Edição 514 | 30 Outubro 2017

Brasil tem a obrigação de pôr em prática o conceito de indústria 4.0

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Vitor Necchi

Vinicius Fornari afirma que, para muitos setores, a única forma de se manter competitivo no longo prazo é com adequação a essa nova revolução industrial

Muito se fala na Revolução 4.0, no entanto, o impacto na indústria ainda é incipiente não apenas no Brasil, mas em outros países, incluindo Alemanha e Estados Unidos. Conforme o economista Vinicius Fornari, “para muitos setores, a única forma de se manter competitivo no longo prazo é com adequação a essa nova revolução industrial”. O cenário não é desfavorável, pois, o Brasil tem “uma base industrial diversificada, com empresas com competência em áreas-chave para a indústria 4.0, como máquinas e equipamentos, integração de sistemas e software, onde há muitas oportunidades de desenvolvimento”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Fornari é enfático: “O Brasil não só tem condições de pôr em prática o conceito de indústria 4.0, como tem a obrigação de fazê-lo”. Neste sentido, um estudo realizado pela CNI identificou alguns eixos de atuação: disseminação de sua importância para a competitividade das empresas; uma política que promova a difusão de tecnologias digitais ao longo das cadeias produtivas; o estímulo ao desenvolvimento tecnológico local; e o desenvolvimento da infraestrutura digital.

Outro aspecto que não pode ser esquecido é a “capacitação de recursos humanos adequados à nova realidade da indústria”, algo que tem despertado a atenção de especialistas em todo o mundo. Na esfera regulatória, há outros desafios que precisam ser enfrentados para que o país não perca a Revolução 4.0: proteção de dados, cybersegurança, modernização das relações trabalhistas e a definição de padrões que assegurem a interoperabilidade e a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor.

Vinicius Cardoso de Barros Fornari é graduado em Ciências Econômicas e mestre em Economia pela Universidade Estadual Paulista – Unesp, doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. É Especialista em Políticas e Indústria na Confederação Nacional da Indústria – CNI.

Fornari esteve no IHU no último dia 4/10, proferindo a palestra Impacto da quarta Revolução Industrial na economia e na indústria. Leia mais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como caracterizar a quarta Revolução Industrial?
Vinicius Fornari – A quarta Revolução Industrial, também conhecida como Indústria 4.0 e manufatura avançada, é a integração de diferentes tecnologias que combinam componentes físicos e digitais. Entre as mais relevantes para este processo estão a Internet das Coisas (IoT), sensores, robótica avançada, impressão 3D, novos materiais, big data, computação em nuvem, sistemas de conexão máquina-máquina (M2M), infraestrutura de comunicação, inteligência artificial, sistemas de simulação.

IHU On-Line – O senhor trabalha na Confederação Nacional da Indústria (CNI), cuja perspectiva de atuação é defender os interesses do setor industrial. Quais os principais temas de interesse da entidade no que se refere à Revolução 4.0?
Vinicius Fornari – Interesse de ter a indústria brasileira competitiva. Para muitos setores, a única forma de se manter competitivo no longo prazo é com adequação a essa nova revolução industrial. Temos uma base industrial diversificada, com empresas com competência em áreas-chave para a indústria 4.0, como máquinas e equipamentos, integração de sistemas e software, onde há muitas oportunidades de desenvolvimento.

IHU On-Line – Qual o impacto da quarta Revolução Industrial na economia e na indústria?
Vinicius Fornari – Na economia podemos citar: i) a redução das vantagens comparativas, que tenderão a ser solapadas pelos ganhos de produtividade decorrentes da adoção das novas tecnologias, com a possibilidade de redefinir fatores determinantes de localização de investimentos produtivos; ii) a ampliação da cooperação entre agentes econômicos, cujas operações serão cada vez mais integradas; iii) o reforço da competitividade que se estabelece entre sistemas produtivos, que incluem empresas, fornecedores, clientes e ambiente; iv) o estabelecimento de novos modelos de negócios e de inserção nos mercados, com a possível redefinição de setores de atividade econômica; v) a ampliação da escala dos negócios; e vi) o surgimento de novas atividades e novas profissões, que demandarão adaptações no padrão de formação de recursos humanos.

Na indústria, são inúmeros os impactos. Podemos citar: maior integração vertical e horizontal, eficiências nos usos dos recursos, tempo de desenvolvimento de produtos, flexibilidade da produção (customização em massa), ganhos de produtividade, novos modelos de negócios etc.

IHU On-Line – Em que países a indústria 4.0 está mais avançada e por quê? E no Brasil, em que estágio se encontra?
Vinicius Fornari – Em primeiro lugar, é importante ter em mente que a indústria 4.0 se manifesta de forma distinta em diferentes contextos. Ela está associada a um amplo conjunto de tecnologias digitais que podem se agrupar de muitas formas dependendo do setor, do tipo de atividade e do próprio país.

Cada um desses países tem desenhado estratégias de desenvolvimento da Indústria 4.0/Manufatura Avançada a partir das características dos seus setores produtivos e dos desafios que estes terão que enfrentar para ganhar ou preservar sua competitividade no longo prazo.

A evolução da indústria 4.0 no Brasil ainda é incipiente, mas esse quadro não é muito diferente do que observamos em outros países, pois trata-se de um fenômeno relativamente novo até em países como Alemanha e Estados Unidos. A adoção em larga escala das tecnologias digitais associadas à indústria 4.0 ainda não é um fenômeno amplamente disseminado pelo tecido industrial desses países. O Brasil não só tem condições de pôr em prática o conceito de indústria 4.0, como tem a obrigação de fazê-lo.

IHU On-Line – Qual o papel do governo e do empresariado na implementação da indústria 4.0?
Vinicius Fornari – O apoio do Estado será decisivo para o nosso sucesso, bem como a capacidade de promover essa transformação rapidamente. Nossos principais concorrentes colocaram a indústria 4.0 no centro de suas estratégias de política industrial (Alemanha, Estados Unidos e China).

No governo brasileiro, há duas frentes de trabalho. Em 2014, o Ministério das Comunicações (atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC) criou a Câmara de Internet das Coisas, com objetivo de desenvolver o Plano Nacional de Internet das Coisas. A câmara é composta por uma gama de associações e ministérios, dividida em diversos subgrupos, sendo um deles o de Indústria 4.0/Manufatura Avançada.

Em 2017, o MCTIC e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assinaram um acordo de cooperação técnica para a coordenação de um grande estudo, que tem como objetivo realizar um diagnóstico e propor políticas públicas no tema Internet das Coisas. O estudo será utilizado como subsídio para elaboração do Plano Nacional de Internet das Coisas. A previsão é que o estudo saia em outubro.

Em 2016, o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e o MCTIC lançaram o estudo Perspectivas de especialistas brasileiros sobre oportunidades e desafios para a manufatura avançada no Brasil, resultado de workshops realizados em sete estados brasileiros, dos quais participaram 300 especialistas em inovação. Em 2017, foi criado pelo MDIC o grupo de trabalho Indústria 4.0, que reúne um conjunto de associações e especialistas para desenvolver um plano nacional para Indústria 4.0 no Brasil.

IHU On-Line – De que maneira a CNI lida com os desafios e as contradições suscitados pela indústria 4.0?
Vinicius Fornari – Em um estudo que fizemos na CNI, Desafios para indústria 4.0 no Brasil, identificamos alguns eixos de atuação. O primeiro passo é a disseminação de sua importância para a competitividade das empresas em um prazo que, para alguns setores, pode ser relativamente curto. É preciso uma política que promova a difusão de tecnologias digitais ao longo das cadeias produtivas, o estímulo ao desenvolvimento tecnológico local e o desenvolvimento da infraestrutura digital. A capacitação de recursos humanos adequados à nova realidade da indústria é outro aspecto que tem demandado a atenção de especialistas em todo o mundo. Finalmente, na esfera regulatória, os desafios envolvem temas como proteção de dados, cybersegurança, modernização das relações trabalhistas (por exemplo, para viabilizar as tecnologias de cooperação homem-máquina) e a definição de padrões que assegurem a interoperabilidade e a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor.

IHU On-Line – Conforme dados da CNI publicados em maio de 2016, 42% das empresas do país desconhecem a importância das tecnologias digitais para a competitividade da indústria e 52% não utilizam nenhuma tecnologia digital. Qual sua análise sobre estes dados?
Vinicius Fornari – A Sondagem Especial 66 sobre Indústria 4.0, pesquisa realizada pela CNI, mostrou que o conhecimento da indústria brasileira sobre tecnologias digitais e a sua incorporação à produção, pré-condições para o avanço da Indústria 4.0, ainda é pouco difundido: 42% das empresas desconhecem a importância das tecnologias digitais para a competitividade da indústria e mais da metade delas (52%) não utilizam nenhuma tecnologia digital de uma lista com 10 opções. Para isso, uma ampla disseminação das tecnologias relacionadas é fundamental, pois antes do investimento é preciso ter o conhecimento.

IHU On-Line – Em relação aos empregos, há projeções de que ocorrerão drásticas diminuições em postos de trabalho. Se isso ocorrer, afetará o consumo e, em consequência, as empresas. Como haverá manutenção do consumo sem consumidores? De que forma a CNI e o mundo empresarial estão lidando com esse cenário?
Vinicius Fornari – Há muita incerteza sobre o impacto da indústria 4.0 nos empregos. É uma preocupação natural e, se olharmos para trás, veremos que as três revoluções industriais que a precederam também geraram muita especulação em relação ao trabalho. Em todas elas, contudo, o que vimos foi o desaparecimento gradual de empregos de pior qualidade, muitos dos quais exigiam muito esforço físico do trabalhador, e sua substituição por empregos de maior qualidade e mais bem remunerados. Se acreditarmos que essa tendência se repetirá, deve servir como um estímulo adicional para que o Estado invista na educação da população e a prepare para assumir os novos empregos que virão. De qualquer forma, acredito que ainda é cedo para fazer previsões a esse respeito. ■

Leia mais

É importante pensar política industrial e competitividade para o Brasil não perder a revolução 4.0. Reportagem publicada nas Notícias do Dia, de 6-10-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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