Edição 366 | 20 Junho 2011

Uma Igreja atenta aos "sinais dos tempos"

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Graziela Wolfart

Entender as necessidades específicas da chamada "nova classe média" é um desafio para as religiões, aponta a socióloga Lucia Ribeiro

Para Lucia Ribeiro, há uma forma de conciliar os valores da Igreja Católica com a questão do consumo, que tem forte apelo entre a chamada “nova classe média”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ela faz a seguinte reflexão: “a Igreja sempre enfatizou a justiça social e a solidariedade com os mais pobres e, nesta perspectiva, é crítica a um consumismo exagerado, particularmente em um país como o nosso, marcado por enormes desigualdades. Isto não significa, entretanto, negar a importância do acesso a bens materiais e culturais essenciais, que possibilitam uma melhor qualidade de vida. No momento em que se abre esta possibilidade para os que nunca tiveram acesso a ela, é perfeitamente justo que possam usufruí-la. De forma alguma devem ser culpabilizados nem se sentir culpados por um discurso anticonsumista”. A socióloga considera que “a condição básica é que a Igreja esteja atenta aos ‘sinais dos tempos’ e saiba compreendê-los, para poder traduzir a palavra do Evangelho em uma linguagem atual. Para tanto, será indispensável que repense também sua própria estrutura interna, ampliando a dimensão de diálogo e de participação de todos os filhos e filhas de Deus”.

Lucia Ribeiro é doutora em Sociologia pela Universidade do México. É também assessora de movimentos sociais, particularmente vinculada às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. É autora de Entre (in)certezas e contradições: práticas reprodutivas entre mulheres das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica (Rio de Janeiro: NAU, 1997) e Sexualidade e reprodução: o que os padres dizem e o que deixam de dizer (Petrópolis: Vozes, 2001). Em parceria com Leonardo Boff, escreveu o livro Masculino/Feminino: experiências vividas (Rio de Janeiro: Record, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os principais desafios que a senhora aponta, no cenário atual, para as religiões, considerando o novo momento político e econômico brasileiro, principalmente a partir do aparecimento da chamada “nova classe média”?

Lucia Ribeiro – Talvez o principal desafio hoje seja, em primeiro lugar, o de compreender a nova realidade em sua complexidade. Isto significa não só conhecer as questões que se colocam como prioritárias, no momento atual, como também a linguagem em que são formuladas. A revolução nos meios de comunicação – particularmente no campo da informática – abre possibilidades inesperadas, no campo da informação e da comunicação, que não podem ser ignoradas. Por sua vez, a própria emergência da chamada ““nova classe média”” é um fenômeno recente, e suas consequências ainda são pouco conhecidas. Entender suas necessidades específicas é um desafio para as religiões.

IHU On-Line – Quais os principais elementos que permeiam a relação entre religião e sexualidade e religião e migração? Como esses binômios se caracterizam especificamente na classe média?

Lucia Ribeiro – A ampla liberdade com a qual se trata a questão da sexualidade, na sociedade atual, contrasta fortemente com o clima anterior de repressão. Entretanto, ao questionar normas antiquadas e pouco adaptadas a novas realidades, facilmente se cai hoje em uma atitude de total relativismo moral, em que impera um “vale-tudo” generalizado, que apenas leva em conta o interesse imediato. Neste contexto, explicitar os grandes valores éticos que deveriam iluminar o comportamento nesta área certamente é uma função fundamental das religiões. Para isto, entretanto, teriam que renunciar aos discursos moralistas e à imposição de normas estabelecidas a priori, que habitualmente caracterizam seu comportamento no campo da doutrina moral; teriam que abrir-se, sem preconceitos, às novas exigências da realidade, e a partir das mesmas formular um discurso ético que possa orientar as opções pessoais, respeitando sua liberdade e a consciência de cada um/a. No caso dos setores médios – especialmente ciosos de sua liberdade –, eles só poderão entrar em diálogo com as religiões, neste campo, se encontrarem uma atitude de compreensão e de não imposição. No caso da migração, processo que implica sempre dificuldades e perdas, as religiões podem jogar um papel insubstituível. Além de cumprir uma função explicitamente religiosa, trazem também um apoio no campo material, emocional e afetivo, garantindo, além disto, um espaço identitário, vinculado ao lugar de origem dos migrantes, que pode facilitar a integração ao novo destino. Na realidade, as diversas igrejas – particularmente as cristãs – já vêm tendo uma atuação importante neste campo. Porém, mais além do apoio que possam trazer, é fundamental que tomem a defesa dos direitos dos migrantes, enquanto pessoas humanas: o direito de ir e vir, o direito ao trabalho e à moradia, a possibilidade de ter documentação.
Com relação aos setores médios, o desafio importante seria o de conscientizá-los sobre esta problemática – já que estes frequentemente a ignoram – e abrir possíveis espaços de atuação.
 
IHU On-Line – É possível conciliar os valores da Igreja com o apelo ao consumo?

Lucia Ribeiro – A Igreja sempre enfatizou a justiça social e a solidariedade com os mais pobres e, nesta perspectiva, é crítica a um consumismo exagerado, particularmente em um país como o nosso, marcado por enormes desigualdades. Isto não significa, entretanto, negar a importância do acesso a bens materiais e culturais essenciais, que possibilitam uma melhor qualidade de vida. No momento em que se abre esta possibilidade para os que nunca tiveram acesso a ela, é perfeitamente justo que possam usufruí-la. De forma alguma devem ser culpabilizados nem se sentir culpados por um discurso anticonsumista.

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