Edição 212 | 19 Março 2007

Quand notre monde est devenu chrétien

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Paul Veyne, Quand notre monde est devenu chrétien. Paris: Albin Michel, 2007.

Maurice Sartre, professor de história antiga na Universidade François Rabelais de Tours e membro sênior do Institut Universitaire de France e autor do livro, entre outros, de D’Alexandre à Zénobie. Histoire du Levant antique. IVe siècle avant J.-C. – IIIe siècle après J.-C. Paris: Fayard, 2003, em artigo publicado no jornal Le Monde, 09-03-2007, comenta o novo livro de Paul Veyne.
Paul Veyne é professor de História Antiga especializado na história do império romano. É professor no Collège de France. Entre muitos outros livros, é autor de L’Empire Greco-Romain. Paris: Seuil, 2003.
O artigo de Maurice Sartre foi traduzido pelo Cepat. 

Constantino, o inventor da cristandade

Como e por que o Império romano pagão se tornou cristão? A esta questão complexa, Paul Veyne dá uma resposta simples e que surpreenderá: porque isso foi do agrado de Constantino! Em suma, um capricho, mas o capricho de um poderoso tem conseqüências que o de um homem simples não teria. E um capricho ditado pela piedade: depois da batalha da Ponte Milvius, em 28 de outubro de 312, Constantino é persuadido que o Deus único lhe concedeu a vitória. Ele se faz cristão, profunda e sinceramente. E não duvida da superioridade desta verdade sobre o paganismo majoritário. Nenhum cálculo político, nenhuma ideologia a habitam: afinal de contas, 90% dos habitantes do império ainda são pagãos, e é preciso ter uma fé a toda prova para ir assim na contracorrente, mesmo para um imperador. Mas Constantino, estima Paul Veyne, é um revolucionário, e dos verdadeiros.

A tese suscitará reações, mas, como todos os livros de Paul Veyne, esse tem o mérito de ir às origens, de nos colocar diante dos olhos a evidência dos fatos e de desmascarar os falsos semblantes. Bem longe de pensar que o cristianismo se inscreve numa evolução lógica do pensamento religioso, ou, pior ainda, que corresponde a uma esperança inelutável da sociedade, Veyne insiste, ao contrário, na sua absoluta novidade. Religião do amor onde a moral tem a primazia sobre o rito, o cristianismo convida o fiel a se perguntar se Deus está contente com ele, enquanto os pagãos mediam as honras prestadas aos seus deuses à parte proporcional da satisfação que eles lhes concediam: não se havia visto fiéis descontentes derrubar estátuas ou apedrejar templos, como acontece hoje diante de um Ministério ou de uma embaixada estrangeira? Enquanto os cultos orientais (dir-se-á antes os cultos de salvação) não são senão cultos pagãos banais tingidos de um pouco de Oriente, o cristianismo instaura uma ruptura radical. Inútil, portanto, invocar um "estado da sociedade" propício a esta evolução. Esta nova concepção religiosa tem de repente a chance, depois de três séculos de indiferença ou de desconfiança (porque a perseguição tornou-se rara), de se beneficiar de uma atitude que muda tudo: o apoio oficial do homem mais poderoso do Império!

Mudança do mundo

Porque sem a vontade de Constantino a cristianização poderia não ter acontecido. A escolha pessoal de Constantino provoca uma radical transformação do mundo: quando, em 312, o cristianismo é tolerado, em 324 é o paganismo que se encontra nesta posição incerta. Portanto, o príncipe não constrange ninguém e recusa as conversões forçadas... Mudança do império, mas também mudança da Igreja, que se originou e se desenvolveu fora do poder imperial, e onde a solidez contribui para o sucesso da empresa constantiniana. Mas a Igreja interpõe problemas ao imperador, pois como esta pode tolerar um rival? Desde 313 o tom foi dado, quando o imperador interveio pessoalmente numa crise interna da Igreja, a crise donatista. Ele se coloca conjuntamente como um interlocutor de igual para igual com os bispos, seus "irmãos", e se oferece como o braço executivo de suas decisões.

Esta mudança revolucionária operada desde 312, não resta menos que o século inteiro resta incerto. O que o capricho de um príncipe quis, o capricho de outro podia desfazer: Juliano o Apóstata (361-363) o tentou, mas sua morte prematura arruinou sua empresa. E talvez fosse muito tarde, porque, em meio século, o número dos cristãos, por convicção, por interesse ou por lassidão, cresceu consideravelmente. Quando o chefe germânico Arbogasto, pagão, tenta opor o usurpador Eugênio ao muito cristão Teodósio, abre-se, por um instante, a possibilidade de o Ocidente, nos anos 392-393, voltar ao belo tempo do paganismo. Teodósio não podia fazer mais que retrucar proibindo qualquer prática pagã. A derrota de Eugênio na batalha da Rivière Froide, nas proximidades de Aquiléia, Itália (6 de setembro de 394), pôs um fim a esta última tentativa de restauração. Daí em diante o campo ficou livre para empreender a cristianização em profundidade da sociedade. Dois ou três séculos mais tarde, não se está certo de que a tarefa tenha sido concluída e o que foi adquirido o tenha sido mais pelo peso do conformismo do que por uma adesão refletida.

Resumir as teses de Veyne é privar o leitor de um desenvolvimento, de uma liberdade de tom inimitável. Porque, para além do fio condutor indicado pelo título do livro, Veyne aborda cem questões: a essência do sentimento religioso, a natureza do anti-semitismo cristão comparado ao antijudaísmo pagão (quando o pagão censurava o judeu por ser outro, o cristão o condenava por ser apenas seu meio-irmão), as relações entre o poder e o vanguardismo, e mesmo, num capítulo ilustrativo, as ilusórias raízes cristãs da Europa. Sempre concreto, desconfiando das idéias gerais que são ainda mais freqüentemente falsas que banais, o historiador de Roma nos desconcerta, uma vez mais, e, uma vez mais, nos encanta.

 

 

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