Edição 229 | 30 Julho 2007

Rio Grande do Sul mapeou 450 novos empreendimentos da Economia Solidária

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IHU Online

A Economia Solidária, explica Vera Regina Schmitz, coordenadora da Fase III do mapeamento no Rio Grande do Sul, “significa um novo jeito de se fazer economia e uma nova cultura do trabalho”. Nesta terceira fase do mapeamento, afirma ela, o Rio Grande do Sul já mapeou 450 empreendimentos até o final do mês de maio, que foram somados aos 1.634 que já faziam parte do Banco de Dados do SIES. 

Para Vera Schmitz, a universidade é um ambiente que, por meio de incubadoras, pode fomentar o crescimento da Economia Solidária. Segundo ela, desenvolver “modelos de intervenção que reconheçam a cultura local, que levem em conta a problemática do mundo do trabalho e as dimensões ecossociais”, são iniciativas fundamentais.

Vera Schmitz é especialista em cooperativismo, pela Unisinos, mestre em Ciências da Comunicação, com a dissertação Cooperativismo em tempos de globalização: análise do discurso editorial de um jornal de cooperativa, pela Unisinos, e doutoranda em Educação, pelo PPG em Educação, da Unisinos. Atualmente, Vera integra a equipe de coordenação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e coordena o Projeto de Tecnologias Sociais da Unisinos. Confira, a seguir, a entrevista dada por e-mail à IHU On-Line.

IHU On-Line - Quais são os limites, as possibilidades e as perspectivas da Economia Solidária hoje? Vera Schmitz - Hoje, vê-se o crescimento e a expansão da Economia Solidária devido, principalmente, às mudanças no mundo do trabalho. Estas mudanças no horizonte do trabalho e, ao mesmo tempo, as possibilidades de criação que esta oportuniza, permitem que o trabalhador busque cada vez mais outras alternativas para desenvolver suas aptidões para trabalho, como reação ao desemprego estrutural e à exclusão. A produção coletiva de geração de trabalho e renda é uma destas alternativas que se expande em núcleos e redes de Economia Solidária.

IHU On-Line - Quando falamos de Economia Solidária, quais são as principais diferenças entre a teoria e a prática?
Vera Schmitz -
Falar em Economia Solidária significa falar em tudo o que ela representa em termos de oportunidades, de uma cultura de solidariedade, de retomada de laços afetivos no trabalho, de autogestão, enfim, um novo jeito de se fazer economia e uma nova cultura do trabalho. Mas também significa falar dos obstáculos existentes. Os passos, desse modo, são mais lentos, as dificuldades mais presentes, identificadas como desde falta de recursos para potencializar o grupo até o entendimento e a possibilidade concreta do trabalho coletivo. No entanto, muitas experiências superam esta dicotomia e se encontram, de fato, como um empreendimento sólido e com valores e princípios identificados, de forma contínua, como inerentes à Economia Solidária.

IHU On-Line - Como pode ser caracterizado(a) o(a) trabalhador(a) envolvido(a) com a Economia Solidária?
Vera Schmitz -
A maioria, principalmente o(a) trabalhador(a) urbano(a), caracteriza-se como alguém que busca na Economia Solidária uma alternativa de trabalho e renda. É um(a) trabalhador(a) disposto(a) a buscar diferentes alternativas de sobrevivência, muitas vezes esgotado(a) pela procura do trabalho assalariado. Por outro lado, também temos aquele(a) trabalhador(a) que se interessa pela forma coletiva de trabalho, que vê no modelo de organização autogestionária mais possibilidades do que o modelo apresentado pelas empresas capitalistas.

IHU On-Line - Na condição de coordenadora da Fase III do mapeamento no Rio Grande do Sul, qual é sua avaliação? Como está a Economia Solidária no estado gaúcho? Quais são os principais desafios e avanços?
Vera Schmitz -
A Fase III do projeto “Mapeamento para ampliação da base de dados do Sistema de Informações em Economia Solidária – SIES”, no Rio Grande do Sul, está sendo coordenada pela Profa. Noëllle Marie Paule Lechat, da Unijuí e por mim, da Unisinos, sendo que, em relação ao campo, a Unijuí teve a responsabilidade de mapear somente a região Noroeste do Estado e a Unisinos todas as demais regiões do Rio Grande do Sul.
O interessante é que o Rio Grande do Sul tem um histórico diferenciado na realização do mapeamento, construído em parceria com instituições que trabalham com a Economia Solidária. Nesta III fase, fizemos o mesmo encaminhamento, respeitando a trajetória até então realizada com instituições que já fizeram parte das etapas anteriores. Algumas instituições que Integraram a EGE /CTE-RS e foram co-executoras do Mapeamento são: Camp , Caeps, Cooesperança, Escola 8 de Março , Furg , Guayí, Unijuí  e Unisinos. Além destas instituições, fizeram parte a EGE/RS, a Cáritas/RS e a DRT/RS.

Nesta etapa, o Rio Grande do Sul ficou de mapear, no mínimo, 450 empreendimentos, a serem somados aos 1.634 que já fazem parte do Banco de Dados do SIES, meta esta já cumprida no final do último mês de maio.

O mapeamento, até então, nos mostrou os números da Economia Solidária. Os avanços são as possibilidades de análises que este sistema nos oferece, localizando os gargalos e necessidades da Economia Solidária, de pensar e desenvolver cadeias produtivas, que podem alavancar os empreendimentos. Estes avanços são possíveis de serem feitos. Análises semelhantes foram apresentadas no Seminário Estadual Projeto de Mapeamento para Ampliação da Base de Dados do SIES no Rio Grande do Sul, realizado em Santa Maria/RS, durante a 3ª Feira de Economia Solidária do Mercosul. Num painel denominado “Mapeamento da Economia Solidária do Brasil e no Rio Grande do Sul: cadeias produtivas e desenvolvimento local”, o Sr. Roberto Marinho , do SENAES, e o Prof. Luiz Inácio Gaiger , da Unisinos, apresentaram uma interpretação dos dados, apontando gargalos e possibilidades de cadeias produtivas, de trabalho em rede, na perspectiva do desenvolvimento territorial. Sem contar o quanto que estes dados contribuem com subsídios para incrementar e/ou repensar as políticas públicas.

IHU On-Line – Quais são as principais novidades que apareceram na Feira de Santa Maria? 
Vera Schmitz -
A Feira de Santa Maria é uma referência nacional para a Economia Solidária. A dimensão que está tomando, como espaço de encontro, conversas, discussões, mostra que está cada vez mais adquirindo volume e importância.

Talvez o que se precise trabalhar mais é a presença dos empreendimentos, que são os protagonistas, nas discussões sobre e da Economia Solidária, ultrapassando a idéia de feirantes. Isto não quer dizer que não haja, na feira, a sintonia, a identidade e o caráter de inclusão e de luta por uma mesma causa, facilmente percebidos e encontrados nos espaços de sua realização.

IHU On-Line - As universidades no Rio Grande do Sul têm condições de contribuir para o desenvolvimento da Economia solidária? Em que sentido? Qual é o papel da academia para a solidificação e implantação da Economia Solidária nas comunidades?
Vera Schmitz -
As Universidades devem dialogar com a prática da Economia Solidária, pois são destes espaços que nascem muitos elementos teóricos. A academia, principalmente por meio das incubadoras, pode ter o papel de fomentar o crescimento da Economia Solidária, desenvolvendo modelos de intervenção que reconheçam a cultura local, que levem em conta a problemática do mundo do trabalho e as dimensões ecossociais. A perspectiva é de retroalimentação.

É um campo grande de pesquisa, de pensar, dialogicamente, em tecnologias sociais apropriadas; espaço de aprendizagem para alunos de diferentes áreas do conhecimento; e, sem dúvida, uma forma de inserção das Universidades na comunidade, na perspectiva de uma contribuição mais ampla para o desenvolvimento local, uma aproximação maior do que se pode identificar como o conhecido “tripé” “ensino, pesquisa e extensão”.

IHU On-Line - Como você vê, pessoalmente, o trabalho com a Economia Solidária, considerando sua história familiar de cooperativismo? O que esse tipo de experiência mais ensina?
Vera Schmitz -
Acho o trabalho com a Economia Solidária desafiador. Falar em cooperativismo, ou melhor, em Cooperativas, nunca foi estranho para mim, pois fui criada em espaços que sempre se conversou muito sobre o tema, tanto no que tem de bom como também de suas dificuldades.

Se é possível estabelecer uma aproximação, entre o ontem e o hoje, as semelhanças estão lá na origem, quando aqueles colonos se uniram e resolveram fundar uma cooperativa, para superarem, juntos, as dificuldades da época. Hoje, vejo muitos dos empreendimentos que conheço nesta mesma caminhada. Se existe semelhança, há também diferenças, já que hoje alguns empreendimentos se transformaram em grandes cooperativas, ligadas ao agrobusiness. Atualmente, continuo “conversando” sobre o tema. Enquanto eu projeto Tecnologias Sociais para Empreendimentos Solidários, acompanho alguns grupos, que nascem das dificuldades, da vulnerabilidade social, da falta de perspectivas de muitas das pessoas envolvidas.

Talvez esta experiência ensine a compreender melhor o mundo e as pessoas; a ver melhor o jogo de interesses; e a perceber o quanto as perspectivas políticas estão ali inseridas. Mas, acima de tudo, vêem o quanto temos de possibilidades e alternativas para superação dos problemas que se apresentam, principalmente quando você olha para os protagonistas desta outra forma de se fazer economia.

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