Edição 212 | 19 Março 2007

O rock e a multiplicidade de subculturas juvenis

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IHU Online

Para o pesquisador Antônio Marcus Alves de Souza, o rock ‘n’ roll como estilo “perdeu espaço e força para o techno e para a multiplicidade de subculturas juvenis. Mas isso pode ser cíclico, pois a cada período a lógica da indústria cultural tende a um reposicionamento das culturas”. Entretanto, pondera, “ao mesmo tempo em que o rock perdeu visibilidade, força no meio da urbanidade juvenil, também se especializou com uma maior segmentação do público, com a criação de um jornalismo de estilo próprio, uma crítica especializada, lojas próprias”.

Outro aspecto observado por Souza é que cresce o número de bandas que dialogam com a cultura popular, “recuperando e re-significando algum traço dessa tradição”. Assim, a cena rock mudou bastante, e exemplos disso são o movimento manguebeat, de Recife,  e as novas bandas surgidas em Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. A respeito do recém-criado curso de Formação de Produtores e Músicos de Rock da Unisinos, ressalta que a iniciativa demonstra que o “rock é objeto legítimo de estudo acadêmico”. Essas e outras afirmações podem ser conferidas na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line.

Graduado em Comunicação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Souza é mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UNB) com a dissertação Arte de Massa - crítica social e divertimento no rock brasileiro dos anos 80. É doutor em Sociologia também pela UNB. Escreveu Cultura Rock e Arte de Massa. Rio de Janeiro: Diadorim, 1995; Arte de massa une crítica e divertimento. Brasília: Universa, 2001; Cultura no Mercosul: uma política do discurso. Brasília: Plano/Fundação Astrojildo Pereira, 2004 e Poder Local: O desafio da Democracia. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2004.

IHU On-Line - O rock brasileiro dos anos 1980 é uma arte de massa? Por quê?
Antônio Marcus Alves de Souza
- Cheguei ao conceito de arte de massa durante minha pesquisa para o mestrado na UNB. À época estava estudando a questão da cultura rock no Brasil, com um enfoque centrado na criação de bandas como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso. Já tinha feito um trabalho anterior, ainda na graduação na UFPB, envolvendo a visão de modernidade desenvolvida pela Legião na música “Faroeste Caboclo”. Perceba: era uma coisa de jovem. Eu queria estudar algo que falasse a minha linguagem, que me mostrasse os fenômenos culturais da minha própria época. A partir do estudo de “Faroeste”, fui identificando outras faces dessa cultura. Novas possibilidades de criação, de produção e de entendimento para os diversos estilos do rock. Comecei então a vislumbrar o rock como um campo cultural e uma área de estudo. A cultura rock seria um fenômeno que merecia nossa atenção e eu passei a ter problemas de ordem teórica de como entender esse fenômeno. Eu não queria interpretá-lo apenas como um dado da indústria cultural, diagnosticada pela Escola de Frankfurt. Achava que isso poderia reduzir a força simbólica dessa cultura e meu próprio alcance interpretativo. Não esqueça o contexto dessa época. O Brasil estava saindo de uma ditadura militar e ainda estávamos aprendendo o convívio com os processos democráticos. Ao mesmo tempo, vivíamos uma época de chegada, de descoberta, de muitos novos conceitos, sobretudo, os ligados aos Estudos Culturais: multiculturalismo, a relação entre modernidade/pós-modernidade. A Universidade estava sobre o impacto de tudo isso e eu vinha de um curso intenso e bastante forte sobre a Escola de Frankfurt, desenvolvido pela socióloga Lourdes Bandeira. Era um garoto de 20 anos que lia Habermas , Adorno , Horkheimer , Benjamin , Marcuse  e cruzava um monte de informações do Instituto de Pesquisa alemão com as cenas de nossa própria cultura. Imaginava contradições, conflitos e recusava a entender o fenômeno rock apenas como simples criação da indústria cultural. Então, já no ambiente do Mestrado da UnB, fui combinando um conjunto de conhecimentos dos cursos de estética da professora Clara Alvim  – na comunicação -, de análise de sistemas simbólicos na antropologia com Jorge Carvalho , de metodologia  da comunicação com o professor José Luiz , que hoje está aí na Unisinos.

