Edição 212 | 30 Novembro -0001

Maracatu, embolada, ciranda e rock:

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Para o historiador Herom Vargas Silva, depois de Chico Science (1966-1997), o rock “brazuca” tem “que olhar mais de perto para a música feita por aqui e saber utilizar o imenso manancial de ritmos e sonoridades que temos à nossa disposição”. E ressalta: “O que não dá mais para ouvir é grupo de rock nacional fazendo uma música parecida com o que se ouve por aí. Falta experimentação hoje em dia”. No seu entendimento, “nenhum grupo havia conseguido uma junção tão inovadora de elementos do maracatu, da embolada e da ciranda com aqueles vindos do rock e do rap”.

Chico Science, líder da banda Chico Science & Nação Zumbi, foi um dos principais cantores e compositores de Recife, ligado ao movimento Manguebeat. Deixou dois discos gravados, Da lama ao caos e Afrociberdelia, e teve sua  carreira precocemente abortada por um acidente de carro.

Herom é graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela mesma instituição. Sua tese intitulou-se Chico Science & Nação Zumbi: um estudo sobre o hibridismo e as relações entre música popular, mídia e cultura. O trabalho está para ser publicado pela Ateliê Editorial em abril deste ano sob o título Hibridismos musicais de Chico Science & Nação Zumbi. Organizou a obra Jornalismo da Metodista: trinta anos em muitas vozes. São Bernardo do Campo: UMESP, 2002. Atualmente, leciona na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, e foi por e-mail que concedeu a entrevista a seguir.

IHU On-Line - Quais foram as conclusões a que chegou com Chico Science & Nação Zumbi: um estudo sobre o hibridismo e as relações entre música popular, mídia e cultura? Como o universo cultural popular de Recife dá forma e se apresenta nas canções do grupo?
Herom Vargas Silva
- A principal contribuição que a tese traz é descrever e explicar os aspectos criativos das canções do grupo Chico Science & Nação Zumbi (focando os dois primeiros discos), sobretudo em relação às misturas que fizeram entre as tradições musicais pernambucanas e as músicas modernas. Nenhum grupo havia conseguido uma junção tão inovadora de elementos do maracatu, da embolada e da ciranda com aqueles vindos do rock e do rap. Alguns já haviam tentado, como Alceu Valença , Lenine  e Zé Ramalho , por exemplo, mas nenhum com a força e as inovações de Science.
Esse universo das canções tradicionais aparece no trabalho de CSNZ nos instrumentos (as alfaias do maracatu, o gonguê etc.), nos ritmos (ciranda, maracatu nação, maracatu rural), nas formas de canto que imitam a embolada, nas citações a personagens, cenas e espaços de Recife (Galeguinho do Coque, feiras, ruas etc.) e no uso da peculiar prosódia pernambucana no canto.

IHU On-Line - Chico Science virou um artista mito tanto por sua morte precoce e violenta quanto por seu talento inegável. Qual é a maior contribuição dele para a música brasileira?
Herom Vargas Silva
- Acho que o principal legado foi a idéia de juntar a força rítmica das alfaias do maracatu com a cadência do rap e a distorção das guitarras do rock. No geral, sua marca está na criatividade e na inovação. Tanto que deixou esse rastro na produção musical recifense até hoje. Não há grupo que não cite Science como influência. Ele levantou uma bandeira muito forte e bonita para que outros grupos colocassem o pé na estrada e levassem sua música para toda a cidade, todo o país e até para o exterior.

IHU On-Line - Como a sonoridade de Chico Science & Nação Zumbi se relaciona com o rock? Você poderia comentar sobre as diferentes sonoridades mescladas pelo grupo?
Herom Vargas Silva
- Uma das características do rock é o “peso” das guitarras e do baixo, ou seja, um som que tem a ver com uma estética “suja”. Os tambores do maracatu nação (forma urbana do maracatu pernambucano) têm também uma pujança sonora e um forte suingue. Desses elementos em comum, o grupo tirou uma das misturas. Outra coisa importante foi juntar as cadências vocais do rap e da embolada, cantos rítmicos por suas próprias naturezas. Outra é o uso da ciranda, forma musical e coreográfica típica do litoral nordestino, numa canção de amor.

IHU On-Line - E qual é a origem do nome da banda?
Herom Vargas Silva
- O Science de Chico tem a ver com sua propensão à experimentação musical, como um cientista da canção e da poesia (lembremos que ele e curtia muito hip hop, break e rap). Nação Zumbi tem, basicamente, três referências:  1) Há uma relação com os maracatus. Todas as agremiações de maracatu nação levam essa palavra antes do nome. Por exemplo: Maracatu Nação Leão Coroado. A nação é não somente o tipo de maracatu, como também o grupo em si dentro de sua respectiva comunidade; 2) Nação Zumbi vem também do nome do grupo do rapper África Bambaata , Zulu Nation, numa clara referência a um dos importantes artistas do rap; e 3) Zumbi é o nome do líder do Quilombo dos Palmares , símbolo de resistência dos escravos no Brasil.

