Edição 212 | 19 Março 2007

O papel do músico e o estereótipo do rock mudaram

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Márcia Junges

“Tem aspectos originais do rock que não se perderam”, acredita o músico gaúcho Frank Jorge, um dos coordenadores do curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock da Unisinos, o primeiro do gênero no Brasil. Entretanto, ressalta, “mudou muito o papel do músico e o estereótipo do rock”. E continua: “O músico hoje desempenha papéis muito diferentes, específicos dentro desse universo da música, e agora tem mais possibilidades de trabalho dentro do mundo do rock, não somente como um ícone artístico, um rockstar – existem outras opções: o músico como uma pessoa que também domina a produção musical em estúdio, que acompanha o desenvolvimento da gravação de uma banda, que é produtor”. As declarações fazem parte da entrevista que segue, concedida pessoalmente por Frank na redação da IHU On-Line.


Frank Jorge é um dos roqueiros mais conhecidos do Rio Grande do Sul. Tocou em bandas importantes como os Cascavelletes e Caubóis Espirituais. Foi vocalista e baixista da Graforréia Xilarmônica, que ajudou a fundar em 1987 e com a qual eventualmente se apresenta. Hoje segue em uma bem-sucedida carreira solo com CDs como Carteira Nacional de Apaixonado e Vida de verdade. Escreveu as obras Realidades e Chantillys Diversos. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000 e Crocâncias Inéditas. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 2001.

IHU On-Line - Poderias explicar como surgiu a idéia de criar o curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock da Unisinos?
Frank Jorge -
Foi um convite inicial do Fabrício Carpinejar , no primeiro momento por termos atividades literárias e musicais em comum. Ele sugeriu que eu imaginasse uma atividade musical para o curso de Formação de Escritores e Agentes Literários . Um dia depois, ligou para mim outra vez dizendo que havia tido uma idéia melhor ainda. Conversando com o grupo responsável pelos novos projetos na Unidade de Graduação, o Fabrício pensou que havia um espaço interessante para um curso de música. E ainda falou que achava que eu era a pessoa para criar esse curso! No primeiro momento fiquei um pouco assustado, mas sentei-me ao computador e pesquisei sobre outros cursos de música, uma pesquisa breve para não me influenciar pelos que já existiam. Escrevi então um rascunho a partir das minhas experiências em encontros com outros músicos, falando sobre assuntos como a filiação em associações de compositores, sobre direitos autorais de canções. E nessas conversas percebi que as pessoas não conheciam muito sobre o assunto, e que isso não podia continuar dessa maneira. Outra coisa também me chamou a atenção: como hoje em dia existem cursos técnicos muitos bons em vários estados do Brasil, para ensinar as pessoas a trabalhar com ferramentas de software de áudio, mas isso não era aprendido dentro de uma universidade. Anotei todas essas idéias. Dessas idéias saiu um primeiro esboço do assunto, que o Fabrício já comentava com a Unidade de Graduação. Entretanto, não havia nada de concreto.

Essas idéias foram muito bem recebidas. Isso tudo aconteceu em maio de 2006. Como nessa época eu ainda trabalhava na Secretaria de Cultura de São Leopoldo, era difícil conciliar o trabalho com o processo de formatação do curso. Mas não deixava de ser interessante estar envolvido na Secretaria de Cultura, pois estava lidando lá com o meio musical, e também tinha contato com bandas de São Leopoldo. O contato diário com bandas sempre reforçava a minha noção de quanto era importante surgir um curso como esse. Uma equipe muito boa participou do processo, como o Gustavo Borba , do curso de Design, o Gustavo Fisher , da Comunicação Digital, pessoas que deram apoio didático-pedagógico.

IHU On-Line - Como foi a procura para este primeiro semestre de curso? E qual é o perfil do estudante de Formação de Músicos e Produtores de Rock?
Frank Jorge -
Entre a origem e desenvolvimento, aprovação e divulgação foi um período muito curto. Mesmo com pouco tempo entre a aprovação do curso e a divulgação, houve uma procura muito. Tivemos cerca de 125 inscritos. A turma que se matriculou conta com 30 alunos. A maior parte dos estudantes está ligada à música: cerca de 30% dos alunos atuam como músicos. Fizemos um processo de esclarecimento de dúvidas para as pessoas que estavam no período de inscrições, desde atendimento individual até conversas por e-mail, telefone e recados no Orkut. Esse compromisso com quem está envolvido com o curso ficou muito transparente.
Quando as pessoas perguntam como é a reação do meio acadêmico, há muitas críticas. Explico que a relação está iniciando com os demais colegas coordenadores de cursos, e o foco do nosso curso está tão obstinado no nível de planejamento de aulas e a programação das atividades, que os comentários, internos ou externos, não nos preocupam. Se o curso teve um bom número de inscritos e matriculados, é porque tem um empenho muito sério na equipe. Para muitas pessoas, os objetivos do curso ainda não estão bem claros, mas esse grau de seriedade e envolvimento está justificando esta curiosidade que desperta. Não paramos de conceder entrevistas desde que iniciaram as aulas. Pessoas de outros estados ligam querendo saber se vai ter vestibular de inverno. Temos um aluno de São Paulo, outros de Nova Petrópolis, Canela, Esteio, Canoas, Porto Alegre e São Leopoldo.

IHU On-Line - Compositor, produtor e empresário são algumas das habilidades que o curso propõe desenvolver. Poderias explicar como essas competências serão trabalhadas? Que tipo de atividade está sendo proposto em sala de aula?
Frank Jorge
- Primeiro tem um aspecto que facilita muito o desenvolvimento das atividades, que é o curso organizado por Programas de Atividades (PAs), que aumentam a dificuldade gradualmente. No programa PA1 acontece a construções de referências. É o momento de se trabalhar com vários aspectos e abordagens de ensino, algumas semelhantes a outros cursos, como trabalhos em grupo, trabalhos em dupla, aplicação de provas, trabalhos de interpretação de texto, de audição e análise musical. Temos um professor que é recém-formado no curso de Comunicação Digital, o Charles Di Pinto . Ele tem um material muito rico nas suas apresentações sobre a história da indústria fonográfica, mostrando todo esse conteúdo de maneira ilustrada, sem o mistério de como eram os primeiros equipamentos de gravação. Também acontecem aulas expositivas. No caso desse semestre, que é a formação de referências, os professores fizeram uma sondagem nos primeiros encontros, adequando as suas atividades a partir desse nível que percebemos nos alunos. As abordagens são diversas, assim como a metodologia.

IHU On-Line - Tu disseste que o rock não será enquadrado no curso. Mas é inevitável pensar na origem rebelde desse estilo musical, e que hoje é objeto de estudo numa universidade. Como tu vês essa relação?
Frank Jorge
- Em aula trabalhamos com textos como o prefácio do livro do George Martin , produtor dos The Beatles , que fala do disco Sargent Pepper’s  como divisor de águas como tipo de instrumentação, de temas. Também usamos uma crônica do Luís Fernando Veríssimo  sobre o mesmo álbum. O texto do Martin contextualiza muito bem a época, não vamos esconder nada. Quando ele fala sobre o álbum, conta sobre a Guerra do Vietnã, fala sobre contracultura, mudanças de comportamento sexual, e assim comentamos o aspecto daquele texto sobre drogas também.  Não tem como falar desse álbum sem falar do contexto que ele representou para a música e a sociedade. Não é possível enquadrar o rock, mascarando os aspectos que motivaram a inspiração artística. Por outro lado, não é o mais importante enfatizar que esse disco foi produzido a partir do uso de drogas ilícitas. O mais importante a ser dito é que os Beatles era um grupo que estava reinventando a música pop, com uma instrumentação diferente, com orquestra, flertando com a música oriental quando tocam com instrumentos indianos. Tudo isso é muito importante que os alunos ouçam e entendam. É importante que através do curso de rock eles se sintam motivados a ler bastante.

IHU On-Line - Como o curso vai dialogar com as tecnologias como o MP3?
Frank Jorge
- Eu particularmente entendo que o MP3 é corriqueiro como um arquivo de Word que é enviado por e-mail. O MP3 é a linguagem, o arquivo compactado de áudio para as pessoas usarem, seja nos seu MP3 player, seja no seu computador em casa. É impossível fechar os olhos para a presença e importância disso, que é um arquivo compactado de áudio, que é a linguagem corrente hoje. Claro que há casos e casos. Por exemplo, uma pessoa pergunta a outra se conhece tal banda e manda um MP3 para a outra conhecer. A pessoa que receber esse arquivo pode acabar se interessando e pesquisando mais sobre a banda e baixar tudo em MP3. Por outro lado, pode se interessar em ir a uma loja e comprar os CDs. As pessoas também têm uma ânsia de ouvir discos novos que estão na rede. Abrimos outro debate, a fim de ver se isso é correto ou não. Contudo, precisamos pensar que ter acesso ao MP3 não implica em não comprar CDs. Há bandas que revolucionaram essa relação com o MP3 e a internet, como o Radiohead , que colocou o disco novo à disposição na internet, lançado na rede uma semana depois do lançamento das lojas e vem vendendo muito bem.

IHU On-Line - Qual é o papel do músico na sociedade, e em particular o papel do roqueiro? Tu achas que o rock mudou? Por quê?
Frank Jorge
- Nesse período, que compreende mais de 50 anos, desde que o rock surgiu, mudou muito o que o gênero representou no início e seu grau de inserção hoje. Consequentemente, o papel do músico mudou. Tem aspectos originais do rock que não se perderam. Existe uma declaração do Chuck Berry  que classifica bem o que era o rock nesse início. Por que os jovens gostavam do rock? Porque os pais não gostavam. Isso é o quadro do surgimento do rock: uma música para os jovens, falando de coisas do universo jovem, com um volume e instrumentação diferente. O poder de contestação do rock foi aumentando com o tempo, como uma ferramenta para protestar.

Hoje tudo isso já está mais diluído. Existe ainda gente que faz rock para protestar, mas existe uma inserção muito grande, como a banda Cansei de ser sexy , que fez poucos shows e sucesso no Brasil e já se tornou uma realidade internacional, pois são garotos propaganda da Microsoft. Para mim esse é o exemplo clássico: uma grande empresa de software que contrata uma banda de rock para divulgar o lançamento de um produto. Mas não seria apenas o que diria Humberto Gessinger : “a juventude é uma banda em uma propaganda de refrigerantes”. Acho que isso também acabou. Mudou muito o papel do músico e o estereótipo do rock. Houve uma progressão, que, no entanto, não acontece só no rock. A mídia e a propaganda se apropriam de um estilo, uma música, para veicular seu produto. Isso às vezes é feito de uma maneira mais agressiva e outras vezes de uma maneira mais criativa. O músico hoje desempenha papéis muito diferentes, específicos dentro desse universo da música, e agora tem mais possibilidades de trabalho dentro do mundo do rock, não somente como um ícone artístico, um rockstar – existem outras opções: o músico como uma pessoa que também domina a produção musical em estúdio, que acompanha o desenvolvimento da gravação de uma banda, que é produtor. Às vezes, se diz que os produtores são o “quinto elemento”, a exemplo do que George Martin representava nos Beatles.

IHU On-Line - Como tu vês a questão dos roqueiros feitos “sob encomenda”?
Frank Jorge -
Isso acontece desde o surgimento do rock, com artistas que são moldados pela gravadora. Não é algo recente. Os Monkees  durante muito tempo foram execrados e mal vistos, porque era uma banda de certo modo montada para participar de um programa de televisão como “âncora”. Mas é evidente que ela tem o seu valor.

IHU On-Line – Por que o Rio Grande do Sul tem a fama de estado roqueiro?
Frank Jorge
- Há muito tempo o rock gaúcho tem uma imagem no restante do país de que é um dos melhores que se faz no Brasil. Para quem está há alguns anos viajando pelos país, é possível ver que há uma riqueza de festivais e bandas, ou seja, cenas musicais fora daqui. Exemplos disso são Recife, Acre, Belém, Cuiabá. Vemos cenas muito sólidas, com bandas antigas e outras querendo espaço, mas com festivais muito bem organizados. Alguns com projetos aprovados com leis de incentivo e captação de recursos, uma coisa que não tem no Rio Grande do Sul.  Eu tentei sempre de uma maneira ou outra fazer um festival ou outra coisa, mas nunca consegui em função de outras atribuições. Esse também não é o meu papel, não sou um produtor e não tenho tempo nem estrutura. Cheguei a fazer o curso de captação de projetos aqui na Unisinos. O Rio Grande do Sul não tem um grande festival de rock. Para não fazer injustiça, preciso dizer que existem alguns festivais menores no interior, resultado dos esforços de pessoas que gostam muito de rock. Mas Porto Alegre, por exemplo, entrou no roteiro de alguns shows internacionais, mas não tem festivais. Isso é algo grave. Esses festivais que acontecem no Brasil, seja com o apoio entidades privadas ou do governo, contam com apoio de diversas esferas de governo. Não há uma preocupação com a música por parte dos gestores públicos em Porto Alegre. O Sul segue sendo importante, mas como qualquer outra cena é importante. Quem está mais tempo em outros lugares do país sabe disso. De tempos em tempos se tem referências importantes, como o Engenheiros do Havaii, Os Brasas, Kleiton e Kleidir, Liverpool, uma banda tropicalista gaúcha. Sempre houve essa tentativa das bandas daqui tentarem se inserir no mercado do Sudeste. As que mais se consolidaram foram EngHaw, Nenhum de Nós e, agora, o Papas da Língua. Uma que está despontando é a Cachorro Grande.

Cena independente

Existe um movimento no circuito independente que abrange o Brasil inteiro, como a Fresno , que consolidou sua carreira também através da internet e downloads. Há muitas bandas que correm nesse circuito independente. Em Porto Alegre se tem uma super-oferta de bandas, da capital e interior, com estilos muito variados. Também existem muitos espaços para tocar, com as condições mais variadas. É muito difícil também se tocar no rádio. Por isso, a internet é importante: ela estabelece um contato direto com o público; é uma certa salvação, principalmente para as bandas novas, que às vezes gravam em casa. Hoje em dia, as bandas se movem muito rápido, com mais destreza, se agilizam mais, até porque existem outras ferramentas para trabalhar. Antigamente não era tão fácil. Hoje até as famílias ajudam mais, têm mais consciência do segmento.

IHU On-Line - Algum dia pensaste em te tornar um professor universitário e ensinar a tua arte?
Frank Jorge
- Sou um cara tímido. Fiz curso de Letras na PUCRS, mas passei toda a graduação negando que seria professor. Eu não me via como professor. Não me imaginei em sala de aula falando sobre rock, e hoje isso é uma realidade que eu vejo com alegria e como uma grande oportunidade. Esse meio do rock está sendo trazido para o mundo acadêmico com uma linguagem contemporânea. Estamos indo ao encontro de uma carência que existia. Isso nos desafia permanentemente.

IHU On-Line - O que tu estás ouvindo agora?
Frank Jorge
- Das bandas mais recentes, ouço Franz Ferdinand , que reproduz muito o som dos anos 1980. O último disco dos The Strokes  tem umas músicas com umas introduções interessantes, e até meus filhos gostam. Outra banda que acho legal é Blondie . Também estou ouvindo Ronnie Von , da época pós Jovem Guarda , um trabalho bem audacioso. Também gosto muito do Los Hermanos . E de muitas bandas da década de 1960 que eu ouço seguidamente.

IHU On-Line - E para o futuro, quais são os projetos?
Frank Jorge
- Atuo como músico há 20 anos e nunca perdi a convicção do trabalho musical. Sinto-me com capacidade e potencial para continuar tocando, mas hoje as coisas funcionam de outra maneira. Nós temos uma sonoridade, uma técnica de tocar muito particular. Tenho menos ansiedade de concretizar meus projetos do que com 20 anos de idade. Tenho um histórico com realizações diversas e ainda muitos projetos pela frente. Não tenho nenhum projeto definido a curto prazo, como gravar um novo disco. Tenho um disco para ser lançado, um trabalho solo, que talvez eu encontre uma maneira de lançar esse ano, mas não é uma prioridade. Hoje o curso de rock recebe a minha atenção. Não me afastei do meio da música, acho que isso é positivo até para o curso. Vou trazer para o curso coisas que já fiz, como o fato de eu ter músicas gravadas por outros artistas, como o Pato Fu , Ira!  e Hard Working Band. Isso me orgulha muito. Também toquei com a orquestra da Ulbra, uma experiência riquíssima. Compareci a alguns festivais no Brasil, como no Rio de Janeiro e no Nordeste, e encontrei um público interessado no meu trabalho.

 

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