Edição 475 | 19 Outubro 2015

O Hipérion como chave para a poética de Hölderlin

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Romance em prosa, ou poesia em prosa, o Hipérion ocupa lugar central na obra de Hölderlin, avalia Márcia Schuback. A ele se atribui ter transformado a tragédia ultrapassando sua concepção moderna

Uma das mais belas e importantes narrativas do acolhimento do fundo nômade da existência humana, “via excêntrica” e da errância humana como o seu único tempo e lugar. Esta é a definição de Márcia Schuback, filósofa e tradutora de Hölderlin para a língua portuguesa, sobre Hipérion, uma das principais obras do autor, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line

“O Hipérion é tanto uma narrativa da errância como condição existencial quanto uma narrativa sobre o surgir e acontecer da narrativa poética”, acrescenta. E completa: “Hipérion é uma narrativa do encontro humano não com a sua humanidade, seja ela humanista ou humanitária, mas com a sua intimidade devastadora e inexorável com a tensão arcaica de vida e morte em tudo que vive e tudo que morre. É um encontro da existência humana com o seu encontrar-se sempre no limite da existência”. Para a pesquisadora, nesse romance “nos encontramos igualmente na soleira em que filosofia torna-se poesia e poesia filosofia”, entoando “a canção de um aparecer no meio do desaparecer, uma flor num muro de cimento”.

Márcia Schuback acentua que Hölderlin transformou o sentido de tragédia: “Pode-se dizer que ele elaborou um sentido de tragédia que ultrapassa até mesmo o seu sentido moderno, elaborado por Shakespeare”. Para o poeta alemão, “a tragédia é a experiência de um paradoxo radical onde o excesso de intimidade do finito com o infinito é que separa o finito do infinito numa desmesura irreparável”.

Marcia Sá Cavalcante Schuback é filósofa, tradutora de obras filosóficas e poéticas de língua alemã e autora de vários ensaios e livros. Foi professora adjunta do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Trabalha desde 1999 na Södertörn University, em Estocolmo, onde é professora titular de Filosofia. É autora, dentre outros, de Olho a olho: ensaios de longe (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2011); Being with the without juntamente com Jean-Luc Nancy (Estocolmo: Axl Books, 2013); e tradutora, entre outras obras, de Ser e Tempo (São Paulo: Vozes, 2006) e A Caminho da Linguagem (São Paulo: Vozes, 2003) de Martin Heidegger; e Corpo, fora de Jean-Luc Nancy (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2015). 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Qual é o cerne do Hipérion? Qual é sua importância no contexto de obra de Hölderlin?

Márcia Schuback - Hipérion é, no meu entender, uma das mais belas e importantes narrativas do acolhimento do fundo nômade da existência humana. É uma narrativa da “via excêntrica”, da errância humana como o seu único tempo e lugar. Digo uma narrativa do acolhimento da errância e não sobre o acolhimento da errrância, pois o Hipérion não é um discurso poético ou literário sobre algum tema ou questão, e sim uma narrativa surgida desse acolhimento da errância e da errância como acolhida. Nesse sentido, o Hipérion é tanto uma narrativa da errância como condição existencial quanto uma narrativa sobre o surgir e acontecer da narrativa poética. Isso significa igualmente que Hipérion não deve ser entendido, a meu ver, segundo a categoria poetológica de “romance de formação”, cunhada pelo filólogo alemão Karl Morgenstern  (1819) e disseminada pelo filósofo da vida Wilhelm Dilthey. 

Romance de Formação

Hipérion tem, sem dúvida, uma estrutura similar aos chamados romances de formação, que florescem na Alemanha no século XVIII: o herói ardente abandona a origem, se aventura na errância e luta por um ideal e retorna transformado para a origem. Essa estrutura que encontrou na Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Vozes, 2003) de Hegel  a sua forma filosófica exemplar, articulada segundo a lógica dialética de tese, antítese e síntese, é enganosa, pois assume um sentido de existência humana como autorrealização. Pensar a existência humana como autorrealização é admitir que o homem é um si-mesmo que precisa apenas desenvolver-se e assim alcançar aquilo que ele já é antes mesmo de ser. Em jogo nessa estrutura está uma ideia de identidade como o que já está dado tal um germe, e que precisa apenas de um meio e um tempo para alcançar a sua plenitude. Assim, o sentido de movimento e transformação fica preso a um esquema de correspondência entre uma forma arquetípica e as suas variações, entre uma origem e seu destino, um esquema que pode ser chamado, como sugeriu Philippe Lacoue-Labarthe,  de esquema mimético. 

