Edição 514 | 30 Outubro 2017

O encontro entre Reforma e o surgimento da Modernidade

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João Vitor Santos | Tradução: Moisés Sbardelotto

Franco Cardini analisa que a diferença na ação de Lutero e na de Francisco de Assis está na insurgência ao papa e na associação ao poder temporal, que contribui para o absolutismo moderno

O historiador Franco Cardini compreende a figura de Martinho Lutero como um agostiniano atormentado com a ideia de salvação e, particularmente, escandalizado com a corrupção do alto clero. Para o professor, são esses elementos que o fazem questionar o poder papal. Movimento semelhante ao que fez Francisco de Assis, em plena Idade Média. A diferença, segundo Cardini, está na associação que Lutero faz com o poder temporal. “O seu sonho de retorno ao Evangelho faz parte de um programa e de um projeto”, reitera. “A diferença está no fato de que Lutero, rebelando-se contra o papa, apelou ao mais alto poder temporal da época”, destaca na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Cardini ainda lembra que Lutero nunca quis um cisma, e, embora tivesse a intenção de romper com o pensamento medieval, gostaria realmente de voltar ao cristianismo apostólico. Ou seja, a sua contribuição para a eclosão da modernidade foi quase uma consequência não planejada. “O seu gesto encontrou-se com um dos elementos do nascimento da Modernidade: a desagregação do universalismo cristão, o nascimento do absolutismo moderno. Sem o apoio político da alta nobreza alemã e uma notável ‘simpatia’ do imperador Carlos V, a ‘revolta’ de Lutero não teria sucesso”, pontua. O professor ainda lembra que, a partir de Lutero, todos os reformadores são levados a uma associação com o poder político da época para se dissociarem da igreja de Roma. “Mas o resultado disso foi a constituição de Igrejas nacionais subordinadas ao poder temporal”, completa.

Franco Cardini é italiano de Florença. Historiador, professor do Istituto Italiano di Scienze Umane - Sum. Ocupa-se, há meio século, com estudos sobre as relações entre Europa medieval e Oriente, essencialmente como os temas cruzadas, peregrinações, relações culturais, relações político-diplomáticas, laços econômicos e comerciais. Ao longo das últimas três décadas, tem ampliado sua investigação aos tempos modernos e contemporâneos. Entre as publicações, destacamos o título em português Atlas Histórico do Cristianismo Para Jovens (São Paulo: Cidade Nova, 2010), e os livros Samarcanda: Un sogno color turchese (Società editrice il Mulino, 2016) e Andare per le Gerusalemme d'Italia (Società editrice il Mulino, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compreender a figura de Martinho Lutero no contexto do tempo medieval?
Franco Cardini – Idade Média, Idade Moderna e assim por diante são abstrações. Lutero é um religioso agostiniano atormentado pelo problema da relação entre salvação da alma e predestinação, e sinceramente escandalizado pela corrupção do alto clero do seu tempo. O seu sonho de retorno ao Evangelho faz parte de um programa e de um projeto não muito diferentes dos de Francisco de Assis : a diferença está no fato de que Lutero, rebelando-se contra o papa, apelou ao mais alto poder temporal da época.

O seu gesto encontrou-se com um dos elementos do nascimento da Modernidade: a desagregação do universalismo cristão, o nascimento do absolutismo moderno. Sem o apoio político da alta nobreza alemã e uma notável “simpatia” do imperador Carlos V , a “revolta” de Lutero não teria sucesso. E ele nunca pensou em provocar um cisma.

IHU On-Line – De que forma podemos entender as mudanças do pensamento medieval ao moderno e por que a Reforma Luterana pode ser tida como um marco dessa mudança?
Franco Cardini – Na Reforma, há duas características tipicamente modernas: a relação primária com o Estado laico e a atitude individualista no exame da Sagrada Escritura.

IHU On-Line – A experiência do protestante Lutero provoca transformações nas relações entre poder temporal e espiritual? De que forma?
Franco Cardini – Com Lutero e depois de Lutero, todos os reformados (com exceção de algumas seitas radicais) se apoiariam nos poderes temporais ou, melhor, lhes solicitariam a se substituírem à Igreja na gestão de poderes e de riquezas. Mas o resultado disso foi a constituição de Igrejas nacionais subordinadas ao poder temporal.

IHU On-Line – A Igreja Medieval passou por reformas que antecederam a Luterana. Como esses movimentos vão impactar no pensamento do monge Lutero?
Franco Cardini – Sem dúvida, Lutero é influenciado pelas reformas anteriores. O tema reformare deformata é típico e usual na vida da Igreja.

IHU On-Line – E como a cisão promovida pelo monge vai gerar outras reformas, tanto dentro do catolicismo como do protestantismo, com divisões duras entre os próprios evangélicos?
Franco Cardini – Uma vez iniciado o processo de cisma, ele se reproduziu, por natureza própria.

