bush, pode também ser visto como manifesto desolado com o presente e nostálgico em relação a uma América que poderia ter sido e não foi. Estevez se refere às grandes perdas dos Estados Unidos nos anos 1960 - Martin Luther King, John e Robert Kennedy, os três assassinados. De certa forma, eles podem ser vistos como os mortos insepultos de sonhos (ou ilusões) jamais realizados e hoje arquivados - o de uma América mais tolerante e justa no plano interno; menos intervencionista e belicosa, no externo”.

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