Movimento de passagem

O Hipérion de Hölderlin rompe com esse esquema mimético, pois considera a “origem” não como uma forma arcaica que pode ser perdida e reencontrada, mas como uma formação, uma movimentação arcaica, uma tensão de vida e morte. A existência humana não provém e nem retorna a lugar nenhum, por ser ela mesma o lugar ou a cena da tensão de vida e morte. A existência humana aparece no Hipérion como a cena do drama das forças arcaicas de vida e morte. Hipérion é uma narrativa do encontro humano não com a sua humanidade, seja ela humanista ou humanitária, mas com a sua intimidade devastadora e inexorável com a tensão arcaica de vida e morte em tudo que vive e tudo que morre. É um encontro da existência humana com o seu encontrar-se sempre no limite da existência. Para se perceber de que modo o Hipérion de Hölderlin rompe com a estrutura, digamos “clássica”, dos romances de formação, é preciso lê-lo com rigor e vagar, pois é o ritmo poético e a poética rítmica da sua escrita e leitura que desestruturam o esquema mimético desse gênero literário. É de dentro do romance que o romance se desconstrói, por assim dizer. Nesse romance nos encontramos igualmente na soleira em que filosofia torna-se poesia e poesia filosofia. Não se trata nem de mistura e nem de uma síntese de gêneros, estilos e modos de pensar. Trata-se bem mais de um movimento de passagem, do movimento mesmo de tornar-se e não do que aparece como resultado desse tornar-se.

“Poeta dos poetas”

Dizer que Hipérion seria “a obra mais conhecida de Hölderlin” não é bem justo. Tudo depende de que período da recepção de sua obra se tem em mente. Hipérion foi publicado enquanto Hölderlin vivia e teve uma boa repercussão, no círculo dos românticos. Vivendo tantos anos fechado na torre de Tübingen, com sua doença mental, que em alemão pode ser descrita com a bonita palavra Umnachtung, vida cercada pela noite, Hölderlin foi já esquecido em vida. Mas não totalmente. Karl Marx  cita uma longa passagem do final do Hipérion contra os alemães, nos Anais Franco-alemães que edita durante o seu período de exílio em Paris. Nietzsche  reconhece em Hölderlin um dos maiores poetas da língua alemã e cita também trechos do Hipérion. Foi, porém, com o trabalho editorial de Norbert von Hellingrath,  o primeiro a reunir a obra de Hölderlin de forma sistemática que ele foi reconhecido como o “poeta dos poetas” como disse Heidegger.  Eu possuo uma edição de bolso do Hipérion — de bolso mesmo, quase uma miniatura 9 x 6 cm — impressa para os soldados da Primeira Guerra Mundial levarem consigo. Se o Hipérion foi a obra de Hölderlin mais conhecida nas primeiras décadas do século XX, ela cedeu lugar aos poemas e aos hinos e, posteriormente, à sua tragédia A Morte de Empédocles.

Leitura ativa e radical

Hölderlin é um poeta difícil e requer uma leitura não só ativa, mas sobretudo radical, ou seja, de corpo e alma, como dizemos. A dificuldade encontra-se, sobretudo, no fato de Hölderlin ter sido o mais radical pensador da poesia, não por ter pensado a poesia com categorias filosóficas ou poetológicas, mas por ter pensado a poesia poeticamente, com categorias poéticas e não teóricas. Ainda hoje são pouco estudados os seus escritos ditos teóricos, que traduzi há muitos anos sob o título Reflexões(Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994). Hipérion talvez seja a sua obra mais conhecida por parecer mais acessível, mas a considero uma obra ainda hoje pouco estudada e, sobretudo, ainda não estudada do ponto de vista do pensamento poético apresentado pelo próprio Hölderlin. 

 

IHU On-Line - Qual é a importância dessa obra dentro do conjunto da sua poesia?

