Edição 514 | 30 Outubro 2017

É preciso pragmatismo para o Brasil não ser um celeiro de mão-de-obra barata

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Vitor Necchi

Para Maurício Casotti, não é possível fechar os olhos para os avanços da automação, mas é preciso identificar áreas onde se pode atuar

O momento atual é similar ao início de massificação da internet nos anos 1980. “Naquela época, eram feitos muitos prognósticos de como a nossa vida mudaria com a rede mundial de computadores, como era chamada, mas não se podia prever as redes sociais e seus impactos em nosso dia-a-dia”, recorda Maurício Casotti. “Quem poderia imaginar que o waze estaria disponível para nos ajudar a ir de um lugar a outro? Quem ousaria dizer que o maior operador de transportes no mundo seria uma empresa de tecnologia e não possuiria nenhum veículo e nenhum motorista? E quanto ao Airbnb, com mais 180 milhões de hospedes sem possuir um único hotel?”

Em entrevista concedida com e-mail à IHU On-Line, Casotti considera que os principais impactos do emprego de tecnologia estão relacionados ao consumo mais eficiente dos recursos existentes. “A internet das coisas e a inteligência artificial não são exceção, mas talvez a principal mudança é a transformação da cadeia produtiva, que poderá atender a necessidades hoje não atendidas”, analisa.

Todos os segmentos são suscetíveis aos impactos da internet das coisas e da inteligência artificial. A tecnologia sempre impacta com a automatização das tarefas repetitivas. “A questão é que com a velocidade do avanço das tecnologias habilitadoras, a nossa visão do que é uma tarefa repetitiva está mudando rapidamente”, observa.

Não é possível fechar os olhos para os avanços da automação, mas, conforme Casotti, é preciso “identificar ações em áreas onde podemos atuar”. Ele cita um estudo segundo o qual “menos de 5% das ocupações podem ser totalmente automatizadas pelo uso de tecnologia, mas 60% dessas ocupações têm pelo menos 30% de suas atividades automatizáveis”. Não se trata de uma equação simples de se resolver, “mas precisamos atacá-las com pragmatismo para o Brasil não ser um celeiro de mão-de-obra barata”.

Maurício Casotti é graduado em matemática pela Unicamp e tem MBA Executivo com concentração em Gestão de Empresas e Complementação em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM. Trabalha atualmente na área de marketing com foco na internet das coisas e na transformação digital. É gerente de Negócios e Soluções no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações – CPqD

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é internet das coisas (IoT, do inglês internet of things)?
Maurício Casotti – A definição de IoT tem a meu ver dois aspectos que devem ser considerados. Um deles é a definição mais tecnológica, e para isso podemos utilizar a definição propagada pelo Gartner [www.gartner.com], ou seja, “a Internet das Coisas (IoT) é a rede de objetos físicos que contêm tecnologia incorporada para se comunicar e detectar ou interagir com seus estados internos ou o ambiente externo”.

O outro aspecto leva em conta os fatores sociais e econômicos de IoT. Trata-se de uma onda de transformação impulsionada pela tecnologia que afeta as interações que temos com o mundo que nos cerca.

IHU On-Line – E inteligência artificial (AI)?
Maurício Casotti – A inteligência artificial pode ser definida como a capacidade de sistemas de computação que executam funções atribuídas à mente humana. Tais capacidades podem ser divididas em:
• Percepção: coletar e interpretar o mundo envolvendo processamento de linguagem natural, visão computacional e processamento de áudio. Esse é o principal elo entre IoT e AI.
• Predição: envolve o uso de “raciocínio” para antecipar comportamentos e resultados.
• Prescrição: diz respeito a tomar decisões com o objetivo de atingir determinados resultados.

IHU On-Line – O que internet das coisas e inteligência artificial têm em comum?
Maurício Casotti – A combinação de IoT com AI é o que podemos chamar de 4ª Revolução Industrial, rompendo barreiras entre o mundo físico e o mundo virtual. As tecnologias envolvidas tanto em IoT como em AI já estão sendo pesquisadas, desenvolvidas e aplicadas há algumas décadas e têm trazido impactos na sociedade e na economia, porém, nos últimos anos, os avanços em tecnologias habilitadoras têm sido muito mais rápidos, impulsionados por alguns fatores:
• Miniaturização da eletrônica e a redução de custo pelo ganho de escala tem viabilizado embarcar sensoriamento e inteligência em objetos do nosso dia-a-dia com baixo consumo de energia.
• Conectividade pervasiva – a combinação de tecnologias diferentes de conectividade tem possibilitado novos modelos de ofertas que atendem técnica e economicamente diferentes cenários de aplicação.
• Cloud Computing, que trazem escalabilidade e resiliência no processamento e armazenando de dados a custos cada vez mais acessíveis.
• Poder computacional – os smartphones que temos em nossas mãos têm mais poder de processamento do que tínhamos em grandes mainframes de pouco tempo atrás.

Apesar de IoT e AI seguirem seus caminhos próprios de desenvolvimento no campo da pesquisa, não há como separá-las no campo da aplicação.

IHU On-Line – Que impactos a internet das coisas e a inteligência artificial têm provocado na sociedade?
Maurício Casotti – Os principais impactos do emprego de tecnologia estão relacionados ao consumo mais eficiente dos recursos existentes. A internet das coisas e a inteligência artificial não são exceção, mas talvez a principal mudança é a transformação da cadeia produtiva, que poderá atender a necessidades hoje não atendidas.

IHU On-Line – E em relação ao futuro, o que se pode esperar? É seguro fazer prognósticos?
Maurício Casotti – Estamos vivenciando um momento similar ao início de massificação da internet nos anos 80. Naquela época, eram feitos muitos prognósticos de como a nossa vida mudaria com a rede mundial de computadores, como era chamada, mas não se podia prever as redes sociais e seus impactos em nosso dia-a-dia. Quem poderia imaginar que o waze estaria disponível para nos ajudar a ir de um lugar a outro? Quem ousaria dizer que o maior operador de transportes no mundo seria uma empresa de tecnologia e não possuiria nenhum veículo e nenhum motorista? E quanto ao Airbnb, com mais 180 milhões de hospedes sem possuir um único hotel?

IHU On-Line – Quais segmentos são mais suscetíveis aos impactos da internet das coisas? E da inteligência artificial?
Maurício Casotti – Todos os segmentos, desde a academia, os meios de produção e o consumo de produtos e serviços. Desde sempre a tecnologia vem trazendo impacto com a automatização das tarefas repetitivas. A questão é que com a velocidade do avanço das tecnologias habilitadoras, a nossa visão do que é uma tarefa repetitiva está mudando rapidamente.

IHU On-Line – Especificamente no mundo do trabalho, o que muda?
Maurício Casotti – É fato que o trabalho está mudando, a demanda por profissionais mais qualificados é cada vez maior, e. mais uma vez, isso não é de hoje.

IHU On-Line – Quando se fala em digitalização dos processos e o impacto disso nas empresas, fala-se muito em ganho de produtividade e competitividade – ou seja, a perspectiva da empresa, do negócio. Não é importante que se discuta mais a realidade dos trabalhadores?
Maurício Casotti – Sem dúvida alguma a preparação de profissionais para esse novo cenário é de suma importância, tanto que o estudo Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil, liderado pelo BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social] e MCTIC [Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações] trata essa questão de maneira horizontal, pois afeta consideravelmente todos os segmentos.

IHU On-Line – Há projeções de que a Revolução 4.0 provocará drásticas diminuições no número de postos de trabalho. Se isso ocorrer, afetará o consumo e, em consequência, as empresas. Como haverá consumo sem consumidores?
Maurício Casotti – A questão aqui é não fechar os olhos para os avanços da automação, mas identificar ações em áreas onde podemos atuar. Não são todas as funções que podem ser automatizadas, o estudo Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil apontou que menos de 5% das ocupações podem ser totalmente automatizadas pelo uso de tecnologia, mas 60% dessas ocupações têm pelo menos 30% de suas atividades automatizáveis. A equação não é de longe simples de se resolver, mas precisamos atacá-las com pragmatismo para o Brasil não ser um celeiro de mão-de-obra barata.

IHU On-Line – Neste contexto, uma pessoa que esteja planejando sua carreira, deve levar em conta que aspectos?
Maurício Casotti – Se houver uma recomendação fundamental e perene em qualquer área de conhecimento, ela pode ser resumida a “aprenda a aprender”, pois o conhecimento adquirido é cada vez mais perecível e logo precisa ser renovado.

IHU On-Line – Um relatório divulgado em abril do ano passado pelo CPqD revelou que o uso da internet das coisas (IoT) estava aumentando dentro das empresas, mas menos da metade das organizações cujos profissionais foram ouvidos desenvolvia algum processo baseado nesse conceito. Quais fatores entravam a modernização das empresas?
Maurício Casotti – A inovação pressupõe correr riscos e um macroambiente favorável, por isso, as questões relacionadas a modelos de negócios sustentáveis são o principal fator para impulsionar os investimentos na modernização das empresas. Os principais fatores que impactam na construção de modelos de negócios sustentáveis são: segurança e privacidade, regulamentação, disponibilidade de mão-de-obra e acesso às fontes de fomento à inovação.

IHU On-Line – Como a internet das coisas pode beneficiar as cidades e a população?
Maurício Casotti – Com um ecossistema de IoT que envolve a administração pública, a população e a inciativa privada com empresas consolidadas e startups, a cidade alcança a capacidade de realizar a coleta, a integração e a análise de dados de diferentes origens e formatos para subsidiar as estratégias do município pautadas no bem-estar dos cidadãos, na sustentabilidade e no desenvolvimento local.

As cidades precisam se posicionar como uma plataforma digital, consolidando o ecossistema que melhor atenda à crescente demanda por serviços públicos de qualidade com eficiência e custos adequados à realidade brasileira.

IHU On-Line – A realidade projetada por obras de ficção científica está mais perto de ser alcançada?
Maurício Casotti – Sim, mas é difícil dizer quando. A questão mais importe para mim é a de como o Brasil irá participar dessa evolução inevitável.

IHU On-Line – O desenvolvimento tecnológico deve agravar ou diminuir as desigualdades sociais?
Maurício Casotti – Não é o desenvolvimento tecnológico, mas o acesso a ele é que pode diminuir as desigualdades sociais. A falta de desenvolvimento tecnológico local e a sua disseminação tendem a agravar as desigualdades. ■

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