Ambigüidades do rock
Fiz então uma leitura concentrada da obra de Benjamin, que sempre me pareceu um pensador sofrido e, ao mesmo tempo, muito arejado. Muito esperançoso de que o problema da reprodução técnica da obra de arte não nos conduzisse apenas à barbárie, Benjamin era muito lido na Comunicação, mas meus colegas e professores viam mais a questão da reprodutibilidade técnica. Percebi uma espécie de esquecimento dessa “categoria” de análise estética – arte de massa - sobre a reprodução técnica da arte. A partir do conceito de arte de massa fui tentando entender as ambigüidades, os conflitos e as intermediações simbólicas que a cultura rock estava sugerindo naquela época. Acabei fazendo de certa forma uma atualização do conceito de arte de massa como forma de compreender a dinâmica de uma cultura que, mesmo agindo no ambiente da indústria cultural, mobilizava lances de crítica social, de denúncia e procurava alguma valorização da liberdade, da democracia, da criatividade para o indivíduo. 

IHU On-Line - Como a crítica social e o divertimento se entrelaçam no rock daquela época?
Antônio Marcus Alves de Souza -
Lembro que, quando defendi Cultura rock e arte de massa, a Clara Alvim chegou a dizer era um trabalho em defesa da minha própria geração, assim como os roqueiros com os quais eu falava realizam essa defesa geracional na própria cena rock. O que eu queria mesmo era constatar que a década de 1980, com a efervescência do rock, estava mobilizando elementos criativos e de denúncia de certas opressões com versos simples, com baladas desconcertadas, sem saber cantar um canto nobre. A crítica e o divertimento vão aparecer aí com muitas variações que podem ir desde a relação dos músicos com a indústria e com o sistema televisivo; passa pelas letras, pelos temas e pelos modos de apresentá-los. O  De Falla, a Legião, o Último Número, os Titãs e os Paralamas fizeram isso. São exemplos dos quais eu retirava fragmentos para mostrar a força do conceito de arte de massa, que deveria ser vista como uma categoria de análise estética, como eram as próprias noções de cultura de massa, cultura popular, indústria cultural e outras variantes.

IHU On-Line - E hoje qual é a situação do rock brasileiro? Crítica social e divertimento continuam presentes? Há uma preponderância de um aspecto sobre o outro ou há um equilíbrio?
Antônio Marcus Alves de Souza
- Penso a arte de massa como um conceito dinâmico, dialético, que pode nos ajudar a entender um conjunto de manifestações culturais. Mas também temos que tomar cuidado para não pegarmos certas idéias ou categorias e a partir delas sairmos a campo para encaixar as “palavras e as coisas”, como se os fenômenos culturais e sociais fossem sempre iguais. Cada período histórico, cada manifestação cultural concreta, pode dialogar com a idéia do exercício de uma crítica social e manter algum vislumbre de divertimento, de festa. Mas caberá ao intérprete dessa cena identificar quais as categorias de análise são mais pertinentes frente ao seu próprio objeto de estudo. Veja: eu cheguei ao conceito de arte de massa porque entendi que o conceito de indústria cultural estava esgotado enquanto uma categoria analítica. As pesquisas nas áreas de comunicação e de uma nova sociologia que emergiu nos últimos anos têm nos mostrado a necessidade de tomarmos cuidado com essas cristalizações analíticas. Veja o Canclini  com suas pesquisas sobre culturas híbridas ou Martín-Barbero  com a idéia das intermediações. Agora mesmo estou atento ao trabalho de José Luiz Braga sobre como a sociedade pode estar exercendo a crítica da mídia. É possível que estes novos estudos nos mostrem certos refinamentos ou mesmo atualizações de categorias e análises antigas. Também podem sugerir um novo olhar para tudo isso. Penso que o campo das ciências humanas e sociais está aberto e sendo muito criativo para análises de novos fenômenos. E cabe às pesquisas concretas mostrarem qual a força dos conceitos, qual o grau de preponderância do aspecto da crítica e do divertimento. Eu sempre os pensei como fenômenos interligados.

IHU On-Line - A cena do rock brasileiro mudou muito de 1980 para cá? Quais seriam as principais diferenças?
Antônio Marcus Alves de Souza
- É preciso olhar a cena rock atual com essa perspectiva de abertura, com o esforço de criação interpretativa. Cabe aos novos estudos a tarefa de mostrar, a partir de uma tipologia dos estilos, das manifestações da cultura, o grau de presença da critica social, o grau de experimentação da festa e do divertimento. Ou mesmo a presença de alguma apatia ou alienação – se bem que a categoria da alienação está um pouco em baixa.

Uma situação muito freqüente é que a cena rock está tentando algum contato com a tradição popular. É crescente o número de bandas que mantém um diálogo com a cultura popular, recuperando e re-significando algum traço dessa tradição. Penso que a cena rock mudou bastante. Tivemos o movimento manguebeat ,  novas bandas em Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Vivemos um certo deslocamento da cena com a ascensão de Pernambuco como “um lugar” de novas experimentações. Tivemos releituras dos anos 1980 por meio da onda do “Acústico”. Ao mesmo tempo, o rock perdeu espaço e força para o techno e variações culturais que extrapolaram a aquilo que chamava de “cultura rock”. A cena cultural dos últimos anos foi nos levando para uma multiplicidade de estilos e culturas que colocou o rock em um lugar mais preciso, mais segmentado talvez. Quero dizer que hoje a cultura jovem, por exemplo, tem a presença do rock e também de outras subculturas.

IHU On-Line - A Legião Urbana ocupou um lugar importante no rock nacional. Qual seria o principal legado desse grupo?
Antônio Marcus Alves de Souza
– A Legião me parece um fenômeno que de algum modo vai ter um lugar especial na história do rock brasileiro. Não é uma banda que sofreu muito desgaste, apesar da grande tendência de uso do mito de Renato Russo , em torno do qual ainda teremos polêmicas quando às heranças musicais. Mas isso é próprio da cultura rock e talvez a Legião Urbana tenha sido uma banda que incorporou de um modo muito forte essa tendência do rock. Muita coisa que se faz em torno do nome da Legião e do Renato atrai grande interesse das massas ainda hoje. A exposição que a irmã dele montou, há uns anos atrás, no Centro Cultural do Banco do Brasil, foi muito freqüentada. Agora há também esse espetáculo de teatro recentemente montado. Além disso, está sendo montado o Memorial Renato Russo, e a família, junto com alguns amigos, trabalha para tentar resgatar, preservar e renovar os elementos criativos do artista. Tem muita coisa verdadeira, criativa e honesta que gira em torno da banda e do Renato, mas também tem muita especulação e as pessoas se repetem muito quando vão falar dele.

Acho que tem muita coisa ainda não dita sobre a vida e a criação do Renato Russo e da Legião que somente alguns poucos amigos e a família podem dizer. Lembro que Vladimir Carvalho  tem coisas lindas, filmagens belas, que ainda estão sendo trabalhadas, sobre a Legião e as bandas de Brasília em seu início. Cheguei a iniciar um processo de identificação e reconhecimento dessas imagens, mas o Vladimir estava muito ocupado com as filmagens do documentário sobre José Lins do Rego . Eu também estava concentrado no meu doutorado. Não sei se vamos voltar a fazer esse trabalho porque acabei mudando de Brasília, mas vejo que as heranças em torno da Legião são múltiplas. 

