Edição 214 | 02 Abril 2007

Hegel. “A fenomenologia do espírito”. 200 anos

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Traduzimos e publicamos a seguir um artigo de Antonio Gnoli, escritor e jornalista italiano, autor de vários livros, publicado no jornal La Repubblica, 24-03-2007.

Em março de 1807, aos 37 anos, G.W.F. Hegel  publicou A Fenomenologia do Espírito. A obra – árdua, obscura, indecifrável – deixou apavorados os poucos leitores contemporâneos colocados diante de uma linguagem de abstrusa profundidade. Quase duas décadas antes, também Kant havia semeado uma desorientação igual. Tanto é que Fichte  atreveu-se a dizer que a sorte do pai da “Crítica” se devia em grande parte à sua obscuridade. Mas não era um pouco toda a filosofia alemã que estava ameaçada pela incompreensão? Há tempo sua linguagem se lançara nas duras terras da abstração. O próprio Marx, que nascia de uma costela de Hegel, e que também se atribuíra um estatuto de cientista social, gostava de surpreender com o estro do linguajar enigmático. Ademais, ele fez do enigma uma prerrogativa da mercadoria e da filosofia o seu espelho.

Seu “mestre” não era, pois, uma exceção. Como não o será, um século e meio mais tarde, Heidegger. A língua hegeliana se pôs ao serviço de uma tarefa imensa: reconstruir o templo da filosofia, utilizando as mesmas arquiteturas que havia precedentemente demolido. Não existe um grande filósofo que não tenha tentado lançar no solo as majestosas metrópoles do pensamento edificadas por outros. A ponto de se poder imaginar a filosofia como uma máquina de guerra que vai à conquista de territórios, saqueando os habitantes ou submetendo-os.

Hegel somente tornou explícito o caráter bélico do mais seráfico entre os saberes. Mas, pela primeira vez, o “parricídio” não era cometido contra um nome, uma identidade, uma figura, uma pessoa, uma escola, mas, antes, em referência a tudo o que o pensamento havia pensado até aquele momento. Hegel não é somente um filósofo: é também um predador do espírito. Há qualquer coisa de pantagruélico e impiedoso, de onívoro e cínico em seu comportamento. Deplora a estagnação, desconfia das leis (sobretudo das científicas), teme a força da experiência. Mas, ao mesmo tempo, sabe que tudo o que o oprime ou obstaculiza intelectualmente pertence, ainda antes do que ao céu das idéias, ao teatro do mundo. O que aí acontece – com os homens que aí se agitam, as histórias que aí se narram, os pensamentos que se tornam vivos no espírito – é unicamente objeto de explicações parciais. Boas para justificar um ponto de vista, mas incapazes de restituir a verdade em seu esplendor. Nem mesmo Deus – segundo o pastor luterano fracassado – pode aspirar a iluminar-nos. As nossas vidas, os nossos pensamentos, as construções às vezes fantasiosas, outras ainda admiravelmente fechadas, são, aos olhos do filósofo, destinadas a perecer. Como se pode imaginar uma civilização à prova de decadência? Até onde se pode lançar o pensamento sem cair no delírio da onipotência? Deus deve calar-se na história e, ao mesmo tempo, a história fazer-se um Deus. Parece um jogo de prestígio, uma sutileza. Na realidade, é a obsessão que Hegel traz dentro de si. Tem um conhecimento monstruoso da história da filosofia. O seu olhar abraça o Oriente e o Ocidente. Como jovem se apaixonou por Eleusis, flertou com os místicos (Eckhart  em particular), descobriu a força de Platão e Agostinho. Conhece as virtudes de Spinoza, admira Rousseau, mas, ao mesmo tempo desconfia deles. Pensa no espírito e na política. Não só a potência do pensamento especulativo, mas o desígnio divino e os prometedores faustos da cidade celeste pavimentam a sua pesquisa. Onde e como realizar um programa tão poderoso? A qual verdade pretende aspirar? Em qual abismo terrestre procura o eterno?

A obsessão se transforma na lenta e magistral bulimia
Os poucos amigos o descrevem como probo, racional, dotado daquela segurança que as mentes excelsas por vezes desenvolvem. Sob aquela calma bate na realidade o coração de um canibal. Às vezes, tomado pelo furor especulativo – mostrava a voracidade do canibal. Naquelas circunstâncias estava em condições de devorar qualquer coisa. Não havia bocarra filosófica que ele não atacasse para depois conduzi-lo à altura do nariz. Ele o perscrutava, o farejava e, em poucos instantes, decidia se devia engoli-lo ou jogá-lo no lixo como refugo. Sentia-se o soberano de uma tribo imaginária, a do espírito, como também reconhecia a Napoleão a mesma potência no território da matéria. A lenda quer que ele tivesse terminado de escrever a Fenomenologia do Espírito no mesmo dia em que Napoleão entrou em Iena como vencedor. E anotou o evento numa carta: “Vi o imperador, esta alma do mundo – cavalgar através da cidade para fazer seu reconhecimento: é realmente um sentimento maravilhoso a vista de tal indivíduo que, concentrado aqui num ponto, sentado sobre um cavalo, abraça o mundo e o domina”.

Havia algo de cinematográfico naquela descrição. Às vezes Hegel hesitava em cima das imagens. Improvisamente, a tetra floresta verbal de sua prosa se incendiava de cores belíssimas. E, no fundo, pode-se também pensar na Fenomenologia do Espírito como um grande afresco hollywoodiano, uma espécie de movimentado drama de fim alegre com protagonistas de alta classe e coadjuvantes confiáveis. Em suma, aquilo que os manuais teriam chamado de idealismo alemão, também podia ser interpretado como o sonho filosófico de uma terra, a Alemanha, que havia deixado de sonhar. Mas de que modo a filosofia teria podido dizer qualquer coisa de especial e de definitivo com respeito à ciência, à arte, à religião, à política? Qual “Absoluto” teria estado na altura desta tarefa? Qual “Totalidade” capaz de satisfazer a desmesurada ambição? Hegel não tinha o deserto nas costas. Não havia por trás dele anões da filosofia, mas titãs que vigiavam o sono do mundo, construindo grandes máquinas do pensamento. Arquiteturas rarefeitas, mas, não obstante catedrais da especulação que não se podiam ignorar: Kant, Herder , Fichte, Jacobi, Schelling tinham surgido como flores abstrusas daquele mundo asfixiante e miserável que era a Alemanha do século XVIII. Um território que Marx condenará à inação política e que o jovem Hegel verá como uma promissora ocasião de ressarcimento. Bastava derrotar aqueles gigantes, devorá-los com lenta determinação e ampliar, assim, a própria força, para ser não mais um dentre eles, mas o único. O único em condições de escrever a palavra fim. Porque era do fim que era preciso partir para retornar ao início e dali percorrer novamente todo o caminho. Tratava-se de um esforço intelectual monstruoso, cujo desafio era o Absoluto. Não o vazio abstrato dos metafísicos que o haviam precedido, mas aquele denso de vida, palpitante de histórias, rico de eventos: um Deus, precisamente, que se fazia história e a história que se tornava Deus. Um Deus que estava em condições de pensar a si mesmo fora de si e que no final, após a atormentada saída de si, voltasse para dentro de si, enriquecido pela experiência do mundo. Eis o exercício acrobático com o qual Hegel se aprestava para domesticar os gigantes do passado, introduzindo-os em sua corte.

Anos de estudo e de vigílias, em Tügingen, Berna, Frankfurt, lhe haviam afinado o espírito dialético. Vieram depois os anos decisivos em Jena: o rumor dos canhões, os acampamentos das tropas francesas que ocupavam a cidade, os fogos entrevistos da janela do estúdio, excitavam-lhe a fantasia. Uma nova aurora se anunciava. Uma aurora que a Fenomenologia, semelhante a um grande romance filosófico de andamento faustiano, teria narrado como o fim do velho mundo. Hegel queria segurar o decurso da vida, capturar-lhe o movimento sem aviltá-lo nos atritos da existência. Queria que a vida se revestisse com aquele poder que ela própria negava: o poder da existência humana sobre a inquietude, sobre a angústia, a finitude, a morte.

Pode soar como algo extravagante que um metafísico – o que, no fundo, ele permaneceu – dirija o olhar ao mundo das coisas e dos homens e à história que tudo envolve. Nada é mais infiel e mais instável do que aquele solo coberto de pó e de sangue, dominado pelo rumor da batalha, dos ecos dos passos dos soldados. Não é somente Jena. É o mundo que se reflete naquele espelho de vida prussiana.

Diferentemente de um escritor, um filósofo em geral não dá testemunho de si e da própria vida, mas expõe teorias. E, cada vez que o faz, espera demonstrar, se não de modo definitivo, pelo menos profundamente o seu grau de compreensão do mundo. Aquela mítica entidade que é o Ser é ostentada como o objetivo do seu trabalho, a razão última do seu pensar. Não é necessário observar que tal metafísica resultava sendo insatisfatória para a incapacidade de sanar a distância entre o Uno e o Múltiplo, entre O de lá e O de cá, entre Deus e o mundo. A Fenomenologia deveria ter preenchido aquele vazio, unir, de algum modo o que não era unificável. Mas como manter solidamente juntas a realidade fugidia, ambígua e contraditória do mundo com a perfeição celeste? Como não macular o Absoluto com as baixezas do mundo e, ao mesmo tempo, de que modo alçar este último ao céu da idéia? O instrumento da dialética – a arma letal da qual Hegel se munira – teria realizado de maneira nobre esta tarefa.

