Edição 514 | 30 Outubro 2017

O teólogo da liberdade que pensa o papel da mulher

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Márcia Junges | Tradução: Isaque Gomes Correa | Edição: João Vitor Santos

Kirsi Stjerna analisa a participação feminina na Reforma e as concepções de Lutero acerca da vocação e missão das mulheres

As mulheres cristãs passam a ter um protagonismo na vivência da fé a partir da Reforma Luterana. Segundo a teóloga Kirsi Stjerna, isso se dá a partir das concepções acerca da liberdade presente no monge reformista. “As sementes da inclusividade e igualdade são evidentes em sua teologia – mesmo se os luteranos não desenvolveram realmente estes temas até agora e com alguns inclusive nem empregando estes termos”, destaca. Ela explica que é através dos sermões de Lutero que se pode perceber como ele compreende a mulher e a vocação a elas desejada por Deus. “O matrimônio e a maternidade são as vocações mais importantes. São vocações que Deus abençoou e que são tão importantes quanto o ofício de um bispo, entre outras coisas”, pontua.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Kirsi destaca que Lutero não era panfletário do direito da oratória feminina pública, mas também não criticava as senhoras que discursavam. “Achava que haveria momentos especiais em que as mulheres seriam chamadas a profetizar e a proclamar”, explica. “Ele não incentivou as meninas a irem para a escola estudar para a vocação. Mas, isto sim, considerava que o lar era o lugar delas – onde podiam ‘governar’ e serem encarregadas de um monte de coisas”, completa. Aliás, para a teóloga, é através da maternidade que muitas participam da Reforma. “Para alguns, a maternidade significava, realmente, um amplo leque de opções, incluindo a escrita de textos para os filhos (manuais). Nos lares, elas contribuíam ensinando a nova fé para os filhos. Algumas, mulheres nobres, usaram ambientes jurídicos para implementar a religião protestante”, destaca, entre outras ações femininas no movimento.

Kirsi Stjerna é professora de história luterana e teologia, integra o corpo docente da Graduate Theological Union, em Berkeley, na Califórnia. É secretária executiva e editora de “The Annotated Luther”, volumes 1 a 6 (Fortress Press, 2015-2017); também escreveu Women and the Reformation (Wiley Blackwell, 2009) e é uma das autoras de Martin Luther, the Bible and the Jewish People (Fortress Press, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os desafios para se compreender a figura de Martinho Lutero de forma crítica, com todos os seus avanços, mas também seus limites?
Kirsi Stjerna – O principal é: Lutero era uma figura medieval tardia, devemos vê-lo dentro deste contexto. Ele foi igualmente diferente, antecipando a modernidade – podemos analisá-lo sob esta luz também, mas com o cuidado de não lermos, em suas ideias, algo que, na verdade, não está – ou “ainda” não está – aí. Ao deixar isto claro, é preciso lermos Lutero estritamente no contexto do século XVI ou como alguém que pode também falar à modernidade/pós-modernidade. Mas, também, podemos ser criativos e encontrar ainda novas perspectivas nele, Lutero, e na relevância de seu pensamento hoje.

IHU On-Line – Ao longo da Idade Média, houve a tentativa de promover diversas reformas da Igreja inspiradas no “despertar evangélico”, mas que acabaram não se efetivando. De que forma Lutero se apropria desses movimentos, muitos ocorridos até 200 anos antes da Reforma Luterana?
Kirsi Stjerna – Lutero reúne as vozes daqueles representantes reformistas que exigiam, por exemplo, que todo mundo deveria ter acesso às Escrituras em seu próprio idioma e que o sacramento da Mesa deveria ser inclusivo e tanto o pão quanto o vinho precisariam ser ofertados aos leigos também. Ele também não inventou a crítica à corrupção na Igreja, à opulência com o dinheiro, aos problemas com o poder papal e a indivíduos particulares na sede papal (por vezes pessoas realmente interessantes!). Ele não foi o primeiro a criticar a Igreja em sua imoralidade sexual clerical.

Em diversos sentidos, Lutero reúne o coro das críticas e dos que exigem reformas, incluindo os humanistas. Além disso, ele também falou, com veemência, em nome do matrimônio, mais do que os seus antecessores. O seu questionamento da Tradição na Igreja teve predecessores, mas Lutero definitivamente expressou isto mais do que todos que vieram antes dele na Idade Média.

Os seus chamados à reforma tiveram sucesso, muitos o seguiram em busca de um viver autêntico novo com a fé cristã. Aqui, a dinâmica se assemelha à de movimentos reformistas anteriores, como os hussistas e os lollards , com a exceção de que o movimento de Lutero era mais inclusivo em termos de quem se envolvia. Como outras iniciativas reformistas anteriores, Lutero igualmente focalizou a espiritualidade e a espiritualidade reformada, com novas orientações sobre como a “velha” fé é melhor vivida, e para isso ele apresentou diretrizes teológicas que, a seu ver, não estavam propondo exatamente aquilo, e sim uma reorientação para os elementos essenciais e para o cerne do magistério e da identidade cristã: o seguimento de Cristo.

IHU On-Line – Podemos afirmar que a reforma de Lutero inaugura o pensamento moderno? Por quê?
Kirsi Stjerna – Sim e não. A crítica à Igreja medieval e a adesão ao nominalismo de Lutero se fundamentam na sua experiência transformadora como pessoa, estudioso, teólogo, pregador, e nasce um certo individualismo. O fato de ele dar a si o “direito” de “nomear a realidade” está em sintonia com a escola nominalista de pensamento que está por trás de sua crítica ousada à “pesquisa de ponta” de sua época.

A sua exigência de que todas as pessoas tenham acesso à Palavra e o seu ensinamento da igualdade fundamental perante Deus, como santo e como pecador, representam uma semente para pensamentos modernos sobre a igualdade. Considerar a mulher como igual na Criação – ainda que diferente –, igual em sua vocação sagrada e igual na ressureição é um desdobramento moderno. Também a sua leitura crítica das Escrituras e suas decisões tradutórias são passos em direção à pesquisa moderna.

E digo sim e não porque, depois, há as áreas onde Lutero encontra-se bastante preso ao seu ambiente medieval tardio. É o caso de seu pensamento sobre os judeus e sua religião – basicamente condenando o judaísmo. Ele não valoriza nem imagina algum tipo de “pluralismo” ou “diversidade”.

IHU On-Line – Como compreender as concepções de Lutero acerca do papel da mulher cristã? De onde vem a inspiração para essas suas concepções?
Kirsi Stjerna – Podemos ver, por exemplo, a partir das palestras de Lutero sobre o Gênesis como ele compreende as mulheres como seres humanos e em suas vocações. A partir dos seus sermões em particular, podemos saber como ele compreende a vocação das mulheres desejada por Deus: o matrimônio e a maternidade são as vocações mais importantes. São vocações que Deus abençoou e que são tão importantes quanto o ofício de um bispo, entre outras coisas.

Lutero não se pronunciou ativamente pelo direito da mulher de falar, ensinar e proclamar na Igreja, bem pelo contrário. Ao mesmo tempo, não criticou as que faziam isso (por exemplo, Argula von Grumbach ). Achava que haveria momentos especiais em que as mulheres seriam chamadas a profetizar e a proclamar. Ele não incentivou as meninas a irem para a escola estudar para a vocação. Mas, isto sim, considerava que o lar era o lugar delas – onde podiam “governar” e serem encarregadas de um monte de coisas. A maternidade era algo que atraía Lutero, e ele muito a respeitou como a vocação especial feminina.

IHU On-Line – Quais são os aspectos fundamentais da contribuição feminina à Reforma Luterana?
Kirsi Stjerna – As mulheres contribuíram dizendo sim, juntando-se aos movimentos de reforma. Por meio da maternidade, elas tiveram diversas maneiras de participar na Reforma. Para alguns, a maternidade significava, realmente, um amplo leque de opções, incluindo a escrita de textos para os filhos (manuais). Nos lares, elas contribuíam ensinando a nova fé para os filhos. Algumas, mulheres nobres, usaram ambientes jurídicos para implementar a religião protestante. Muitas senhoras da nobreza apoiaram os movimentos reformistas com as suas riquezas e com uma insistência pessoal. Portanto, contribuíram com as suas próprias confissões/união ao movimento, ensinando a fé aos filhos.

IHU On-Line – Sob o ponto de vista de historiadora e teóloga, como percebe o papel da teologia feminina no diálogo inter-religioso?
Kirsi Stjerna – Penso que a teologia da mulher, a teologia feminista etc. são bastante significativas como um passo inicial e como um convite à reflexão crítica para além das fronteiras metodológicas e denominacionais.

