Edição 479 | 21 Dezembro 2015

Teoria mimética e a elucidação da realidade

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Patricia Fachin | Tradução Walter Schlupp

Segundo William Johnsen, René Girard dialogou com os grandes pensadores clássicos e modernos a fim de refletir e elucidar o comportamento humano a partir de uma hipótese que conseguisse explicar a maior quantidade de dados da forma mais simples possível

“Girard, antes de mais ninguém, perguntou a si mesmo: será que estou certo (e não apenas persuasivo ou legível) no tocante ao comportamento humano? Em seguida, ele consultou os maiores escritores e testou-se repetidamente comparando-se com as teorias dominantes”, diz William Johnsen, professor de literatura britânica do século XX, para quem a hipótese de Girard “explica mais dados humanos do que [as de] Freud ou Levi-Strauss”. Para ele, René Girard “é único na forma corajosa como defende o poder referencial da linguagem e confronta seus leitores com o desafio: se eu estiver errado, substitua o que proponho por uma hipótese melhor”.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Johnsen apresenta um panorama das principais obras que Girard escolheu para a sua discussão, que contemplam desde escritores da tragédia grega clássica até romancistas modernos dos séculos XIX e XX. “Seu argumento do começo continua válido: constata-se que estas obras, pelo menos (mas é claro que se pode continuar acrescentando autores "clássicos", das ciências sociais também, como Darwin, Clausewitz, Freud, Lévi-Strauss), oferecem poderosas reflexões sobre o comportamento humano”, explica.

William A. Johnsen é professor de inglês na Michigan State University, editor da Contagion e da série de livros intitulada Studies in Violence, Mimesis, and Culture. É autor de Violência e modernismo: Ibsen, Joyce e Woolf (São Paulo: É Realizações, 2011), bem como de muitos ensaios e artigos sobre o modernismo irlandês, inglês e europeu e a teoria mimética. Seu website é www.msu.edu/~johnsen.

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Quais são as obras clássicas da literatura que dialogam com o pensamento de Girard?

William Johnsen - Em primeiro lugar, as obras que Girard mesmo escolheu para discussão: a tragédia grega clássica, especialmente Sófocles  e Eurípides , Dante  e Shakespeare , Cervantes , Proust  e Dostoiévski , certos romancistas modernos dos séculos XIX e XX. Seu argumento do começo continua válido: constata-se que estas obras, pelo menos (mas é claro que se pode continuar acrescentando autores "clássicos", das ciências sociais também, como Darwin , Clausewitz, Freud , Lévi-Strauss ), oferecem poderosas reflexões sobre o comportamento humano. Qualquer teoria do comportamento humano que não, pelo menos, enfrentá-los seriamente terá pouca credibilidade. O diálogo de Girard com esses escritores é profundo e emocionante. Você simplesmente não consegue mais lê-los como costumava fazer, uma vez que você se juntou ao diálogo de Girard com eles. Mas também precisamos reconhecer que outros estudiosos continuam a acrescentar obras a confirmarem a hipótese mimética. Por exemplo: Girard disse durante anos, de uma forma encriptada, que nós sempre procuramos pela base filosófica da religião, mas não pela base da filosofia na religião. William Blake Tyrrell em sua obra The Sacrifice of Socrates confirma essa sugestão de Girard.

 

IHU On-Line - Atualmente, quais são os escritores que continuam expressando o pensamento de Girard em suas obras? 

William Johnsen - Muitos destes serão escritores conhecidos para você a partir da série Biblioteca Girard publicados pela É Realizações. Enfatizando continuidade durante longo tempo, bem como o trabalho que tem sua própria base, mas se engaja poderosamente com Girard, pensaríamos em Paul Dumouchel, Jean-Pierre Dupuy, Jean-Michel Oughourlian e James Alison; no início dos anos 1990, temos Giuseppe Fornari, Pierpaolo Antonello, João Cezar de Castro Rocha . Wolfgang Palaver e mais recentemente Ángel Jorge Barahona Plaza têm escrito reflexões magistrais sobre a obra de Girard como um todo. Eu poderia facilmente mencionar mais cinquenta autores que bem merecem ser lidos.

