Edição 475 | 19 Outubro 2015

A exploração do conhecimento racional até seu limite

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Ideias “desafiadoras” de Hölderlin influenciaram Hegel de modo evidente na “Fenomenologia do Espírito”, destaca Kathrin Rosenfield. Musil tinha apreço pela seriedade e precisão complexa da poesia hölderliana

“Hölderlin nos convida a explorar o conhecimento racional até o seu limite, para deixar vir à tona, no limiar do impensável, uma outra forma de ‘pensar’. O interesse pelo mito, pelas qualidades musicais das palavras, pelos misteriosos acordes e pelas dissonâncias exige uma postura pouco compatível com um sistemático discurso sobre o método, que se propõe a controlar as falácias da consciência subjetiva.” A reflexão é da filósofa Kathrin Rosenfield, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. A pesquisadora observa que esse poeta teve ideias desafiadoras, “porém escolhe interlocutores inadequados (Schiller e Goethe) em momentos inadequados. Isto sem dúvida contribuiu para o seu isolamento, ao passo que Hegel deixa suas ideias maturarem, apresentando-as apenas como tratados sistemáticos. A precocidade dos insights do poeta acirrou seu estado de alienação (e permanece durante mais de trinta anos numa loucura quase hamletiana)”.

Kathrin observa que a influência mais forte de Hölderlin sobre Hegel é evidente na Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Vozes, 2003): “Apesar do silêncio tenaz que Hegel manteve, a partir de 1804, a respeito de seu amigo alienado na torre de Tübingen, as ideias do poeta sobre o ritmo como forma própria do pensamento poético parecem ter exercido seu impacto secreto sobre a Fenomenologia. Um olhar aguçado descobrirá na ‘Introdução’ de Hegel ainda algumas tênues marcas da amizade juvenil com Hölderlin — marcas conceituais que comprovam a importância filosófica da ‘poeto-logia’ de Hölderlin”.

Kathrin Rosenfiled é graduada em Letras pela Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris III, França, mestre em Antropologia e História pela Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, França, e doutora em Ciência da Literatura pela Universidade de Salzburg, Áustria, com a tese Historicité et conceptualité de la littérature médiévale: Un problème d'Esthétique. É pós-doutora pela Universidade de Massachussetts Amherst (Phd em Literatura Comparada), Estados Unidos, e pela Ecole Normale Supérieure, França. É professora titular do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Escreveu inúmeros artigos sobre Hölderlin, e de suas obras destacamos Antígona - De Sófocles a Hölderlin (Porto Alegre: L&PM, 2000) e Oedipus Rex? The Story of a Palace Intrigue (Colorado: James Davies, 2012).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como podemos compreender a conquista do estético entre o Romantismo e a Modernidade? 

Kathrin Rosenfield - Talvez seja legítimo dizer que a valorização do estético — já na filosofia de Kant  — modifica o racionalismo iluminista. Traços da hipervalorização da razão entendida como pensamento conceitual encontramos em todos os grandes filósofos sistemáticos pós-Kantianos, Fichte  e Hegel,  em particular. Hölderlin  também valoriza o potencial da consciência, mas ele vislumbra mais que os outros o horizonte do além da razão.

Hölderlin redescobre, ou lembra, de um modo de ser, sentir e pensar que escapa ao controle do entendimento, exigindo outros modos de “conhecimento”. Assim, ele opõe aos modos formais de pensar com conceitos e à lógica estrito senso a outra lógica das configurações poéticas.

Fragmentos

Neste sentido, é lamentável que os fragmentos teóricos de Hölderlin tenham suscitado mais interesse que sua poesia, e as Observações sobre Édipo e Antígona, mais comentários que as traduções das tragédias. Hölderlin nos convida a explorar o conhecimento racional até o seu limite, para deixar vir à tona, no limiar do impensável, uma outra forma de ‘pensar’. O interesse pelo mito, pelas qualidades musicais das palavras, pelos misteriosos acordes e pelas dissonâncias exige uma postura pouco compatível com um sistemático discurso sobre o método, que se propõe a controlar as falácias da consciência subjetiva. Um pensar que renuncia ao pro-duzir subjetivo, para deixar emergir o im-pensável que faísca e desvanece nas constelações da poesia (e nas técnicas do tradutor-poeta).

 

IHU On-Line - Há alguma influência de Hegel nas poesias de Hölderlin, e uma influência do poeta sobre o filósofo?