IHU On-Line – Em que medida o contexto da eclosão da Reforma pode inspirar as mulheres de hoje a buscarem seus espaços dentro e fora da Igreja?
Kirsi Stjerna – Primeiro de tudo, ter as mulheres do século XVI nos “álbuns de família”, por assim dizer, é fundamental para construirmos conexões e para que as mulheres reivindiquem as origens de sua tradição e se vejam na continuidade. Penso que elas podem se relacionar com as mulheres do século XVI e com a animação delas com a nova pregação e com o magistério positivo de seus papéis como mulheres. As mulheres podem se inspirar na coragem que as mulheres da Reforma exibiam, e podem assumir um novo olhar sobre o significado do matrimônio e da maternidade, além de expandir as oportunidades vocacionais.

Algumas podem se inspirar a escrever e entrar no diálogo teológico. Podem definir para si mesmas o que suas vocações são e o significado delas. A visão que Lutero tinha de reforma era uma visão radical, e elas podem se encontrar em lugares de reformas importantes. Seguindo os passos do líder alemão, podem reivindicar a sua própria voz e lugar, e apresentar uma interpretação nova, “delas”, a respeito de fontes cristãs e, assim, ter um impacto tanto na ação cristã como no conteúdo da teologia cristã.

IHU On-Line – É possível afirmar que, a partir da experiência das mulheres luteranas, está se constituindo uma outra história da fé cristã? Quais são os desafios que surgem desse agir?
Kirsi Stjerna – Sim, é possível. Vivemos numa época em que, quando reescrevemos as histórias, estamos não apenas incluindo as mulheres no relato (nos relatos, nas histórias) cristã(s), mas também buscando avaliar os eventos da Reforma e o seu “sucesso” a partir de uma perspectiva da mulher. Além disso, o conteúdo da teologia cristã está sendo reformado como uma consequência da contribuição da perspectiva delas e de suas experiências, bem como com a liderança feminina na interpretação das fontes cristãs.

IHU On-Line – Como podemos compreender a provocação “sempre reformada e empoderada”, que inspira sua trajetória de teóloga e professora?
Kirsi Stjerna – Lutero é um teólogo da liberdade. As sementes da inclusividade e igualdade são evidentes em sua teologia – mesmo se os luteranos não desenvolveram realmente estes temas até agora e com alguns inclusive nem empregando estes termos –, e eu espero que o aniversário deste ano convide as pessoas a olharem para os modos como a teologia da liberdade reformista luterana pode promover mudanças reais em nosso mundo e assegurar a liberdade a todos, um modelo de inclusividade, em todos os sentidos, incluindo as metodologias empregadas.

Lutero vivenciou a liberdade com as Escrituras. A sua vida se transformou, e isso mudou a sua carreira. O Evangelho o empoderou para erguer a sua voz em temas que precisavam de reformas. Ele insistia em mudanças muito práticas, tais como a criação de um “cofre” para apoiar os necessitados financeiramente e convidou para que todos os menores fossem à escola, inclusive as meninas. Isso é empoderamento! No centro destas ações está a sua convicção teológica de que somos livres, pelo modo de fazer e pela vontade de Deus, e isto nos torna servos dos outros como Cristo. “Empoderar os filhos a ler, empoderar as mulheres em suas vocações, empoderar todos os cristãos a ler as Escrituras (...) lutar para acabar com a pobreza, desafiando as autoridades da época (...)”. Aqui Lutero oferece um modelo inspirador e desafiador de como ser luterano: no centro desta identidade estão a liberdade, a inclusividade e o empoderamento.

Hoje, necessita-se desesperadamente de muitas reformas. O trabalho da igreja não está feito, o nosso trabalho não está feito; o status quo não deve ser desejado, isto é estranho à natureza própria de uma tradição reformista.

IHU On-Line – Sob quais aspectos há diferenças entre a realidade das mulheres luteranas na Finlândia, de onde a senhora vem, e nos EUA, onde atualmente leciona e vive?
Kirsi Stjerna – Nos Estados Unidos, há muito mais mulheres professoras. Na Finlândia, poucas mulheres são contratadas para lecionar, o que também se mostra nas preferências metodológicas e nas escolhas dos cursos. Nos dois países, o número de mulheres interessadas em estudos teológicos está aumentando. No entanto, há lacunas salariais, na academia e na igreja: elas geralmente recebem menos. Eu diria que, na Finlândia, as luteranas são bastante ativas e têm uma forte presença – mesmo que todos os bispos sejam (de novo) todos homens. Nos EUA, a meu ver, a presença da mulher luterana em postos de liderança na igreja está em falta ainda.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Kirsi Stjerna – Continuo dizendo a meus alunos que eles não devem pensar, ingenuamente, que a misoginia e o sexismo acabaram. Longe disso. Parece haver uma reação negativa contra as mulheres e o feminismo, até mesmo em nível global, o que se mostra nas estatísticas de violência contra a mulher.■

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