Edição 409 | 19 Novembro 2012

A importância do gerenciamento costeiro

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Márcia Junges

Há 200 milhões de anos a massa continental chamada Pagea sofreu rupturas e seus pedaços se dissiparam em várias direções, dando origem aos mares e oceanos. Há tecnologia disponível para explorar todos os recursos minerais marinhos, observa Lauro Calliari
Fósseis - concheiros na praia do Cassino - Foto: Pedro S. Pereira

 

Através de um sistema de monitoramento em operação há sete anos, chamado Praia Log (http://www.praia.log.furg.br), a Universidade Federal do Rio Grande – FURG realiza um trabalho de acompanhamento sobre morfologia e dinâmica das praias, dunas e plataforma interna até 50m de profundidade, destaca o oceanólogo Lauro Calliari na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O objetivo do projeto é verificar a atenuação da energia das ondas viajando sobre fundos de lama fluída que existem na parte submersa da praia do Cassino devido a problemas naturais e antrópicos (dragagens). Segundo o pesquisador, “a importância no monitoramento é que nos fornece indicações de como o sistema se comporta no curto, médio e longo prazo em função das variações da energia das ondas causadas tanto em condições normais como em condições extremas”, tais como tempestades. Ele acrescenta que “todas essas informações são fundamentais para o gerenciamento costeiro, desde o ponto de vista de proteção da costa até a segurança dos banhistas”. Calliari fala, ainda, sobre o surgimento dos oceanos e a preocupação com as alterações do nível do mar na costa do Rio Grande do Sul. “Na verdade, estamos preocupados com a possível elevação do nível do mar na costa do Rio Grande do Sul porque é uma costa baixa. Em caso de ventos extremos, setores costeiros podem sofrer inundação resultando em perda de patrimônio público e privado. Também a intrusão de água salgada na Lagoa dos Patos pode causar mudanças ambientais importantes”.

Lauro Júlio Calliari é graduado em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, mestre em Geociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor em Oceanografia Geológica pelo Instituto de Ciência Marinha da Virgínia, Estados Unidos. É professor da FURG, onde atua como coordenador do curso de pós-graduação em Oceanologia Física, e da Universidade de São Paulo – USP. Coordena um projeto de análise de riscos costeiros devido à elevação acelerada do nível do mar no Rio Grande do Sul. É um dos autores de Proceedings of the Brazilian symposium on sandy beaches (Itajaí: The coastal Education and Research Foundation – CERF and Universidade do Vale do Itajaí – Univali, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que consiste o Praia LOG? Quando surgiu e quais são suas principais atividades?

Lauro Calliari – O Praia LOG é um site (http://www.praia.log.furg.br/) onde são colocados os principais trabalhos de oceanografia geológica referentes à zona costeira efetuados pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG (trabalhos sobre morfologia e dinâmica das praias, dunas e plataforma interna até 50 m de profundidade). Um dos aspectos mais importantes é a manutenção do monitoramento da praia do Cassino  através de quatro câmeras de vídeo, as quais juntas coletam 2.400 fotografias da praia e zona de arrebentação durante 20 minutos de cada hora do dia com luminosidade suficiente (geralmente 12 horas). Isso permite a obtenção de um banco de dados de imagens que nos fornece condições de “ver” e acompanhar a evolução morfodinâmica da praia (como ela muda com a variação das ondas). Foi estabelecido em 2005 através de um projeto conjunto com o Naval Research Laboratory, dos EUA, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e a FURG, com o objetivo principal de verificar a atenuação da energia das ondas viajando sobre fundos de lama fluída que existem na parte submersa da praia do Cassino devido a problemas naturais e antrópicos (dragagens).

IHU On-Line – Por que é importante monitorar constantemente um setor da Praia do Cassino?

Lauro Calliari – A importância no monitoramento é que nos fornece indicações de como o sistema se comporta no curto, médio e longo prazo em função das variações da energia das ondas causadas tanto em condições normais como em condições extremas (tempestades). Temos ideia assim do comportamento dos bancos arenosos submersos, como estes se movimentam sob a ação das ondas. 

IHU On-Line – Quais são as principais constatações sobre a morfodinâmica costeira dessa praia obtidas a partir desse monitoramento?

Lauro Calliari – Particularmente a praia do Cassino tem mostrado uma “progradação” da linha de costa, ou seja, tem ficado mais larga ao longo do tempo. Tem chegado mais areia do que sai (balanço positivo). Outra particularidade é que a praia apresenta pelo menos quatro bancos submersos, sendo os dois mais próximos à praia os mais variáveis em termos de morfologia e mobilidade. Também ao longo de sete anos de monitoramento verificamos as principais morfologias que os bancos mais próximos à praia adquirem. Identificamos, assim, a distância e a profundidade dos bancos (áreas mais rasas) e das cavas associadas (zonas mais profundas), como também falhas nos bancos que podem levar a formação de correntes de retorno perpendiculares à praia. Todas essas informações são fundamentais para o gerenciamento costeiro, desde o ponto de vista de proteção da costa (praias são sistemas que dissipam a energia das ondas) até a segurança dos banhistas, especialmente em épocas de veraneio, quando milhares de pessoas usufruem do local.

