Edição 222 | 04 Junho 2007

“Temos de crer e esperar que outro mundo e que outra Igreja são possíveis”

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IHU Online

Ao fazer um diagnóstico sobre a Igreja na América Latina hoje, o teólogo jesuíta espanhol Victor Codina constata: “em muitos há crença sem pertença”. E se questiona: “Podemos continuar falando que a América Latina é um continente com substrato católico, que é o continente da esperança para a Igreja universal, a reserva espiritual para o futuro da Igreja?”.

Em entrevista exclusiva concedida por e-mail para a IHU On-Line, ainda enquanto participava da V Conferência do Celam, em Aparecida, encerrada no último dia 31 de maio, Codina faz uma análise do discurso do Papa na abertura da V Conferência: “O tom do discurso esteve mais centrado na Igreja do que no Reino, mais preocupado com a situação do Povo de Deus (cristão e católico) que do povo em geral (pobre)”. Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.

Codina entrou para a Companhia de Jesus em 1948, na província da Cataluña. Em 1971 foi enviado à América Latina, vivendo em países como Venezuela, Argentina e Bolívia, onde está radicado desde 1982. Sua atividade é bastante variada, dando aulas de Teologia na Universidade Católica de Cochabamba e em contato com o povo em bairros e comunidades de base. Escreveu, entre outros, La vie religieuse. Du cerf: Paris, 1992 e O credo dos pobres. São Paulo: Paulinas, 1997.

IHU On-Line - Como o senhor vê a situação da Igreja católica na América Latina hoje?
Victor Codina -
A Igreja da América Latina, por um lado, participa da situação de “inverno eclesial” que se respira na Igreja universal desde o final do pontificado de Paulo VI. Isto pode ser notado concretamente na América Latina porque já passou a época um tanto profética dos anos 1970-1980, quando havia bispos que eram verdadeiros Santos Padres da América Latina, a opção pelos pobres marcava as vidas de setores importantes da Igreja, cresciam as comunidades de base, a teologia da libertação florescia, a vida religiosa se inseria em meios populares e pobres e havia vozes proféticas que muitas vezes acabavam com o martírio. Hoje, muitos católicos têm passado às seitas, outros (sobretudo entre os intelectuais, profissionais, políticos, jovens, mulheres, setores indígenas…) se tornaram indiferentes ou agnósticos; entre os que permanecem fiéis à Igreja católica, uma grande maioria está ancorada na religiosidade popular, com seus grandes valores, mas também com seus limites. Em muitos, há a crença sem pertença. Entre os praticantes dominicais habituais, poucos se comprometem a algo mais que a assistência à missa aos domingos. Os católicos comprometidos constituem uma minoria, mas significativa e viva: comunidades de base, grupos e movimentos eclesiais, vida religiosa trabalhando com excluídos e em lugares de conflito, pastores próximos ao povo… Podemos continuar falando que a América Latina é um continente com substrato católico, que é o continente da esperança para a Igreja universal, a reserva espiritual para o futuro da Igreja? Desde os anos 1990, a situação social, cultural e eclesial tem mudado profundamente. De algum modo se tem passado do paradigma do Êxodo, que foi o dominante nos anos 1970-1980 ao do Exílio: uma situação de dispersão, perplexidade, medo, desconcerto, falta de esperança e de projetos concretos. Mas, como o Exílio não foi um tempo perdido, mas um momento de purificação e de reflexão, também a Igreja da América Latina, nestes anos, tomou consciência mais clara de sua situação, de seus problemas, de suas dificuldades, da necessidade de mudar. Neste sentido, Aparecida pode ser um momento de reflexão e tomada de consciência eclesial.
 
IHU On-Line - Qual é a sua percepção das repercussões da visita do Papa ao Brasil e sua presença na abertura da Conferência do Celam em Aparecida?
Victor Codina –
Mesmo que os meios de comunicação tenham dado mais importância à visita do Papa ao Brasil do que à abertura de Aparecida, o centro desta visita foi realmente Aparecida. É triste que os meios de comunicação, em relação ao discurso do Papa na V Conferência, tenham retido somente os temas polêmicos sobre a primeira evangelização da América Latina, sobre a crítica a governos autoritários, sobre o perigo de voltar a religiões originárias à margem da Igreja etc. O discurso tratou de outros muitos temas e foi muito inspirador: os valores da religiosidade popular, a necessidade de uma evangelização inculturada, a renovação da fé em Cristo, a centralidade da Palavra de Deus, uma fé e uma espiritualidade que não fujam da realidade, a opção pelos pobres implícita na fé cristológica, a necessidade de superar o divórcio entre a fé e a vida e fortalecer a presença pública da Igreja na sociedade, acerca de assumir uma postura ética ante a globalização, sobre a gravidade do problema social na América Latina, a necessidade de buscar um desenvolvimento e promoção humana autêntica e integral, a transformação de estruturas injustas, a sã laicidade do Estado, a tarefa eclesial de ser consciência crítica e defender os pobres e a justiça, a superação do machismo etc.

No entanto, o tom do discurso esteve mais centrado na Igreja do que no Reino, mais preocupado com a situação do Povo de Deus (cristão e católico) que do povo em geral (pobre). Seguramente, é inevitável que o responsável pela universalidade e pela catolicidade da Igreja adote esta perspectiva. Talvez a partir da América Latina a perspectiva fosse outra, mais a partir do povo pobre e excluído, cuja vida está ameaçada e em perigo.
 
IHU On-Line - Que significado tem a V Conferência do Celam para a Igreja Universal?
Victor Codina -
Todas as Conferências anteriores do episcopado tiveram uma repercussão na Igreja universal, de modo que a opção pelos pobres de Medellín e Puebla passou a ser a opção da Igreja universal, como João Paulo II afirmou várias vezes. É cedo para saber qual será o significado de Aparecida para a Igreja universal, mas, sem dúvida, há uma certa expectativa em toda a Igreja sobre o desenvolvimento da V Conferência.
 
IHU On-Line - O que o senhor espera da Conferência de Aparecida em relação a afirmações e compromissos que a Igreja latino-americana não pode deixar de assumir?
Victor Codina –
Espera-se que não se caminhe para trás, mas que se recuperem as opções evangélicas de Medellín e Puebla (partir da realidade, opção pelos pobres, Comunidades de base, volta a Jesus de Nazaré pobre e libertador, recuperar a memória dos mártires, inculturação do Evangelho…). Mas isso não basta. Deve-se afrontar a situação social atual: denunciar profeticamente a injustiça e iniqüidade do sistema neoliberal, alentar novas formas de economia e organização social, escutar o grito dos pobres e da terra explorada abusivamente, lutar pela vida do povo hoje ameaçada, defender as culturas originárias, denunciar o machismo etc. Do ponto de vista eclesial, haveria que iniciar os cristãos em uma experiência espiritual profunda do mistério de Cristo, fomentar uma fé responsável que se traduza na vida, formar especialmente os leigos, voltar a evangelizar o povo, revisar as estruturas eclesiais, responder aos desafios do mundo do conhecimento, avançar no ecumenismo e no diálogo inter-religioso e favorecer o surgimento de uma Igreja dos pobres e de uma Igreja autóctone. Precisamos aceitar que o problema da América Latina não é só social, mas que há a necessidade de respeitar as diferenças culturais, sexuais, religiosas, de idade etc. e aceitar o pluralismo existente. A experiência do Exílio conduz a um aprofundamento humano, cultural, religioso, cristão, a uma tomada de consciência de que é necessário viver a vida cristã de modo diferente, mais autêntico, profundo, radical, espiritual.

Há temas que superam a competência de uma Conferência latino-americana, mas que deveriam ser propostos a Roma: tudo o que for relacionado com a sexualidade e a moral sexual, a ordenação de homens casados, repensar a situação da mulher na Igreja e de seu acesso aos ministérios, descentralizar o governo da Igreja e dar mais autonomia às Conferências episcopais (na nomeação de bispos, problemas doutrinais, litúrgicos e pastorais…) e um longo etcétera…

Em síntese, espero que, se Medellín se centrou nas estruturas injustas e Puebla na opção pelos pobres e Santo Domingo sobre a inculturação, Aparecida se centre na defesa e promoção da vida, da vida material e humana do povo, da vida cultural e religiosa, da vida de fé e eclesial, da Vida que nos comunica Jesus que é caminho, verdade e vida.

IHU On-Line - Fala-se muito hoje sobre o afastamento dos fiéis da Igreja católica. Que implicações este fato tem para a autocompreensão da Igreja e para sua metodologia de ação?
Victor Codina -
Esta situação real deve nos fazer refletir sobre nossa realidade, sem sonhar com o que fomos no passado. Já não tem mais futuro um catolicismo meramente sociológico, de grandes massas, que quase não conhecem nem a fé cristã, nem se sentem membros da Igreja, nem vivem uma vida conforme os valores evangélicos. Vamos fazer uma Igreja seguramente mais minoritária, menos clerical, de cristãos convencidos, com uma forte experiência espiritual, melhor formados, mais responsáveis, que participem das diversas comunidades, abertos ao mundo e a seus problemas, capazes de dialogar com outras Igrejas e religiões, que sejam fermento da sociedade com sua vida, sua palavra e sua ação. É um sonho? Acaso o Espírito não nos conduz a viver o Evangelho de forma mais radical e a fazer memória contínua de Jesus e de suas opções? À semelhança do povo de Israel no Exílio, temos de crer e esperar que outro mundo é possível e que outra Igreja é possível.

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