IHU On-Line - Como tu entendes o papel do roqueiro na sociedade? É possível conciliar a rebeldia, que está na gênese do rock, com as limitações impostas pela indústria cultural?
Antônio Marcus Alves de Souza
- Quando estudava a cultura pop/rock esse tema sempre aparecia. Muitos roqueiros às vezes se indignavam com o tema ou gostavam mesmo. Lembro de uma entrevista do Renato Russo em que ele dizia para os jovens que se eles quisessem mudar o mundo, a sociedade, deveriam entrar para um partido político. Foi muito comum na cultura pop/rock dos anos 1980 esse dualismo dos roqueiros, que ora apareciam na mídia como uma “gente que não deve ser levada a sério” – digamos assim –, ora passam a discutir, a pensar questões importantes, como democracia, liberdade, sexualidade, opressão. O rock ajuda a renovar, a cada período, essa tradição de construção de um lugar crítico de onde o artista às vezes sonha com um mundo diferente. Penso que cada geração pode “inventar” esse seu papel, mas acho que no Brasil ainda estamos muito marcados por uma certa herança modernista, cuja atitude implica a manutenção de uma postura de compromisso social sem que seja inviabilizada a perspectiva criativa do ponto de vista da estética. Esse processo é intenso e dinâmico e suas contradições – principalmente quando o vislumbramos no ambiente da indústria cultural – podem ser compreendidas, talvez, por um conceito como arte de massa, que vai operar exatamente com as contradições, com os silêncios, os gritos e com o conflito. Uma vez uma das meninas da banda Mercenárias , questionada porque estava cantando em tom mais suave, disse mais ou menos isso: “é porque às vezes a gente gritava e ninguém escutava, então a gente está cantando mais baixo”. Ela estava nos falando dessas estratégias, do modo como cada grupo de roqueiro ou artista pode construir um diálogo público, uma “arte interessada” para recuperarmos Mário de Andrade .

IHU On-Line - Em relação aos outros estilos musicais que ganharam espaço nos últimos anos, como funk, hip-hop, dance, o rock perdeu espaço?
Antônio Marcus Alves de Souza
- Como estilo, penso que o rock perdeu terreno com a multiplicidade de subculturas juvenis. Mas isso pode ser cíclico, quer dizer, a cada período a lógica da indústria cultural tende a um reposicionamento das culturas. Ao mesmo tempo em que o rock perdeu visibilidade, força no meio da urbanidade juvenil, também se especializou com uma maior segmentação do público, com a criação de um jornalismo de estilo próprio, de uma crítica especializada, de lojas próprias. Então a qualquer momento essa cultura pode irromper como uma “onda” forte.

IHU On-Line - E quanto a estudar rock em uma universidade, como tu vês essa iniciativa da Unisinos?
Antônio Marcus Alves de Souza
- A iniciativa é muito interessante e mostra que o rock é um objeto legítimo de estudo acadêmico. É uma cultura que possui uma dinâmica, uma linguagem própria. Constitui uma economia, ligada ao entretenimento, e tem uma simbólica que merece ser estudada e pesquisada pela Universidade. Desde o lançamento de Cultura rock e arte de massa, o cenário da cultura e da Universidade mudou muito. A Unisinos, quando enfoca essa cultura como objeto de estudo e ensino, está nos indicando uma aproximação com a realidade da cultura urbana juvenil e vejo que o ambiente universitário também se renova com isso. Às vezes, me sentia muito solitário quando escrevia esse livro que citei e hoje vejo que há muitas coisas que não daria conta de explicar sozinho. Acho que levantei problemas, de ordem teórica e da crítica, que precisam ser revistos por mais gente. A própria cultura rock para ser entendida carrega essa necessidade de uma ordem diversa de saberes, de área de conhecimento interdisciplinar. Um curso como o que vocês criaram pode melhorar o entendimento, a produção e mesmo a continuidade dessa cultura. Mas fico muito atento para a gente não funcionalizar demais o rock quando está estudando-o. 

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