Kathrin Rosenfield - Com poucas exceções, a obra e os fragmentos de Hölderlin antecedem a filosofia do amigo-filósofo Hegel. Os fragmentos filosóficos relevantes de Hölderlin são dos anos 1790. O poeta tem ideias desafiadoras, porém escolhe interlocutores inadequados (Schiller  e Goethe ) em momentos inadequados. Isto sem dúvida contribuiu para o seu isolamento, ao passo que Hegel deixa suas ideias maturarem, apresentando-as apenas como tratados sistemáticos. A precocidade dos insights do poeta acirrou seu estado de alienação (e permanece durante mais de trinta anos numa loucura quase hamletiana).

A influência mais forte de Hölderlin sobre Hegel é evidente na Fenomenologia do Espírito. Apesar do silêncio tenaz que Hegel manteve, a partir de 1804, a respeito de seu amigo alienado na torre de Tübingen, as ideias do poeta sobre o ritmo como forma própria do pensamento poético parecem ter exercido seu impacto secreto sobre a Fenomenologia. Um olhar aguçado descobrirá na “Introdução” de Hegel ainda algumas tênues marcas da amizade juvenil com Hölderlin — marcas conceituais que comprovam a importância filosófica da “poeto-logia” de Hölderlin.

 

IHU On-Line - Em que medida se pode atribuir a Hölderlin ser um dos poetas pioneiros da modernidade? 

Kathrin Rosenfield - Muito antes de a antropologia estrutural legitimar os mitos como “pensamento” no sentido rigoroso de uma lógica discursiva própria (e como pensamento selvagem), Hölderlin debruçou-se sobre os mitos trágicos de Sófocles,  os hinos e fragmentos de Píndaro  com o objetivo de situar a consciência moderna. Ele não mais está preso na cega imitação dos antigos, mas procura definir melhor o lugar do sujeito civil-burguês a partir das diferenças para com as figuras do herói clássico ou dos cidadãos da polis grega. Para apoiar seu exame rigoroso das diferenças entre os pensamentos, gestos e ações de homens oriundos de culturas distantes, o poeta confia na literatura e no mito: a poesia constitui uma espécie de planta baixa das estruturas mentais e o imaginário da Antiguidade, voltado que é para as crises da ordenação da sociedade humana, lhe fornece o ponto de apoio para situar a consciência moderna, presa entre a experiência despótica das monarquias absolutas e os sonhos de autonomia suscitados pela Revolução Francesa — sonhos, porém, que em poucos anos já beiram o pesadelo e o terror. A empreitada trágica é para Hölderlin, como para o jovem Nietzsche,  uma reflexão profunda sobre os rumos da consciência moderna, sobre o lugar do indivíduo na sociedade, sua liberdade e responsabilidade no Estado.

 

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é o fio condutor que perpassa as obras de Hölderlin e Kleist  a Musil ?

Kathrin Rosenfield - Hölderlin e Kleist são os primeiros poetas que viram o problema da antiga metafísica escolástica. Leram Kant com uma intensidade incomum, o que se reflete na sua concepção do poético como forma de “pensamento” sui generis. No lugar da univocidade conceitual, a lógica poética coloca os sentidos estratificados das metáforas polissêmicas, ou as figuras que associam sentidos contraditórios num mesmo tecido poético. Esse modo de pensar a poesia tornou-se possível graças à Terceira Crítica de Kant (a Crítica da faculdade de Julgar), que concebe o juízo estético puro como livre jogo da imaginação e do entendimento. Trata-se de uma forma de pensamento que leva em consideração tonalidades de sensações e afetos.

A ligação com Musil é menos óbvia, embora o romancista tenha uma poetologia que gira em torno de articulações kantianas semelhantes às de Hölderlin e Kleist, apenas menos elaboradas. Musil gostava da seriedade e da precisão complexa da poesia de Hölderlin, a ponto de anotar no seu diário dos anos 1920: Hölderlin é o modelo ético e o paradigma literário da geração mais nova. (Musil, Tb I 360, 1920). E, quem lê com atenção o Homem sem qualidades (2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989), não pode deixar de notar que Musil toca na questão das traduções inovadoras que Hölderlin fez de Píndaro e de Sófocles — é bom lembrar que Hölderlin ficou esquecido entre 1800 e 1910 e foi redescoberto por Hellingrath,  justamente no período em que Musil começa a escrever. No grande romance musiliano, Agathe prefere a dura tradução do aluno de seu marido Hagauer à do filólogo pedante: 

“A Lei da Natureza, rei de todos os mortais e imortais, reina e aprova o que há de mais cruel, com mão todo-poderosa!” 

(Das Gesetz der Natur, der König aller Sterblichen und Unsterblichen, herrscht, das Gewaltsamste billigend, mit allmächtiger Hand!) 

 

Hagauer, o pedante, corrige e arredonda: 

A Lei da natureza, que reina em tudo sobre mortais e imortais, governa com mão onipotente, aprovando também a violência. 