IHU On-Line - Como essa banda se inseriu no contexto musical brasileiro da época? Como crítica e público reagiram?
Herom Vargas Silva
- O início de tudo foi em bares do Recife, junto com o grupo mundo livre s/a. Quando começaram a ficar conhecidos e chamaram a atenção da imprensa local, alguns jornalistas do Sudeste também ouviram falar. Daí vieram uma matéria na revista Bizz, assinada por José Teles, um crítico de música do Jornal do Commercio, de Recife e algumas apresentações em São Paulo, até o convite da Sony, pelo selo Caos, para a gravação do primeiro CD, Da Lama ao Caos, em 1994. Tanto crítica, quanto público aplaudiram de pé as músicas do grupo. A novidade e a força eram tão grandes que não houve quem não gostasse. A não ser aqueles mais tradicionais, que ainda pensavam em guardar o que achavam que era a pureza das músicas tradicionais contra o que tratavam como nefasto para a cultura brasileira, como o rock e outros gêneros norte-americanos.

IHU On-Line - Você poderia caracterizar a cena manguebeat da época e qual é a sua situação hoje?
Herom Vargas Silva
- Nos anos 1990, o impacto foi grande pela novidade e pelo uso que o pessoal da cena fazia da Internet que se abria comercialmente em 1995. Os festivais criados, as produtoras que davam apoio aos grupos novos, tudo foi criação naqueles anos e o Recife se tornou literalmente a música brasileira para o mundo. Hoje, a cena continua produtiva, porém sem tanto apoio da mídia do Sudeste, aquela que divulga como mais força e amplitude os fenômenos da música pop. Ou seja, há grupos fazendo ótimos trabalhos, mas sem aparecerem tanto fora de Pernambuco. Um ou outro consegue furar esse bloqueio. Parece-me que um nome importante hoje que vem crescendo é o grupo Mombojó .

IHU On-Line - Afrociberdellia tem a participação de Gilberto Gil, Fred 04 e Marcelo D2, além de uma pitada eletrônica. Como esse experimentalismo soou à crítica e ao público? E quais são as principais diferenças desse disco em relação à Da lama ao caos?
Herom Vargas Silva
- Como o próprio Chico comentou uma vez, o Afrociberdelia é como eles queriam que soasse o Da Lama ao Caos. Não que o primeiro fosse ruim, mas, ao gravarem o segundo, havia uma sensação de que o anterior poderia ter ficado melhor. O primeiro acabou soando mais cru, com menos elementos do que o segundo. De qualquer maneira, no Afrociberdelia, os apoios da gravadora foram maiores, o produtor (Bid) estava mais afinado com a proposta do grupo e a rapaziada do CSNZ estava mais consciente do trabalho em estúdio. No fundo, acho que Da Lama... tem mais a ver com a cara do CSNZ. Não que o segundo seja ruim, em absoluto. Mas Da Lama está mais próximo ao que os caras eram no início. Podem até considerá-lo mais ingênuo. Porém, é certamente um disco com sonoridade mais visceral.

IHU On-Line - José Teles, crítico de música do Jornal do Commercio, questionou-se sobre o que Chico Science e Jimi Hendrix, "dois astronautas libertados", estariam fazendo no ano de estréia de milênio. É possível falar em rock ‘n’ roll antes e depois desses dois ícones? Por quê?
Herom Vargas Silva
- Acho difícil falar em rock só por meio desses dois ícones. Claro, eles foram importantíssimos, mas há também Eric Clapton , Led Zeppelin , Janis Joplin , Pink Floyd , The Clash  e, no Brasil, Raul , Rita , Os Mutantes , Titãs, Renato Russo... De qualquer maneira, a guitarra e o rock não foram os mesmos a partir de Jimi Hendrix . Ele reinventou o gênero e a maneira de tocar. Já depois de Science, me parece que o rock brazuca tem que olhar mais de perto para a música feita por aqui e saber utilizar o imenso manancial de ritmos e sonoridades que temos à nossa disposição. Como fizeram os tropicalistas em 1967/1968 e o pessoal do Mangue, com destaque para CSNZ. O que não dá mais para ouvir é grupo de rock nacional fazendo uma música parecida com o que se ouve por aí. Falta experimentação hoje em dia. Acho que é isso que grupos novos, como o Mombojó, vêm tentando fazer.

A importância de Chico Science já está marcada, mesmo que as novas gerações pouco conheçam dele (sim, a meninada mais nova não o conhece...). Em Recife, seu nome sempre será lembrado, até porque não foi só na música que suas marcas aparecem. Há uma cena no cinema recifense chamada de Árido Movie (filme Baile Perfumado é um exemplo) que é inspirada no Mangue. Há também figurinistas e escultores com trabalhos fundados nos conceitos do manguebeat. Uma novidade que talvez seja interessante é que esta tese (doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC-SP) está para ser lançada em livro com ligeiras adaptações. Deverá sair em abril pela Ateliê Editorial, de S. Paulo, com o título Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi.

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