Edição 366 | 20 Junho 2011

IHU Repórter

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Patricia Fachin

Doutor em Filosofia, Marcelo Leandro dos Santos se encanta com a simplicidade da vida. O jeito sereno revela a sabedoria que ele tenta aplicar no dia a dia, ensinando aos filhos que o sentido da família vai além do fato de as pessoas dividirem o mesmo teto. Seduzido pelos livros e pelo desejo de constituir uma família sólida, ele é pai de dois filhos e está vivenciando essa experiência ao lado da esposa, Cassiana, há seis anos. A família, diz, “deve dividir e cultivar um sentimento de fraternidade e companheirismo. Essa relação deve ser traduzida de maneira concreta entre as pessoas que pertencem a uma família não só nos momentos de confraternização, mas nas ocasiões em que esses laços precisam aparecer ou transcender de uma forma mais nítida, quando as pessoas estão passando por determinadas dúvidas e dificuldades”. Marcelo já foi funcionário da Unisinos e há quatro meses está de volta à universidade. Ex-funcionário do Centro de Ciências Humanas, hoje ele é responsável técnico pelas publicações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Confira mais desta história na entrevista a seguir.

Origens – Sou natural de Novo Hamburgo e fui criado pela minha mãe porque meus pais são divorciados. Tenho duas irmãs: uma mais velha e uma mais nova. Durante um período da minha infância, morei em Novo Hamburgo; depois, mudamos para São Leopoldo e, mais tarde, quando completei 11 anos, retornamos para Novo Hamburgo. Porém, continuei estudando em São Leopoldo. Minha família sempre morou no Vale dos Sinos e trabalhou no setor calçadista da região. Minhas irmãs e eu mantemos um relacionamento de amizade. O contexto familiar da época fez com que nós nos tornássemos unidos porque ser filhos de pais separados há 30 anos não era fácil.

Estudos – Quando conclui os estudos do segundo grau, aos 17 anos, prestei vestibular para o curso de Informática, na Unisinos. Acabei cancelando o curso porque não me identifiquei. Nesta época, minha mãe tinha uma empresa de calçados e eu trabalhava com ela. Aos 24 anos, ainda não estava decidido em relação ao curso de Informática, mas apareceu a oportunidade de trabalhar na universidade e fui admitido no Centro de Ciências Humanas, no setor de atendimento. Depois, a Unisinos começou a investir em laboratórios de informática e fui transferido para essa área. Comecei a me interessar por Filosofia e decidi ingressar no curso. Dentre os professores do curso, lembro com carinho da Marcia Tiburi, da Cecília Pires, do Antonio Sidekum, do Castor Ruiz, entre outros.
Depois que terminei a graduação, surgiu a oportunidade de cursar o mestrado e, então, saí da Unisinos para me dedicar ao curso. No ano passado conclui o doutorado na PUCRS e, em seguida, tive a oportunidade de retornar à universidade e trabalhar no IHU. Eu já tinha experiência com publicações porque trabalhava como freelancer em alguns projetos editorais.

Filosofia – Na graduação e no mestrado tive interesse em estudar o filósofo Nietzsche. Mas, nesse período, conheci outros autores como Theodor Adorno, Walter Benjamin, Emmanuel Levinas. Como Nietzsche é um pensador que influencia Adorno, fiz comparações entre o pensamento dos dois autores e percebi uma atualidade no pensamento de Adorno. Foi por essa razão que fiz minha tese a partir do pensamento dele.
No início, achei Nietzsche um autor que dava contraste à filosofia e comecei a gostar dele justamente devido a seu viés contrastante. Depois, descobri que esse viés também está presente na obra de outros autores e, portanto, não me tornei especialista em um único autor porque acho que isso inclusive empobrece o pensamento.

Casamento – Eu e minha esposa nos conhecemos através de pessoas em comum. Tornamo-nos amigos, começamos a namorar e estamos casados há seis anos. Um dos nossos objetivos era constituir família e ter filhos. Então, logo depois do casamento nasceu a Laura e, mais recentemente, o Pedro. Nós já nos conhecemos com esse propósito de estudar, cursar mestrado, doutorado e, nenhum dos dois via o fato de constituir família e ter filhos como algo que impedisse a construção de uma carreira de estudos.