IHU On-Line – E quais são as peculiaridades da morfodinâmica costeira do Rio Grande do Sul como um todo? 

Lauro Calliari – Apesar de aparentemente homogêneas, as praias do Rio Grande do Sul apresentam diferenças importantes em função da granulometria (diâmetro dos grãos de areia) e da composição (maior ou menor quantidade de fragmentos de conchas), assim como da energia das ondas. Esses fatores influenciam, por exemplo, na mobilidade das praias, ou seja, como o perfil transversal de cada sistema varia espacialmente, ou ainda como o conjunto de perfis num mesmo local varia temporalmente (ao longo do tempo). Assim temos ideia da variação vertical de cada praia (podemos verificar o perfil com menos areia e o com mais areia). Basicamente, em nosso estado temos cinco tipos de praias diferentes. Uma característica comum a todas elas é que durante tempestades os bancos de areia submersos se movimentam em direção ao mar, voltando depois (migrando) gradativamente em direção à costa durante tempo bom. Assim, as praias do Rio Grande do Sul são dominadas por essa alternância de tempo bom e tempestades.

IHU On-Line – Quais são as diferenças fundamentais entre a morfodinâmica das praias arenosas marinhas e estuarinas?

Lauro Calliari – As praias estuarinas são menos variáveis justamente porque são dominadas por ondas de menor energia. Por outro lado, dependendo da orientação da margem em relação ao vento elas podem apresentar maior ou menor variação entre elas. Também dificilmente ocorrem bancos e cavas submersos expressivos como o das praias oceânicas.

IHU On-Line – No caso da Lagoa dos Patos , quais são os principais aspectos sedimentológicos e ambientais dessa região estuarial? 

Lauro Calliari – Do ponto de vista sedimentológico, temos sedimentos arenosos (areia muito fina e fina) nas margens e zonas rasas extensas (grandes bancos) e sedimentos lamosos (silte  + argila) nos canais e zonas abrigadas (da ação do vento e ondas). Entre esses dois extremos, zonas mais rasas expostas e canais (zonas mais profundas), temos fundos mistos (areia e lama), sendo que o conteúdo de lama aumenta com a profundidade. Se aplicarmos uma metodologia levando em conta as percentagens de areia, silte e argila do fundo do estuário identificaremos pelo menos seis tipos de fundo principais. Do ponto de vista ambiental, o tipo de fundo condiciona a distribuição dos organismos que vivem nos sedimentos. Outro fator extremamente importante é a salinidade. Um estuário é um ambiente mixohalino , ou seja, existe mistura de água doce e salgada em função da comunicação com o oceano. No estuário da Lagoa dos Patos a salinidade varia muito em função da sazonalidade como do regime de ventos. O vento Sul geralmente causa a intrusão de água salgada no estuário, aumentando a salinidade. Muita chuva e vento nordeste expulsam a água em direção ao oceano, diminuindo a salinidade.

IHU On-Line – Como essa configuração é influenciada e influencia a morfodinâmica do oceano Atlântico?

Lauro Calliari – A configuração do estuário é influenciada pelo oceano na extremidade sul por correntes de enchente fortes pelo fato de ter um canal estreito (700 m de largura). Em determinadas condições uma cunha de água salgada mais densa penetra no estuário sob a água doce. Da mesma forma, correntes de vazantes fortes são geradas pela descarga em direção ao oceano sob vento nordeste forte e muita chuva na bacia de drenagem da Lagoa dos Patos. A água doce que sai carregada de material em suspensão (silte + argila) e por floculação deposita lama na plataforma interna, gerando o que chamamos em geologia de “fácies Patos”. São assim geradas extensas áreas de lama entre profundidades de 12 a 30 metros na plataforma continental adjacente ao estuário. Esses fundos distribuem-se até 40 km tanto para sul como norte da foz estuarina.

IHU On-Line – Poderia recuperar a formação geológica dos oceanos como um todo? Como e quando aconteceu? Quais foram seus maiores impactos, inclusive sobre as formas de vida que abrigavam?

Lauro Calliari – O que conhecemos é que aproximadamente 200 milhões de anos atrás os continentes estavam unidos constituindo uma massa única continental chamada Pangea . Há 200 milhões de anos essa massa continental sofreu rupturas e os pedaços migraram em várias direções, as quais ficaram separadas originando diferentes oceanos e mares. Essas rupturas estão bem evidenciadas no fundo oceânico através das cordilheiras meso-oceânicas, uma estrutura que se prolonga por mais de 60 mil km. Imagine então que à medida que as diferentes massas continentais migravam houve alterações fundamentais nas correntes oceânicas, que sem dúvida induziram mudanças climáticas globais e, consequentemente, nas diversas formas de vida. Essa é a história que conhecemos “recentemente”, nos últimos 200 milhões de anos. 

