Edição 514 | 30 Outubro 2017

A Reforma e as reformas

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Martin Dreher

“Devemos ver a Reforma do século XVI como resposta verdadeiramente revolucionária ao fracasso das reformas dos séculos XIV e XV”, escreve Martin Dreher, em artigo preparado para essa edição da IHU On-Line. E conclui: “Reforma é um movimento muito mais amplo do que Lutero ou Calvino. Reforma é todo um movimento que tentou dar respostas a questões que eram formuladas ao cristianismo já antes do século XVI. Assim, quando falamos de Reforma, deveríamos iniciar com Isabel de Castela e Cisneros, dizer de Lutero, de Zwínglio, dos Anabatistas, dos Espiritualistas, de Thomas Müntzer, de Calvino e de seu colega de estudos na Sorbonne, Inácio de Loyola, de Trento, de Cromwell e dos Puritanos”.

Martin Norberto Dreher é pastor luterano, professor e historiador brasileiro. Cursou teologia na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB, é doutor em história da igreja pela Ludwig-Maximilians Universtät, de Munique, na Alemanha. Foi professor de Teologia e pastor em diversas paróquias da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil. Entre seus livros publicados, destacamos De Luder a Lutero (São Leopoldo, RS: Sinodal, 2014), 190 anos de imigração alemã no Rio Grande do Sul: esquecimentos e lembranças (São Leopoldo, RS: Oikos, 2014) e História do povo de Jesus. Uma leitura latino-americana (São Leopoldo, RS: Sinodal, 2013).

Eis o artigo.

1. Constelação política

No início do século XVI, havia se formado na Europa ocidental uma série de grandes Estados nacionais. França, Ilhas Britânicas, Portugal e Espanha fazem parte desses estados nacionais. Ninguém duvidava da fidelidade da Espanha ou da França ao catolicismo. A Espanha provara ser uma salvadora da cristandade ao expulsar os árabes da Península Ibérica de forma definitiva em 1492. Ali não havia espaço para a penetração de outro pensamento. Na França, o conciliarismo medieval havia garantido tantos direitos, que não se fazia mais necessária uma reforma.

Distinta era a situação na Europa Central. Nem a Alemanha tampouco a Itália havia conquistado uma unidade política. Ali existia uma infinidade de centros regionais de poder, todos subordinados ao poder imperial. Enquanto os poderes regionais buscavam assegurar sua participação no poder imperial, o imperador lutava para aumentar seu poder, levando os estamentos a reclamarem constantemente da "servidão" a que estariam sendo submetidos. Foi nessa região, especialmente na Alemanha, que explodiu o movimento reformatório. As tentativas imperiais de pôr um fim às discussões religiosas nessa parte da Europa não surtiram efeito. Elas aconteceram em 1530, em 1547 e em 1555, em Augsburgo. A segunda tentativa foi precedida de uma vitória militar do imperador sobre os protestantes, mas também não surtiu efeito. Na última, decidiu-se que a questão religiosa seria resolvida de território em território.

Na Itália, a divisão territorial era ainda mais complicada. Ali nem dinastias existiam e as formas de governo alternavam-se constantemente. Havia democracias que logo eram eliminadas por tiranos, estes por sua vez derrubados para dar lugar a novas democracias. Nela encontrava-se também o papado. De um lado, esse representava o poder hegemônico sobre a cristandade ocidental; de outro, era governante do Estado Pontifício, que abrangia o centro da Itália. O papado era, assim, um dos centros de poder na Itália e, como tal, estava profundamente envolvido nas questões da política local. Essa dupla função do papado teve consequências catastróficas para a igreja universal.

A parte sul do Leste europeu encontrava-se sob o domínio turco. Desde os tempos das cruzadas, os turcos haviam se expandido, conquistando território após território nos Bálcãs. Em 1529, Suleimão II chegou às portas da cidade de Viena. O perigo turco foi o principal problema político da Europa do século XVI. Carlos V e seu irmão Fernando assumiram a luta contra os turcos, mas necessitaram do suporte financeiro dos estamentos alemães. Para estes estava claro que se os turcos colocassem em xeque o poderio da Casa de Habsburgo , eles seriam os próximos a sentir as consequências. Por isso, assumiram o ônus da guerra. A cada auxílio, porém, negociaram vantagens.

