Edição 212 | 19 Março 2007

Larissa Braga Lara

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Larissa Braga é uma mulher que impressiona. Com muita garra, conquistou tudo o que queria em sua vida, passando por diversos obstáculos, desde a infância. Larissa estudou no Magistério e fez Publicidade, mas foi no Secretariado que encontrou seu caminho. Aos 38 anos, tem uma família que adora e ainda encontra tempo para sua segunda família, a do PEI. No projeto, é o braço direito de todos, convivendo com o que mais gosta: a profissão de Secretária, as crianças e colegas de trabalho. Conheça um pouco mais desta funcionária da Unisinos na entrevista a seguir.

Origens - Nasci em Porto Alegre. Tenho 38 anos e sou do signo de escorpião com ascendente em câncer, elemento água, puro sentimento.

Família - Meus pais se separaram quando eu tinha sete anos. Minha mãe trabalhava durante o dia e estudava a noite o curso de Direito na Unisinos, então eu e meu irmão fomos morar com meus avós. Fiquei com eles até eu completar 18 anos. Meus avós sempre foram minhas referências.

Infância - Fui criada junto com um tio; nós tínhamos apenas dois anos de diferença. Era como se ele fosse meu irmão, brincávamos e brigávamos o tempo todo. Ele me chamava de manteiga derretida, pois eu era muito chorona. Desde pequena costumava ir para a casa de meus avós, pois minha mãe precisava trabalhar. Eu sentia falta dela, então eu sentava na porta para não deixá-la sair, mas ela pulava a janela para pode ir trabalhar. Hoje isso é bem engraçado. Da relação com meu irmão não me lembro muito porque ele era bebê. Hoje, somos bastante unidos e, também, tenho um outro irmão, do segundo casamento de minha mãe. Adoro meus irmãos, nós três começamos com Publicidade. O Lessandro agora está na Educação Física e o José na Música.

Obstáculo - Minha avó faleceu quando eu tinha 18 anos. Foi uma perda difícil. Logo depois, meu avô casou novamente. Eu nunca tinha visto meus avós namorando, então estranhei aquela nova situação. Diante disso, saí de casa e fui morar com uma tia. Senti necessidade de respeitar o espaço de meu avô. Na casa da minha tia fui muito bem acolhida, lá havia mais seis primos. Fiquei com uma baita família. Minha mãe havia se casado de novo e meu irmão foi morar com eles, pois era muito pequeno.

Estudos - Cursei o Ensino Fundamental no Colégio Nossa Senhora das Dores, no centro de Porto Alegre. Quando me formei, minha mãe insistiu que eu fizesse o Ensino Médio em um colégio de ensino técnico, pois ela havia cursado o ensino médio técnico em contabilidade e achava importante sair do segundo grau com uma profissão. Não era o que eu queria. Eu ansiava por estudar no Colégio Rosário, porque saindo de lá se passava em qualquer vestibular. Mas minha mãe decidiu, então fui fazer o Magistério no colégio estadual em frente à escola da Brigada, onde meu tio estudava, assim ele poderia cuidar de mim. No início foi difícil, mas depois acabei me interessando pela educação.

Estágio - Fiz o estágio no Magistério, mas essas experiências me tiraram a vontade de continuar na profissão. Primeiro foi um prática no Hospital São Pedro, com crianças. Choquei-me com a maneira como os funcionários lidavam com a situação. O estágio foi com uma turma de classe especial de primeira série, com muitas crianças repetentes. Nessa época, não havia muita supervisão, tinha que me virar sozinha. Fiquei decepcionada em como a escola não se empenhava com as crianças. Toda aquela ânsia e vontade de trabalhar nessa área foi-se apagando. Eu até pensei em estudar Pedagogia, dando continuidade aos estudos desse campo, mas. com o desinteresse, optei por outros caminhos.