Márcia Schuback - Hipérion é uma obra em prosa, por isso chamada de “romance”. Mas basta ler as primeiras linhas para nos darmos conta de que se trata de um poema em prosa, de poesia pura. Hölderlin considerou que a marca fundamental do Hipérion era o seu “caráter elegíaco”. Elegia, do grego ἔλεγος significa lamento, canção de luto e perda. O que canta Hipérion não é, porém, propriamente a perda da crença num ideal de harmonia e um retorno à origem, seja ela histórica ou divina. O caráter elegíaco do Hipérion interrompe justamente essa tonalidade moderna que passa da nostalgia à utopia e vice-versa. Hipérion apresenta pela primeira vez no percurso poético de Hölderlin uma de suas visões mais criadoras, a visão do que seja um devir no perecer. O caráter elegíaco do Hipérion expõe o que seja devir no próprio perecer e assim já entoa uma canção de despedida dos ideais de ressurreição ou reapropriação, de salvação ou redenção que sempre guiaram a história do Ocidente europeu. Hipérion entoa a canção de um aparecer no meio do desaparecer, uma flor num muro de cimento. Esse caráter é de uma proximidade distante e de uma distância próxima, que não deixa confundir o romance de Hölderlin seja com diário de viagem ou com confissão interior.

Na minha compreensão, Hipérion ocupa um lugar central na obra de Hölderlin que não se deixa avaliar como um estágio inicial dentro de uma evolução poética. O que Hipérion mostra é, na verdade, que na poesia não há evolução e nem sequer revolução, mas somente exposição da experiência do inacabado da vida do dizer na busca de dizer o inominável da vida e do viver. É essa experiência que Hipérion nos apresenta numa forma que nada mais é do que essa experiência. Nesse sentido, o Hipérion é uma chave para a poética de Hölderlin. 

 

IHU On-Line - Em que consiste o conceito de tragédia nesse poeta?

Márcia Schuback - Hölderlin transformou o sentido de tragédia. Pode-se dizer que ele elaborou um sentido de tragédia que ultrapassa até mesmo o seu sentido moderno, elaborado por Shakespeare.  Quem apreendeu bem essa questão foi Lacoue-Labarthe e também o cineasta Jean-Marie Straub,  que filmou a Morte de Empédocles, que é a obra de Hölderlin em que a sua visão do trágico recebe um extremo tratamento poético. Para Hölderlin, a tragédia é a experiência de um paradoxo radical onde o excesso de intimidade do finito com o infinito é que separa o finito do infinito numa desmesura irreparável. A dificuldade desse pensamento do trágico em Hölderlin está em que os modelos culturais de que dispomos para pensar a vida e a história, como a oposição entre natureza e cultura, divino e humano, transcendência e imanência mostram-se insuficientes e obsoletos. A separação irreparável entre homem e natureza, consciência e vida, ser e pensar se mostra tragicamente como excesso de intimidade de ambos.

O sentido da tragédia não está mais como em Aristóteles  no efeito catártico do sofrimento e da dor, mas na visão extrema do instante extremo em que o excesso da vida aniquila a vida. O sentido de trágico apresentado por Hölderlin tanto em seus textos teóricos como as Observações sobre Édipo Rei e Antígona — observações oriundas de seu trabalho de tradução desses textos — como e, sobretudo, em sua tragédia a Morte de Empédocles e o comentário sobre o Fundamento de Empédocles, é de tamanha radicalidade que talvez só hoje, no momento histórico em que nos encontramos, possa ser compreendido e aprofundado. 

 

IHU On-Line - Como ele se apropria da tragédia grega enquanto inspiração para seus escritos?

Márcia Schuback - A questão da apropriação dos gregos e da tragédia grega recebe um sentido bem diverso em Hölderlin. Eu não diria tanto apropriação, mas tradução. E tradução num sentido também bem alterado, pois Hölderlin não traduz o grego para o moderno, mas o grego para o oriental, ele mesmo inacessível tanto para o grego como para nós. Essa tradução se perfaz mediante um deixar os sentidos conhecidos e ficar à deriva do sentido. É como deixar uma forma definida, mediante uma certa dis-formação ou mesmo de-formação e nesse deixar entrever um vir à forma, um vir à figura. Hölderlin se “apropria” do grego, da tragédia grega, traduzindo tudo o que nela é forma, definição, determinação para um vir à forma, um vir à definição, um vir à determinação. Seria algo como traduzir substantivos por verbos. Nas gravuras de Carlos Rotman, reproduzidas na versão revisada de minha tradução editada pela Forense, encontramos um exemplo de tradução plástica próxima do gesto tradutor de Hölderlin. Nessas gravuras a Grécia é traduzida para desenhos que se aproximam de um Cézanne.   

