Edição 366 | 20 Junho 2011

O poder analítico da Economia Política da Comunicação

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Andres Kalikoske

Enquanto a Economia Política clássica busca clarificar a macroestrutura social, a Economia Política da Comunicação – EPC nutre-se desta ciência para analisar fenômenos específicos gerados no ambiente comunicacional, especialmente no âmbito das relações de poder desenvolvidas nos processos de produção, distribuição e consumo de recursos.

Por Andres Kalikoske*

Enquanto a Economia Política clássica busca clarificar a macroestrutura social, a Economia Política da Comunicação – EPC nutre-se desta ciência para analisar fenômenos específicos gerados no ambiente comunicacional, especialmente no âmbito das relações de poder desenvolvidas nos processos de produção, distribuição e consumo de recursos. A aproximação da Economia Política com a Comunicação ocorre nos anos 1960, quando teóricos consanguíneos das Ciências Sociais e Humanas identificam a necessidade de esclarecer, a partir de uma ciência não reducionista e não enaltecedora do determinismo tecnológico, questões originadas com o surgimento das indústrias da cultura e da mídia. Portanto, a EPC é o recorte epistêmico de um campo-matriz, dotado de tradição e respaldo científico, cujo conhecimento foi apropriado, direcionado e ampliado, no sentido de elucidar uma nova dimensão comunicacional e fundar um paradigma.

O emblemático livro The political economy of communication: rethinking and renewal, de Vincent Mosco, enfatiza que dois fatores teriam sido decisivos para o desenvolvimento da EPC. Em primeiro lugar, a grande transformação provocada pela estagnação da década de 1970, culminante para a crise internacional do capitalismo, e que gerou um ambiente complexo de produção em declínio, aumento de custos, salários em decréscimo e aumento das desigualdades. O segundo são as transformações estruturais deste período, como a fortificação das empresas, através da especialização e transnacionalização, o enfraquecimento dos governos como reguladores e a expansão das Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs. Suzy dos Santos, no estudo Get back to where you once belonged: alvorada, ocaso e renascimento da economia política da comunicação, complementa que, ao longo dos anos, a disciplina se dividiu entre estudos variáveis de acordo com momentos históricos ou questões regionais. Alguns exemplos foram investigações latino-americanas relacionadas ao imperialismo cultural no então chamado Terceiro Mundo; ou pesquisas acerca da mercantilização das relações sociais nos Estados Unidos; ou ainda, o debate britânico sobre as formas de organização alternativa da esfera pública.

Em atualização epistemológica constante, a renovação da EPC ocorre simultaneamente aos fenômenos que se propõe a investigar, seja através da internacionalização das mídias, de suas privatizações, seja através surgimento de novas tecnologias para a conquista da atenção (audiência). Portanto, seus teóricos se encontram em pleno afinamento com os problemas fundamentais da sociedade contemporânea. A disciplina é classificada pelo campo da Comunicação como um conhecimento interdisciplinar. Cabe ressaltar que, conforme José Luiz Braga identificou em sua pesquisa Os estudos de interface como espaço de construção do campo da comunicação, o conceito de interdisciplinaridade pode ser compreendido a partir de duas macroacepções. A primeira corresponde ao cruzamento de disciplinas ou tecnologias diversas, originárias de outros campos, onde um conhecimento nunca é isolado ou estanque, uma vez que as ciências contemporâneas se inter-relacionam. A segunda diz respeito ao desenvolvimento de um conhecimento locado na interface entre duas ou mais disciplinas estabelecidas, de modo a preencher uma lacuna epistemológica existente. A EPC localiza-se na primeira concepção, integrando-se aos chamados estudos interdisciplinares, cujo desenvolvimento teórico-metodológico enraíza-se na ciência moderna do século XX.

É perceptível a necessidade do poder analítico da EPC para a compreensão dos fenômenos midiáticos da contemporaneidade. Dan Schiller sintetiza no livro A globalização e as novas tecnologias que o objetivo principal dos arquitetos do capitalismo digital era criar uma rede econômica capaz de apoiar o leque de projetos no interior das empresas e no relacionamento entre elas. Esta afirmação não apenas se concretiza como ganha outra dimensão, a partir da introdução das novas tecnologias ao consumidor doméstico, começando pelo microcomputador e seguida por transmissores de sinais de áudio, vídeo e dados, requerendo a total alteração da regulamentação e das estruturas de telecomunicações em diversos países. A internet, por exemplo, que em seu início chegou a ser proclamada como instrumento de democratização, devido ao seu alto grau de possibilidade para o discurso não hegemônico, rapidamente tem sua lógica apropriada pelas grandes organizações mundiais, submetendo-se – não surpreendentemente – à lógica do capitalismo.
Para além de seu potencial intelectivo, o método empregado nas pesquisas de EPC é o materialista histórico-dialético, amplamente desenvolvido e aprofundado por Karl Marx e seus estudiosos. Enquanto ciência das leis que regem as macroestruturas sociais, o materialismo histórico-dialético é capaz de clarificar cientificamente os problemas gerais e cardinais do chamado mundo da vida, desde seu conjunto quanto de qualquer um de seus aspectos separadamente. Em outras palavras, considera a sociedade enraizada num todo, não se tratando da análise acidental ou isolada de objetos ou fenômenos, mas sim destas relações interligadas organicamente, dependendo umas das outras e condicionando-se reciprocamente. Alain Herscovici e César Bolaño destacam em Economía Política da Comunicación y la cultura que o materialismo histórico-dialético é, antes de tudo, um estado de movimento e mudança perpétuos, em que renovação e desenvolvimento são incessantes, com nascimento e desenvolvimento contínuos. Por este motivo a disciplina tem rompido, desde seu surgimento, com posicionamentos que desconsideram o papel central do capitalismo e suas dinâmicas.

* Andres Kalikoske é professor na especialização Televisão e Convergência Digital da Unisinos, membro do Grupo Cepos, doutorando e mestre em Ciências da Comunicação e coordenador do Núcleo de Análise da Teledramaturgia – NAT. E-mail: .

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