Edição 479 | 21 Dezembro 2015

Teologia e literatura na superação do absurdo

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Márcia Junges e Patricia Fachin | Tradução: Walter O. Schlupp

A causa de Jesus se reflete indiretamente em vários personagens da literatura universal, diz o teólogo Karl-Josef Kuschel

“Com os poetas podemos aprender que a pessoa e a causa de Jesus nunca se esgotam. (...) Jesus e aquilo que ele representa são, em termos literários, um arquétipo, não no sentido de C.G. Jung, de um ‘subconsciente coletivo’, e sim como modelo de vida que não se desgasta, mas sempre volta a desafiar a que sejam reconfigurados criativamente”. O comentário é do teólogo alemão Karl-Josef Kuschel, que há décadas tem se ocupado a estudar a relação entre teologia e literatura universal. Autor de Jesus im Spiegel der Weltliteratur (Jesus espelhado na literatura universal), Kuschel menciona, na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, algumas das obras literárias mais significativas em sua aproximação com a teologia. Particularmente para “as pessoas de hoje”, ele sugere a obra do poeta alemão do século XIX, Heinrich Heine, que aborda a “famosa questão da teodiceia, qual seja, de como um Deus justo e todo-poderoso não impede o imenso sofrimento de pessoas inocentes. Esta é uma das questões mais devastadoras para a pessoa que crê. Basta pensar no sem-número de pessoas que morreram na guerra ou por causa do terrorismo”, diz.

Entre suas leituras da juventude, Kuschel comenta O Estrangeiro, de Albert Camus. “Quando li O Estrangeiro, de Camus, enquanto estudante de teologia, fiquei bastante impressionado; eu estava naquela fase da vida que descrevi acima: buscando uma resposta digna de crédito para a pergunta por Deus. Camus me apresentou uma pessoa condenada à morte sendo visitada na cela por um sacerdote. A ‘oferta de sentido’ desse padre ele rejeita sem meias palavras, não por arrogância, mas com certo orgulho, pelo conceito que tinha de si, justamente face à morte. Fiquei impressionado com o fato de que é possível rejeitar o ‘consolo metafísico’ com base no próprio conceito de si, e também perante representantes da religião a se apresentarem com tanta confiança como o padre na narrativa de Camus”. O diálogo e a inquietação com a crítica literária à religião e a Deus foram fundamentais para que o teólogo reafirmasse a própria fé. “Minha existência como cristão se baseia em algo mais profundo, que também abrange aspectos como fracassar, extinguir-se, morrer. Neste aspecto, transcendi Camus, o qual, ao fim e ao cabo, só conseguiu propor uma filosofia do absurdo”, conclui. 

Karl-Josef Kuschel leciona Teologia da Cultura e do Diálogo Inter-religioso na Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Tübingen. É autor, entre outros, de Jesus im Spiegel der Weltliteratur. Eine Jahrhundertbilanz in Texten und Einführungen (Düsseldorf, 1999) (Jesus espelhado na literatura universal. Textos e informações introdutórias para um século em perspectiva) e Jud, Christ und Muselmann vereinigt? Lessings “Nathan der Weise” (Judeu, cristão e mulçumano unidos? “Natã, o sábio”, de Lessing) (Düsseldorf, 2004). 

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - Como Jesus aparece nos autores alemães que estudou? Qual é a peculiaridade dessas abordagens? Das obras de literatura que o senhor estudou, qual delas melhor expressa a temática de Jesus? Por quê?

Karl-Josef Kuschel - Quanto ao primeiro aspecto, é preciso considerar que no meu livro Jesus im Spiegel der Weltliteratur (Jesus espelhado na literatura universal) eu apresentei 27 autoras e autores do século XX. Ali são considerados europeus ocidentais como André Gide , James Joyce , Thomas Mann  e José Saramago , russos como Bulgakow , Pasternak  e Aitmatow , americanos como Hemingway , Faulkner  e Toni Morrison , mas também sul-americanos como Jorge Luis Borges , Augusto Roa Bastos  e Mario Vargas Llosa . Todos esses autores e autoras publicaram textos dos mais diversos tipos. Hemingway, por exemplo, está representado por um pequeno esboço denominado “Hoje é sexta-feira”, onde ele retrata a crucificação de Jesus indiretamente, falando de soldados bebendo numa taberna e que não conseguem esquecer o acontecimento do qual acabaram de participar. Vale mencionar que muitas autoras e autores utilizam essa técnica do espelhamento. 

Esses autores entenderam que seria ingênuo representar Jesus diretamente como personagem do seu tempo; mas é possível inventar personagens de hoje, nos quais a causa de Jesus se reflita indiretamente. Pensemos no romance de Vargas Llosa A Guerra do Fim do Mundo, onde ele reflete a causa de Jesus (como causa dos pobres e oprimidos no Brasil) no personagem do “herói” de Canudos, Antonio Conselheiro. Ou pensemos no admirável romance de Roa Bastos Filho do Homem, de 1960, que se desenrola no Paraguai e conta a história de um artesão pobre que faz peças em madeira. Seu nome é Gaspar Morar, que se sacrifica abnegadamente por outras pessoas: é um personagem tipo Jesus. Sob a temática “Jesus”, o livro Filho do Homem é a obra literária que mais admiro.

 

IHU On-Line - O que as obras literárias que têm Jesus como temática ensinam em termos culturais, religiosos e teológicos? 

Karl-Josef Kuschel - Com os poetas podemos aprender que a pessoa e a causa de Jesus nunca se esgotam. Sempre precisam passar por nova inculturação. É preciso que cada cultura e cada época gerem sua narrativa específica sobre Jesus. Jesus e aquilo que ele representa são, em termos literários, um arquétipo, não no sentido de C.G. Jung , de um “subconsciente coletivo”, e sim como modelo de vida que não se desgasta, mas sempre volta a desafiar a que sejam reconfigurados criativamente. 

 

IHU On-Line - Qual foi o peso da cultura não religiosa, da filosofia crítica das coisas transcendentes e da metafísica na sua formação como teólogo? Que pontos o estudo desse tipo de literatura ressaltou em sua formação e na sua compreensão de Deus? 

Karl-Josef Kuschel - Comecei a estudar teologia em fins dos anos 1960, início dos anos 70. Naquela época, predominavam no clima intelectual da Alemanha duas vertentes filosóficas de forte orientação pós-metafísica: o neomarxismo representado pela escola de Frankfurt  (Theodor W. Adorno , Max Horkheimer , Jürgen Habermas ) e o neorracionalismo (Karl Popper , Hans Albert). Em consequência disso, nós estudantes de teologia enfrentávamos toda a força do vento contrário que era a crítica moderna da religião de Ludwig Feuerbach , passando por Karl Marx  até chegar em Friedrich Nietzsche  e Sigmund Freud . Se eu quisesse continuar estudando teologia mantendo tranquila minha própria consciência intelectual, eu precisava ocupar-me a fundo com as objeções da crítica da religião contra a "fé em Deus". E isso, de maneira tal que eu conseguisse dizer "sim" a Deus, não simplesmente ignorando, mas respeitando a crítica da religião.

 

IHU On-Line - Como a literatura de Heinrich Heine  sugere compreender a Deus diante das perguntas que nos colocamos sobre “por que o mundo é do jeito que é?”, “por que existe a maldade?” etc.? 

Karl-Josef Kuschel - Poucas obras da literatura tanto exigiram de mim como as de Heinrich Heine . Isso, principalmente na famosa questão da teodiceia, qual seja, de como um Deus justo e todo-poderoso não impede o imenso sofrimento de pessoas inocentes. Esta é uma das questões mais devastadoras para a pessoa que crê. Basta pensar no sem-número de pessoas que morreram na guerra ou por causa do terrorismo. Heinrich Heine interessou-me pelo modo como tratou essa questão. Residiu em Paris a partir de 1831. Era um dos intelectuais mais brilhantes da sua época. Em 1848, foi acometido de terrível doença que, pelos últimos oito anos da sua vida, o obrigou a viver no que ele chama de sua "cova no colchão". As dores do seu corpo ele entorpecia com ópio, porém sua mente continuava funcionando e acabou produzindo uma obra poética incomparável na literatura alemã: Romanzero (1852) e os Poemas 1853/54.  

Sob o impacto da sua doença, Heine realiza um "retorno ao Deus dos nossos ancestrais", como ele diz, ou seja: ao Deus da Bíblia hebraica [Antigo Testamento]; afinal de contas, Heine descende de judeus. Em seus poemas, ele entabula uma conversa crítica com Deus sobre o sofrimento. Esse diálogo crítico me interessou como cristão, porque aborda temas bíblicos: [os livros de] Jó, Lamentações, salmos de lamentação. Heine adota uma terceira via na questão da teodiceia, uma via que vai além do ateísmo e da teologia da submissão. Ele não rompe com Deus, mas não se submete aos "insondáveis desígnios" de Deus, e sim se queixa, cobra justificativa, acusa. Heine aí desenvolveu uma teologia da rebelião contra Deus perante Deus. Ela me parece relevante também para as pessoas de hoje. Tudo isso se encontra no meu livro Gottes grausamer Spass? Heinrich Heines Leben mit der Katastrophe [Cruel brincadeira de Deus? Heinrich Heine convivendo com a catástrofe], publicado em 2002. 

 

IHU On-Line - Em seu texto Narrar Deus: Meu caminho como teólogo com a literatura , o senhor comenta o livro The dying animal (O animal agonizante), de Philip Roth  como um dos que mais ama, especialmente por causa da “perturbação da autossegurança e pela impotência da pessoa ciente”. Como a figura de Deus se manifesta nessa obra e pode ser entendida na relação entre Kepesh e Consuelo?

Karl-Josef Kuschel - Em Dying animal a questão é mais o ser humano do que Deus. Ali, Roth apresenta sucinto e contundente histórico de doença, desmascarando radicalmente dois modos de vida que encontramos hoje: o hedonismo e o sexismo. Kepesh, professor catedrático e crítico literário, representa o atual espírito do hedonismo, principalmente na sua relação com as mulheres. É divorciado, descarta qualquer vínculo permanente, de vez em quando vai para a cama com uma mulher que executará essa cópula de modo tão funcional quanto ele. Auge desse hedonismo vem a ser a "conquista" de uma das suas alunas, de nome Consuelo; ele se acha o máximo por conseguir fazer com que uma mulher tão jovem e maravilhosa se apaixone por ele, homem de mais idade. Ela possui "os mais belos seios do mundo". Veja só o prazer de ele ir para a cama com ela, a maior afirmação da sua potência masculina. Então vem a separação. Ele passa a sofrer como um cachorro. Não era coisa com que estivesse acostumado. Aí Consuelo volta, contando que tem câncer de mama. Está prevista a amputação dos "mais lindos seios do mundo". 

Esse é o ponto crucial e dramático que Philip Roth tenta transmitir. Ele expõe seu protagonista a um teste radical. Ele se pergunta: o que fazer? O que ainda pode fazer? Hedonismo e sexismo acabam desmascarados. O autor problematiza esse tipo de gente sem propor moralismo algum. Mesmo em nível literário ele não sugere qualquer receita de conduta correta. Ele coloca a nós leitores simplesmente como testemunhas de uma situação fictícia, porém realista, repassando a nós os questionamentos. Para a recepção teológica isto é de suma importância. Precisamos da literatura não como solução, mas como parceira no diálogo.

 

IHU On-Line - Nesse mesmo texto, o senhor comenta sobre a obra O estrangeiro, de Camus. Como interpreta a rejeição à religião demonstrada na obra do autor e a posição do personagem, que mesmo consciente de sua finitude, renega a transcendência? 

Karl-Josef Kuschel - Quando li O Estrangeiro, de Camus , enquanto estudante de teologia, fiquei bastante impressionado; eu estava naquela fase da vida que descrevi acima: buscando uma resposta digna de crédito para a pergunta por Deus. Camus me apresentou uma pessoa condenada à morte sendo visitada na cela por um sacerdote. A "oferta de sentido" desse padre ele rejeita sem meias palavras, não por arrogância, mas com certo orgulho, pelo conceito que tinha de si, justamente face à morte. Fiquei impressionado com o fato de que é possível rejeitar o "consolo metafísico" com base no próprio conceito de si, e também perante representantes da religião a se apresentarem com tanta confiança como o padre na narrativa de Camus. Eu me propus o seguinte: se é que você acredita em Deus, então por razões outras que não as desse padre.

 

IHU On-Line - Como devemos entender o cristianismo? Por que ele passou a ser visto como uma “ética social”? A literatura e a teoria crítica influenciaram nesse processo?

Karl-Josef Kuschel - O fato de o cristianismo ser entendido como ética ou, mais estritamente, como ética social, é produto do Esclarecimento [ou Iluminismo] , cujas consequências tardias estamos vendo hoje. Mas eu não o lamento. Pelo contrário, diante de tanta frieza social mundo afora, tanto cinismo e desprezo pelo ser humano, incontáveis pessoas se entregam a ideais sociais, mesmo não sendo religiosas. Como cristão, sinto-me ligado a essas pessoas. Prefiro mil vezes humanistas com sensibilidade social a cristãos socialmente indiferentes. 

Pessoalmente não reduzo minha existência como cristão a uma ética social. Minha fé cristã está ancorada, em primeiro lugar, no fato de que cada pessoa é imagem de Deus; a isto se liga uma mensagem fundamental: a de que cada pessoa, seja qual for seu gênero, sua raça ou cor, tem uma dignidade concedida por Deus, portanto indestrutível. Além disso, [minha fé está ancorada] no discipulado de Jesus, que nos legou a seguinte mensagem fundamental: "O que fizeres ao mais insignificante irmão ou irmã, a mim o farás". Por que procedo desta forma? Porque a minha existência como cristão se baseia em algo mais profundo, que também abrange aspectos como fracassar, extinguir-se, morrer. Neste aspecto, transcendi Camus, o qual, ao fim e ao cabo, só conseguiu propor uma filosofia do absurdo. 

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Karl-Josef Kuschel - Além das questões "metafísicas", para cujo esclarecimento me tem ajudado a literatura universal, desde os anos 1990 estou me dedicando a outro desafio: o pluralismo das religiões. Acontece que minha existência como cristão é questionada não só pelo secularismo e pelo ateísmo, mas também pela presença de outras religiões: judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo etc. Eu precisava adquirir competência no diálogo inter-religioso. Aí a literatura me ajudou, mais uma vez. Sobre o Islã escrevi o livro Vom Streit zum Wettstreit der Religionen: Lessing und die Herausforderung des Islam [Passando da disputa para a competição entre as religiões: Lessing e o desafio do Islã]. Sobre o budismo publiquei um estudo referente aos três notáveis poemas de Rainer Maria Rilke : Rilke und der Buddha. Die Geschichte eines einzigartigen Dialogs [Rilke e o Buda. A História de um diálogo singular]. Atualmente estou envolvido num trabalho mais amplo sobre Buda e Laotse, como eles se refletem nas obras de Hermann Hesse e Bertolt Brecht . Mas isso é outra história. Ela extrapolaria o espaço cabível no nosso diálogo.■

 

Leia Mais...

- A Banalidade do Mal. Entrevista com Karl-Josef Kuschel, publicada na revista IHU On-Line, nº 438, de 24-03-2014.  

- As religiões da profecia: Judaismo, Cristianismo e Islamismo. Entrevista com Karl-Josef Kuschel, publicada na revista IHU On-Line nº 302, de 03-08-2009.

- Morte. Resiliência e fé. Entrevista com Karl-Josef Kuschel, publicada na revista IHU On-Line nº 279, de 27-10-2008. 

- Karl-Josef Kuschel faz 60 anos: teologia em diálogo. Artigo de Paulo Soethe, publicado na edição nº 249, de 03-03-2008. 

- Bento XVI e Hans Küng: contexto e perspectivas do encontro em Castel Gandolfo. Artigo de Karl-Josef Kuschel, publicado em Cadernos Teologia Pública, nº 21.

- Fundamentação atual dos direitos humanos entre judeus, cristãos e muçulmanos: análises comparativas entre as religiões e problemas. Artigo de Karl-Josef Kuschel, publicado em Cadernos Teologia Pública, nº 28.

- Os relatos do Natal no Alcorão (Sura 19, 1 - 38; 3, 35 - 49) Possibilidades e limites de um diálogo entre cristãos e muçulmanos. Artigo de Karl-Josef Kuschel, publicado em Cadernos Teologia Pública, nº 49.

- Narrar Deus: meu caminho como teólogo com a literatura. Artigo de Karl-Josef Kuschel, publicado em Cadernos Teologia Pública, nº 61.

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