 

IHU On-Line - Há uma influência de Heráclito  que pode ser observada em seus poemas?

Márcia Schuback - Tudo depende de que Heráclito, de que poema. Sem dúvida, o Hipérion se concentra numa experiência que Hölderlin reconhece como heraclítica, ao citar um fragmento preservado por Platão,  do uno se diferenciando em si mesmo, como sendo a experiência da beleza, sem a qual a filosofia jamais poderia ter surgido entre os gregos. Mas de maneira geral, acho que quem exerce a maior influência sobre os poemas de Hölderlin é Píndaro.  Hölderlin traduziu Píndaro e essas traduções talvez sejam o maior documento do que seja uma influência poética, do que seja uma escuta tradutora como dinâmica de uma poética. Pois poesia é escuta. 

 

IHU On-Line - Qual é o nexo entre a reciprocidade do aparecer na natureza e da natureza do aparecer, pensando Schelling à luz de Hölderlin?

Márcia Schuback - Schelling  é o grande filósofo da natureza, talvez o único depois de Plotino  e Espinosa.  A sua visão é impressionante, pois ele percebe que a consciência humana é uma crise da natureza, é a natureza aparecendo como natureza. A consciência não se opõe à natureza como uma instância frente à outra, mas como uma irrupção vulcânica de uma cisão dentro da natureza imemorial. Nesse sentido, a visão do trágico apresentada por Hölderlin está muito próxima da visão schelligniana da natureza. Para ambos, embora eu tenderia a dizer que Hölderlin é ainda mais radical, a existência humana é a cena ou o espelho dessa cisão arcaica da natureza, o lugar em que o aparecer da natureza e a natureza do aparecer se unem e desunem ao mesmo tempo. 

 

IHU On-Line - Quais são os principais poetas e filósofos que foram impactados pela poesia de Hölderlin?

Márcia Schuback - Schelling e Hegel estudaram com Hölderlin no seminário de Tübingen e sofreram um grande impacto, sobretudo de sua personalidade e ideias. O mesmo acontece com os círculos românticos da época. Como mencionei anteriormente, Karl Marx e Nietzsche leem e citam Hölderlin, e, para Nietzsche, Hölderlin é um dos maiores, senão o maior poeta da língua alemã. Com a publicação da sua obra por Norbert von Hellingrath, Hölderlin se torna figura cultuada no círculo de Stefan Georg,  um círculo que exerce uma enorme influência na cultura austríaca e alemã da primeira metade do século XX.

Rilke  é leitor de Hölderlin e lhe dedica um poema célebre. Hölderlin passa a ser cultuado pelos nazistas, em virtude de seus poemas considerados “pátrios”. Na década de trinta, Heidegger começa a estudar exaustivamente a obra de Hölderlin, que se torna para ele a única via de superação da metafísica ocidental, a única via para uma superação da própria filosofia que, segundo ele, encontrou o seu fim da era da técnica e maquinação planetárias. Walter Benjamin  escreve um importante texto de interpretação de Hölderlin. Philippe Lacoue Labarthe dedica inúmeros textos a Hölderlin e à critica da interpretação tornada canônica de Heidegger. Paul Celan  dedica um poema sofrido e radical a Hölderlin. Peter Weiss  escreveu uma peça de teatro sobre e desde Hölderlin. Acredito que a poesia e a filosofia do século XX foi profundamente marcada pela poesia de Hölderlin.

 

IHU On-Line - E qual é a sua repercussão hoje na Filosofia e na Literatura?