Publicidade - Meu primo cursava Educação Física e eu interessei-me pelo curso. Na época, o lugar que era escolhido para cursar era o IPA, mas lá tinha teste prático e eu não sabia nadar. Fui do mesmo jeito, acabei sendo reprovada em razão da natação. A minha segunda opção era cursar Publicidade na Unisinos. Quando cheguei aqui, fiquei um pouco impressionada com o tamanho do lugar e com a variedade de pessoas que freqüentava o câmpus. Nessa época, existia o curso básico, cursava-se História, Matemática, Inglês, EPB e outras disciplinas, antes de se entrar no curso propriamente dito. Dizíamos que o efetivo vestibular da Universidade estava no curso básico.

Primeiro filho - Estava namorando e, aos 20 anos, fiquei grávida do meu primeiro filho, Jéssica. Eu queria muito ter uma família, estávamos muito apaixonados, então fomos morar juntos. Resolvemos que iríamos ter o bebê, que foi muito amado por todos. Durante esse tempo, eu e ele ainda estudávamos e resolvemos fazer um acordo: ele continuaria estudando e quando a Jéssica ficasse mais velha, eu voltaria a estudar. Depois de quatro anos juntos, acabamos nos separando.

Retorno - Mesmo com a separação e trabalhando, voltei a estudar Publicidade. A avó paterna da minha filha cuidava dela enquanto eu estudava. Eu me sentia muito culpada por não estar com ela, foi ficando difícil, então voltei e saí do curso diversas vezes.

Nova Chance - Quando minha filha tinha seis anos, conheci meu segundo marido. Todos fomos morar juntos. Conheci-o quando trabalhava em uma loja no shopping, pois ele trabalhava na loja em frente a minha. Foi uma fase muito bonita. Ele veio de uma família na qual desde pequeno se tinha que batalhar muito para atingir o que se queria. Em Porto Alegre, ele cresceu rapidamente na profissão, conheceu novos amigos e acabou tendo problemas sérios com dependência química. Depois de algum tempo, quando estávamos em uma fase turbulenta do relacionamento, acabamos nos separando por necessidade. Ele voltou para Santa Catarina e fiquei em Porto Alegre. Nos víamos em alguns finais de semana.

Obstáculo 2 - Engravidei do meu segundo filho, Lucas, antes de seu pai passar por esses problemas. Ele acabou falecendo quando nosso filho tinha um ano. Entrei em uma fase muito ruim, fiquei muito triste, com depressão profunda. Minha mãe me ajudou nessa fase; foi quando nos aproximamos ainda mais, pois ela estava bastante preocupada comigo e o bem-estar dos meus filhos. Fiz alguns tratamentos e consegui me reerguer. Novamente, minha mãe me incentivou a voltar a estudar. Ela me apoiou muito nesse momento, agradeci muito a ela na minha formatura.

Secretariado - Achei que voltar para a Publicidade exigiria muito do meu tempo. Analisei muitos cursos e optei pelo Secretariado Executivo. Nessa época, eu não trabalhava, e durante uma aula percebi que quase todas minhas colegas já trabalhavam. Em uma conversa com a minha professora na disciplina de Ética, ela disse que eu tinha que trabalhar para saber se era mesmo esse o meu caminho. Nessa conversa, ela me ofereceu um estágio. Foi então que comecei no PEI. Contei mais ainda com o apoio de minha mãe, pois estudar, trabalhar, cuidar da casa e de dois filhos sozinha não é tarefa fácil. Meu TCC falou em torno disso: o tempo de lazer de trabalho das secretárias com filhos. Aliás, as mulheres sempre estão se ajudando mutuamente no público e no privado. Não foi diferente comigo, minha mãe está sempre presente.

PEI - Fiz uma entrevista com a coordenadora do PEI na época, e, logo no primeiro encontro, percebemos uma afinidade muito forte, então fui selecionada. Eu adoro trabalhar no PEI, pois aqui encontrei muitas coisas que gosto. Tem a área da Educação Física, da Pedagogia, da Comunicação. Eu gosto muito de crianças, e no projeto tenho a oportunidade de trabalhar com elas. Eu já havia trabalhado como professora de Jardim de Infância e gostava muito, brincava, ensinava e aprendia muito com elas. No PEI, mesmo trabalhando na secretaria, estou sempre perto das crianças, das famílias, dos acadêmicos. É um trabalho muito gratificante.