(Das Gesetz der Natur, das über alle Sterblichen und Unsterblichen herrscht, waltet mit allmächtiger Hand, auch das Gewaltsame billigend. HsQ II/5, 501; MoE 704)

 

E depois a graciosa Agathe lembra ainda de uma outra tradução interessante — trata-se de um trecho de Shakespeare,  que Agathe admira precisamente pela sua dureza modernista. Ela diz:

E não foi belo que o pequeno aluno, com o qual Hagauer não ficou nada contente, tenha traduzido as palavras com um frêmito tão literal e formidável, assim como as encontrou?, como um monte de pedras de uma ruína...

(Und es war doch schön, dass der Kleine in seiner Schule, mit dem Hagauer nicht zufrieden war, die Worte so wörtlich und schaurig übersetzt hat, wie er sie da liegen fand wie einen Haufen auseinandergefallener Steine. HsQ 501 s.; MoE II/5, p. 704–)

 

Ulrich admira a irmã como uma “pessoa que não ajeita (arredonda) um velho poema, mas deixa ser (aceita) a deterioração de seu sentido meio destruído” (HsQ II/5, 501; MoE 704). Eis os trechos nas três línguas: 

Covardes morrem muitas vezes antes de morrer 

(Feige sterben oftmal vor ihrem Tod;)

Os valentes jamais provam do sabor da morte, fora uma vez. 

(Die Tapfern kosten niemals vom Tode ausser einmal.)

De todos os milagres que ainda ouvi — 

(Von all den Wundern, die ich noch habe gehört,)

Parece-me estranho que homens devam temer — 

(Es scheint für mich sehr seltsam, dass Menschen sollten fürchten,)

Vendo que a morte é um fim necessário — 

(Sehend, dass Tod, ein notwendiges Ende,)

Que virá quando quiser vir — 

(Wird kommen, wann er will kommen. — HsQ II/5, 501; MoE 704 Shakespeare, Julius Cesar, II, ii, 32-7) 

 

Cesar:

Cowards die many times before their deaths. 

The valiant never taste of death but once. 

Of all the wonders that I yet have heard, 

It seems to me most strange that men should fear, 

Seeing that death, a necessary end, 

Will come when it will come.

Julius Cesar, II, ii, 32-7 

 

IHU On-Line - Em que sentido pode-se falar na poesia de Hölderlin como uma poesia “religiosa”, de religação com o todo que parece estar cindido? É correto falar em uma metafísica do artista a partir de sua obra?

Kathrin Rosenfield - A religiosidade peculiar de Hölderlin — o pietismo suabo — recebe impulsos decisivos da religiosidade grega, que o poeta conhecia bem através de suas intensas leituras dos clássicos. Karl Kerenyi  disse certa vez que não há outro poeta no mundo que sente e entende tão profundamente o enraizamento das divindades clássicas na natureza. Disto resulta o viés quase panteísta do pensamento hölderliniano, sua tolerância com relação às outras religiões e seu esforço de oferecer um sistema filosófico universal — uma concepção do mundo que abranja tudo — do físico ao metafísico. Hölderlin adivinhava em tudo essa unidade primordial — o Ser anterior aos juízos (Ur-teil — o termo alemão significa divisão primordial) e raciocínios do indivíduo.

 

IHU On-Line - Quais são os reflexos na poesia de Hölderlin de sua reclusão de 36 anos na torre às margens do Neckar?

Kathrin Rosenfield - Hölderlin escreveu pouco nos anos de sua reclusão. Mas ele compunha estranhos poemas assinados sempre com nomes que parecem debochar de si e do mundo. Desta forma, eu sempre fico com a impressão de que Hölderlin tenha escolhido a alienação como um refúgio que lhe permitiu ficar à distância de um mundo que não queria ouvir suas ideias precoces.

 

IHU On-Line - Quais são as razões para que, por muitos anos, sua poesia tenha sido incompreendida na Alemanha? 

Kathrin Rosenfield - Em primeiro lugar, Hölderlin perdeu a proteção inicial que Schiller lhe concedera — sem dúvida por causa de alguns desacordos pontuais com as concepções teóricas do grande Mestre de Weimar. Nessa época, era um risco desafiar os protetores poderosos, e Hölderlin correu esse risco muito cedo na sua carreira. Mas há também a fragilidade psicológica do poeta, que perdeu o pai muito cedo, fato ao qual Laplanche  atribui muitos dos seus problemas e sua loucura. Depois há o medo que a loucura inspira aos próximos de uma pessoa. Os mais próximos amigos, Hegel e Schelling, ficaram constrangidos e angustiados. Hegel nunca mais menciona o nome de Hölderlin. Assim, muitos dos papéis do poeta devem ter se perdido. E há também a precocidade de suas ideias. ■

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