A Reforma da Igreja e os acontecimentos políticos estão intimamente relacionados. O trágico é que, nas guerras entre Carlos V e Francisco I, estiveram envolvidos dois governantes decididamente católicos. Suas tropas, tanto os soldados quanto os oficiais, eram, em grande parte, mercenários, lansquenetes alemães adeptos do pensamento de Lutero, ou suíços, igualmente "evangélicos". Em 1527, lansquenetes invadiram Roma e perpetraram o Sacco di Roma, cantando hinos de Lutero e causando terrível destruição. A situação de guerra fez com que Carlos V necessitasse constantemente de aliados. Ora, esses aliados eram, em boa parte, protestantes. Nas diversas Dietas, os estamentos alemães sempre exigiram que a questão religiosa fosse discutida antes de se tratar de empréstimos para a guerra contra os turcos. Dependendo das concessões religiosas, faziam-se concessões financeiras. Quando, por outro lado, os protestantes se uniram, formando a Liga de Esmalcalda , todos os adversários da Casa de Habsburgo quiseram ser seus aliados. Assim, Francisco I ofereceu seu apoio, ao mesmo tempo em que perseguia abertamente os protestantes na França. Diferente não foi a posição de Henrique VIII . A Reforma deve sua expansão em grande parte às guerras que foram travadas na Europa. Hereges podem ser aliados preciosos.

A situação política na Itália era ainda mais complicada. Para preservar sua independência política, o papado tinha que decidir entre Carlos V e Francisco I, dois bons católicos. Sob o aspecto militar, o poderio papal era insignificante; seu apoio poderia ser dispensado pelos dois governantes. No entanto, sua decisão podia ter fins propagandísticos importantes: caso o papa se colocasse contra o imperador, seria exatamente contra aquele que poderia vencer os hereges.

2. Cultura

Parcialmente, a Reforma coincide com o Renascimento e com o Humanismo. Muitos reformadores eram humanistas, como Melanchthon , Zwingli e Calvino . É necessário cuidado quando se busca distinguir Renascimento, Humanismo e Reforma, para não cair no erro tantas vezes feito, quando se aponta para a discussão entre Lutero e Erasmo em torno do livre e do servo arbítrio. As pessoas que afirmam que Lutero rompeu definitivamente com o Humanismo, em 1525, com seu escrito De servo arbitrio, com o qual respondeu ao escrito de Erasmo, de 1524, De libero arbitrio diatribe, esquecem que Lutero recorreu em sua tese principal a ninguém mais do que humanistas italianos como Lourenço Valla . A teologia apresentada por Erasmo não era católica e também não pôde ser aceita por teólogos protestantes.

O nome Renascimento quer expressar que naqueles dias a Antiguidade renascia. Formalmente são redescobertos escritos da literatura latina, vindos de Bizâncio para a Itália, após a queda de Constantinopla. Na Itália, o Renascimento auxiliou na formação de um espírito nacional e levou à busca da latinidade clássica. Na Alemanha foi além. Ali não só se estudaram os autores clássicos dos gregos e romanos, mas também a língua hebraica. Ao lado do latim e grego, o hebraico encontrou o caminho da Universidade. Também aqui o Humanismo auxiliou na formação de um espírito nacional. Os brados de Lutero em seu escrito À nobreza cristã de nação alemã, de 1520, foram vivamente aplaudidos por humanistas alemães.

Renascimento não é apenas um retorno à Antiguidade, enquanto estudo das línguas antigas e da literatura clássica, mas novo sentimento de vida. É simplista querer afirmar que o ser medieval tenha estado completamente orientado no transcendente, enquanto o ser humano do Renascimento tenha estado orientado no imanente. Certo é que a pessoa do Renascimento tinha uma posição distinta em relação às realidades do imanente, acentuando a individualidade. História e técnica cresceram em importância.

Sob o ponto de vista religioso, o Humanismo é multifacetado. Podemos notar isso no lema humanista ad fontes. O lema pode referir-se tanto à Antiguidade anterior ao cristianismo quanto à Antiguidade cristã. Paulo pode ser tão importante quanto Platão , e um pode ser usado para interpretar o outro. A Patrística estava tão presente quanto o estudo de Platão. Quando nos dias da Reforma se fala da Palavra de Deus como norma, a expressão pode significar tanto a Bíblia quanto o ensinamento dos Pais da Igreja. Humanista era Erasmo, humanista era Melanchthon, humanistas eram os adversários da Reforma protestante. Também os anabatistas receberam em boa medida influências do Humanismo. Praticamente todas as tendências da Reforma têm traços humanistas.

3. Objetivo da Reforma

Enquanto renovação da Igreja e da mensagem desta, a Reforma não pode ser explicada simplesmente a partir dos acontecimentos políticos, sociais e culturais dos séculos XV e XVI. A mensagem evangélica, à qual Lutero e outros deram expressão em seus dias, não foi sua criação. Ela recebeu forma na cela monástica, na cátedra universitária, nas discussões e nos debates, mas não é ideologia produzida nas discussões com a Igreja medieval, com as massas populares e com a burguesia. A mensagem da Reforma não pode ser deduzida do processo histórico. Com isso não estou negando que o processo histórico tenha sido importante no auxílio à redescoberta da mensagem evangélica. A Reforma beneficiou-se do processo histórico, mas também sofreu as consequências.

Não pretendo minimizar a coragem de Lutero e seu destemor ao enfrentar a Igreja constituída hierarquicamente. No entanto, é bom ver que o movimento por ele desencadeado só pôde vingar nos anos que antecederam e sucederam à morte de Maximiliano I. A Reforma beneficiou-se das guerras de Carlos V e de Francisco I, das conquistas políticas dos senhores territoriais, do fato de o papado preferir aliar-se a Francisco I e os turcos estarem fazendo constantes avanços. O Humanismo auxiliou a Reforma. Seus avanços exigiam uma reforma do sistema universitário. A Reforma só se beneficiou do fato porque na Alemanha essa reforma universitária foi feita, atendendo aos reclamos dos adeptos da "nova fé". Mas o Humanismo também se beneficiou da Reforma: o estudo das línguas antigas recebeu total apoio e passou a ser fundamental para a formação da nova geração de clérigos.

Na 62ª de suas 95 teses de 31 de outubro de 1517, Lutero afirma que "o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus". Quem quiser argumentar com essa tese e dizer que a Reforma colocou o Evangelho novamente em seu devido lugar só o pode fazer caso entender a Reforma não como um acontecimento encerrado a ser festejado, mas como algo que tem que acontecer sempre. Em razão dos acontecimentos políticos e de seus aspectos culturais, é possível fazer a afirmação de que a Reforma conseguiu seu espaço e seus objetivos. Mas é fato que o Evangelho e a Igreja que pretendia ser reformada sofreram grande desgaste. A Igreja fragmentou-se em Igrejas Territoriais, que em seu interior muitas vezes souberam manifestar pouco da liberdade evangélica. Não merecem o título de ecclesia reformata. Se, porém, entendermos o propósito da Reforma do século XVI no sentido da ecclesia semper reformanda, então podemos chegar à conclusão de que ela é um acontecimento importante na História.

4. Antecedentes da reforma religiosa no século XVI

A Reforma não pode ser explicada a partir de um único acontecimento ou a da ação de uma única pessoa ou data: a Reforma não iniciou com a divulgação das 95 teses de Lutero, em 31 de outubro de 1517. Antes de Lutero haviam se criado situações, ideias, sentimentos que provocaram e possibilitaram o conflito com a Igreja de então. Podemos até dizer que tais sentimentos estavam a exigir o que acabou acontecendo no século XVI. As origens da Reforma devem ser procuradas no processo emancipatório do final da Idade Média, que levou à Idade Moderna. Ela é período entre a Idade Média e a Idade Moderna.

A tensão existente entre Sacerdócio e Império caracteriza a unidade da Igreja no sistema de cristandade medieval. A sentença tem que permanecer nessa contradição, pois a Idade Média é período de sutil equilíbrio entre Sacerdócio e Império. No final, o próprio papado contribuiu para pôr fim a ele. Para assegurar a independência da Igreja, buscou enfraquecer o poder do Império. Os papas chegaram até a assumir o comando político do mundo ocidental. Quanto mais ampliava seu poder no âmbito temporal, tanto mais oposição encontrava em um mundo no qual sobressaíam as diferenças nacionais e que lutava por autonomia. A consequência foi que se inverteu a ponta e passou-se a exigir a autonomia do Estado em relação ao poder religioso.

Após o cisma (1378-1417; 1449) e o Concílio de Basileia , os papas buscaram reconhecimento junto a príncipes, imperadores e reis, concedendo ao Estado grandes poderes sobre a Igreja. Surgiram as Igrejas Territoriais, Igrejas dependentes do poder secular, que tanto podia ser representado pelo rei, príncipe como pelos conselhos municipais. Sem isso não podemos entender a geografia religiosa da Europa de fins do século XV e do século XVI.

Na Idade Média, não raro a hierarquia eclesiástica e a nobreza souberam agir em conjunto, melhorando as condições de piedade e de vivência da fé. Naqueles territórios, porém, nos quais o senhor territorial era ao mesmo tempo bispo, o secular e o espiritual estavam de tal maneira interligados, que era impossível determinar onde começava um e onde terminava o outro. Além disso, faltava uma boa teologia para distinguir e para enfrentar os problemas. Havia muitos bispos que não tinham qualquer interesse em questões espirituais e buscavam solidificar suas posições por meios políticos. Por seu turno, muitos príncipes seculares buscavam fortalecer seu poder, assumindo o controle da Igreja. Ao conceder os direitos do padroado aos reis de Portugal e de Espanha, depois aos demais reis europeus, os papas acabaram por estabelecer que os reis determinassem a vida religiosa e o preenchimento de cargos eclesiásticos.

O governante passou a controlar os dízimos. Decretos episcopais só tinham validade após a autorização real. A pregação de indulgências só era permitida caso o príncipe tivesse parte nos lucros auferidos. As intervenções de príncipes e cidades, que vão possibilitar a introdução da reforma luterana e calvinista, a criação da Igreja Anglicana ou a introdução das decisões de Trento não são novidades surgidas no século XVI. São anteriores. Nas cidades, burguesia muito consciente de seu poder lutou contra os direitos do clero, especialmente contra suas imunidades fiscais e jurídicas. Por outro lado, à medida que buscava diminuir o poder do clero e introduzir um governo civil, a cidade não desistia de controlar a atividade eclesial. As cidades criaram paróquias, mas se reservaram o direito de nomeação dos pregadores. Também os conventos e suas propriedades passaram a ser administrados pela cidade.

Na Idade Média, a Igreja assumiu a função de cristianizar os povos germânicos, de transmitir-lhes e preservar-lhes a cultura do mundo antigo. Assim, a Igreja foi responsável pela formação literária, pelo direito, pela tradição política e pela técnica. Com todas essas funções é lógico que o clero tinha que ser o detentor do saber, indo muito além de suas prerrogativas teológicas. Criara-se um clericalismo, que tinha que ser substituído. Era necessário que o cristão alcançasse a maioridade e pudesse viver a liberdade cristã. Era necessário que como pessoa adulta se ocupasse com as questões de fé e com as heranças culturais. Caso a Igreja não abdicasse do controle do saber por iniciativa própria, cedo ou tarde viria o dia em que novas forças haveriam de lutar por seu espaço

O conceito que mais caracteriza a Modernidade é "Liberdade". Tudo o que concebemos sob o termo "Reforma" é atraente para o ser humano dos séculos XV e XVI por causa do conceito "Liberdade". Não é por acaso que a senha "Liberdade cristã" foi lema da Reforma, mas também motivo que levou para muitos se afastarem dela.

Devemos ver a Reforma de século XVI como resposta verdadeiramente revolucionária ao fracasso das reformas dos séculos XIV e XV. Houve nela tentativas de fazer voltar a roda da história, buscando fazer a Igreja retornar às situações primitivas da Igreja Antiga, como podemos constatar em Thomas Müntzer e nos Anabatistas. Por outro lado, houve nela a busca sincera por acomodação a novas situações e abertura para as necessidades do momento.

Vemos, pois, que Reforma engloba tudo o que carecia de reforma, mas também situações e erros que a impediam. Os erros e as deformações na Igreja no final do século XV eram bastante similares aos de meados do século XIV. Mas os seres humanos não os suportavam com a mesma paciência. Eram mais atentos, mais críticos e mais exigentes, verificavam o descompasso entre o ideal e a realidade, entre ensinamentos e vida da Igreja. Ao não observar as maiores necessidades religiosas das pessoas, ao não verificar a emancipação dos crentes em questões de fé e ao não substituir as estruturas entrementes arcaicas da Idade Média, a Igreja criou as condições e os pressupostos para o clamor por uma Reforma.

As origens da Reforma e suas raízes mais restritas devem ser procuradas no papado renascentista, nos descalabros existentes no clero e nos abusos em relação ao povo, nas incertezas dogmáticas e na vida religiosa. Sem dúvida, os papas do Renascimento deram importante contribuição para o advento da Reforma. Aí sobressai a figura de Alexandre VI (1492-1503). Seu pontificado é uma das mais ignominiosas páginas da história da Igreja. Jovem, Rodrigo Borgia foi feito cardeal por seu tio Calixto III (1455-1458), recebendo ainda uma série de prebendas. Pio II teve que advertir o jovem cardeal por causa de sua vida desregrada. Conhecido é seu adultério com Vanozza de Cataenis . Com ela teve quatro filhos. Teve outros filhos. Eleito papa, continuou a vida desregrada. Como foi possível que o colégio de cardeais o elegesse? Por meio de suborno. De outros papas da Idade Média se pode dizer que foram eleitos por pressões ou imposições de reis e imperadores, a eleição de Alexandre VI se deu por simples suborno.

Como papa, Alexandre VI não alterou o comportamento. Tratou de cumular seus filhos com benefícios. Logo nomeou o filho Césare, na época com 16 anos, arcebispo de Valência; um ano mais tarde fê-lo cardeal. Seis anos mais tarde, Césare desistiu do cardinalato para casar-se com uma princesa francesa e para receber parte do território dos Estados Pontifícios. São incontáveis os assassinatos por envenenamento ordenados por ele. Comprovada está sua responsabilidade no assassinato do segundo marido de sua irmã Lucrécia, bem como no assassinato do cardeal Giovanni Michiel , morto para que Césare pudesse apropriar-se de seus bens. É possível que Césare também seja responsável pelo assassinato de seu irmão João.

Alexandre VI faleceu em 18 de agosto de 1503, muito possivelmente em consequência da ingestão de veneno que seu filho e ele haviam destinado a outro cardeal. Após um intermezzo de 26 dias, cardeal Giuliano della Rovere foi eleito papa. Seria Júlio III (1503-1513). Enquanto cardeal, foi ferrenho adversário de Alexandre VI. Sua eleição foi comprada a peso de ouro. Ordenou a demolição da basílica de São Pedro e iniciou a construção da atual. Seus contemporâneos designaram-no de "Il Terribile", o terrível, pois era mais rei e comandante de tropas do que líder espiritual da Igreja. Para ele, a salvação da Igreja estava na política e na guerra, uma eclesiologia altamente questionável.

Aos 38 anos, o cardeal Giovanni de Medicis tornou-se papa, assumindo o nome de Leão X (1513-1521). Era inteligente, letrado e defensor do humanismo. No dia de sua entronização foi feita uma procissão semelhante à de Corpus Christi para apresentar o papa e sua corte. Sobre uma grande faixa podia ser lida a frase: "Outrora governou Vênus, depois Marte; agora Palas Atenas detém o cetro". Com Vênus fazia-se referência a Alexandre VI, com Marte a Júlio III, com Palas Atenas saudava-se Leão X como mecenas e benfeitor de humanistas e artistas.

Leão X não pode ser acusado de desmandos e de aberrações como Alexandre VI, mas de leviandade e de esbanjamento de recursos. Ao suceder a Leão X, Adriano VI disse: "O vício tornou-se tão natural, que os que por ele foram manchados não sentem mais o fedor do pecado". Leão X não teve estatura teológica ao afirmar: "Curtamos o papado, já que Deus no-lo concedeu!"

A situação do clero não era melhor que a do papado. Não falo do concubinato dos sacerdotes. Havia regiões em que era tão comum, que os fiéis não mais se chocavam com ele. O problema residia em outro lugar: para a maior parte do clero, a Igreja era vista como sendo de sua propriedade. Era propriedade da qual se auferiam dividendos e prazeres. Quando se criava uma paróquia ou um bispado, o determinante não era a preocupação com o culto e com a cura d'almas, mas o desejo de realizar uma boa obra e obter, com isso, para si e para sua família parte nos tesouros da graça. Os candidatos não passavam por grande processo de seleção. Bispos e sacerdotes não se compreendiam como responsáveis por um ministério, para cujo desempenho recebiam o sustento necessário. Pelo contrário, sentiam-se proprietários de uma prebenda no sentido do direito feudal germânico. A prebenda era um direito do qual se podia usufruir e em relação à qual se tinha alguns compromissos. Tais compromissos, porém, poderiam ser transferidos a um representante, um vigário. Para tanto, buscou-se justificação teológica em João 10.12: as ovelhas não pertenciam ao vigário, mas ele era alugado para a função.

Assim, foi possível que algumas pessoas reunissem em suas mãos diversos bispados ou paróquias. Em 1556, por exemplo, o cardeal Alexandre Farnese , um neto de Paulo III , detinha o controle de 10 bispados, 26 conventos e 133 outros benefícios: canonicatos, paróquias e capelanias. Na Alemanha, as sés episcopais foram reservadas para filhos da nobreza, que na maioria das vezes não se interessavam pela vida sacerdotal ou pela cura d'almas.

Se não havia preocupação com o espírito religioso ou com a cura d'almas, havia grande preocupação em relação ao dinheiro. A Cúria buscava por todos os meios cobrir os seus gastos. Criou para tanto um sistema de taxas, impostos, doações e penitências. A falta de dinheiro era constante em razão dos gastos com a corte, com construções ou com despesas militares, resultantes das constantes guerras. A questão prepara a explosão da Reforma, com a qual nos deparamos na discussão em torno das indulgências.

Todas as descrições acima feitas provocaram ódio em relação à Roma. Durante cem anos apresentaram-se queixas contra a situação criada. Elas foram assumidas por Lutero e outros reformadores. Em troca, mesmo pessoas que não concordavam com sua doutrina estavam dispostas a apoiá-los.

5. Incertezas teológicas

Mais importante do que apontar para os erros do papado, do clero e de leigos é perguntar pelo ensino da Igreja. Havia uma imagem muito colorida da piedade popular, havia muita imitação da vida dos santos, havia procissões, peregrinações, missas votivas. Qual era, seriedade que havia por trás desses atos? Qual era a teologia que havia por trás da ação?

O período anterior à Reforma foi de grande incerteza teológica. As principais controvérsias teológicas pendentes são geralmente resumidas às temáticas da justificação por graça e fé. A rigor, porém, esta temática é decorrente de indefinições em outras áreas da Teologia. Lembro aqui a questão relativa à visão de Deus, da imagem que se tem de Deus. Essa visão, por seu turno, está intimamente relacionada com a questão da cristologia, pois dizer quem é Deus está intimamente ligado com a pergunta: Quem é Jesus Cristo? A isso novamente está relacionada a doutrina da penitência, que culminou no final da Idade Média na discussão em torno da venda de indulgências, estopim para a eclosão do movimento reformatório luterano.

As indefinições na questão da penitência mostram que, apesar das formulações de Agostinho relativas à graça, era justamente na temática da graça que continuavam a existir indefinições. Ora, esses aspectos levaram, por seu turno, a visões distorcidas em relação aos meios da graça e prepararam discussões em torno dos sacramentos, mormente em relação à Eucaristia e ao Batismo.

Contudo, as diferenças e questões indefinidas concentraram-se na temática da eclesiologia. Por isso ouso afirmar que até hoje a principal diferença entre a Igreja Católica Apostólica Romana e as Igrejas herdeiras da Reforma do século XVI está na eclesiologia.

Desde o final do século XIII havia fortes discussões eclesiológicas no seio da Igreja ocidental. Por um lado, havia os que defendiam uma eclesiologia papalista. Aqui partia-se do dado histórico da monarquia papal, desenvolvida desde as lutas em torno das investiduras: o papa, investido da plenitude do poder, significa e é a Igreja.

Essa teoria papal, desenvolvida nos dias dos papas Bonifácio VIII (1294-1303) e João XXII (1316-1334) foi revigorada após a derrota do conciliarismo no Concílio de Basileia (1431ss), principalmente na Summa de ecclesia do cardeal Juan de Torquemada O.P ., escrita em 1453. No centro da eclesiologia de Torquemada está a concepção de que o único detentor do poder eclesiástico é o Papa, na sua condição de sucessor de Pedro. É ele quem concede autoridade aos bispos e ao concílio. A autoridade do concílio depende do Papa, pois é este quem o convoca, quem o dirige e confirma seus decretos. Torquemada era tão papalista que via nos concílios um perigo para a unidade da Igreja. Sua ideia foi tão dominante, que quase impossibilitou a realização do Concílio de Trento no século XVI.

Aparentemente, Lutero se desenvolveu numa Igreja em que dominou a teoria papal. Isso fica ainda mais claro, se observarmos que no escrito "À nobreza cristã de nação alemã" (1520) Lutero afirmou que, ao que tudo indica, ao invés do artigo "creio na santa Igreja cristã" se tenha que confessar "creio no Papa em Roma". De fato, a teoria papal era o cavalo de Troia, responsável por todos os abusos cometidos na Igreja dos séculos XV e XVI.

O segundo tipo de eclesiologia do final da Idade Média é o conciliarismo. Os papalistas haviam desenvolvido sua eclesiologia a partir da cúpula da Igreja, chegando a identificar a mesma com essa cúpula. Os conciliaristas, que se baseavam em Marsílio de Pádua (1290-1342) e em Guilherme de Ockham (1285-1349), partiam da base, da congregação dos fiéis, apostando na tese aristotélica de que o poder pertence ao povo. Para eles, também o poder existente na Igreja emana do povo; não há hierarquia de direito divino. O poder eclesiástico é meramente espiritual, limitando-se à pregação da palavra de Deus e à administração dos sacramentos. Como o poder eclesiástico emana da congregação dos fiéis, o concílio geral, enquanto representante da congregação dos fiéis, é a instância máxima que decide em questões de fé.

Através do estudo de Ockham, essas ideias continuaram presentes. Mas interessante é que não foram assumidas justamente por aqueles teólogos que, após o grande cisma, viam no concílio geral o único meio para restabelecer a unidade da Igreja. O que permaneceu foi a concepção de que o concílio geral é a representação da Igreja universal e instância máxima em questões de fé e da unidade da Igreja e exige obediência de todos os membros da Igreja, inclusive do papa. Havia vozes que exigiam a convocação periódica de concílios, por exemplo de 10 em 10 anos, como proteção contra eventuais excessos do centralismo da cúria romana. O concílio seria um parlamento eclesiástico, um órgão controlador.

No início do século XVI, o conciliarismo estava muito presente nas universidades de Paris, Pávia, Pádua e Bolonha. Mesmo tendo sido condenado pelo Concílio de Basileia ele deveu a continuação de sua existência à discussão em torno da necessidade de reforma da Igreja. Mas as principais autoridades eclesiásticas nada fizeram em prol dessa reforma. Leigos então começaram a trabalhar por ela. Fernando, rei de Aragão, apresentou ao 5º Concílio de Latrão uma relação de reformas a serem introduzidas na Igreja. Era comum a opinião de que somente um concílio geral possibilitaria a reforma da Igreja. Essa ideia estava ligada ao conceito que o ser humano medieval tinha de Igreja. A Igreja estava para ele contida no conceito da Cristandade. A Cristandade é um todo político e social, um corpo dividido em estamentos, dirigido por um braço espiritual e outro secular, com duas cabeças: o papa e o imperador. Por isso, os grandes concílios da Idade Média não foram apenas reuniões da Igreja, mas da Cristandade, nas quais estavam presentes os estamentos, clero e laicato. Eles não se ocuparam apenas com questões eclesiais, mas com assuntos que diziam respeito à Cristandade, cruzadas e questões de paz civil. Em todo o século XV, sempre quando se falou em reforma da Igreja, falou-se também em reforma do Império. A grande aspiração era reformar a Cristandade. O primeiro concílio a transformar as questões tratadas em temáticas realmente eclesiásticas, dando início ao desmonte do regime de Cristandade, foi o Concílio de Trento.

É importante não ver apenas o conceito eclesiológico, mas também a imagem que se tinha da Igreja. No todo, pode-se dizer que a descrição que se fazia da Igreja insere-se em uma teoria de decadência e degeneração. Visto de um modo simplista, afirmava-se, em geral, que ao longo de sua história a Igreja afastou-se sempre mais da situação ideal da Igreja Primitiva. Somente o retorno à Igreja Primitiva poderia eliminar o mal que tomou conta da Igreja em virtude do abuso feito com o poder papal. Essa leitura encontramos em Erasmo e em muitos reformadores católicos, mas também em Lutero, em Zwínglio, em Müntzer e em muitos outros.

Finalmente, havia uma eclesiologia espiritualista. Joaquim de Fiore (1130-1202) predissera que, após a era do Filho, viria a era do Espírito. Os franciscanos espirituais assumiram sua doutrina, no século XIII, e a desenvolveram. Essa eclesiologia vai explodir novamente no pensamento de Thomas Müntzer.

Os três tipos eclesiológicos aqui apresentados não reproduzem todo o universo dessas concepções. Eles não abarcam, por exemplo, a eclesiologia de Wiclif ou de Hus .

Resumindo: no início do século XVI predominou o tipo papalista de eclesiologia. Deve-se, porém, constatar que os pensamentos da eclesiologia conciliarista ainda não haviam desaparecido de todo. Caso contrário, a bula papal Exsurge domine, dirigida contra Lutero, teria trazido consigo consequências bastante diversas daquelas que ofereceu a Lutero e ao movimento reformatório. Isso nos prova, pois, que não havia uma eclesiologia uniforme na época de Lutero. A primeira tentativa da parte da Igreja Católica Apostólica Romana de formular uma eclesiologia uniforme surgiu apenas por ocasião do Concílio Vaticano I (1869-1870). Este, porém, apenas conseguiu definir o primado e a infalibilidade papal. Uma eclesiologia uniforme para a Igreja Romana só foi conseguida por ocasião do Concílio Vaticano II , na "Constituição Dogmática sobre a Igreja".

Reforma é um movimento muito mais amplo do que Lutero ou Calvino. Reforma é todo um movimento que tentou dar respostas a questões que eram formuladas ao cristianismo já antes do século XVI. Assim, quando falamos de Reforma, deveríamos iniciar com Isabel de Castela e Cisneros , dizer de Lutero, de Zwínglio, dos Anabatistas, dos Espiritualistas, de Thomas Müntzer, de Calvino e de seu colega de estudos na Sorbonne, Inácio de Loyola, de Trento, de Cromwell e dos Puritanos.■

Leia mais

- Protestantismo: é tempo de refletir. Entrevista especial com Cláudio Kupka, Martin Dreher e Walter Altmann, publicada nas Notícias do Dia de 31-10-2011.

- Lutero. Reformador da Teologia. Entrevista com Martin Dreher, publicada na revista IHU On-Line número 280, de 3-11-2011.

- A morte foi privatizada. Entrevista com Martin Dreher, publicada na revista IHU On-Line número 279, de 27-10-2008.

- “O mundo secularizado carece, desesperadamente, dos sinais da fé”. Entrevista com Martin Dreher, publicada na revista IHU On-Line número 209, de 18-12-2006.

- Há entre os pomeranos uma ética de trabalho muito acentuada.”. Entrevista com Martin Dreher, publicada na revista IHU On-Line número 271, de 1-9-2008.

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