Edição 380 | 14 Novembro 2011

A canção fica melhor com a passagem do tempo

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Graziela Wolfart e Pedro Bustamante Teixeira

Para Luiz Tatit, não há canção mais autêntica que o rap, o gênero que se arriscou a chegar mais próximo da fala

“A canção é uma linguagem que se caracteriza por efetuar necessariamente uma integração entre melodia e letra para ser veiculada pela voz”. A definição é do músico, linguista e professor universitário Luiz Tatit, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. A seu ver, “bossa nova e tropicalismo tornaram-se nossa régua e compasso que retornam de tempo em tempo para corrigir órbitas equivocadas. O interesse da bossa nova e do tropicalismo é para a história da canção brasileira”. E dispara: “MPB me parece um gênero datado (e superado), próprio de uma época em que se buscava uma canção nacionalista urbana”.

Luiz Augusto de Morais Tatit é graduado em Letras (Linguística) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH da Universidade de São Paulo e em Música (Composição), pela Escola de Comunicações e Artes da mesma instituição. Obteve seu doutorado na FFLCH da USP, com a tese Elementos semióticos para uma tipologia da canção popular brasileira. É professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Dentre seus livros publicados citamos A canção: eficácia e encanto (São Paulo: Ed. Atual, 1986); Semiótica da canção: melodia e letra (São Paulo: Ed. Escuta, 1994); O cancionista: composição de canções no Brasil (São Paulo: Edusp, 1996); Análise semiótica através das letras (São Paulo: Ateliê Editorial, 2001); e O século da canção (São Paulo: Ateliê Editorial, 2004). Seu site oficial é www.luiztatit.com.br/home

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Seria a canção um gênero?

Luiz Tatit – Não considero assim. A canção é uma linguagem que se caracteriza por efetuar necessariamente uma integração entre melodia e letra para ser veiculada pela voz. Ela tem uma história própria e exige recursos específicos que os músicos ou os poetas raramente dominam. A canção é considerada um gênero no âmbito da música erudita, já que essa linguagem tem como núcleo a sonoridade em si e não particularmente o canto.

IHU On-Line – Como foi estudar a canção a partir da faculdade de linguística?

Luiz Tatit – Fiz pós-graduação no departamento de linguística da USP, mas na área de semiótica. Essa ciência tem como objeto de estudo o “sentido” construído pelos diversos discursos sociais, verbais ou não verbais (literatura, cinema, teatro, história em quadrinhos, música, artes plásticas, etc.). Mergulhei nos modelos analíticos da semiótica e tentei propor uma metodologia adequada ao estudo específico da canção. A semiótica me parece bem mais apta para a pesquisa cancional que a musicologia ou a teoria literária. Pelo menos, dentro do enfoque que eu adotei.

IHU On-Line – Em que medida a semiótica pode contribuir nos estudos da canção e em que sentido a canção pode ajudar na promoção dos estudos da semiótica no Brasil?

Luiz Tatit – A semiótica oferece um meio de compreensão do sentido em geral que pode ser muito bem estendido para o campo da canção. Como a canção é o nosso principal meio de expressão, a explicitação metódica do seu funcionamento chama a atenção para o potencial de uma teoria bem formulada. Já percebemos um considerável aumento de interesse pela semiótica, na área de pós-graduação, graças à difusão dos trabalhos aplicados à canção.

IHU On-Line – A bossa nova e o tropicalismo são descritos em seus trabalhos como movimentos cruciais para a configuração da Moderna Música Popular Brasileira. Você pode falar um pouco sobre a importância dos movimentos na configuração de uma música popular moderna brasileira?

Luiz Tatit – A bossa nova reflete a fase em que nossa canção atingiu a maturidade a ponto de poder operar com os seus componentes essenciais: melodia, letra e canto (e, claro, acompanhamento). Eliminou toda sorte de excesso (semântico, musical, timbrístico, interpretativo) e baseou sua eficácia estética e comunicacional no dizer mais com o mínimo de recursos. O tropicalismo assimilou o gesto geral da bossa nova, mas apontou para o caminho contrário, a mistura, como se a fecundidade de nossa canção precisasse de todas as dicções (do presente, do passado, da vanguarda, do universo pop, do mundo brega, da canção internacional, do rock, etc.) apresentadas em concomitância, sem nenhuma exclusão. Bossa nova e tropicalismo tornaram-se nossa régua e compasso que retornam de tempo em tempo para corrigir órbitas equivocadas. O interesse da bossa nova e do tropicalismo é para a história da canção brasileira. “MPB” me parece um gênero datado (e superado), próprio de uma época em que se buscava uma canção nacionalista urbana.

IHU On-Line – Em O século da canção você traz uma visão sempre generosa com as canções que caíram no gosto do público, como é o caso do axé, do pagode e da música sertaneja. Seria o mercado um bom parâmetro para a identificação das canções que merecem ser estudadas? Que mecanismos operam essa triagem mercadológica? Há um empobrecimento da canção brasileira? Ou se trata de algo que poderíamos denominar como Pós-Canção?

Luiz Tatit – O mercado é um dos principais parâmetros que regulam o ingresso das canções em nosso mundo subjetivo e identitário. Só lembramos em geral das canções que o mercado selecionou. Mesmo as características que fizeram da canção uma linguagem cultural de extrema importância foram depuradas por esse mercado. Mas não é o único parâmetro. Há canções desprezadas em uma época que, depois, tornam-se símbolos de outros momentos históricos. Outras há que poucos conhecem, mas que influenciam gerações futuras. Não são todas as boas criações que cabem no mercado, mas normalmente as que desfrutam um grande consumo trazem sempre aspectos interessantes. Veja a canção “Devolva-me” (Leno e Lilian ), solenemente ignorada pela intelligentsia brasileira dos anos 1960, voltou recentemente como canção cult na voz de Adriana Calcanhoto . São numerosos os exemplos. Na base do ensaio e erro, o mercado faz a mediação entre artistas e público definindo, em última instância, os traços que compõem a linguagem da canção.
A canção só fica melhor com a passagem do tempo. Claro, os cancionistas de hoje aproveitam as experiências dos anteriores e já partem de um nível bem mais elevado. A diferença é de ordem extensiva. Antes, todas as correntes cancionais estavam concentradas numa só emissora de TV (Record) e desfrutavam uma visibilidade nacional nunca mais alcançada. Hoje, há uma imensa diversidade de produção totalmente dispersa nos sítios virtuais, nos pequenos teatros e casas de show, em algumas emissoras de rádio e nada mais há na televisão. Daí a impressão de ausência do que já tivemos no passado. Mas basta se inteirar dessa produção difusa para se dar conta de que a canção de agora é igual ou superior à do passado.

Em tempo, não há canção mais autêntica que o rap, o gênero que se arriscou a chegar mais próximo da fala.

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