 

IHU On-Line - Por que, na sua avaliação, a teoria mimética de Girard de fato expressa a realidade? 

William Johnsen - René Girard é único na forma corajosa como ele defende o poder referencial da linguagem e confronta seus leitores com o desafio: se eu estiver errado, substitua o que proponho por uma hipótese melhor. Você não fará essa aposta sem ser capaz de fundamentá-la, de modo que Girard, antes de mais ninguém, perguntou a si mesmo: será que estou certo (e não apenas persuasivo ou legível) no tocante ao comportamento humano? Em seguida, ele consultou os maiores escritores e testou-se repetidamente comparando-se com as teorias dominantes. Sua hipótese explica mais dados humanos do que [as de] Freud ou Levi-Strauss, por exemplo, e suas leituras de obras literárias de Joyce  e Shakespeare são mais abrangentes (sem ser redutivas) do que de qualquer outro que eu tenha lido.

 

IHU On-Line - Como as ideias do sacrifício e do bode expiatório se atualizam na contemporaneidade?

William Johnsen - Nossas ideias modernas e públicas de sacrifício ficaram gastas, vindo a significar algo ou alguém ofertado [offered] em favor de [for the sake of] alguém ou de alguma coisa (as etimologias de "offer" e "sake" são muito ricas em inglês e em línguas germânicas). Girard sugeriu que a religião expôs a arbitrariedade da prática do bode expiatório; viemos a aprender que a vítima [dessa prática] não é mais culpada do que ninguém. A única acusação que ainda vale a pena fazer é acusar alguém da prática do bode expiatório! No entanto, o sistema judicial moderno, em certo sentido, aperfeiçoou o sacrifício punindo alguém provado culpado via acusação. Assim, a polarização da comunidade dos inocentes contra os culpados é colocada sobre um fundamento verificável; e a forma como uma sociedade hipermimética exagera o valor de tudo aquilo que a maioria das pessoas não consegue comprar, a maneira como os pobres continuarão pobres, tudo isso reconstitui a forma como a sociedade arcaica 'convence' o bode expiatório a infringir as leis e os valores da comunidade, de modo que ele vá justificar o seu sacrifício.

 

IHU On-Line - Como Girard compreende outras tradições religiosas, além do cristianismo? 

William Johnsen - Uma das consequências mais interessantes do silêncio de Girard, em meados da década de 1990, ao menos sobre a retórica da sua posição antissacrificial anterior em Mimetic Theory and Theology ("Aquele por Quem o Escândalo Vem"), a favor do reconhecimento de que a Paixão deve ser descrita como sacrifício, é que ele desistiu da esperança de que o cristianismo lhe oferecesse uma zona isenta de violência, a partir da qual se pudesse analisar o comportamento violento. O cristianismo histórico compartilha com todas as religiões a contaminação de violência, e Girard começou a enfatizar as continuidades mais do que as descontinuidades entre as religiões. Todas as religiões buscam a Deus, todas as religiões visam à paz. Suas palestras na Bibliotheque Nationale de France, em homenagem a Sylvain Lévi, sobre os Vedas, refletem essa nova acomodação e expansão da atenção. O livro de Brian Collins The Head Beneath the Altar ['O Chefe sob o altar'] prova, a meu ver, a fecundidade da abordagem de Girard para os Vedas e mitologia hindu.

 

IHU On-Line - Quais são as conexões que Girard faz entre a teoria mimética e as ciências sociais e biológicas? 

William Johnsen - A obra Violence and the Sacred ['Violência e o Sagrado'] faz uma intervenção impressionante na antropologia da religião, ampliada e expandida em Things Hidden ['Coisas ocultas']. Nos anos 1970 e 80, diálogos de Girard com as ciências sociais e biológicas eram, muitas vezes, diálogos intelectuais com o trabalho de Jean-Pierre Dupuy  e Michel Serres . Evolution and Conversion ['Evolução e Conversão'] (com Pierpaolo Antonello e João Cezar de Castro Rocha) em meados dos anos 1990 consolidou essas possibilidades de engajamento através das ciências, de forma compreensível e debatível; [essas possibilidades] foram devidamente assumidas e aplicadas na coletânea de Scott Garrels com ensaios de vários autores, intitulada Mimesis and Science, incluindo Vittorio Gallese, codescobridor dos neurônios-espelho, e Andrew Meltzoff, um dos mais influentes pesquisadores do comportamento mimético na infância. Outra exploração da teoria mimética e evolução tem sido a recente coleção de dois volumes por Paul Gifford e Pierpaolo Antonello: Can We Survive Our Origins e How We Became Human ['Podemos nós sobreviver a nossas origens' e 'Como viemos a nos tornar humanos'].

 

IHU On-Line - Como Girard respondeu à questão sobre qual é a base científica de sua teoria? 

William Johnsen - A abordagem de Girard tem sido a mesma para todas as áreas ou disciplinas que ele discutiu: qual hipótese consegue explicar a maior quantidade de dados da forma mais simples possível? De um modo geral ele não se tem envolvido em elaborados debates sobre o que constitui uma teoria propriamente científica (falsificabilidade etc.). É claro que cada disciplina tem sua própria base de conhecimento, protocolos e preconceitos para com gente de fora tentando trabalhar em seu campo. Muitos campos têm assumido o que um teórico literário reconheceria como uma atitude pós-moderna, recusando-se a sequer considerar alguma grande hipótese ou narrativa de validade universal, mas presumo que qualquer cientista tenha o mesmo sonho, que é de acordar com uma única teoria que una a relatividade com a física quântica.

 

IHU On-Line - De que modo a teoria mimética de Girard aparece nas obras de Ibsen, Joyce e Woolf?

William Johnsen - Ibsen, Joyce e Woolf  são escritores hipermiméticos. Ibsen, como Joyce, criou-se em meio à ascensão e queda da prosperidade paterna, e nenhum dos dois jamais esqueceu como um amigo do povo pode se tornar inimigo do povo. Quando jovem, Joyce admirava muito a capacidade de Ibsen gerar uma "comoção" na comunidade. Lembro-me de ter lido uma carta de Ibsen a seu editor, dizendo que estava trabalhando duro para terminar Ghosts, de modo que ficasse pronto para servir como presente na temporada de Natal. Imagine isso. É como Joyce, quando solicitado por um editor a escrever uma história rural simples e edificante para The Irish Homestead, jornal da associação [irlandesa] dos produtores de leite. Joyce deu-lhe The Sisters. Este elemento está presente em Woolf, também, mas eu prefiro lembrar A Room of One's Own, uma coletânea de palestras que apresentou em diversos colégios para mulheres, uma joia para se demonstrar a teoria mimética. Quando Woolf se senta na biblioteca, ela decodifica a partir dos livros que lê a rivalidade mimética de homens e mulheres, vindo a perguntar: "Por que os homens ficam bravos enquanto gerenciam o mundo, quando eles consideram a metade do mundo (mulheres) como tendo metade do seu tamanho?" Ela responde a estas perguntas primárias de rivalidade em um tom tão salutar e acolhedor que se deveria receitá-lo como terapia para enredamentos miméticos. No entanto, suas ficções foram, para ela, compromissos com a morte: seu primeiro vislumbre de To the Lighthouse, para mim o melhor romance britânico, que descreve as relações de gênero que sua geração herdou de seus pais, foi o de uma nadadeira aparecendo na superfície d'água.

 

Leia Mais...

- "A teoria mimética não é girardiana: ela é real". Entrevista com William Johnsen, publicada na revista IHU On-Line, nº 393 de 21-05-2012. 

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição