Edição 222 | 04 Junho 2007

Filme da semana: Proibido proibir

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Ficha Técnica

Nome: Proibido proibir
Nome original: Proibido proibir
Cor filmagem: Colorida
Origem: Brasil - Chile
Ano produção: 2006
Gênero: Drama - Romance
Direção: Jorge Durán
Elenco: Caio Blat, Alexandre Rodrigues, Maria Flor 

Sinopse:
Numa universidade do Rio de Janeiro, Paulo (Caio Blat), estudante de medicina, Leon (Alexandre Rodrigues), estudante de sociologia, e a futura arquiteta Letícia (Maria Flor) são os melhores amigos, dividindo precariedade de moradia, a falta de dinheiro e a cervejinha com a mesma alegria. Pinta um risco de triângulo amoroso que abala o grupo. Além disso, eles têm um encontro marcado com a dura realidade social do país.

Uma sociedade entre a violência e a ternura

Sem didatismo nem pregação política, filme de Durán destaca problemas atuais do Brasil com proposta à reflexão

ESP, 27-04-2007
LUIZ ZANIN ORICCHIO

Há uma cena (não importa se no início, no meio ou no fim) em Proibido proibir, em que um dos personagens diz a outro: “Não podemos esquecer os mortos”. Essa pequena frase funciona como uma espécie de imperativo categórico que faz do trabalho de Jorge Durán uma das exceções no cinema contemporâneo. De fato, tudo, em nossa atitude de “homens do nosso tempo” é voltada no sentido de esquecermos os nossos mortos. O que pode ser traduzido como um convite para esquecermos do passado, próximo ou longínquo, e vivermos plenamente o presente. A pergunta que este filme se faz, e que é também a pergunta da História, é: pode-se viver de forma plena o presente sem levarmos em conta o passado? Pois bem, é em torno dessa meditação - esquecer ou não esquecer os “mortos” - que Proibido proibir se constrói.

A começar pelo título, que evoca os estudantes do maio de 1968 francês e uma das canções polêmicas de Caetano Veloso. Mas se o filme de Durán mantém alusões a certo espírito dos anos 60, finca, e com ênfase, seus pés nos dias de hoje. O personagem principal é Paulo (Caio Blat, bem como sempre), estudante de medicina, cheio de gás, libertário, com ojeriza a compromissos. É ele quem repete a frase-título, e a qualquer pretexto. Seu amigo mais chegado é Leon (Alexandre Rodrigues, de Cidade de Deus), que namora Letícia (Maria Flor).

Podemos resumir o tema do filme no dilema entre participar ou não participar da vida social do País; esta é desdobramento da pergunta a respeito dos mortos. E o personagem problemático será justamente Paulo, o que recusa qualquer compromisso. Mas que terá de reagir a algumas imposições da realidade, que, como sabemos, não pede licença para entrar (e às vezes invadir) a vida das pessoas. Trotski costumava usar uma frase famosa: “Você pode não estar interessado na guerra, mas a guerra está interessada em você”. Passa-se o mesmo em relação à violenta realidade social brasileira. Podemos escolher a política do avestruz e fazer de conta que ela não existe, ou que não nos atinge e não é conosco. O real insiste. Bate à porta. E costuma entrar. É nesse pudim do real que Paulo é convocado a entrar.

Durán é um veterano roteirista do cinema brasileiro. Nascido no Chile, tem em Proibido proibir seu segundo longa - o primeiro, A cor do seu destino, é de 1986. O que se pode dizer é que esse longo intervalo sem filmar não lhe tirou a agilidade e a forma. Proibido proibir não apenas situa sua trama entre jovens universitários, mas tem em sua linguagem uma pegada jovem, que pode lhe ser crucial no momento de encontrar seu público. Sabemos que os filmes brasileiros, por mais importantes que sejam, têm muitas vezes dificuldades para dialogar com a platéia mais jovem, aquela que, majoritariamente, procura as salas de cinema.

Por sua trama de personagens jovens, mas, mais do que isso, pelo clima cálido e envolvente como desenvolve sua história, Proibido proibir pode, quem sabe, quebrar essa barreira e esse tabu. Não se está dizendo que será um enorme sucesso, mesmo porque essa categoria passou a ser privativa dos lançamentos bombásticos, em escala mundial, ou, no plano nacional, privativo de filmes subsidiários da TV. O que se sugere é que, pela sua linguagem e estrutura, o filme tem, em tese, uma oportunidade de encontrar o seu público. E qual seria esse público natural? Bem, justamente o público universitário, esse mesmo que, em seus melhores momentos, pode perceber que entre pensar o País ou em sua carreira profissional, na verdade, ele precisa fazer as duas coisas.

Das atuações muito boas da trinca principal à fluidez da narrativa, Proibido proibir seduz o espectador, ao mesmo tempo em que levanta alguns pontos de reflexão. Não se deixa levar pelo didatismo esquemático nem pela pregação de qualquer posição política. Destaca problemas e o faz pela via da emoção, uma emoção lúcida, que não se torna empecilho para a reflexão.

Proibido proibir concorreu no Festival de Havana e ganhou o Prêmio Especial do Júri. Após a sessão, uma das juradas, a cineasta venezuelana Fina Torres, comentou: “Que país o Brasil, tão trágico e tão cheio de energia!”. Talvez sem o saber, ela fazia uma quase paráfrase dos versos de Mario Faustino usados por Glauber Rocha em seu Terra em transe: “Tanta violência, mas tanta ternura”. Assim somos nós.

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