Edição 514 | 30 Outubro 2017

Lutero como discípulo de Paulo e o cristianismo como religião do ressentimento

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Márcia Junges | Tradução: Walter O. Schlupp

Andreas Urs Sommer assinala a oposição sistemática das obras tardias de Nietzsche entre Reforma e Renascença. Ensinamentos de Jesus teriam sido mal interpretados por Paulo e Lutero

“Em suas primeiras obras, Nietzsche, cujo pai era pastor luterano, apresentava uma relação bastante positiva com Lutero; em O Nascimento da Tragédia ele o coloca como pioneiro da cosmovisão dionisíaca. A par do seu distanciamento com seu mentor de outrora, Richard Wagner, Nietzsche vai se distanciando de Lutero. Agora o Reformador se apresenta como representante de uma cosmovisão retrógrada, como valentão da colônia e provinciano chauvinista alemão, até mesmo como restaurador de um cristianismo que, na verdade, já está fadado ao ocaso, como inimigo das ciências e da autoemancipação da pessoa humana.” A afirmação é de Andreas Urs Sommer, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

E acrescenta: “Também Paulo só recebe um papel central na obra tardia de Nietzsche. Ali ele é o inventor propriamente dito do cristianismo, “gênio do ódio”, que teria conseguido transformar a mensagem de Jesus numa religião do ressentimento de primeira categoria. Nisso, Nietzsche considera Lutero discípulo de Paulo, porém sem lhe atribuir a mesma importância: sua influência histórica teria sido de séculos, enquanto a de Paulo, de milênios.” Paulo seria o protagonista e Lutero, o “continuador dessa total inversão de intuições originariamente jesuínas.”

Andreas Urs Sommer é filósofo, professor catedrático de Filosofia, área de Filosofia da Cultura e especificamente Friedrich Nietzsche, na Universidade Albert Ludwig em Freiburg, Alemanha. Estudou nas Universidades de Basel, Göttingen e Freiburg. Publicou inúmeras obras, mais recentemente Nietzsche und die Folgen [Nietzsche e as Consequências] (Stuttgart: J. B. Metzler, 2017).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A partir da crítica formulada por Nietzsche, quem é Lutero e o que é o Luteranismo?
Andreas Urs Sommer - Em primeiro lugar surpreende quão multifacetadas são as imagens que Nietzsche tem de Lutero . De forma alguma é possível aplicar a elas um denominador comum. Em suas primeiras obras, Nietzsche, cujo pai era pastor luterano, apresentava uma relação bastante positiva com Lutero; em O Nascimento da Tragédia ele o coloca como pioneiro da cosmovisão dionisíaca. A par do seu distanciamento com seu mentor de outrora, Richard Wagner , Nietzsche vai se distanciando de Lutero. Agora o Reformador se apresenta como representante de uma cosmovisão retrógrada, como valentão da colônia e provinciano chauvinista alemão, até mesmo como restaurador de um cristianismo que, na verdade, já está fadado ao ocaso, como inimigo das ciências e da autoemancipação da pessoa humana. Por outro lado, Nietzsche continua tendo em alta estima a tradução da Bíblia por Lutero; ele chega a imitar o jeitão do alemão bíblico de Lutero em sua obra Assim falou Zaratustra. Em suas obras tardias, Nietzsche acaba elaborando uma oposição sistemática entre Reforma e Renascença.

IHU On-Line - Por que Nietzsche compreende a Renascença como uma transvaloração dos valores cristãos?
Andreas Urs Sommer - Para o Nietzsche tardio, a Renascença se constitui na tentativa de romper a moral escravista judaico-cristã que já prevalece há dois mil anos. As virtudes cristãs da negação do mundo, do ficar voltado para o além, da submissão e da compaixão teriam sido substituídas, com a Renascença, pela afirmação do mundo, orientação para o aquém, pela altivez e grandiosidade. Para Nietzsche, a Renascença, em seus grandes feitos culturais bem como em sua crueldade por vezes exorbitante, teria colocado no centro o grande indivíduo, para assim emancipá-lo da consciência suja cristã.

IHU On-Line - E qual é a razão pela qual Nietzsche diz que Lutero perdeu a grande chance de evitar a decadência alemã quando impediu a Renascença?
Andreas Urs Sommer - Em O Anticristo Nietzsche expõe o conflito histórico-universal entre a Renascença e a Reforma; Lutero aparece como o verdadeiro destruidor da emancipação dos vínculos cristãos que a Renascença conseguira. Renascença e Reforma, portanto, não são vistas como geralmente ocorre na historiografia iluminista, como movimentos paralelos de uma libertação dos grilhões medievais, e sim como estando em contradição irreconciliável. Para Nietzsche, Lutero agora é representante resoluto do retrocesso para o embaraço escravista moral cristão. Lutero – e com ele os alemães – levariam a culpa de ainda não nos termos livrado há muito do jugo do cristianismo.

IHU On-Line - Que paralelos podem ser traçados entre a crítica nietzschiana a Paulo de Tarso e Lutero? Quais são seus contextos e diferenças fundamentais?
Andreas Urs Sommer - Também Paulo só recebe um papel central na obra tardia de Nietzsche. Ali ele é o inventor propriamente dito do cristianismo, “gênio do ódio”, que teria conseguido transformar a mensagem de Jesus numa religião do ressentimento de primeira categoria. Nisso, Nietzsche considera Lutero discípulo de Paulo, porém sem lhe atribuir a mesma importância: sua influência histórica teria sido de séculos, enquanto a de Paulo, de milênios.

IHU On-Line - De acordo com Nietzsche, o único cristão morreu na cruz. A partir dessa afirmação, como se pode entender o tipo de cristianismo sistematizado por Paulo e a sua Reforma, proposta por Lutero?
Andreas Urs Sommer - Com efeito, Nietzsche, em sua obra tardia, retira Jesus de Nazaré do contexto geral de decadência da história universal com a qual ele descreve a história judaico-cristã. Jesus teria sido o único cristão autêntico, que teria ensinado não uma nova fé, mas uma nova “prática”, qual seja, de abandonar todas as distâncias no sentimento. Os conceitos de Jesus teriam sido pura linguagem simbólica, que nada teria a ver com doutrinas de fé. Os próprios discípulos diretos já não teriam entendido seu mestre, o “grande simbolista”; com a eclesialização do cristianismo teria ocorrido a total perversão do modelo jesuíno. Paulo é o protagonista, e Lutero, o continuador dessa total inversão de intuições originariamente jesuínas.

IHU On-Line - Se pensarmos que Nietzsche contrapõe Dionísio ao Crucificado, como entender o empreendimento de Lutero ao retirar Jesus da cruz e assim o representar nessa religião?
Andreas Urs Sommer - A oposição entre Dionísio e o crucificado com que Nietzsche opera em suas manifestações tardias não é a oposição entre o helênico deus do vinho e o Jesus de Nazaré com quem Nietzsche simpatiza nessa contraposição. O “crucificado” é o Cristo da doutrina paulina eclesiástica, aquilo em que a dogmática o transformou: o filho de Deus que morreu pelos pecados do mundo. A teologia de Lutero resolutamente quer ser uma teologia da cruz. Para Nietzsche, esta é uma expressão da perversa divinização do sofrimento, a qual ele combate de todas as formas possíveis, porque ela ao mesmo tempo acompanha uma autodegradação, autodiminuição da pessoa humana. Também Dionísio é o deus do sofrimento, porém o qual, na construção de Nietzsche (trata-se de um deus fictício), diferentemente do deus cristão luterano, afirma positivamente o mundo e não degrada as pessoas a miseráveis pecadores.

IHU On-Line - Em que medida a formação luterana de Nietzsche é um aspecto importante a ser analisado em sua crítica a essa religião?
Andreas Urs Sommer - Com certeza a socialização luterana de Nietzsche desempenha certo papel ao se tentar reconstruir a imagem que ele faz de Lutero. Além de se ter criado numa casa pastoral luterana, se fosse pelo desejo da família, ele próprio também deveria ter-se tornado pastor luterano, tendo inclusive iniciado o estudo de teologia. Lutero, de certo modo, fazia parte do DNA social e mental de Nietzsche. Mas o que chama a atenção é que ele nunca estudou Lutero a fundo, com exceção da tradução da Bíblia, mas obteve suas informações exclusivamente de segunda mão. Ele sempre adaptava seu Lutero às demandas filosóficas e polêmicas do momento.

IHU On-Line - Qual foi a recepção e repercussão da crítica nietzschiana em seu tempo?
Andreas Urs Sommer - Inicialmente a repercussão da crítica fundamental de Nietzsche a Lutero foi bastante reservada. Posteriormente foram principalmente teólogos protestantes que se esforçaram em processá-la, na tentativa de demonstrar o quanto Nietzsche teria mal-entendido Lutero, ou que Lutero e Nietzsche em suas críticas na verdade estariam muito mais de acordo entre si do que o próprio Nietzsche pensava. Depois, quem simpatizou com a crítica de Nietzsche a Lutero foram principalmente autores católicos, que pretendiam destacar quão prejudicial Lutero teria sido; para tanto inesperadamente encontraram em Nietzsche uma testemunha a calhar.

IHU On-Line - Qual é o sentido da Reforma no contexto da filosofia da cultura, empreendida pelo filósofo?
Andreas Urs Sommer - Na filosofia mais abrangente da cultura de Nietzsche, Lutero e a Reforma são peças de um jogo que, dependendo da necessidade do momento, podem ser utilizadas de diversas maneiras. A crítica de Nietzsche à Reforma tem um elemento eminentemente provocador, uma vez que boa parte dos leitores de Nietzsche prezava muito a Reforma, de modo que acabaram se sentindo contrariados por ele. O desprezo pela Reforma também mostra o quanto Nietzsche rejeita uma historiografia do progresso: a história não é algo que simplesmente vai evoluindo para melhor, uma evolução na qual a Reforma até pudesse ser um marco.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Andreas Urs Sommer - Sem dúvida a crítica de Nietzsche a Lutero e à Reforma é de considerável interesse para a historiografia do espírito humano. Porém é legítimo perguntar também até que ponto ela ainda se justifica na atualidade. Na Alemanha reina uma euforia luterana instaurada pela igreja e pelo estado, que encontra pouco respaldo na realidade histórica. Dizem que Lutero preparou o caminho para o Iluminismo esclarecedor, em vez de enxergar nele justamente o inimigo declarado da autodeterminação humana individual. Neste ponto Nietzsche pode nos ajudar a obter uma visão bem mais sóbria, mesmo que ele próprio também não tenha argumentado como historiador bem informado e sereno, e sim como polemista das ideias políticas. ■

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