Família – Cassiana e eu cursamos o mestrado e o doutorado no mesmo período – ela conclui o doutorado em Geologia este ano. Temos dois filhos: Pedro, de um ano, e Laura, de cinco. Eles exigem bastante tempo de atenção e nos esforçamos para que esse tempo não concorra com as nossas demandas. Desde pequenos, eles vão compreendendo qual é nossa opção de vida e vendo pelo que seus pais se interessam. Essa experiência tem sido muito rica porque nossos filhos têm se desenvolvido junto com nossos projetos de vida. Nossa opção pelo estudo não os excluíram e nem os deixaram apartados do nosso convívio.
Para a mãe, a relação com os filhos é sempre mais desproporcional porque eles querem a presença dela em todo momento. Em casa, estamos sempre atentos para procurar amenizar essa desproporção.

Lazer – Nos finais de semana, nós saímos com as crianças. Elas gostam de ir a pracinhas para brincar. A Laura está aprendendo a andar de bicicleta. Então, aproveitamos esses momentos ao ar livre, ao sol... Nós moramos em casa e isso possibilita que eles tenham espaço para brincar.
Normalmente, cozinho nos finais de semana: preparo um churrasco, um prato específico. Gosto de filmes, mas não tenho tido tempo de ir ao cinema. Algumas atividades que fazíamos com mais intensidade quando éramos namorados, acabaram ficando em segundo plano. Gosto de coisas simples, de leituras, de música. Quando vamos fazer compras, costumamos levar as crianças ao supermercado e aí aproveitamos para fazer um tour pelo shopping. Estamos em uma fase muito grupal. Temos de aproveitar para ficar com as crianças nos finais de semanas, quando temos tempo, porque, às vezes, quando chego em casa do trabalho eles já estão dormindo.

Religião – Minha esposa e eu somos católicos e batizamos nossos filhos na Igreja. Não tenho, no entanto, uma identidade de prática do catolicismo.

Relação familiar – Se a família tem um sentido que vai além de dividir o mesmo teto, deve dividir e cultivar um sentimento de fraternidade e companheirismo. Essa relação deve ser traduzida de maneira concreta entre as pessoas que pertencem a uma família não só nos momentos de confraternização, mas nas ocasiões em que esses laços precisam aparecer ou transcender de uma forma mais nítida, quando as pessoas estão passando por determinadas dúvidas e dificuldades. Muitos jovens buscam uma saída solitária por falta de um elo familiar e espero que esse abandono e essa ideia hipócrita de família não estejam presentes na minha relação com meus filhos.

Pai – A experiência de ser pai não é algo que possamos programar: não tem como definir previamente se as coisas acontecerão de um determinado jeito ou de outro. Eu tento viver essa experiência com naturalidade, sem passar uma imagem que possa intimidá-los. Procuramos ter uma relação amistosa com as crianças e isso tem dado certo. Eles vivem com naturalidade, sem precisar de tanta repreensão. Acredito que a criança se desenvolve melhor desta maneira. Não somos permissivos, esclarecemos que o papel das crianças não é inferiorizado em relação aos adultos, mas também não deixamos elas se transformarem em “tiranas” dentro de casa. Temos essa filosofia de vida.

Unisinos – Ao retornar à universidade, minha impressão é de que algumas coisas continuam parecidas como, por exemplo, a estrutura física e, outras, têm mudado sensivelmente. A visão e os projetos da Unisinos de hoje não apareciam há sete anos. Sinto que a universidade está ampliando seu horizonte de atuação, tem estrutura para essa mudança e pode alçar voos altos.

IHU – Conheci o IHU no primeiro momento em que trabalhei na Unisinos, mas não sabia direito o que o Instituto significava. Acompanhei o processo de crescimento do IHU quando não estava na universidade. Hoje penso que a repercussão do Instituto fora da Unisinos é muito maior do que dentro da instituição. Se fosse feita uma avaliação para saber o que as pessoas pensam sobre o IHU, imagino que a grande maioria dos que enxergam uma dimensão do IHU mais abrangente não estão dentro da universidade porque o trabalho do Instituto projeta uma excelente imagem para o público externo. Esse poder de difusão que o IHU tem é bastante particular; não conheço outra instituição que tenha um elemento parecido.

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