Márcia Schuback - A maior repercussão de Hölderlin na filosofia, hoje, está, sem dúvida, permeada pela interpretação feita por Heidegger. A questão da técnica discutida por Heidegger se faz em torno de um verso de Hölderlin: “onde está o perigo, aí cresce também o que salva”. Heidegger liga a poesia de Hölderlin à questão da superação do Ocidente, do fim da filosofia, dos impasses da Modernidade. Nesse sentido, Hölderlin nunca soou mais atual do que hoje. Por outro lado, cresce a crítica à leitura heideggeriana, o que torna Hölderlin um poeta para ser relido de outro modo. Acho necessário hoje uma leitura mais aprofundada das categorias poéticas do próprio Hölderlin, que se distinguem de categorias poetológicas. O interesse pela sua teoria do trágico também é significante para a dramaturgia contemporânea, mas ainda merece ser trazida para a própria filosofia.  

 

IHU On-Line - Quais são os principais desafios de traduzir Hölderlin para o português?

Márcia Schuback - Toda tradução é um grande desafio. Traduzir o alemão para o português é em princípio ainda mais desafiador do que traduzir uma outra língua latina. Porque Hölderlin é, num certo sentido, um poeta ainda mais poeta que os poetas, no sentido de inaugurar não só uma língua dentro da língua — o que faz toda poesia — mas no sentido de inaugurar um novo sentido de inaugurar, traduzir Hölderlin é quase impossível. Tentei aprender com Hölderlin as suas lições de tradução, lições muito difíceis, pois ele traduz deixando soar a tensão entre duas línguas, de onde palavras podem “brotar como flores”, como ele disse num de seus versos. Essa descrição é, sem dúvida, mais metafórica que técnica. Tentei trazer para o português uma experiência de linguagem próxima da experiência de linguagem que consigo perceber na poética de Hölderlin. Esse trazer para o português não é o mesmo que tentar germanizar o português, ou tornar o alemão de Hölderlin mais fácil ou cotidiano. Tentei encontrar a língua das palavras que surgem do encontro entre essas duas línguas e de suas tradições poéticas. A maior dificuldade é a tradução do tom da poesia, do tom do Hipérion, os seus acentos, as suas respirações e o seu ritmo, os seus tempos. O grande desafio é traduzir o ritmo de uma língua para outra, as direções de uma língua para outra. É que linguagem é movimento para outra língua, e não um reservatório de palavras e frases fechadas dentro de um território. Linguagem está mais perto dos pássaros do que de animais terrestres. Como traduzir cerejeira em alemão para o português? O mais óbvio seria dizer: ora, por cerejeira. Mas sabemos o que é o florear de uma cerejeira? Não será uma quaresmeira mais cerejeira em português do que a palavra cerejeira? 

 

IHU On-Line - Como surgiu seu interesse pela poesia de Hölderlin? Seus estudos sobre Heidegger e a tradução de Ser e Tempo que você realizou perfazem o caminho inverso em direção ao poeta?

Márcia Schuback - Pode parecer estranho, mas o meu interesse pelo pensamento de Heidegger surgiu de meu encontro com a música de Pierre Boulez  e com a poesia de René Char,  numa obra chamada Le marteau sans maître (Paris: Poésie/Gallimard, 2002). Descobri Heidegger pelas “mãos”, digamos assim, de René Char e foi igualmente assim que descobri a poesia de Hölderlin. Sem dúvida, meus estudos de Heidegger me influenciaram muito, mas sempre estranhei o fato de Heidegger nunca ter dedicado um comentário ao Hipérion e nunca ter mencionado o famoso discurso do Hipérion contra os alemães, um discurso que faz aparecer o espírito pequeno do grande espírito alemão.

Meu interesse pela poesia me levou para a filosofia e para a questão da diferença entre o pensamento da poesia e o pensamento da filosofia. A leitura de Hölderlin me levou estranhamente à descoberta da poesia russa, sobretudo de Cvetaeva,  Achmatova  e Mandelstam,  que me ensinaram igualmente como a poesia pensa segundo suas próprias categorias. Foi um aprendizado possível apenas por ter descoberto o pensar-sentir da poesia de nossa língua, sobretudo nas obras de Guimarães Rosa  e Clarice Lispector,  esses dois grandes pensadores do poético da literatura. Heidegger tinha sensibilidade para essa diferença entre modos diversos de pensar, diferença que ele descobre, parece-me, com a poesia de Hölderlin. ■

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