O que resta hoje da Fenomenologia do Espírito? O lado anedótico da pergunta nos remete à origem da história. O editor Goebhardt – espantado com a magnitude e a obscuridade – só imprimiu 750 cópias. Poucas semanas antes que a obra fosse publicada, Hegel tornou-se pai. Aos 5 de fevereiro de 1807 nascia Louis, o filho ilegítimo tido com sua serviçal. Este drama, por longo tempo mantido oculto pelos biógrafos, atormentará o filósofo (a ponto de se encontrarem vestígios disso na própria Fenomenologia). Louis terá o cognome da mãe. E, embora se sentisse particularmente ligado à criança, Hegel lhe recusará a paternidade. Procurará inseri-lo na família que entrementes havia constituído com uma mulher que lhe dará dois filhos. Mas Louis Fischer – que comoveu Goethe por sua sensibilidade e inteligência – jamais conseguiu integrar-se. Ao completar vinte anos, alistou-se no exército holandês e morreu de febre em Java, aos 28 de agosto de 1831. Dois meses depois, Hegel morreria pela epidemia de cólera que se difundira em Berlim. Antes de morrer, retomara em suas mãos sua obra prima. Mas, teve tempo apenas para rever umas trinta páginas. Morreu, pois, quem era um filósofo célebre e difícil. A Fenomenologia do Espírito foi um texto pouco estimado no século XIX. A sua sorte floresceu improvisamente no século XX, entre as duas guerras. Na França, Jean Wahl , Alexandre Koyré , Jean Hyppolite e, sobretudo, Alexandre Kojève contribuíram para sua liberação. Gyorgy Lukács  e Ernst Bloch  lhe relevaram a importância. Também Heidegger forneceu sua interpretação. Em função de quê tanta atenção?

Pensando o mundo, Hegel o imagina como um teatro: um conjunto de cenas desfilando sob o seu olhar. Deste ponto de vista, o desenvolvimento da Fenomenologia ocorreu através de um movimento que, da consciência imediata, ancora no Saber Absoluto. O caminho – que tem a forma de uma verdadeira e própria viagem – é borrifado pelas experiências que o espírito deverá fazer. O intelecto, a consciência infeliz, a luta entre o servo e o senhor e o desejo do reconhecimento, o fazer-se da lei, o prazer e a necessidade, a passagem do mundo feudal à monarquia, as belas almas e o heroísmo, o iluminismo e a superstição, a liberdade e o terror, o misticismo e a religião revelada, são alguns dos quadros que encontramos na obra. Hegel os delineia reduzindo-os à sua própria linguagem. A obscuridade que os envolve é a garantia que algo de ignoto está vindo à luz. Não se pode evitar a conclusão que o que vem ao encontro do leitor é um habilíssimo jogo acrobático, no qual o arbítrio e a necessidade se familiarizam com as palavras, criando um singular equilíbrio entre o evento e o discurso. O que acontece pode ser narrado. Mas somente porque o narrado acontece realmente. É um movimento que dois séculos após o sistema da mídia (não aquele do espírito) teria tornado evidente em toda a sua obviedade. De resto, após Jena, Hegel dirigiu-se a Bamberg, onde desenvolveu por um ano e meio o trabalho de jornalista. Conheceu a ânsia da notícia, a crueldade da censura e a língua que se corrompia. Terminada aquela experiência, voltou a ser “Hegel o obscuro” que acreditava que a palavra não devia ficar simplesmente reclusa na linguagem, sendo preciso que ela falasse entre as coisas e, enfim, voltasse a si enriquecida por aquela experiência. A Fenomenologia conclui com o triunfo do Saber Absoluto. Poder-se-ia ironizar sobre a consistência desta soberania misteriosa que é a totalidade hegeliana. Ou tentar lê-la nos tantos modos pelos quais foi lida: fim da história, nascimento de um novo saber, triunfo da civilização cristã-burguesa, metáfora do totalitarismo ou afirmação do mais puro ateísmo. Mas, no final de tudo, aquela obra nos diz também algo de essencial sobre a modernidade. Diz-nos que o filósofo deve banhar o próprio pensamento na tempestade. Diz-nos que existiram muitíssimos pensadores com o guarda-chuva aberto, resguardados da chuva, esperando que o céu tornasse a clarear.

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