Trabalho - Depois de dois anos de estágio, a atual coordenadora, Suzana, buscou junto à Unisinos e ao Instituto Ayrton Senna a minha efetivação. Eu aprendo muito trabalhando no PEI, tanto questões humanas quanto profissionais. Hoje, sou uma secretária executiva com um diferencial, pois atuar em projeto social nos dá uma formação integral, possibilitando uma mediação e articulação com diferentes comunidades.

Livro-  Atualmente estou lendo Amor Líquido, de Zygmunt Bauman. Zygmunt é um sociólogo que investiga muito as questões das relações humanas. Neste livro ele faz um alerta e algumas tristes constatações. Às vezes, vivemos na "correria" e não nos damos conta de várias coisas. Quando paramos e lemos textos assim, a realidade nos aparece sem véus. Interessante.
 
Filme - Adorei os filmes Efeito Borboleta, Matrix, O iluminado, O fabuloso destino de Amélie Poulain; poderia citar vários. Adoro todos os tipos, do terror ao água com açúcar. Acho que podemos aprender sempre, tirar o que há de bom de todos. Adoro muito os desenhos: Shreck, A era do gelo, Procurando Nemo, Monstros S.A. Assistimos com as crianças, mas eles caem bem para todas as idades.
 
Sonho - Sonhos são aqueles que podem se realizar, então o que mais quero é ver meus filhos com uma crescente consciência para o mundo, onde tenham ética, responsabilidade, cidadania e política. Que saibam ser críticos e coerentes. Ah, tudo o que os pais querem para seus filhos. Claro, amor, saúde e realização... Para mim? Meu sonho é de ter uma casa com grama, muito verde, horta, segurança.

Horas Livres - Bem, agora estou com algumas horinhas livres. Como me formei em fevereiro, não tenho mais a preocupação com aula, trabalho, leitura, TCC. Agora estou me dedicando mais aos meus filhos, pois eles estavam ansiosos por terem a "mamãe" mais tempo em casa. Mais adiante, quero fazer uma especialização e um curso de teatro. Mas, ainda neste semestre, quero retomar o curso de inglês e a academia: "mens sana in corpore sano".
 
Brasil - Nosso país é tão rico e, ao mesmo tempo, tão carente de tantas coisas. Precisamos estar conscientes de que tudo isso que está acontecendo hoje é resultado de ontem e de hoje. Para que as coisas comecem a se modificar, precisamos melhorar o hoje, pelo menos. Começando por nós e nossas crianças. Falo em relação à política, meio ambiente, tudo mesmo. Nada do que fazemos deixa de ter uma conseqüência. Se continuarmos a pensar em nossos próprios umbigos e deixando o "resto" de lado, como fica? O resto faz parte da gente, sim. Não podemos assistir a tudo imóveis e nem sair brigando aos quatro cantos. Precisamos é ter consciência e educar nossas crianças para o futuro com um ideal de saber que somos parte de um todo e tudo que fazemos repercutirá de alguma forma. Saber pensar sobre as coisas, argumentar e aprender a melhorar sempre.
 
Unisinos - Desde meu primeiro encontro com a Unisinos, senti-me integrando um espaço que tem um potencial enorme, onde existem oportunidades e ofertas para todos. Algumas pessoas saem da vida acadêmica sem explorar tudo isso que a universidade oferece. Sempre tive orgulho de fazer parte desse lugar, desde acadêmica, estagiária e funcionária. As pessoas têm feito críticas quanto às mudanças que vêm ocorrendo, mas este é um efeito normal quando passamos por isso. As mudanças vêm e mexem com tudo. Ficamos assustados, mas temos que continuar trabalhando, melhorando, crescendo e buscando estar inserido neste lugar com satisfação. Não dá para trabalhar estando infeliz. Quem consegue produzir alguma coisa com insatisfação?
 
IHU - Acredito que o IHU tem um espaço muito importante na Universidade. A revista é de primeiríssima qualidade, com conteúdo mesmo. A programação do IHU também é de um caráter potencialmente cultural e educativo. Parabéns a todos do IHU!

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição