Edição 475 | 20 Outubro 2015

O Hölderlin que transcende a literatura

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Márcia Junges e Leslie Chaves | Tradução Luís Sander

A repercussão dos escritos do poeta chegou a diversos campos, influenciando grandes nomes como Walter Benjamin, Martin Heidegger e Theodor W. Adorno

Considerado um dos maiores poetas e romancistas alemães, Hölderlin é consagrado na área da literatura, porém seu trabalho também assume destaque em outros campos, recebendo prestígio e se refletindo no pensamento de outros estudiosos admiradores de sua obra. De acordo com Johann Kreuzer, a produção de Hölderlin é o critério que define a poesia na modernidade, dentro e fora do âmbito da língua alemã. “Essa repercussão e ressonância não se restringem à esfera literária. Há um compromisso profundo – e admitido – com Hölderlin (na filosofia) por parte de Walter Benjamin, de Martin Heidegger e Theodor W. Adorno – que se entendia como curador do Hölderlin descoberto por Benjamin e destacou particularmente a afinidade existente entre a linguagem de Hölderlin e a música do Beethoven tardio e de Schubert”, explica, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Apesar de sua relevância, a obra de Hölderlin só tornou-se conhecida a partir do século XX. Segundo Kreuzer, além da dificuldade de acesso aos escritos do poeta, os mitos em torno de seu modo de vida também não favoreceram a difusão do trabalho dele na época. “No século XIX, sua poesia praticamente não estava publicada. Além disso, a lenda sobre o ‘poeta doido na torre’ não foi benéfica para sua recepção no século XIX caracterizado pela crença na ciência. Foi só com a edição de Norbert von Hellingrath, que fazia parte do círculo reunido em torno de Stefan George, que se cumpriram as condições editoriais que possibilitaram um conhecimento adequado de Hölderlin”, conta.

Johann Kreuzer estudou Filosofia, Estudos Alemães e Religião Comparada na Universidade de Tübingen e na Freie Universität, ambas na Alemanha, onde em 1984 obteve o título de doutor com uma tese sobre Hölderlin. De 1987 a 1992 foi o primeiro pesquisador e entre 1992 e 1996 foi professor de Filosofia na Universidade de Wuppertal. Depois de lecionar nas Universidades de Münster, de Colônia e de Humboldt de Berlim, foi professor visitante na Universidade Charles, em Praga. Em 2002 foi nomeado coordenador de História da Filosofia na Universidade Carl von Ossietzky Oldenburg na Alemanha, onde em 2013 tornou-se decano da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais e desde 2014 é diretor do Instituto de Filosofia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que medida se pode atribuir a Hölderlin ser um dos poetas pioneiros da modernidade?

Johann Kreuzer - A repercussão de Hölderlin só começou no século XX, particularmente a partir da edição de Norbert von Hellingrath . Neste sentido, ele não é um “pioneiro” da poesia da modernidade ou da atualidade, e sim, a rigor, o critério para ela, o é tanto no âmbito da língua alemã quanto fora dele. Essa repercussão e ressonância não se restringem à esfera literária. Há um compromisso profundo — e admitido — com Hölderlin (na filosofia) por parte de Walter Benjamin (que, no século XX, foi o primeiro a reagir à poesia “tardia” que von Hellingrath tornou acessível — mas esses trabalhos só foram publicados após 1950); de Martin Heidegger (cujas interpretações de Hölderlin dominaram a confrontação com ele na década de 50 até meados dos anos 60 do século XX); e de Theodor W. Adorno — que se entendia como curador do Hölderlin descoberto por Benjamin e destacou particularmente a afinidade existente entre a linguagem de Hölderlin e a música do Beethoven tardio e de Schubert.

Depois, a confrontação de Benjamin e de Adorno com Hölderlin teve um grande impacto também na ciência literária, a partir de meados dos anos 60, por meio de Peter Szondi  — em termos de conteúdo, essa influência se ampliou enormemente através de Jacques Derrida  e da fenomenologia francesa (mesmo que a referência originária a Hölderlin nem sempre fosse mencionada). Para além da filosofia, da teoria da estética e da ciência literária, o mais importante lírico da língua alemã do século XX, Paul Celan , também tem um compromisso profundo com Hölderlin.

 

IHU On-Line - Qual era a concepção de Hölderlin sobre os poetas e a poesia, em si? É correto falar em uma metafísica do artista a partir de sua obra?

Johann Kreuzer - Isso depende do que se entende por “metafísica”. Decisivo com vistas a Hölderlin e à linguagem poética realizada em sua obra ou à realidade linguística apresentada através de sua obra é que ela tem razões filosóficas que Hölderlin entendeu como forma de procedimento do espírito poético. Ele expressou da forma mais lapidar a pretensão dessa forma de procedimento na afirmação de que a tarefa do poeta ou da linguagem da individualidade poética é “ter uma lembrança”. Expôs essa pretensão de modo um pouco mais extenso na seguinte fórmula: “Assim como o conhecimento vinga a linguagem, da mesma maneira a linguagem se lembra do conhecimento.” Se isso é compreendido como “metafísica”, então é a metafísica que se expressa linguisticamente na obra de Hölderlin. Trata-se de uma metafísica que parte da revolução da forma do pensamento promovida por Kant , particularmente daquilo que Kant expõe, na “Crítica da faculdade do juízo”, sobre a capacidade cognitiva e o sensus communis. O outro referencial doxográfico para a concepção de Hölderlin acerca da poesia é platônico, particularmente o “Banquete” e o “Fedro”. Se fala-se da existência de uma metafísica em Hölderlin, então trata-se de uma metafísica da linguagem: é a linguagem que vai além dos dados da dimensão empírica e, com isso, torna-se, ela própria, experiência (um modelo para essa metafísica é representado por Píndaro , por um lado, e, por outro, pelo processo de expressão linguística saturado de história que se apresenta particularmente na tragédia de Sófocles ).

 

IHU On-Line - Em que consiste o paradoxo de Sófocles e a Antígona de Hölderlin?

Johann Kreuzer - Posso responder essa pergunta com os comentários que fiz na introdução à minha edição dos “Escritos teóricos” de Hölderlin: a história é o processo do modo temporal de aparição da própria natureza. A tríade “fechada” da consciência formada por “unidade-ruptura-unificação” é substituída pela dialética “aberta” de fundamento e aparição, de “originário e sinal”. Na tragédia se expressa linguisticamente e se compreende o paradoxo originário da natureza da história. O que se mostra como trágico é o que destrói a permanência na história. Justamente com isso, porém, tornam-se conscientes as condições de possibilidade da história vivida individualmente. “Tudo que é originário” aparece “a rigor” em sua debilidade: “como luz da vida e aparição” na esfera dos “sinais”. No trágico ocorre o sacrifício do “sinal” (finito, em cada caso), na medida em que o “originário”, em sua “mais forte dádiva”, faz o mundo dos sinais aparecer como “sem importância = 0”. O mundo dos sinais, porém, é o mundo da individualidade e da história. Por conseguinte, o significado das tragédias pode ser entendido como experiência das condições de possibilidade da história na ameaça radical ou original (= originária) dessas mesmas condições.

Isso leva a um conceito purificado da natureza paradoxal da história e da linguagem. O “originário” é o “fundamento oculto de toda natureza” (conforme a observação de Heráclito de que a “physis gosta de se ocultar”), que não deve ser desvendado, mas compreendido em sua aparição. A história significa a totalidade de uma interação entre o “originário” e a “luz da vida”. É nos sinais que a natureza se mostra, em sua “mais fraca dádiva”, como princípio vivo da distinção. O ato de remontar ao “fundamento oculto da natureza” é a tarefa do individualmente distinto, a qual, tragicamente, significa o sacrifício deste. Frente à tendência a essa unificação trágica (o factual que é mortal e mata), Hölderlin observa no Homburger Folioheft: “O distinto é bom” A natureza se apresenta “a rigor” na consciência da individualidade como história de sinais. Nos sinais, aquilo que é concebido como fundamento oculto da natureza se relaciona consigo mesmo. Ele aparece na linguagem. Nas formas da manifestação que significam linguagem, a natureza em sua debilidade encontra expressão linguística como “luz da vida”. No trágico, por outro lado, tem-se “o sinal = 0”. Portanto, na tragédia (p. ex., na “Antígona”, talvez mais explicitamente no “Édipo”) se apresenta ex negativo a condição de possibilidade da consciência que se mantém individualmente. Nisso se fundamenta o paradoxo dela.

 

IHU On-Line - Quais são as razões para que, por muitos anos, sua poesia não tenha sido devidamente reconhecida na Alemanha?

Johann Kreuzer - No século XIX, sua poesia praticamente não estava publicada. Além disso, a lenda sobre o “poeta doido na torre” não foi benéfica para sua recepção no século XIX caracterizado pela crença na ciência. Foi só com a edição de Norbert von Hellingrath, que fazia parte do círculo reunido em torno de Stefan George , que se cumpriram as condições editoriais que possibilitaram um conhecimento adequado de Hölderlin.

 

IHU On-Line - Por que o modelo trágico grego era tão caro à poesia de Hölderlin? E por que ele enfatiza as características anticlássicas da cultura grega?

Johann Kreuzer - Também neste caso preciso remeter à introdução que fiz para minha edição dos “Escritos teóricos” de Hölderlin: na forma artística da tragédia se apresenta a “índole” historicamente singular, decerto não mutável, que passa do elemento grego para o hespérico. Neste sentido, no “Édipo”  se mostra o nascimento da tragédia a partir da “singeleza fiel da natureza original da Antiguidade” e, na “Antígona” , seu resultado na passagem para a forma republicana da razão que aí se forma tragicamente. Na forma artística da tragédia se documenta a passagem histórica em que, sob peste e perturbação dos sentidos, a contraposição ao curso eternamente misantrópico da natureza se torna consciente e, assim, a própria consciência é constituída.

No “espírito livre” Édipo mostra-se, como acontecimento originariamente trágico, a luta desesperadora para chegar a si mesmo, o esforço espezinhador quase desavergonhado de dominar a si mesmo, a busca doida e selvagem por uma consciência. A consciência se forma como consciente de si mesma, isto é, como distinção consciente de sua impotência física em relação à natureza como poder. Ela se compreende à diferença da equivocidade desta. O entendimento humano se objetiva movendo-se sob um inconcebível. O que está em questão aí – que a possibilidade sagrada viva do espírito se conserva – é mostrado pelo processo agonal da tragédia. Nele se forma, na musa terrível de uma época trágica [...] [a forma da razão que,] mais tarde, em uma época humana, é tida como opinião firme nascida de um destino divino. Entre a época trágica (= grega) e a humana (hespérica, isto é, a nossa) existe uma relação de sequência histórica. Por isso Hölderlin acentua as “características anticlássicas da cultura grega”: o próprio devir histórico dela já acontecido.

Isso não quer dizer que a distância histórica excluísse a recaída na imediatez trágica – mais para trás da “forma republicana da razão” que parece ser alcançada na Antígona. Que na tragédia o tempo (assim como o espaço) seja exposto não só como forma da intuição e do sentido interior, mas também como condição de possibilidade de que a consciência conserve a si na distinção para com a natureza – isso é entendido por Hölderlin em um sentido concreto e, neste sentido, “anticlássico” em termos empírico-basais, isto é, histórico-constitutivos.

É que no limite extremo do sofrimento não existe nada mais do que as condições do tempo ou do espaço. Nele o ser humano se esquece porque é inteiramente no momento; o deus, porque não é nada mais do que tempo. É preciso ligar a ausência de relações do temporalmente distinto (“expirante”) com o poder natural “tempo”, que se mostra como fundamento e forma de seu passar e declinar. O tempo dilacerante do curso eternamente misantrópico da natureza não faz isso. Sua experiência originária se transforma na tragédia no permanecer firme diante da mudança do tempo. A “infidelidade divina” é “a melhor de conservar” porque nos faz entender a necessidade da ligação do temporal por nós. Com isso, Hölderlin concretiza nas “Observações sobre Sófocles”, na perspectiva de uma teoria do tempo, o que explicou como significado da lembrança no fragmento intitulado “A pátria em declínio...”: a fundamentação tragédica (trágico-original) do sentido histórico da lembrança, que Hölderlin concebeu, em “A pátria em declínio...”, como necessidade e determinação interior da livre imitação da arte. Ela fundamenta a necessidade da lembrança individual, pela qual o ser humano chega até a reflexão e a linguagem e a consciência se conserva individualmente.

 

IHU On-Line - Pode-se dizer que a obra de Hölderlin é uma constante interrogação metafísica, uma tentativa de diálogo com o transcendente? Por quê?

Johann Kreuzer - Para Hölderlin, o transcendente (formulado em termos neutros: o divino – ou de modo incisivo: o deus) não é algo além da experiência, e sim o centro dela ou, do ponto de vista da teoria da consciência, seu fundamento. Em sua compreensão, a pretensão da expressão poética da linguagem é reproduzir o divino (os momentos de entusiasmo divino), isto é, torná-lo capaz de lembrança (“ter sua lembrança” – conforme resposta à primeira pergunta) ou trazer o deus / o divino pelo ato e em atos da expressão linguística.■

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