IHU On-Line – No que consiste a paradoxal coexistência das ideias de liberdade e servidão presentes em Lutero? Como esses conceitos se articulam no mundo medieval e de que forma são ressignificados na Modernidade?
Franco Cardini – A coexistência da liberdade do cristão e a servidão do súdito é um elemento constante na Idade Média. O tema central da Idade Média, a partir desse ponto de vista, é a relação entre onipotência divina e respeito, por parte de Deus, pela vontade humana. Como essa vontade pode verdadeiramente ser livre sem prejudicar o princípio da onipotência divina continua sendo o principal problema que permanece mesmo depois da Reforma.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre o processo de secularização e mesmo a ideia de globalização, dos tempos modernos até os dias atuais, com a descoberta de Lutero acerca das contradições entre fé, liberdade individual e Onipotência divina presentes na alma cristã?
Franco Cardini – A Modernidade, na sua essência, é duas coisas: individualismo e primado da economia. Lutero estabelece um ponto firme do primeiro através do “livre exame da Sagrada Escritura”. Calvino , do segundo, através do conceito de sucesso na vida mortal como sinal da predileção divina e, portanto, da predestinação à salvação. Os poderosos e os ricos tornam-se os candidatos à salvação espiritual, os prediletos de Deus. A sintaxe do “Discurso das bem-aventuranças” é invertida, e afirma-se a ideia de que poder e riqueza estão do lado da vontade de Deus.

IHU On-Line – Lutero propõe um outro tipo de humanismo cristão?
Franco Cardini – O humanismo cristão de Lutero se baseia no de Lorenzo Valla : exegese filosófica da Escritura como possibilidade e capacidade de entender o seu autêntico valor, portanto, estudo filológico como início da salvação espiritual.

IHU On-Line – Quais foram os limites do protestantismo luterano?
Franco Cardini – Essencialmente, o apoio por parte das aristocracias alemãs, depois a subordinação da Igreja reformada a um poder temporal que encontrava na rebelião contra a Igreja e na apropriação dos seus poderes e das suas riquezas a fonte das suas novas prerrogativas.

IHU On-Line – De que forma o movimento de Lutero pode inspirar outros movimentos no nosso tempo?
Franco Cardini – A rejeição do princípio de autoridade eclesiástica e da relativa disciplina, portanto, a “democratização” da vida das comunidades cristãs é fonte contínua de nascimento de movimentos autorreferenciais.

IHU On-Line – Que avaliação o senhor faz da aproximação entre católicos e luteranos? Quais desafios ainda precisam ser superados?
Franco Cardini – Problemas como o celibato do clero não obstaculizam a reaproximação; são mais pesados os problemas relacionados à exclusividade do exercício ministerial por parte das pessoas de sexo masculino. A questão do primado de Pedro e da sua aceitação poderia ser superada através do reconhecimento de um primado no plano da auctoritas e de uma condução por parte do corpo episcopal da Igreja (“conciliarismo”) sobre o da potestas. O culto à Virgem e aos santos poderia ser aceito com base nos costumes eclesiais.

IHU On-Line – O senhor é um estudioso das cruzadas medievais. Que relações podemos estabelecer entre essas guerras e os conflitos entre muçulmanos e cristãos no nosso tempo?
Franco Cardini – Nenhuma, exceto o uso distorcido que foi feito por parte de historiadores improvisados e de publicistas ignorantes e desonestos para se servir do passado para estabelecer uma analogia com os do presente que têm uma origem totalmente diferente. O mundo muçulmano não tem nenhuma verdadeira memória das cruzadas (no árabe clássico, não havia sequer uma palavra para designá-las). O ressentimento, no máximo, diz respeito ao período colonial e, sobretudo, às décadas da hegemonia e da exploração desde o fim da Primeira Guerra Mundial até hoje.

IHU On-Line – O que a aproximação entre católicos e luteranos pode significar ao diálogo inter-religioso? E como pensar em estabelecer esse diálogo para além do cristianismo?
Franco Cardini – Tendo claro que as religiões correspondem ao Absoluto, e, sobre o Absoluto, não se pode dialogar. Mas os seres humanos de diferentes religiões dialogam: e dialogam com base em problemas éticos, econômicos e sociais comuns. A partir desse ponto de vista, a colaboração entre religiões diferentes é fácil e desejável.■

Leia mais

- Lutero, o “desbravador” da Modernidade. Comentário de Franco Cardini, reproduzido nas Notícias do Dia de 20-8-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- "Não é uma cruzada. É uma guerra moderna e totalmente ideológica." Entrevista com Franco Cardini, reproduzida nas Notícias do Dia de 28-7-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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