Edição 197 | 25 Setembro 2006

Crise de fundamentos éticos do espaço público

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IHU Online

“Há uma clara crise de fundamentos éticos do espaço público brasileiro”, diz o professor Juarez Guimarães. Juarez é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor fala sobre o pensamento de Henrique Cláudio de Lima Vaz e suas contribuições, e discorre sobre a ética brasileira. A IHU On-Line já publicou dois artigos do professor sobre Vaz-Ética-Política: O comunistarismo cristão e a refundação de uma ética transcendental e Um diálogo cristão com o marxismo crítico. A contribuição de Henrique de Lima Vaz, nas edições 185 e 189, respectivamente. Esses artigos forma originalmente publicados no boletim Periscópio, da Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT.
Juarez é doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, com a tese, Marxismo e democracia: a razão do impasse, 1997. Também tem mestrado em Ciências Sociais pela mesma Universidade. É autor dos livros: A Esperança Equilibrista - O governo Lula em tempos de transição. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004, Democracia e Marxismo: crítica à razão liberal. São Paulo: Xamã, 1999 e Rosa, a vermelha. São Paulo: Editora Busca Vida Ltda, 1987.

IHU On-Line – Padre Vaz é considerado por algumas pessoas como o principal filósofo brasileiro e o maior filósofo cristão das últimas décadas. O que senhor pensa sobre isso?
Juarez Guimarães
- Certamente a obra do padre Vaz oferece legitimidade a estes juízos que certamente não alcançariam um consenso pleno. Penso que haveria alguns critérios que deveriam ser aclarados: o da erudição (concebida como capacidade crítica e dialogal em relação às várias tradições filosóficas), o da representação (o de ser um pensamento que se enraíza intelectualmente em certa cultura) e o da relevância (no sentido de abordar problemáticas que estão no cerne da crise contemporânea). Todo juízo sobre a obra do padre Vaz certamente teria que reconhecer a excelência de seu pensamento em relação a todos estes critérios.

IHU On-Line – Qual a principal contribuição das obras do Pe. Vaz para o campo da ética?
Juarez Guimarães
- Em primeiro lugar, colocar o chamado niilismo ético no centro do diagnóstico da crise contemporânea. Além disso, procurar os fundamentos filosóficos de uma ética de sentido universalista. E, por fim, o de restabelecer, de forma plena, no plano filosófico contemporâneo o diálogo entre os valores cristãos e a cultura filosófica.

IHU On-Line – Quais foram as principais contribuições de Vaz para compreendermos as relações entre fé-ética-política?
Juarez Guimarães
- Não há no padre Vaz a procura de um argumento filosófico que prescinda da fé. Reconhece-se a autonomia entre estas duas esferas, mas ambas mantêm uma mútua iluminação. Seria um pensamento que trabalha na direção contrária da obsessão de racionalizar todas as esferas da vida social e realizar o que Weber  chamou de o pleno desencantamento do mundo. O humanismo na obra de Vaz tem um fundamento teocêntrico, não abre mão da tradição cristã. Por sua vez, o seu diálogo com Hegel lhe permite instalar a dimensão ética no centro do pensamento sobre a política, reagindo contra os argumentos contratualistas ou utilitaristas.

IHU On-Line – De que forma Vaz dialoga com a modernidade? Como sua filosofia demonstra a crise que vive esse período?
Juarez Guimarães -
Certamente, com base no pensamento da maturidade de Hegel, tomada como grande síntese, inacabada e ainda irresolvida, das contradições instaladas pela cisão entre razão e fé no advento da chamada modernidade. Seu trabalho, no entanto, vai no sentido de recuperar a síntese tomista, e repor o tema da transcendência e do sentido da história  em um mundo dominado pelas lógicas imanentistas e materialistas.

IHU On-Line – Como o senhor vê a forma como o Pe. Vaz expôs a problemática entre a consciência contemporânea da modernidade e a consciência cristã?
Juarez Guimarães
- Há em Vaz o reconhecimento da modernidade como um experimento de civilização original que pretende prescindir da religião como esfera publicamente compartilhada de valores. Esta pretensão levaria à perda de um referencial ético universalista, ao relativismo e ao niilismo ético. A consciência cristã, ela própria síntese e doadora de sentido, teria nesta visão um papel fundamental neste século no sentido de fundamentar valores necessários à construção da paz, da liberdade e da igualdade.

IHU On-Line – De que forma o pensamento de Padre Vaz influenciou a ética que foi se formando na civilização brasileira? 
Juarez Guimarães
- Há claramente dois momentos. Um momento seminal no final dos anos 1950 e no início dos anos 1960 de diálogo entre as novas teologias da emancipação e o marxismo crítico aos regimes opressivos do Leste Europeu. O outro, apenas iniciado, porque se inscreve na temporalidade própria de uma obra que se insere na tradição milenar da filosofia, no qual o pensamento de Vaz, amadurecido e enriquecido, elabora um desafio intelectual incontornável a todos os humanistas brasileiros.

IHU On-Line – Hoje, quem retoma o pensamento de Padre Vaz no Brasil? Como seria essa retomada?
Juarez Guimarães
- Há uma clara crise de fundamentos éticos do espaço público brasileiro. Esta crise, agora extremada, é fundacional: trata-se de, na verdade, construir fundamentos de um Estado que nunca foi, em um sentido pleno, republicano. Os principais atores políticos do País têm que dar respostas a esta crise. Difundir, sistematizar, estudar, divulgar a obra do padre Vaz é, pois, tarefa, diríamos, que tem a urgência das transcendências.

IHU On-Line – Como se dá o diálogo cristão de Vaz com o marxismo?
Juarez Guimarães
- Penso que é um diálogo respeitoso, qualificado e seminal. A recusa de Vaz em assimilar o chamado "materialismo dialético" é rica e fundamental para o próprio processo de renovação das culturas do marxismo. Como diria Gramsci , marxismo é humanismo radical e, assim, ele deveria ser capaz de dialogar com as outras fontes do humanismo, como é aquele elaborado na obra do padre Vaz. O encontro destes dois humanismos - o teocêntrico e o antropocêntrico – está longe de exaurir o seu potencial emancipador para o povo brasileiro.


 

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