Entretanto, se a idade da Terra é 4,5 bilhões de anos e o fundo oceânico mais antigo é aproximadamente 200 milhões de anos (encontrado e datado no noroeste do Oceano Pacífico), a união e separação dos continentes deve ter ocorrido pelo menos 22 vezes ao longo do tempo geológico, ou seja, houve pelo menos 21 separações e configurações continentais desde a última que gerou os oceanos. Na verdade, estudamos isso tudo através de uma sequência de estudos e evidências que começam pela Teoria da Deriva Continental, evoluindo para o Espalhamento do Fundo oceânico e daí para os conceitos mais modernos da Tectônica de Placas.

IHU On-Line – O que o projeto de pesquisa que analisa riscos costeiros devido à elevação acelerada do nível do mar no Rio Grande do Sul está demonstrando?

Lauro Calliari – Na verdade, estamos preocupados com a possível elevação do nível do mar na costa do Rio Grande do Sul porque é uma costa baixa. Em caso de ventos extremos (tempestades muito fortes causadas por ciclones extratropicais muito comuns que atingem a costa do estado), setores costeiros podem sofrer inundação resultando em perda de patrimônio público e privado. Também a intrusão de água salgada na Lagoa dos Patos pode causar mudanças ambientais importantes. Nas dunas pode ocorrer intrusão de sal nos aquíferos matando a vegetação fixadora de dunas, causando a sua migração em direção ao continente. Processos de erosão costeira em vários balneários do RS, a exemplo da praia do Hermenegildo , podem ser acelerados.

IHU On-Line – Quais são as projeções de elevação do nível do mar feitas pelo IPCC  em 2007? Que fatores estão causando essa elevação?

Lauro Calliari – Em todos os cenários do IPCC, a taxa média de aumento para o século XXI é muito provável que exceda a taxa média da subida do nível do mar de 1961-2003, que foi de 1,8 ± 0,5 mm por ano. A estimativa central da taxa de aumento do nível do mar durante 2090-2099 é 3,8 milímetros por ano sob o senário A1B, o que excede a estimativa central de 3,1 mm por ano para 1993 a 2003. As duas principais causas de aumento global do nível do mar são a expansão térmica dos oceanos (a água se expande quando aquece) e a perda de gelo sobre continentes devido ao aumento do derretimento. 

IHU On-Line – A oceanografia geológica possui grande aplicabilidade na exploração do petróleo e de recursos mineiras marinhos. Quais são as principais dificuldades em explorar os minerais presentes em águas profundas? E o que essa exploração representa para o ecossistema oceânico?

Lauro Calliari – Atualmente com a tecnologia disponível eu diria que todos os recursos minerais marinhos são passíveis de serem explorados (mesmo os de água profunda). Praticamente as grandes questões técnicas estão resolvidas. Assim, já existem sistemas adequados para a retirada de nódulos polimetálicos, crostas cobaltíferas, sulfetos metálicos e até lamas metalíferas. Entretanto, embora muito estudado, o que ainda se questiona é em certos casos os problemas ambientais resultantes da mineração submarina. No caso de recursos minerais associados ao eixo da Cordilheira Meso-Oeânica, como depósitos hidrotermais, a ideia seria explorar locais onde exista pouca vida marinha associada, uma vez que ainda não conhecemos totalmente a biodiversidade associada a esses locais. Temos formas de vida particulares que independem da luz do sol, organismos que efetuam quimiossíntese, enfim, formas de vidas e substâncias químicas que ainda não conhecemos. Seria muito arriscado minerar em locais de fontes hidrotermais ativas devido à riqueza biológica associada a elas. Por outro lado, as questões inerentes à mineração em águas internacionais também ainda estão engatinhando em que pese as atividades desenvolvidas pela Autoridade Internacional do Fundo Marinho sediado na Jamaica. Nem todos os países seguem as suas normas ou concordam com os seus protocolos. Adicionalmente há a colocação dos minerais marinhos no mercado internacional. Problemas atuais relacionados com a saturação do mercado mundial em determinados minérios torna difícil a mineração submarina de alguns minerais atualmente produzidos em terra. Por exemplo, imagine se os nódulos polimetálicos ricos em níquel, cobre e cobalto fossem explorados: o que aconteceria a um país como o Chile, que tem grande parte de sua economia dependente da exportação de cobre? Sem dúvida seria desastroso para esse país. Então problemas jurídicos, econômicos e ambientais ainda são o grande entrave.

 

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